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terça-feira, 19 de março de 2013

154 - Lendas, Estórias e História da minha Cidade do Porto

Os nossos olhos não negam o que vêm. Verdade ou ficção, é História, está escrito como tal, embora a História nem sempre é (foi) conforme a interpretamos. E na continuidade dos séculos, muita da História se mudou ( muda-se ainda) conforme os interesses do momento.
No meu caso de leitor de História - pobre de mim - busco conhecer o que se publicou sobre factos que podem ter muito de Lendas. Para completar o que vou conhecendo escrito, os meus olhos e a câmara fotográfica, companheira inseparável enquanto nos vão deixando, tentam registar, bem ou mal, a realidade de hoje.
Assumo que sinto uma certa emoção quando estou próximo de algo com muita História, mesmo que tenha Lendas à mistura. Mas sabemos que tudo teve um início, talvez nunca correctamente descrito, por ignorância, por desleixo ou por interesses. Principalmente no que se refere à Cidade do Porto, tento olhar em volta e perceber o que me rodeia. Descreverei como factos reais, mas não acreditem pois muito das narrativas que li estão cheias de "ses, mas, talvez, supõem-se".
Sei que vou repetir algumas descrições das imagens abaixo representadas, mas organizei este conjunto para poder dar uma pálida ideia do que podemos encontrar sobre o que ajudou a fazer a História desta velha Cidade.  
   
Na Sé Catedral, encontra-se do lado esquerdo do transepto, o altar de Nossa Senhora de Vandoma. Também conhecida por Nossa Senhora do Porto e Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação. É uma das invocações à Virgem Maria, representada no Brasão da Cidade.
A sua devoção tem origem num episódio por volta do ano 990 quando uma armada originária da Gasconha (Região Basca Francesa) comandada pelo nobre Português Munio Viegas, ajudou a expulsar os Mouros da Região do Porto.
Junto estava o Bispo da localidade de Vendôme, D. Nonego, que trouxe com ele uma cópia da imagem de Nossa Senhora que havia na Catedral. Após a expulsão dos Mouros, as muralhas da Cidade foram reconstruídas e numa das quatro portas da fortificação, que passou a denominar-se de Vandoma, foi colocada a Imagem trazida de França. Aí começou a devoção a Nossa Senhora de Vandoma que a população venerava levando a imagem em procissão, principalmente em épocas de epidemias. Foi consagrada Padroeira da Cidade do Porto.
Notas à parte: A sua devoção chegou ao Brasil centenas de anos mais tarde, como Nossa Senhora do Porto, tornando-se orago das Cidades de Andrelândia e Senhora do Porto, em Minas e Morretes no Paraná.
A Porta de Vandoma foi demolida em 1855 e próximo do local onde existiu (entrada da Rua Chã/Avenida da Ponte) pode ver-se numa reconstituição do séc. XX um cubelo e um pouco de pano muralhado. Estas muralhas foram edificadas pelos romanos no séc. III.
A imagem actual sofreu várias alterações nas cores das roupas, conforme os interesses políticos reinantes em cada época. 
Li que esta mesma imagem é a mesma que os Gascões trouxeram. Uma inverdade e se existiu deve ter desaparecido há muito. A imagem actual e que esteve no Arco de Vandoma é do séc. XIV. 

Quero agradecer ao meu amigo leitor Fernando Ribeiro os esclarecimentos que nos deixou em comentário há duas ou três postagens atrás, quando escrevi sobre uma imagem em pedra junto ao altar da Nossa Senhora da Silva, na Rua dos Caldeireiros. E também o link que me vai ser de muita utilidade.
Pois bem, a Nossa Senhora da Silva tem como história o achamento de uma imagem nos silvados junto à primitiva e futura Sé do Porto. No séc. XII. Há quem escreva que foram os pedreiros que faziam os alicerces. Há quem escreva que foi D. Mafalda, esposa do nosso primeiro, D. Afonso Henriques.
Até agora, não consegui encontrar nada que nos refira outra origem para o nome desta Senhora. 
Comparando as duas imagens que conheço da Senhora da Silva, não têm nada em comum. A da esquerda encontra-se no bonito altar voltado para a Rua dos Caldeireiros; informa-nos o Fernando Ribeiro, porque lhe foi dito durante uma visita à capela a qual tem a dimensão de um quarto de dormir,  que foi assim construído por não haver espaço para o colocar dentro.
A imagem é do séc.XVIII e já teve a acompanhá-la as imagens evocativas de S. João Baptista (lembrança do antigo Hospital) e S. Baldomero, francês do séc. VII, mártir cristão e padroeiro dos Ferreiros. 
A outra imagem está no transepto da Sé Catedral do lado direito. E vejam lá o que encontramos para ler:  Será uma imagem do séc. XIV/XV. Mas também pode ser a primitiva, porque é em pedra.
Certo é que está registado em 1623 pelo Bispo D. Rodrigo da Cunha o legado da Rainha D. Mafalda à Santa.
Uma nota: este Bispo inquisidor não deixou grandes recordações na população. No entanto foi um oposicionista aos governos dos Filipes espanhóis quando tentaram integrar Portugal em Espanha e um dos governantes de Portugal até à coroação de D. João IV a quem jurou fidelidade.

A Capela dos Alfaiates, assim conhecida, era da Irmandade dos oficiais desta arte e que se constituiu no séc. XVI num andar de uma casa pertença do Cabido, na Sé e desde então veneram Nossa Senhora de Agosto e São Bom Homem. É Monumento Nacional. Não sei se a Irmandade ainda existe.
Começou a ser erigida a Capela em meados daquele século, demorando muito anos a sua construção. Ao longo da vida recebeu vários melhoramentos, mas acabou por ser desmantelada em 1936 para a abertura do Terreiro da Sé e reconstruída no local actual em 1953, na bifurcação das Ruas do Sol e de S. Luís, entre a Praça da Batalha e o Convento de Santa Clara.
O retábulo composto por oito quadros pintados da vida da Virgem, segundo uns de 1565, segundo outros de 1590/1600 são do Pintor Francisco Correia, mas levantam-se dúvidas se serão todos da sua autoria. 
Foi restaurado em 1950 pelo Pintor Abel Moura.
Foi-me contada no local uma estória como verdadeira e corroborada por uma informação escrita, sobre a imagem em calcário de Nossa Senhora de Agosto, do séc. XVI. A imagem sofreu um restauro e os técnicos opinaram que o braço direito estava totalmente deteriorado. Então substituíram apenas a mão por uma em madeira, que está carunchenta, e colocaram-na presa ao manto, deformando a imagem. O braço e a mão originais estão em exposição, devidamente protegidos e bem de saúde, que registei na medida do possível. É a foto à direita, ao fundo da qual embora com fraca visibilidade se vê uma reprodução a preto e branco da imagem como era antes do restauro. 
A imagem de Santo Bom Homem, o outro patrono.
Presumo que é uma imagem do séc. XV
Em 1140 nasceu em Cremona, Itália, Homobono, que viria a ser o Padroeiro dos Alfaiates, Costureiras e Comerciantes de tecidos. Na vida profissional a justeza foi o seu lema, além de muito caritativo com os pobres. É-lhe atribuído um milagre de multiplicação dos pães. Faleceu em 13 de Novembro de 1197, subitamente enquanto assistia à missa.
Casou com uma mulher muito má, que após o milagre da multiplicação se converteu e passou a ser boazinha.

A Igreja de Nossa de Campanhã, da segunda década do séc. XVIII, arrasada e saqueada pelas tropas francesas durante as Invasões, mais precisamente em 1809, e muito danificada durante as lutas civis-liberais-fratricidas de 1832/34, possui uma imagem de Nossa Senhora a quem são atribuídos vários milagres. 
No entanto e primitivamente, tudo começa com a reconquista da região do Porto aos mouros. Estará ou não associada a outras lendas (depende do historiador) com a mesma reconquista, como a da Senhora da Batalha, cuja capela da sua evocação existiu no local junto ao actual Cine-Teatro S. João; Com Contumil (conto mil) e Rio Tinto - Tinto de cor vermelha pelo sangue derramado nessas lutas.
Certo é que Campanhã, ou Villa Campaniana é de origem antiquíssima da qual Rio Tinto fazia parte e Contumil lhe pertence.
No dia da batalha Mouros versus Cristãos em Contumil, foi achada uma imagem a quem o povo atribuiu a razão da vitória cristã. Mandou erguer uma ermida com o nome de Santa Maria de Azáres, passando mais tarde a chamar-se de Nossa Senhora da Entrega. Presume-se que terá sido esta a primeira Matriz.
A imagem da Senhora de Campanhã, do séc.XIV, esculpida em calcário, estofada e policromada, sofreu algumas alterações e restauros ao longo dos séculos, está envolvida em aparecimentos. Presumo que terá a ver com o primitivo aparecimento da tal imagem no dia da batalha em Contumil. Mas não tenho referencias, embora a estória venha do séc. X.
A devoção à Senhora de Campanhã era tal que a sua imagem só podia ser vista em dias especiais com luzes e toques de órgão. Saía em Procissão (pelas doenças, condições atmosféricas por exemplo) e tocá-la poderia ser perigoso ou milagroso.
Num dia de 1722, ano de grande seca, saiu a Procissão e a imagem caiu do andor em Bonjoia partindo a mão. Nesse local brotou água e povo construiu uma fonte e um cruzeiro. Que ainda hoje existem. Em 1967 foi inaugurada próximo do local uma capela.
Restaurou-se a imagem com uma mão em madeira.
Em apontamento diga-se que na Igreja existe uma linda imagem da Senhora do Rosário em pedra ançã do séc. XIV/XV. 
  
As relíquias de São Pantaleão chegaram à Cidade do Porto, trazidas pelos Arménios em meados séc. XV, fugidas à ocupação turca de Constantinópola em 1453 e deixadas em S. Pedro de Miragaia onde se passou a celebrar a sua memória.
Entre ordens reais de D. João II e depois de D. Manuel I para que se construísse um túmulo, foram as relíquias passadas para a Sé em 1499 por ordem do Bispo D. Diogo de Sousa. O Santo passou a ser Patrono da Cidade substituindo S. Vicente, até 1963.
A urna de prata foi roubada em 16 de Novembro de 1841. Ficaram as relíquias que se guardam no altar-mor da Sé. Mas um pequeno osso está na Igreja de S. Pedro de Miragaia dentro de um braço em prata. A Cabeça-Relicário foi para Lisboa para ser desenhada pela Rainha D. Amélia. Depois da implantação da República ficou no Palácio das Necessidades, donde passou para o Museu de Arte Antiga. Regressou ao Porto e foi colocada no Museu Nacional de Soares dos Reis, onde andou perdida até há pouco tempo. No seu interior encontraram-se vários fraguementos de madeira e tecidos e um pequeno osso do crânio. 
Um prezado leitor da minha postagem 47, teve a gentileza de colocar este comentário:

Gostaria de acrescentar, sendo nascido e educado em Constantinopla (Istanbul) que Sao Pantoleão é um santo do qual o nome é um épitéto, uma alcunha é a tradução de Aghios Pantéleimon que etimologicamente significa o homen que "elei" dá a piedade à todos em grego o tous pantas-eleei...era de Nicemedia da Bythinia hoje Izmit cidade turca cerca de 90 km à leste de Istanbul...Os arménios que troceram as reliquias eram Hay-Horom (ou seja armenios ortodoxos) dos que não se separaram da cristiandade depois do concil ecumenico de Khalkidon Calcedonia...alguns historicos sustentam que primeiro o feretro do santo em prata e ouro foi transportado de Nicomédia à Heraclia (uns 20 km à oeste de Nicomedia) que hoje se chama Hereke e sempre foi um porto de mercadorias e pesca e tb de exportação da seda e dos texteis Conhecidos no sec 18 e 19 como soie de Brousse (hoje Bursa) que rivalizavam os de Lyon e os de Milão, como dos tapetes orientais finos em seda com mais de 150000 nós por metro quadrado..Havia lá uma fabrica tb pertencente ao grupo industrial de Sümerbank que jánãoexiste...Há ca de duas decadas esta peq cidade foi arasada e praticamente desaparecida por um seismo..há alguns indicios que estes arménios byzantinos foram dos que tentaram se revoltar com os byzantinos gregos depois da queda de Constantinopla em 1453 em 29 de maio
A Igreja Ortodoxa venera o Santo Pantoleão em 27 de Julio(novocalendaristas) e 13 dias depois os do velho calendario juliano..A paroqui ortodoxa do Porto é dedicada à S Pantoleão
Lefteris Zygopoulos (Lisboa)
A
Muitas coisas nos acontecem quando percorremos caminhos. Há dias, entrei na Igreja de S. Lourenço, vulgarmente conhecida como dos Grilos e em conversa com um senhor, de quem infelizmente não anotei o nome, foi-me mostrada esta imagem. Decapitada, bem como o Menino, não se sabe desde quando. 
É uma imagem do séc. XV/XVI de Nossa Senhora do Ferro que se encontrava no antigo Recolhimento do Ferro, (o actual encontra-se no Codeçal desde o séc. XVIII) junto à desaparecida Porta da Muralha Primitiva - ou Românica - de S. Sebastião. Na altura conhecida como Porta do Ferro ou ainda da Sapataria, porque o culto a S. Sebastião é quinhentista. Por isso a Rua de S. Sebastião chamava-se Rua da Çapataria, documentada já em 1286. Teve outros nomes até chegar ao actual em 1570, mais coisa menos coisa. São outras estórias da história.

O que me levou à Igreja de S. Lourenço foi tentar descobrir a imagem de Santa Ana que esteve no Altar do Arco e Porta da Muralha Primitiva com o mesmo nome. Tinha lido que a imagem foi para a antiga Capela de Santo Isidro e após a sua demolição veio para esta Igreja, onde está exposta no Museu de Arte Sacra, localizado anexo à Igreja.
Foi-me indicada a imagem e o meu espanto foi grande ao ver que também foi vandalizada. Alguém roubou o menino...
Outra desilusão seguiu-se quando li na informação junto à imagem que esta é do séc. XVIII. Esperava uma imagem muito mais antiga, especialmente porque a Santa se venerava naquele local pelo menos desde o séc. XV. E ainda hoje se venera juntamente com S. Joaquim, seu marido. Na Rua de Santana.
Mas serviu também para conhecer a história da Santa, uma referencia para os Católicos.
Uma nota. Visitem esta Igreja e este Museu. Na minha opinião de leigo, há algumas raridades a par de muita história.

A escultura em madeira da imagem de Nossa Senhora da Vitória na Igreja do mesmo nome terá cerca de 120 anos de existência, mais ou menos. Porque os fieis não gostaram do rosto da Santa, foi retirado o primitivo e encomendado um novo. Não ao mesmo escultor. O autor foi o grande Soares dos Reis  que esculpiu um rosto lindíssimo, o de sua mãe. Era uma Santa que não podia ser Santa. Os fieis têm às vezes atitudes bem desagradáveis. Se seguissem esse caminho, hoje não haveria uma obra de que gostassem. Mas os fieis agora não mandam nada.

Tudo pode ter retórica. Explícita ou mentirosa a arte de bem falar, escrever, neste caso, também nos confunde. Quem diz sim, pode receber um não mas a retórica pode nem ser verdadeira. E/ou incompleta. É não porque é não e pronto.
Escreveram os antigos que a Igreja primitiva de S. Pedro de Miragaia ou no local da actual, foi a primeira Sé do Porto mandada construir por S. Basílio na primeira metade do nosso primeiro século. Então aí está um não, mas o porquê do não, não sei. 
Pela data presumo que este S. Basílio foi o Bispo de Braga (anos 60 a 95); nessa altura o bispado do Porto estava dependente de Braga. Mas se a eventual Sé foi mandada construir por ele na primeira metade do séc. I, nessa altura o Bispo era S. Pedro de Rates, o homem da Póvoa de Varzim (anos 45 a 60). 
Não sei ser retórico, mas alguém nos legou uma pedra, colocada no exterior da actual igreja do lado direito, com uma inscrição que foi recuperada. Verdade ou lenda, é história.

No corredor voltado para a Praça dos Leões do edifício da Reitoria da Universidade, uma verdade fóssil. Que sensação tocar numa coisa com 150 Mil Anos.
Uma nota: Merecem uma visita os Museus de História Natural, o de Mineralogia e a Exposição Egípcia, que julgo vai ficar permanente. Bem como o interior principalmente até onde nos é permitido e as escadas que conduzem à Sala da Reitoria.
 
História e muita é a dos Judeus do Porto. Embora se refiram muito as Judiarias de Miragaia e depois a da Vitória, o certo é que os Judeus foram parte integrante da população do Porto desde muito antes da fundação da nacionalidade. 
Esta placa colocada na parede do antigo Mosteiro de S. Bento da Vitória, do lado da Rua com o mesmo nome, simboliza a sua memória e a desculpa da Cidade, que embora reagindo ao Decreto de D. Manuel I, a igreja cumpriu com uma tenaz perseguição.
Uma das humilhações impostas aos Judeus foi o contributo para a construção da Igreja de Santa Maria da Vitória, ali bem próxima, no local onde existiu uma Sinagoga. Vitória, da Igreja sobre os Judeus.

Neste conjunto estão três símbolos de épocas bem distintas. A Casa da Câmara, ou dos 24, ou como era conhecida à época, Torre da Rolaçam, tem a sua origem no séc. XIV. Aí se reuniam os representantes dos 24 mesteres - ofícios - da Cidade e foi como que a sede do poder autárquico.
A primeira Câmara era em madeira e em 1350 foi acordado mandar-se construir uma em Arcos sobre a Muro Velho, ou seja a Muralha Românica. 
O edifício de 100 palmos de altura e a 7 metros da parede da Sé, localizado no cemitério (ou adro) da Igreja sofreu vários acidentes e por isso muitos restauros e até mudança de lugar (séc. XV). A edilidade entretanto reuniu em vários locais, incluindo no Convento de S. Domingos. 
No ir e vir, acabou por abandonar as instalações em 1784, mudando para uma parte do Colégio de S. Lourenço (Grilos) tendo arrendado parte do edifício. Mas mandou demolir até ao primeiro andar para aproveitar a pedra e barras de ferro para a construção da Cadeia. As barras pesavam 30 quintais, 2 arrobas e 20 arráteis (Livro das Vereações, 19 de Agosto de 1795).
Em 25 de Abril de 1875 houve um enorme incêndio destruindo o edifício. Na altura, no rés-do-chão funcionava uma fábrica de refinação de açúcar e no primeiro andar era a sede da Associação dos Latoeiros.
A partir daí as ruínas ficaram ao abandono quási um século. No local procederam-se a escavações arqueológicas que revelaram vários achados e provando a ocupação do Morro de Pena Ventosa nos séc. IV e III a.C.
Não sei ao certo, mas a recuperação das ruínas fizeram-se já nos anos 80 do século passado.

Para recordar a Casa da Câmara, ou dos 24, nos anos 90 foi edificado um "mamarracho" (é a minha opinião) sobre parte das ruínas da antiga, julgo que só respeitando apenas a altura.
O autor, arquitecto Fernando Távora referiu que era para termos uma ligação à Cidade, espraiando a vista. Claro que não espraiamos vista nenhuma pois apenas se deslumbra um pequeno território entre ameias para os lados dos Clérigos. O resto são cimos de telhados. Isto é se entrarmos no edifício e a porta interior estiver aberta para passarmos ao passadiço sobre as ruínas.

Ainda por cima resolveu castigar o nosso Porto, voltando-o para os vidros sujos e coloridos do "mamarracho". Era para melhor visão da Cidade para além do Porto, estátua.
Esta estátua esteve desde Agosto de 1819 no cimo dos Paços do Concelho, edifício alugado na Praça Nova - actual Praça da Liberdade - demolido para a abertura da Avenida dos Aliados.
Passou depois para o Largo Actor Dias - creio que se chama Jardim Arnaldo Gama - e posteriormente para o Palácio de Cristal, junto ao Castelo, no Bosque, se a memória não me falha.
Foi seu autor o Mestre Pedreiro João da Silva, de Pedrozo (Pedroso, Vila Nova de Gaia) e custou trezentos quarenta e três mil e duzentos réis, pagos em três prestações iguais, sendo uma delas adiantada.
Estória ou não, esta estátua pode ter sido criada para reabilitar a imagem d'O Porto, sobre a qual escreveu Garrett no Arco de Santana "...estamos junto à veneranda estátua do velho Porto que rodeado de assopradas tripas, olha, como do próprio trono, para sobre os domínios da sua juridisção..."
Essa Estátua que Garrett referiu era conhecida como Pedra do Porto e estava em 1293 na Rua das Eiras (Rua Chã actual). Passou para o cimo dos Açougues Reias na altura, nos Palhais (Rua de Pena Ventosa actual) algures entre essa época e 1503 onde tomou o nome de O Porto "...um mui mal trabalhado e até monstruoso homem todo feito de pedra..." que faz lembrar uma estátua tardo-romana, de aspecto guerreiro, talvez Marte, que ficaria bem associado à Cidade. O rasto dela perdeu-se quando o edifício dos Açougues foram demolidos no séc. XIX para a abertura do Largo de Penaventosa, hoje Largo de Pedro Vitorino.

Propositadamente não refiro as minhas fontes de leitura, que foram imensas. Algumas já as nomeei em outros escritos. É verdade que há cópias umas das outras, parágrafos inteiros. Outras induzem-nos em erro. Mas descobrem-se novos pensamentos e estórias.
Dessa amalgama de leituras retirei o que pude para completar as imagens. Com a intenção principal de conseguir que os meus leitores se entranhem um pouco em alguma História da minha Cidade. E das  suas Estórias e Lendas.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

127 - O Aljube e Exposições

Sou um visitante relativamente assíduo do Edifício do antigo Tribunal da Relação e do Aljube do Porto, na Cordoaria, e actual sede do Centro Português de Fotografia.
Uma das razões que lá me levam, são as exposições que periodicamente exibem. Para além do Museu e a exposição permanente sobre a Fotografia e a relação com os detidos.
De entre as quatro exposições que estavam em exibição no dia da minha última visita (uma delas já terminou) destaco duas:

 Uma, sobre as Mulheres de Camilo, aberta até 24 de Junho.
Opções de vida e obra do grande autor, discutíveis mas sempre assumidas.
Foi neste edifício, na cela S. João, que Camilo esteve preso devido aos seus amores "ilícitos" com Ana Plácido, sendo ela também aqui prisioneira. Na exposição, pode-se ver a capa da primeira edição do Amor de Perdição, escrito na sua cela.
A exposição retrata as nove mulheres que mais marcaram a personalidade de Camilo, lê-se no folheto distribuído.

Mas o mote é Ana Plácido, a mulher que mais tempo passou junto a Camilo e que reuniu o que todas as outras foram para ele.
 Sua mãe, também lembrada, que o deixou órfão muito cedo.
Texto do folheto é da autoria de Maria de Lourdes Ferraz in Mulheres de Camilo.

A outra exposição tem o título E Ainda Vejo os Seus Rostos, Fotografias de Judeus Polacos.
Está aberta até 3 de Junho.
É uma exposição itinerante vista em várias Cidades do Mundo.
Tudo começou com um apelo de Golda Tencer em 1994, (actriz, directora da Fundação Shalon, nasceu em Lodz, na Polónia.) - ( esta parte é de minha iniciativa. Se estiver errado é defeito da compreensão da tradução) - pedindo fotos de judeus polacos. Chegadas não só da Polónia mas de todo o Mundo, foram já mais de 9.000  as fotos recebidas.










As Enxovias à volta do Pátio dos Presos acolhe esta magnífica exposição fotográfica. Legendada em Português e Espanhol. Inclui uma passagem de slides e musica de autores Judeus. Não sei se Polacos.

Para além das Exposições e do Museu da Fotografia (fabuloso), recomendo uma visita a este edifício. Podem ler alguns pormenores no meu escrito nº 69.

domingo, 17 de outubro de 2010

47 - Miragaia, os Arménios e S. Pantaleão

Voltamos a Miragaia para tentar ilustrar a história dos Arménios e a Lenda de S. Pantaleão. Mas é preciso muito cuidado, pois há coisas recentes, escritas por quem sabe. E eu só sei de caminhos e andanças. Melhor mesmo, para quem estiver interessado nestas vidas, é ler teses apaixonantes, cujos caminhos indicarei na altura devida.
Mas vamos começar por um lado e "ós pois" logo se verá.
Miragaia tinha nos seus remotos tempos e até ao séc. XIX, uma praia no rio Douro, provavelmente com um bom porto, onde já os Romanos ancoravam. Mas como toda a margem direita tinha bons ancoradouros, antes talvez os Celtas, Iberos, Fenícios, Gregos, Cartagineses também por aqui tenham poisado e comercialisado. À esquerda na foto, a Alfandega Nova que comeu a praia. Claro que a Rua (Nova da Alfandega) também, ao mesmo tempo que cortava e interrompia a Velha Rua de Miragaia, que vinha lá de Monchique.
Uma foto de há 100 anos de Arnaldo Soares (ou de Alberto Ferreira) mostra-nos praticamente esta parte de Miragaia, tal como é hoje. As casas sobre as arcadas eram residências pertença de uma certa burguesia. Que a partir dos anos 60/70 do século passado foi sendo desalojada para a instalação de escritórios e armazéns dos agentes comerciais ligados ao transito alfandegário.
Isto vem ao caso para lembrar que a Cidade do Porto teve desde "antiquissimamente" (palavrão que o portuense gosta de ter na sua gíria) um forte relacionamento marítimo-comercial com a Europa do Norte e depois com o mundo oriental.
Por alguma razão os Descobrimentos Portugueses tiveram nesta cidade o seu impulso. Dos estaleiros portuenses saíram muitos dos Barquitos que andaram à séria por esse mundo fora a partir do séc. XIV. Mas muito antes já frotas tinham seguido por rios e mares, que para além do comércio, aproveitavam para dar cabo da cabeça a mouros e a simpáticos piratas que lhes apareciam pela proa.
Ora sendo assim, conhecendo a fama da Cidade, um grupo de comerciantes Arménios (e também Gregos, segundo uns), fugidos das perseguições de Constantinopla, aportaram em Miragaia em 1453, onde se refugiaram. Nota à parte: Sabemos que desde a antiguidade os Arménios foram sempre perseguidos. Na primeira vintena do séc. passado, mais de um milhão foi massacrado e tantos outros refugiaram-se pelo mundo. Argentina e Brasil terão as maiores colónias de emigrantes Arménios. Portugal teve a sorte de acolher Calouste Gulbenkian; a França, Charles Aznavour e a família de Alan Prost, e por aí fora. Relativamente recente, temos a separação da Arménia da antiga URSS. Finalmente País Livre ?.
Em algumas ruas da freguesia ficaram registadas na sua toponímia a paragem dessas gentes.
Rua da Atafona é uma recordação Arménia. Mas também se mistura com Hebreu. Na primeira língua quer dizer Engenho de moer grão em seco; na segunda quer dizer Mó. Mas como a região foi local das duas culturas - e não esqueçamos que não muito longe ainda existe a Rua e Travessa do Forno Velho, logo uma ligação Judaica não será de desprezar. Mas hoje interessa-nos percorrer estas ruas de empedrados e altos muros que nos fazem sentir pequeninos.
Voltemos à direita pela Rua da Ancira que vai dar à Igreja de S. Pedro de Miragaia. Em Português arcaico quer dizer, gancho, âncora.
Mas Ancira escrevia-se Ancyra no tempo dos romanos e correspondia a Angorá (belíssima lã extraída do pêlo de uma ovelha muito comum nesta região) ou Ancára actual, no Centro da Anatólia e hoje Capital da Turquia. A opinião da maior parte dos meus investigados crêem que é mesmo uma homenagem (e saudade ?...) dos Arménios à região de onde terão partido.
Não esqueci S. Pantaleão. Mas antes e porque também é passeio e recordação, é bom percorrer a Rua Arménia.
É uma rua um pouco sinuosa, comprida, que parte das traseiras, ou ao lado, como se queira, da Igreja de S. Pedro de Miragaia e vai dar ao largo que tem o nome de um Miragaiense famoso, Artur Arcos. O largo tem a Fonte de Hulsenhos e o Restaurante Francesinhas na Pedra. Mas isso fica para outras viagens.
O pormenor desta Travessa é lindíssimo. Embora cortado na fotografia, pois estava em obras, abre-se uma janela para a rua, que mais não é do que uma serventia entre as duas paredes, de uma casa. Aliás como algumas outras que há por esta zona.
Nesta velha foto temos o pormenor completo. Diz o Postal que é a Travessa da Rua Arménia. Francamente na toponímia actual não encontrei este nome. Será a Viela da Baleia ? Atenção amigos Miragaienses e não só, fico à espera da vossa informação, porque esqueço-me sempre de tomar notas.
Vamos então a um tema riquíssimo. S. Pantaleão. Foi um médico que teve apenas 23 anos de vida, convertido ao cristianismo e por causa disso, foi torturado e decapitado em 303 em Nicomédia, na Ásia Menor.
Diz a Lenda - ou não o será - que os Arménios transportaram as suas relíquias e quando chegaram a Miragaia (em 1453) foram depositá-las na Igreja de S. Pedro. Continuando pela história, as relíquias foram guardadas num cofre de prata, oferecido pelo Rei D. Manuel I, cumprindo a promessa de D. João II. Estas relíquias foram trasladadas para a Sé do Porto em 1499 por ordem do Bispo D. Diogo de Sousa, ficando sepultadas na capela do Altar Mor. Aquando das Lutas Liberais, as relíquias desapareceram. No diz-se-disse, alguém disse que sabia quem as tinha. Pronto. Acabou. (ver História no sítio http://www.jf-miragaia.net/ )
S. Pantaleão acabou por ser durante 5 séculos Padroeiro da Cidade.
Mas entretanto, na Igreja de Miragaia, está uma parte da relíquia, a mão direita do Santo, transformada em peça de ourivesaria.
Mas para confundir mais as coisas, no Museu Nacional Soares do Reis, encontra-se a cabeça igualmente transformada em peça de ourivesaria.
O museu abriu a cabeça em 1999 e foram realizados estudos incluindo coisitas que se encontravam lá dentro: Têxteis, fragmentos de osso e dentes, papeis. Publicou um livro sobre o tema, que custa €25.
http://mnsr.imc-ip.pt/pt-PT/loja/Loja_Publicacoes/ContentDetail.aspx?id=529 para os interessados lerem a introdução.
Mas há quem diga que foi tudo uma grande golpada. S. Pantaleão e as suas relíquias, parece que passearam por Venesa e Roma e por muitos outros locais. E aparecem no Porto sem mais nem menos 1.000 anos após a sua morte.
O Porto precisava de uma "imagem" como a de São Tiago, na Galiza e São Vicente em Lisboa. Só para falar nas proximidades. Então há que criar um caso. Para maior reconhecimento e benefício desta cidade já muito divulgada no mundo ?
Entretenham-se a ler
SÃO PANTALEÃO «DO PORTO»: UM PARADIGMA DE INVENÇÃO DE RELÍQUIAS EM
FINAIS DA IDADE MÉDIA.
E pronto. É assim Miragaia. Mas haverá mais se tudo correr bem.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

47 - Miragaia e a Judiaria

Tem esta bela freguesia da nossa Cidade do Porto, muitas estórias e lendas. Talvez a mais antiga seja a que envolve o Rei Ramiro, o Castelo de Gaia, o Mouro e a Bela Princesa de nome Mira e por aí fora. Mas a história é história e é baseada nos vários escritos dela que proponho este passeio. Miragaia (de Baixo) foi um pequeno aglomerado populacional que nasceu a partir do rio, já referido documentalmente no séc. X, como sendo um local onde atracavam os romanos vindos do Norte antes de seguirem viagem para sul. Quando as gentes da Cidade se voltaram para ocidente fazendo-a crescer fora das muralhas Suevas ou Primitivas, Miragaia cresceu também, subindo o morro. Para os lados de Monchique. Referencio estas muralhas que existiram em torno de Sé, enquanto os arqueólogos não se pronunciarem sobre outras possíveis muralhas que parece terem havido antes desta. Porque as Muralhas, todas elas, tiveram um papel preponderante na vida e expansão da cidade. E Miragaia continuou a crescer mesmo fora das posteriores Muralhas Fernandinas do séc. XIV. Mas o nosso passeio de hoje tem dois começos e um fim comum. Os Judeus de Miragaia.
Comecemos então por um lado tendo como referência a Rua da Restauração, nas traseiras do Palácio de Cristal que fica bem lá no alto de um imenso morro, que muitas vezes escalei quando "chavalo" para entrar de borla, e olhamos para Monchique e para as ruínas do seu extinto Convento, construído no séc. XVI. Ah, a bela-triste história dos amores de Simão e Teresa e da pobre Mariana, enredo apaixonante de Camilo Castelo Branco no seu best-seller Amor da Perdição, escrito em 1862 no Aljube (Cadeia da Relação) e do qual faz parte o velho Convento.
Ora este Convento foi erigido no local onde existiu uma Sinagoga até pelo menos 1386 e que terá sido a terceira da Cidade. Posteriormente, os terrenos foram doados em 1410 por D. João I aos Coutinhos, cujas origens nobiliásticas eram muito antigas. Nestes terrenos foi construída uma casa para residência, mas as leis do Porto não permitiam presenças fidalgas na Cidade para além de um pequeno período por ano. Acabou por ser construída na clandestinidade e para a legalizar demorou dezenas de anos, que nem as "cunhas" do Rei tiveram força para dar contorno à lei. Outros tempos...
Para já continuemos a fixar-nos no Convento. Descendo a Rua de Sobre o Douro podem visitar-se as ruínas pois a proprietária actual (Sociedade Clemente Meneres) permite-nos esse prazer. Que é relativo, claro, na minha opinião. Diz-se que será um novo hotel em breve. Para já não se percebe nada que o indique. Mas sigamos. Já no reinado de D. Manuel I e os judeus expulsos da região para a Vitória, e logo a seguir de Portugal, os tais Coutinhos, descendentes dos outros, conseguiram que a casa fosse legalizada, mas não autorizados a viver nela, e destinaram-na a um Convento. Pelo menos, uma parte. O que conseguiram, com cunhas do Bispo.
Sobre a Sinagoga, não há registos. E dos poucos achados arqueológicos, relativamente recentes, um foi preservado. É uma inscrição em hebraico numa pedra, mantida na Capela/Igreja do Convento e transladada para o Museu de Arqueologia (?) no Convento do Carmo, em Lisboa.
Depois da extinção das ordens religiosas, no século XIX, pouco sobrou. Sabe-se que a Capela ou Igreja, construída em 1535, era uma preciosidade em talha dourada, equiparada à das Igrejas dos Conventos de Santa Clara e de S. Francisco. Desmantelada, foi um altar para a Igreja de S. Mamede de Infesta, outro para a Igreja de Massarelos e outro para a de S. Pedro de Miragaia. Do resto nada se sabe. Coisas à moda do Porto.
Passemos agora a outro percurso para iniciar o segundo começo, pois a história faz-se de caminhos. Saindo do Largo do Viriato, toponímia que passou a vigorar apenas em meados do séc. XIX, entramos na Rua da Bandeirinha, antes conhecida pela Bandeirinha da Saúde. Desde o séc. XVII. Já lá iremos.
Passando por várias casas que foram habitadas ou berço de ilustres individualidades da cidade, encontra-se o Palácio das Sereias, ou da Bandeirinha ou dos Portocarrero, nome dos penúltimos proprietários, por eles adquirido aos Cunhas e Vilhenas. (A senhora Vilhena foi quem mandou construir o Convento de Monchique) . Hoje pertença de uma irmandade religiosa. Construído no séc. XVI, vamos deixar a sua história para outra altura.
Pela esquerda continua a Rua da Bandeirinha, que nos vai levar à história original dos Judeus em Miragaia. Até ao século XIII viviam os Judeus dentro da Cividade (a zona junto à Sé - Morro de Pena Ventosa - demarcada pelas muralhas primitivas) ou a ela chegada, mas a partir dessa altura foi proibido alugar ou vender-lhes propriedades. Isso levou-os a partir para Miragaia.
Ao fundo da Rua um largo onde se encontra a Torre da Saúde, construída no séc. XVII, que sinalizava a entrada dos barcos no Douro e também para efeitos de controle sanitário.
À direita temos a frontaria do Palácio, com grande destaque para as Mamudas (As Sereias) que ornamentam lateralmente a porta de entrada. Velhas estórias sobre elas e quem as sabe contar é o Hélder Pacheco.
Uma foto de há mais de 100 anos, da autoria de Arnaldo Soares ou de Alberto Ferreira.
Dito por uns, este foi o local onde existiu o Cemitério Judeu. Mas outros crêem que terá sido no final da Calçada das Virtudes, próximo da Igreja de S. Pedro de Miragaia. É muito para lá, a oriente. Quer dizer que a história faz-se depois, relacionada em palpites e não em documentos precisos. Porque os não há. E a arqueologia nem sempre é presente. E cada historiador tem direito ao seu parecer. Adiante.
Certo é que os Judeus ocuparam este Monte, a Escarpa da Bandeirinha (na altura, não sei como lhe chamavam), hoje há as Escadas das Sereias, subindo desde a "Praia" (onde está a Alfândega Nova) e estendendo-se até Monchique para ocidente. A confirmá-lo há os documentos do Cabido de 1380 referentes à cobrança por terrenos a algumas famílias judaicas. Reproduzo conforme li. Porque não a todas as famílias ? Será que o Cabido não era dono de todos os terrenos? Adiante.
O único legado, eu diria lembrança, da Judiaria de Miragaia que aqui existiu até à sua mudança obrigatória para a Vitória em 1386 por ordem de D. João I, é a toponímia. São ruas, travessas e escadas estreitinhas. Aliás o que era normal na idade média. Francamente, lendo aqui e acolá e percorrendo as várias vias de hoje, parece que o espaço da Judiaria seria enorme, e não tão só Monchique e Bandeirinha.
A Rua do Monte dos Judeus começa a uma dezena de metros da Bandeirinha. O tal local onde existiria o cemitério Judaico. Segundo uns.
E prolonga-se para Oriente. Até aos Cidrais.
Um documento de 1410 refere que foi dada autorização a Gil Vaz da Cunha para construir umas moradas no pequeno monte em que tinham habitado os Judeus e onde existia uma Sinagoga abandonada. Ora isto era em Monchique que fica um pedaço de caminho para ocidente.
Mas também é verdade que as demarcações urbanísticas de há 600 anos são muito diferentes das de hoje. E o que vale agora é a divulgação destes "novos" caminhos, sentir a sua vivência antiga - eu sinto e por isso os percorro - e olhar o que nos rodeia. Esta foto é do início (ou o fim, conforme as percorramos) das Escadas do Monte dos Judeus.
Logo a seguir estamos nos Cidrais. Nome que deriva de Pomar de Árvores Cidreiras, de cujo fruto se extraía uma bebida que substituía o vinho, por quanto - e no enquanto - as vinhas não eram (foram) muito vulgares nos tempos dos romanos e da Alta Idade Média. Vale a pena deter-mo-nos e olhar à volta.
O entroncamento e cruzamento de ruas. Casas características dos séculos XIV a XVIII, guardando ainda resquícios desses tempos, mas que durante a sua recuperação não terão sido salvaguardados.
Descendo as Escadas, logo à esquerda encontramos um largo. Nele está uma fonte do séc. XIX, trasladada do antigo Mercado do Peixe, onde é hoje o Palácio da Justiça. No sítio da Junta diz que está em restauro. Refiro não saber se o restauro já está completo. Desde há 3 anos que vejo a Fonte mais ou menos como está. É verdade que agora escorre uma gota de água por um buraco na parede. Mas não sou bom nestas coisas. E a Junta é quem sabe.
O largo é lindo, com a fonte, árvores, bancos e roupas estendidas com bom cheiro a lavado. Mas num cantinho há lixo. Restos de persianas, latas de tintas, pedras e tijolos partidos, etc. - que raio de povo este sempre pronto a emporcalhar o que não deve -. E também se vêm pedras dispersas a fazer lembrar coisas antigas. Penso eu. Na dúvida e tentando matar a curiosidade, escrevi à Junta de Freguesia, enviando esta foto pedindo uma informação. Ora isso foi em meados de Maio e até hoje...
Convido a uma paragem, sentar num dos bancos, puxar de um cigarro e deixar o olhar percorrer Miragaia. É um prazer. Que para ser completo, mesmo, mesmo, era ter a companhia de uma cervejinha.
Na saída aberta no muro à direita, por cima, a pedra que une as ombreiras tem uma inscrição. Não sei em que língua. Infelizmente a foto em que a tentei gravar "pirou". Mas creio ser uma inscrição hebraica.
É a hora de voltar a percorrer as ruas e escadas, por entre muros e séculos de história.
Aqui chegados vindos pelas Escadas dos Judeus, estamos próximos do Centro de Miragaia. Viríamos cá ter na mesma, mais metro menos metro, se optássemos descer por Monchique ou pelas Escadas das Sereias.
Mas isso são outras viagens que prometo para breve. E já agora fica uma recomendação para os viandantes: Miragaia não se conhece num dia e as caminhadas façam-nas de cima para baixo. A não ser que gostem de desportos radicais. Mas para esses, recomendo a subida anual dos 250 degraus dos Guindais.
Nota final: São muitos os sítios percorridos para coligir estórias da história. Como sou muito despistado, raramente me lembro de registar onde li ou vi algo de interessante. Por vezes aparecem-me várias opiniões sobre o mesmo tema. Aí quero, ou pelo menos tento, confirmar in loco. Para conhecer e ser o mais fiel possível. Por essas andanças descobre-se sempre uma coisa nova. Por isso as fotos publicadas podem diferir entre si meses.
E há sempre os amigos, tanto ou mais apaixonados do que eu pela nossa Cidade, que deixam mais uma informação preciosa. Afinal, a Cidade do Porto é uma Paixão.