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sexta-feira, 23 de março de 2012

122 - A Rua de Cedofeita

É uma Rua cheia de história a que recordo hoje. Situada no coração da Freguesia de Cedofeita, cujo nome deriva, segundo a lenda, da rapidez ( cito facta )  com que foi construída a velha Igreja dedicada a São Martinho, edificada primitivamente durante o domínio Suevo no séc. VI. Mas essas ficam para outra altura bem como a da história do Templo.
Historiadores dizem  que o Couto de Cedofeita existe doado por D. Afonso Henriques, o nosso primeiro Rei – séc. XII – e outros desmentem. Não sei quem são ou foram uns e outros nem a quem foi doado, mas a ser verdade deve ter sido ao Bispo do Porto.
Vamos conhecer a Rua, seguindo no sentido Carlos Aberto/Boavista.

Ora esta Rua de Cedofeita que hoje começa na Praça de Carlos Alberto, (antiga Praça dos Ferradores) era conhecida em 1777 como a Rua da Estrada, que ligava o Porto à Povoa - ver minha postagem 111 -, mas na realidade começava antes, na Cordoaria, junto às Muralhas Fernandinas e à Porta do Olival (?).
Começou a ser pensada a sua abertura em 1762, por iniciativa de João de Almada e Melo aquando no cargo, que presumo corresponder nos dias de hoje a ministro, de Presidente da Junta das Obras Públicas do governo do Marquês de Pombal, a quem ligavam laços Familiares. Foi um dos grandes obreiros da modernização de Lisboa depois do Terramoto de 1755.
Veio para o Porto onde começou obras de grande vulto. Uma delas ligar a zona portuária do Douro com as partes altas da Cidade. A Rua de Cedofeita foi uma das vias que idealizou.
Uma pequena nota sobre este Almada. Não foi só político, mas também militar e grande amante das artes. Talvez tenha sido o introdutor do teatro lírico em Portugal. Para os interessados, recomendo a leitura da sua biografia em  http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?P_pagina=1006464

O certo é que a Rua foi aberta ràpidamente - volta aqui a entrar e com razão o cito-facta, traduzido para cedo-feita - e passou a conhecer-se como Rua Direita de Cedofeita.
A chamada Planta Redonda de Balck publicada em Londres (1813) mostra já o troço de Cedofeita até à Rua da Boavista, quase todo ladeado de casario. E como não podia deixar de ser refiro-me à Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas.

A uma dezena de metros do início, olhamos para Oeste. É mesmo quási toda direita.

Olhando para trás, o pormenor da calçada e ao fundo a Torre dos Clérigos 

É uma artéria de grande aglomerado residencial, tendo no rés-do-chão da maioria dos edifícios comércios das mais variadas espécies. Quási todos eles - edifícios - são do séc. XVIII e princípios do séc. XIX,
predominantemente estreitos e compridos onde sobressaem as varandas de sacada com a arte do ferro tão tradicional do Porto, cantarias nas pilastras e cimalhas de granito e azulejos na fachada, estes já do séc. XIX ou XX.
Vamos mostrar em pormenor alguns desses edifícios, contar a sua história bem como de alguns dos seus primitivos donos e/ou ocupantes. A maior parte deles são referenciados como imóvel de interesse púbico pelo IGESPAR. Para os interessados mais um site http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/

O nº 124-128 teve a característica da montra recuada (Texdekor). Aproveitaram as colunas para avançaram com a frente da montra.

Os nºs 154 e 162 são os mais antigos da Rua.

 Vistos de frente

No nº 159 viveu a grande Carolina Michaelis e seu marido Joaquim Vasconcelos, casados em 1876. Ela
é reconhecida como a mais importante das filólogas da língua portuguesa. Foi crítica literária, escritora, lexicógrafa, tendo sido a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa, a de Coimbra. Teve igualmente grande importância como mediadora entre a cultura portuguesa e a cultura alemã. Nasceu em Berlim em 15 de Março de 1851 e Morreu no Porto em 22 de Outubro de 1925. Uma biografia a não perder em http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/biografias/cmvasconcelos.html
Joaquim Vasconcelos natural do Porto e onde faleceu (1849-1936) musicólogo e historiador de arte, vivia e estudava na Alemanha quando conheceu Carolina. Foi um dos grandes pioneiros da divulgação e desenvolvimento da arte popular. As exposições no Porto em 1881 de Industrias  Caseiras e um ano mais tarde da exposição de Cerâmica devem-se em grande parte a ele. Crítico entre os métodos de ensino inglês e o rigor alemão científico adaptados à arte portuguesa criou alguns anti-corpos. Deixou uma obra de grande valor cultural. José Augusto França disse que foi ele o real fundador da História da Arte em Portugal, entendida como ciência, com objecto e método próprios.
Parte de uma vida que vale a pena ler em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5555.pdf
Consta-se que na véspera da Revolução de 31 de Janeiro de 1891 (a primeira tentativa da implantação do regime republicano em Portugal), Antero de Quental, vindo de Vila do Conde, hospedou-se aqui e os estudantes da Academia Portuense organizaram na rua, em frente à casa, um grande comício patriótico. Antero falou aos estudantes da varanda da casa de Joaquim de Vasconcelos.

Este edifício não é dos referenciados pelo Igespar. Presumo ter sido uma escola primária, com o nome de Irene (Lisboa?). As poucas letras que ainda se lêm não permitem mais. No entanto há em Cedofeita uma Escola Irene Lisboa. Só uma pequena nota sobre: Irene do Céu Vieira Lisboa (Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, 25 de Dezembro de 1892 – Lisboa, 25 de Novembro de 1958), foi  escritora, professora e pedagoga. Estudou na Suíça, França e Bélgica onde se especializou em Ciências de Educação, o que a habilitou a escrever várias obras sobre assuntos pedagógicos. Durante a estadia em Genebra, mercê de uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, teve a oportunidade de conhecer Jean Piaget e Édouard Claparède, com quem estudou no Instituto Jean-Jacques Rousseau. Afastada de exercer qualquer cargo pelo Ministério da Educação no tempo do Estado Novo pela sua tentativa de remodelação do ensino primário.

A seguir encontramos a Rua da Torrinha e quási em frente a Rua dos Bragas. Eram terrenos de José Ribeiro Braga. Voltados para Torre dos Clérigos, fica uma à direita e a outra à esquerda.
As duas Ruas. Por aqui corria muita água...
... Uma vistoria, a requerimento de José Braga... noutras e suas propriedades de Cedofeita e situadas na Rua da Torrinha, para ai se edificar um chafariz .... Assim oferecia o citado munícipe o terreno necessário a construção da fonte, mas impondo como condição a cedência por parte da câmara de pena e meia de água diários, (945 litros). Respigado na História da Fonte
Em frente à Rua da Torrinha e na Rua de Cedofeita, um pouco ao lado da muito antiga Casa Granado, construiu-se a Fonte de Cedofeita, que parece ter sido em 1826 mas não tenho certeza.
O que resta da Fonte está nos jardins dos SMAS (a que chamamos as Águas) em Barão de Nova Sintra. Um autêntico Museu de Fontes e Chafarizes dentro de um parque florestal magnífico. Recomendo uma visita.
A Rua dos Bragas é uma homenagem ao José Braga.

Vamos passar ao nº 395, frente e traseiras na foto, de um edifício com muita história. Durante o Cerco do Porto nas Lutas Liberais ou Guerra Civil, D. Pedro IV - o 1º Imperador do Brasil - acolheu-se a esta casa depois de ter sido bombardeado pela artilharia das tropas de D. Miguel situadas em Gaia, o Palácio das Carrancas (hoje Museu Nacional Soares dos Reis), onde tinha os aposentos.
Pertencia na altura a casa a Joaquim Ribeiro Faria de Guimarães (1807-1879), importante industrial da Cidade. Em 1857 fundou a Fábrica de Lanifícios de Lordelo do Ouro e foi proprietário de uma tipografia onde se imprimiam vários periódicos.
Geriu a Fundição do Bolhão, fundada pelo seu pai, desempenhou cargos de presidência em várias instituições oficiais e parlamentares. Foi vice-presidente da Câmara Municipal do Porto e, entre 1852 e 1854 foi o primeiro presidente da Associação Industrial Portuense hoje incluída na Associação Empresarial de Portugal. (acho que estou certo nesta afirmação).
Julgo que a Rua de Faria de Guimarães tem o topónimo em sua homenagem. Mas nada me diz se é verdade. Nem a própria Câmara Municipal esclarece nas Toponímias da Cidade.
Mais tarde foi adquirido por D. Júlia de Mello Sampaio de Lencastre, tendo servido de sede aos Tribunais Correccionais e ainda a uma Repartição das Finanças. Esta senhora presumo ter sido a 3ª baronesa de Pombeiro de Riba Vizela, mas o Lancastre e não Lencastre virá de seu marido D. Caetano Henriques Pereira de Faria de Saldanha e Lancastre. Sampaio também se deveria escrever Sampayo. Minudências.
Não sei como o edifício terá passado para Alfredo Leite da Silva, o senhor Citroen no Porto e após a sua morte para Augusto António Marques Tomé, o actual proprietário. Que o recuperou, talvez ainda não no seu todo, da degradação em que se encontrava. 

Paredes meias encontramos - sem referência do Igespar - a Casa da Família (?) Pinto da Costa. Como o nosso Papa Jorge Nuno, Presidente do Futebol Clube do Porto nasceu em Cedofeita, talvez o tenha sido neste casarão. São suposições minhas pois a casa só me foi mencionada por moradores da Rua. Não a conhecia nem a net me diz nada sobre ela.
Pormenor do Jardim visto através do portão e parte visível de um pormenor das traseiras.
Como se pode ver a casa está meio arruinada. O que é pena. Parece que teria uns jardins
magníficos e enormes. 

Vem a seguir a Casa dos Barões do Seixo, título criado por D. Maria II em 19 de Julho de 1845. Hoje é um condomínio fechado. Impressionante a altura de uma árvore quási encostada à casa, cuja espécie desconheço. Os jardins (consegui um pequeno pormenor visto da rua) foram criados pelo célebre paisagista Èmile David (Berlim, 1839-Porto, 1873), que entre outros projectou os Jardins do Palácio de Cristal, do Passeio Alegre e da Cordoaria. Este, infelizmente, após os temporais que o descaracterizaram, continua a ser alvo de más projecções. Coisas à Moda do Porto. Até a célebre Árvore da Forca, que nunca enforcou ninguém e resistiu séculos, lhe cortaram o pé. Mas continuemos por Cedofeita que é o que nos interessa agora.
Falta referir o edifício da Esquadra de Cedofeita, o último deste correr de grandes e belos prédios. Mas sobre este não há nada a dizer. Só sei que é arrendado, mas referencias nenhumas.
Mas nem tudo se perde, quando ouvimos uma história, registada em auto, garantiram-me. Foi em Cedofeita que se deu a primeira participação, da Cidade, sobre o roubo de um porco. E mai'nada.
   
Sobre o prédio nº 548 tinha a referência de existirem belos interiores do séc. XIX. Pertence actualmente à Congregação das Servas Franciscanas Reparadoras e acolhe um Lar Feminino. Foi-me permitida a entrada, gentileza sempre de enaltecer e agradecer e a autorização para fotografar o vitral e o tecto da entrada.
Todo o interior foi restaurado a expensas suas há dois anos. Infelizmente, um infiltração de água, destruiu parte do tecto.

O edifício seguinte pela ordem do caminhar é o nº 556, referido pelos seus azulejos. Não consegui obter mais informações.
No edifício que faz esquina com Álvares Cabral - sem qualquer referência do Igespar - nasceu Augusto de Castro Sampaio Corte-Real (Porto, 11 de Janeiro de 1883 - Estoril, 24 de Julho de 1971), mais conhecido por Augusto de Castro. Foi advogado, jornalista, diplomata e político com uma carreira que se iniciou nos anos finais da Monarquia Constitucional Portuguesa e se estendeu até ao Estado Novo. Ganhou grande notoriedade como comissário da Exposição do Mundo Português em 1940. Foi director do Diário de Notícias por dois períodos distintos, de 1919 a 1924, altura em que partiu em missão diplomática para Londres, e de 1939 até 1941.

Membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 25 de Janeiro de 1945, ocupando a cadeira nº 5, que pertencera a Eugénio de Castro (1869-1944).

Atravessando a Rua de Álvares Cabral (que vai dar, pela esquerda, ao antiquíssimo Templo referido no princípio deste escrito e talvez onde tenha começado a história de Cedo-Feita - cito-facta - ) na bifurcação com a Travessa da Figueiroa, a cerca de 50 metros acaba a rua que deu origem a estas histórias.
Nesse espaço existiu outra fonte que ainda se pode apreciar nos Jardins dos SMAS, antes referidos.
O seu nome, Fonte do Ribeirinho ou dos Ablativos, deve-se a dois factos:
Fonte do Ribeirinho, porque perto de onde estava colocada, ao lado norte passava um ribeiro que se formava de várias nascentes que se localizavam no Montes Pedral, do Cativo e da Lapa. Esse ribeiro tinha o seguinte percurso: Passava em Salgueiros, atravessava a Quinta Do Melo ou Águas-Férreas (Dos Viscondes de Veiroa), a rua de Cedofeita e a Ponte de Vilar, desaguando no Douro, na Praia de Massarelos.
Fonte dos Ablativos, devido a inscrição nela existente ser composta por vinte e quatro Ablativos. São vários os autores que transcrevem essa inscrição, assim como o seu significado .No entanto a que se transcreve é da autoria de Horácio Marçal no artigo O antigo sitio do Laranjal - in - O Tripeiro, Março de 1966, VI série, ano VI- ... a inscrição, lhe parece, ter algumas palavras que não são latinas e, em sua opinião, não é fácil de traduzir. Contudo, dá-nos a tradução da dita inscrição que é a seguinte: - Com aprazimento muitos e desagrado de outros, foram reunidas as águas que corriam sujas e desaproveitadas, pelas lajes da rua, e pelas margens do ribeiro, formando charcos imundos, e dificultando a passagem de transeuntes. Assim as águas conduzidas para esta fonte, tornavam o sítio, ate então incomodo e sujo, em belo e comodíssimo; e as águas agora limpíssimas, desalteraram os suburbanos sequiosos.
De destacar o medalhão, delicadamente trabalhado e envolvido por um cordão vegetalista, podendo observar-se a imagem de N. Sra. de Vandoma - Padroeira da Cidade - representada como é natural, entre duas torres.
Foi feita esta obra no reinado da piedosa, feliz e Augusta Rainha D. Maria I, por diligências de José Ribeiro Vidal da Gama, dos Conselhos de sua Real Majestade, Chanceler Portuense, servindo de Presidente do Tribunal de Justiça, no ano de 1790.
Respiguei textos e coloquei originais descritos na História da Fonte dos autores Américo Costa, Horácio Marçal e Hélder Pacheco.

As Cidades cresceram na História das gentes que habitaram - e habitam - nas suas Ruas. Espero tenham gostado da Rua de Cedofeita e das muitas Histórias que acolheu.

domingo, 18 de março de 2012

120 - Do Monte Cativo às Águas Férreas

Este escrito é dedicado principalmente aos meus amigos e conterrâneos tripeiros e especialmente aos que desta zona têm mais recordações e me vão escrevendo. Alguns deles, por esse mundo fora têm a sua vida.
O perímetro Marquês, Antero de Quental, Serpa Pinto pela Constituição, quer enfiando para Sul entre S. Brás e Monte Cativo, está todo alterado de há uns anos a esta parte com novas ruas e zonas habitacionais.
Então para esses meus amigos um passeio para recordar os nossos tempos, desde o Monte Cativo até às Águas Férreas. Numa desordem de dias e caminhos.
Para começo uma pequena orientação a partir do Google Earth, recente, desde o alto do Monte Cativo até à Lapa e Boavista. Ponto de referência as Águas Férreas e a Tutoria.

Enfiamos pela Rua Damião de Góis (a nova ligação que une as Ruas de João Pedro Ribeiro e Egas Moniz) e à esquerda entramos na Rua Alves Redol.

Um olhar sobre a Cidade do Porto, onde o mar à direita se avista.

O alto das novas zonas residenciais

Sem qualquer referência sobre este casarão, mas que presumo ser o da antiga sede do Clube de Caçadores do Porto, está agora o Clube (como se tratasse de um antigo e tradicional clube inglês, na minha opinião, claro...) do Prof. Hernâni Gonçalves, o Bitaites, que alberga um campo para actividades desportivas e seus complementos médicos, educacionais, etc. e tal. Incluindo restaurante, salão para festas e recepções. Para nós, os da zona, já estamos no velho Monte Cativo.

Monte Cativo que é topónimo muito antigo. Era um dos limites do couto do Porto, mencionados na carta da rainha D. Teresa, de 1120; «...até ao monte que chamam Pé de Mula, assim pelo Monte Cativis, assim como divide Cedofeita com Germinade...». Pelo menos até ao século XVII manteve esta forma alatinada de Monte Cativis com que figura nos registos paroquiais, designadamente num assento de 1682. Assim refere Eugénio Andreas de Cunha e Freitas (Nasceu em Lisboa em 1912. Morreu em Vila do Conde em 2000) que parece ter sido o único historiador da Cidade, pois todos a ele vão beber os seus escritos. Eu só copio o que os historiadores de agora escrevem baseado no que ele escreveu. Logo, eu acredito.

Segundo a Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora, Germinade vem do latim Germinati e tem a variante Germalde. Se se compreende bem, Germalde é hoje o Monte da Lapa, à nossa esquerda.
Agora Pé de Mula, não consegui encontrar. Também não fui ao Arquivo Histórico da Cidade vasculhar.

Ali próximo entroncamos com a Rua do Monte Cativo que ainda vem da Rua da Constituição mas é pelas Escadas do Monte que nos deslocamos. Com uma vista por sobre a antiga Tutoria até à Rua da Boavista.
No final das Escadas do Monte Cativo o velho Fontanário

No final das Escadas encontramos a velha "Tituria" para onde os nossos Pais nos ameaçavam mandar se nos portássemos mal. Infelizmente não encontrei uma única referência ao edifício nem ao belo chafariz que está no largo interior. E muito menos quanto à instituição primitiva. Presumo que agora funciona um organismo ligado à Câmara Municipal mas ao certo não sei. Sei que passei ali algum tempo, fui ao seu interior onde encontrei portas abertas, mas não vi viva alma. Não adiantou chamar, assobiar, fazer barulho. Ninguém. Tenho testemunhas da minha presença.

As Tutorias da Infância foram criadas em 1911 por Alberto de Sousa Costa, bacharel da Universidade de Coimbra mas é o padre António Oliveira que a convite de Afonso Costa ( o mata-frades, Deputado eleito pelo Porto em 1900, na altura chamado um dos Deputados da Peste, e ele próprio um Exposto da Roda na Santa Casa da Misericórdia de Seia, sua terra Natal - retirado da sua biografia - )  elabora a lei publicada por Decreto de 27 de Maio de 1911.
No entanto já em 1902 existia uma Casa da Correcção do Porto, mas no Convento de Santa Clara em Vila do Conde.
Presumo que a ex-Tutoria está nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas. Na foto um pormenor da antiga quinta com o edifício da Tutoria à direita, já antes mostrada aquando do meu escrito sobre o Monte de Germalde, mais recentemente conhecido como Monte da Lapa.

Esta Quinta foi pertença de José de Sousa e Melo, assim chamada por ter lá existido uma fonte de água medicinal que deu uma origem a umas termas. Ocupava uma vasta área muita embelezada, desde a Igreja da Lapa (nas nossas costas, mais ou menos, quando obtive a fotografia) até à Carvalhosa. Este senhor foi o terceiro Visconde de Veiros - localidade para os lados de Leiria, salvo erro - e que para além de tesoureiro-geral da Alfândega do Porto, Vice-provedor da Companhia Geral de Agricultura e Vinhas do Alto Douro, Administrador dos Correios do Porto, Inspector das Obras do Edifício da Academia da Marinha e Comércio, Vereador da Câmara Municipal do Porto, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, foi oficial coronel do Exército de D. Pedro IV aquando das Lutas Liberais, tendo morrido durante uma batalha contra as tropas de D. Miguel.
Se estou a escrever errado, que me perdoem. Toda esta mistura da biografia do homem apanhei-a em sítios tão dispares como os da Cronologia dos Viscondes de Portugal, na Biografia de José de Sousa e Melo, leitura inscrita na placa de toponímia no local da Rua com o nome de Melo (que não corresponde em nada à toponímia descrita no site da Câmara), e um escrito de Germano Silva. E ainda n'As Quintas mais importantes de Cedofeita em que esta vem em segundo lugar. O resumo, achando-o credível, baseei-o nas datas de nascença e morte.

Vindo da Lapa e entrando nos terrenos da antiga Quinta, à direita, um Infantário fechado. Mas em bom estado. Presumo que foi o primeiro aqui construído pela Junta de Freguesia de Cedofeita, mas talvez por se tornar pequeno foi construído um novo, que está logo a seguir e incluído num núcleo residencial.

Numa das paredes, uma homenagem obituária a um amigo desaparecido na flor da idade. Não sei a razão da sua morte, nem interessa. Mas a homenagem lembra aos vivos que a vida é curta e devemos aproveitá-la como um bem que não se repete.

Nos terrenos da antiga Quinta, um olhar para o Monte da Lapa, com a sua Igreja construída de forma que fosse visível de qualquer local da Cidade.

Atravessada a linha do Metro, encontramos o Conjunto Habitacional da Bouça. Chamou-se este local de Quinta de Santo Ovídio e depois da Boavista. Lá estou eu a tirar deduções, porque a Quinta dos Viscondes de Beire em 1865 ocupava uma vastíssima área que ia desde a Praça da República (antigo Campo de Santo Ovídio) até à Rua de Cedofeita. Pertenceu ao desembargador João Carneiro de Morais que nela mandou construir uma capela dedicada a S. Bento e Santo Ovídio. Templo há muito desaparecido. Os herdeiros venderam a Quinta, na segunda metade do século XVIII, a Manuel de Figueirôa, contador da Fazenda Real e mais umas tantas coisas (A Travessa da Figueiroa, logo ali partindo da Rua da Boavista até Cedofeita, existe provàvelmente em memória deste fidalgo. Mas porquê da Figueiroa e não do Figueiroa ?).
A Quinta passou do Figueiroa para o visconde de Beire e pelo casamento de Maria Balbina Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto Figueiredo com o quarto conde de Resende, António Benedito de Castro, entrou na posse desta família.
Meus amigos, fiquei confuso com o escrito atrás, da autoria do nosso querido Germano Silva. Não é que seja importante, mas o sr. Figueiroa era - ou foi - o 1º Visconde de Beire. E a D. Balbina, sua filha. Que realmente casou com o António Benedito. Um erro de tipografia é normal.
Os condes de Resende foram os sogros de Eça de Queiroz. O escritor casou no dia 10 de Fevereiro de 1886 na capela da Quinta com D. Emília de Castro Pamplona (in Cedofeita por Germano Silva).
Não vale a pena reproduzir tudo o que o insigne historiador e jornalista escreveu sobre que D. Emília era filha dos condes, etc e tal. Está-se mesmo a ver que se foram sogros do Eça, logo a D. Emília com quem casou não poderia ser filha de outras gentes. Mas os historiadores são assim mesmo, têm de contar tudinho e direitinho, não vá a gentinha não os entender à primeira.).

Este Bairro - que li situar-se na Quinta de Santo António...- começou a ser projectado logo a seguir à revolução de Abril mas só foi completado 30 anos depois. As primeiras casas foram entregues em 1976, mas muitos problemas foram surgindo com os antigos residentes desta zona (moradores em ilhas e barracas, queriam novas casas mas de borla) e a integração de novos residentes vindos de outros locais da cidade e não só, tiveram ao longo do processo a orientação correcta do ex.presidente da Câmara do Porto Nuno Cardoso para a solução dos problemas. Em 2006 foi finalmente dado como concluído. A obra é de Siza Vieira e toda a classe de arquitectos e não só, lhe tece enormes louvores. E tantas são as loas que até me perdi.
Independentemente da obra em si, que não tenho nem um pouquinho de capacidade para analisar, acho este conjunto habitacional mais parecido com uma cadeia, tal a exiguidade das portas e janelas, a divisão de entradas com barras de ferro, os caminhos estreitos, os pátios entre os quatro edifícios. Quanto aos espaços verdes tão propagandeados, resumem-se a um pouco de relva (?) e a meia dúzia de pequenas (até ver, pelo menos) árvores. Estas fotos têm menos de 15 dias. 
Em frente ao Bairro, na agora pequena Rua das Águas Férreas, encontramos a Casa da Pedra, propriedade particular, onde residiu o escritor Oliveira Martins enquanto dirigiu a construção do Caminho de Ferro da Póvoa e Famalicão.  Fez parte da Geração de 70, mais tarde "Os Vencidos da Vida". A Questão Coimbrã foi o tema. Aqui se reunia o Grupo dos 5: Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins e Antero de Quental. Este tinha na casa um quarto onde pernoitava muitas vezes e onde tentou o suicídio pela primeira vez tendo sido impedido pelo inquilino da casa. É o que está na história. Agora não sei se o Ramalho e o Antero, que andaram à espadeirada na Arca D'Água por discordarem entre si das ideias do Castilho, se encontraram por ali muitas vezes. Mas para o caso não interessa nada.

Na esquina da casa encontra-se ainda um antigo marco toponímico.
Agora uma pequena descrição para os meus amigos conterrâneos: A Rua das Águas Férreas vai dar à nova Rua do Melo, que por sua vez encontra-se com a Rua de Burgães, toponímia antiquíssima. Seria um lugar ao Pé do Monte ( Monte de Germalde-Lapa ? Monte Cativo ?) já referido em 1715 pela Colegiada de Cedofeita.

Entronca também na ainda existente Rua de Salgueiros, que é hoje uma pequena parte do que foi outrora e cuja continuação é a nova Rua de Cervantes. Que um dos meus amigos comentou, ser para ele sempre a Rua de Salgueiros. E eu concordo. Não entendo porque se mudam o nome às ruas ou a parte delas só para dar novos nomes. Neste caso, embora nada esteja escrito na toponímia da Cidade, será para dar graxa a Espanha colocando o nome do pai do D. Quixote e do Sancho Pança numa artéria ? E mai'nada.
Pensando ainda nos meus amigos conterrâneos,
uma nova imagem do Google vista agora no sentido contrário.
Aquele campo de sintético a Norte, entre o Monte Cativo e a Rua de Salgueiros
é o campo de Jogos da Escola do Hernâni Gonçalves, O Bitaites.

terça-feira, 6 de março de 2012

117 - À procura do Lugar da Ervilha

O meu passeio anterior e referente à Rua da Vilarinha, terminou no Lugar da Fonte da Moura. Escreveu-me um amigo conterrâneo a fazer pela vida no estrangeiro, interrogando o porquê de Fonte da Moura. Pois bem, segundo a lenda, andavam por ali cavaleiros comandados por D. Afonso Henriques (para quem não conhece a História de Portugal, foi o nosso primeiro Rei) quando encontraram uma Moura. Perguntaram-lhe onde poderiam matar a sede numa Fonte. A Moura respondeu-lhes que era muito longe, mas se o Deus dos cristãos era tão poderoso, que fizesse nascer ali uma e ela se reconverteria ao cristianismo. Dito e feito, a fonte nasceu e e a lenda também. E eu encontrei a história da lenda na Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora.
Estava acompanhado pelo meu amigo Peixoto, velho companheiro nas minhas andanças e foi aqui que achamos um simpático restaurante para almoçar.
Por sorte, fazia parte da ementa um prato de Sável, muito apreciado pelo amigo Peixoto que não hesitou na escolha. Para mim um lombo de boi assado, bem fatiado mesmo ao meu gosto. O tinto não estava mal mas o bagaço a acompanhar o café era de 10 estrelas. Via-se mesmo que é o do que o patrão bebe. O preço também esteve em conta, olhando à carestia da vida e ao petisco de rico que o Peixoto escolheu. Esqueci o nome do restaurante, mas fica a uma trintena de metros do início da Avenida Antunes Guimarães do lado esquerdo e de quem vem da Avenida da Boavista. É o El qualquer coisa. Nome espanholito.

Tinha-me proposto ir procurar o Lugar ou Monte da Ervilha, que sem querer descobrira por ter lido algo sobre um Espaldão Militar. Não fazia ideia nenhuma onde ficava. Mas de busca em busca lá encontrei algumas referências.

De mapa e apontamentos na mão - um dos meus poucos passeios mais ou menos orientados - atravessamos a Avenida da Boavista, (uma das grandes obras da Cidade do Porto e a maior Avenida de Portugal em extensão, que liga o Mar desde o Castelo do Queijo ao Centro) e toca de percorrer ruas nunca antes conhecidas.
A poucos metros encontramos a Estátua de Garcia de Orta, que dispensava bem o acessório que lhe colocaram aos pés. Não custa nada referir, até porque me dá muito prazer, que Garcia de Orta foi um cientista nascido em 1500 em Castelo de Vide, no Alto-Alentejo, de pais judeus refugiados em Portugal expulsos pelos Reis Católicos Espanhóis. Foi médico do rei D. João III e pioneiro no Estudo da Botânica, Farmacologia, Medicina Tropical e Antropologia. Encontrou Camões em Goa de quem foi amigo segundo reza a sua bibiografia. Morreu em 1568, em Goa, na Índia para onde tinha partido em Março de 1534 e por lá ficou. Embora a Inquisição também actuasse na Índia, durante a sua vida não foi molestado, bem como a família. No entanto, após a sua morte, todos os membros foram perseguidos e a irmã queimada na Fogueira da Santa Inquisição. Anos mais tarde o seu corpo seria exumado e igualmente queimado.
Embora exercendo a medicina foi também comerciante.
A obra que perpetuou o nome de Garcia de Orta foi o livro Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, editado em Goa em 1563 e só anos mais tarde publicado na Europa.
Levava como referência uma Paróquia, Igreja e Convento de que nunca ouvira falar.
Toda esta região era rural, de agricultura e floresta, que se veio transformando desde há umas dezenas de anos em zona habitacional. Terrenos não faltavam.
A Igreja de Cristo Rei e o Convento dos Padres Dominicanos tiveram a sua inauguração em 23 de Maio de 1954, em cerimónia presidida por D. António Ferreira Gomes, o saudoso e querido Bispo do Porto.
Toda a edificação está em 7.000 metros quadrados de terrenos cedidos pela Câmara do Porto em 1950, na altura presidida pelo Prof. Dr. Luíz de Pina, como compensação dos terrenos do antigo Convento de S. Domingos confiscados pela Fazenda após a extinção das Ordens Religiosas.
Mesmo ao lado encontramos o Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, que se dedica ao ensino e divulgação de várias actividades artísticas. Foi inaugurado em 1997.
D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto de 1952 a 1982, esteve exilado entre 1959 e 1969 por ordem da ditadura do Estado Novo e do seu cérebro António de Oliveira Salazar.
Grande intelectual, foi sem dúvida o Bispo mais querido e ainda hoje lembrado pelos Portuenses. Faleceu em 13 de Abril de 1989.

Entre as novas edificações encontram-se ainda vestígios dos tempos rurais. E eis-nos chegados ao Lugar da Ervilha. Meio perdido entre ruas sem saída e caminhos de pé posto, dando voltas sem destino, lá nos aproximamos do fim proposto.
A Rua do Crasto. Comprida, muito arborizada, liga este lugar ao Mar. Desconheço a razão da sua toponímia, mas presumo ser um derivado de Castro, povoação castreja pré-romana que se supõe ter existido não havendo no entanto elementos científicos que o comprovem. Mas descobriram-se utensílios líticos da época Pré-Histórica não deixando dúvidas que foi habitada na Idade do Ferro. 

Por entre os novos e altos edifícios, há que escolher um caminho de pé-posto
para tentar chegar ao centro do Monte.

Entre os altos arbustos que nos tapam a vista abrem-se novos caminhos e sem o supor deparamo-nos com cultivo agrícola em pequenas hortas espalhadas por um relativamente vasto território. Uma pequena conversa com um hortelão para orientação e saber coisas do lugar foi indispensável.
Indicou-nos o senhor hortelão as instalações do Futebol Clube da Foz, clube fundado em 1 de Maio de 1934. Cujo campo de jogos tem o nome de baptismo de Campo da Ervilha. Claro que conhecia o clube. Jogou algumas vezes com (ou contra) o meu Salgueiros. E de repente fez-se luz na minha cabeça. Afinal já andara por aqui.
Uma história simples: Teria os meus 7 ou 8 anos, não sei ao certo, e o meu irmão que já era árbitro de futebol levou-me com ele ao Foz onde foi arbitrar. Não sei como fomos lá ter, mas recordo vagamente que passamos por um caminho. Era dia de chuva e regressamos a casa de eléctrico. Imagino que devemos ter tomado o 4 na Fonte da Moura vindo de Pereiró, saído na Rotunda da Boavista e aí apanhado o 20 ou 21 para o Marquês.
Entre uma rua terminada e um novo caminho lá prosseguimos à conquista do Monte.

Caminhamos entre novas hortas espalhadas pelo Monte, ladeadas por altos edifícios.
Encontrei um arbusto com um fruto que não conheci. Um hortelão disse-me que era de um pé que veio do Brasil. Não sabia o nome e chama-lhe Tangeronas. Mas quem tem amigos pelo mundo há que saber de entre eles quem conheça o fruto. A resposta veio breve. O seu nome é tamarillo ou em português tamarilho. Oriundo dos Andes da América do Sul, é também cultivado no Brasil, onde toma o nome de Tomates (Japoneses, Ingleses, Arbóreo, ou ainda, conforme a região Brasileira, de Tomatão, Tomate Francês e Tomate de Árvore). Descobri que também se cultiva em Portugal, principalmente na Madeira com o nome de Tomate Brasileiro. Que bom é saber coisas novas.
Um bonito Faval já em flor.

Um dos hortelãos - esqueci de perguntar o nome - com quem conversei disse-me que toda aquela zona habitacional pertenceu a um Dr. Fontes. O que resta dos terrenos do Monte os herdeiros cederam aos hortelãos. A única paga e já não deve ser pouca é que os terrenos foram e estão limpos.
Mas também vinha à procura do Espaldão Militar de que tomara conhecimento existir aqui. No meio de alguns terrenos não cultivados vêm-se pequenos montes com uma altura talvez de 3 a 4 metros, totalmente cobertos de vegetação alta.
Vamos à História segundo o IGESPAR. Na sua página recolhi a informação de que no Monte ou Lugar da Ervilha foram feitos estudos arqueológicos numa área de 156 metros quadrados devido a um processo de loteamento do local. Acho que esta medição está errada pois é uma superfície bem pequena em relação ao  edificado e aos terrenos que se vêm, mas para o caso não interessa nada. Pelo seu fraco interesse arqueológico os estudos foram abandonados em 1995.
Aqui existiu um espaldão militar, conhecido como do Porto, da Ervilha ou Forte da Ervilha, utilizado na Guerra Civil de 1828-1834 (mais conhecida como Lutas Liberais) para albergar a artilharia das Tropas de D. Miguel. Este espaldão construído com muros de pedra e valas era considerado inexpugnável. Durante os estudos arqueológicos foram descobertos espólios diversos bem como uma plataforma em pedra onde terá assentado uma peça de artilharia. Embora degradado é um dos poucos vestígios arquitectónicos do Cerco do Porto. O Espaldão foi tomado pela Tropas Liberais em 24 de Janeiro de 1833.

Deixamos para trás a Ervilha e encontramos uma rua que nos guia até ao Mar.

É a Rua do Ribeirinho, julgo ser assim chamada porque bem próximo,
embora mal se distinguindo, passa um fio de água.
Quem sabe, talvez tenha sido já um ribeirinho à séria
Embora de há 1 ano e meio atrás, esta é a imagem mais ou menos actual do
Lugar da Ervilha.
E fomos à mais apetecida lourinha que há muito nos esperava na esplanada
 em frente ao Mar. A tarde foi longa e a sede apertava.