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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

114 - Paranhos, Recordar tempos antigos

Sou de Massarelos por nascença mas Paranhense do coração. Aqui nesta freguesia foram passados 17 anos da minha vida desde os 3 dias de idade, segundo me contavam avós, pais, vizinhos (Aos amigos e visitantes interessados nas minhas postagens, na nº 3, lá está a minha rua).  Não posso dizer que conheço Paranhos pois a sua área territorial é a maior da Cidade do Porto e a terceira maior do meu Portugal.
Os meus clubes do coração e estimação aqui nasceram, tiveram ou têm os seus recintos desportivos, o Porto, o Salgueiros, o Académico (deste, presumo que pelo menos uma parte pertence ao Bonfim); mas dos pobres também reza a história: O Sport Progresso, o Francos Figueirense e o Portuense de Desporto. A todos estive ligado - ao Progresso não - e neste passeio histórico de tudo isso lembrei. Tenho por aí uns escritos falando individualmente de cada um deles.
A história de hoje é outra e começa com o pedido de um amigo freguês Paranhense emigrado no Luxemburgo que com saudades da sua terra me pediu fotos para mostrar aos descendentes.
Paranhos deriva de Paramio, cujo actual nome aparece pela primeira vez num documento datado de 1689.
Sabemos que pertenceu em grande parte às terras da Maia até 1837 quando se integrou na Cidade do Porto, mas já habitada muito antes do Condado Portucalense até por Mouros (ou Árabes) que aqui se mantiveram até ao séc. X. Foi um lugar de muitas aldeias.
A actual Igreja - dedicada a São Veríssimo -  não tem data registada da sua fundação. Conhecem-se os assentos de umas obras efectuadas por um mestre pedreiro em 1845 por estar em ruínas. Mas em 1123 já existia uma igreja quando foi realizada a doação do padroado da Igreja de Paranhos ao Bispo do Porto D. Hugo do qual faziam parte grande numero de casais e quintas.
Na torre esquerda existiu um relógio de sol construído em 1878. Hoje só lá está a marca. Será que custava muito reconstruí-lo ? Sempre era uma lembrança dos velhos tempos.
Sabemos que a freguesia possuía vastos campos de cultivo desde tempos remotos. Apesar da modernidade, ainda existem indícios dos senhorios que cultivavam essas terras. Também foram criadores de gado bovino o qual era exportado para Inglaterra. Lembro-me ainda de alguns lavradores de Álvaro Castelões, Aval, Augusto Lessa. As fotos acima são de antigas casas principais de lavoura à volta do Largo da Igreja de Paranhos.
Por outro lado e pelas ruas que se foram abrindo, emigrantes do Brasil estabeleceram-se com várias industrias e comércios e construíram belos edifícios, alguns apalacetados. Assim, a partir dos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, a ruralidade antiquíssima da Freguesia tomou novos aspectos. Mas as novas oportunidades trouxeram novos habitantes. Em alguns desses edifícios hoje estão instituições: A Universidade Fernando Pessoa, a Ordem dos Médicos, a Associação dos Pais de Crianças Deficientes.
Muitos dos campos de cultivo de outrora foram rasgados por novas artérias.
Paranhos foi sempre um lugar com Festas e Romarias. A mais importante seria a Feira de S. Miguel que durava de um a dois meses, com muitas tascas de comes-e-bebes.
A partir de 1887 as Festas da Senhora da Saúde adquiriram pela sua grandeza a categoria de Festas da Cidade. Duravam 8 dias com arraiais, feira, fogos de artifício e uma majestosa Procissão que saía da Igreja e terminava no Largo do Campo Lindo, junto à Capela da Senhora da Saúde.
Uma lembrança me ficou gravada de um dos anos da festa. Neste Largo provei  pela primeira vez cerveja, ofertada pelo meu pai do seu copo. Havia uma esplanada montada que pertencia a um café que ainda existe - precisamente de nome Campo Lindo - onde esperávamos pela minha mãe. Quem diria que na altura detestei o sabor dessa bebida maravilhosa. Na época eram ofertados por cada fino (nome portuense dado a um copo de 20 cl de cerveja tirada à pressão), amendoins, batata frita à inglesa, tremoços e azeitonas, servidos em taças de vidro com 4 divisórias. Esses sim, comi-os todos e talvez por isso o meu pai, que não era bebedor, tomou três finos. Mas não invalidaram o apetite para o lanche que sempre comia quando saía com os pais. 
A Capela da Senhora da Saúde foi construída em 1871. As Festas ainda se realizam mas sem a grandeza de outrora.
Tomando a Rua de Costa e Almeida (que foi Presidente da Câmara e Governador Civil) onde antigamente se realizava a Feira da Louça, vamos ter à Praça Nove de Abril, (a razão desta toponímia  contarei mais abaixo) mas mais conhecida como a Arca d'água. Largo da Arca d'Água assim se chamou desde tempos antiquíssimos. Aqui se encontram os mananciais de água de Paranhos que durante séculos abasteceram uma grande parte da população da Cidade. Ao rei D. Sebastião (séc. XVI) havia sido feito um pedido para encanar esta água, presumindo-se que foi perdido. Hábito que ainda hoje persiste, pois continuam a perderem-se coisas em Lisboa no que diz respeito ao Porto e ao Norte. Mas seguindo com a história. D. Sebastião, não sei se por castigo, também se perdeu em Alcácer-Quibir e ainda hoje almas crentes andam à procura dele. Para compensar a perdição chegaram os espanhóis por 60 anos (1580/1640). Que no reinado de Filipe II acharam um novo pedido e então sim, foi dado o ok para que a água do manancial de Paranhos fosse encanada. Umas vezes subterrânea, outras vezes a céu aberto. (Estes subterrâneos ou parte deles, podem ser visitados desde que o pedido inclua, creio, um mínimo de 20 visitantes, devidamente armados de galochas, capas de chuva e chapéus. Quer dizer, roupa para enfrentar o dilúvio. Os Serviços de Águas - SMAS ou Águas do Porto, não sei como se chamam - sediados em Nova Sintra, aceitam e programam as visitas).
Em 1920 foi construído um Jardim, com lago e gruta, servindo esta agora para centro de convívio da terceira idade. No Largo, durante as Festas da Senhora da Saúde, estavam as diversões e o célebre Mastro de Subir ao Bacalhau. Para quem não sabe o que isto era, devo esclarecer que era um pau com uns metros de altura, devidamente cebado tendo no alto cruzado outro pau. Em cada braço eram colocados um bacalhau, uma garrafa de vinho e se bem me lembro chouriços em argolas. Quem conseguisse subir ao pau, ganhava de prémio o material exposto. Bonecos representativos dessa paródia não faltavam nas cascatas sanjoaninas. E na que meu pai me fazia todos os anos não faltava mesmo.
Voltando à história deste lugar. A oeste acaba a Rua de Vale Formoso e começa a Rua do Amial, assim chamada por causa dos muitos amieiros que por aqui existiam. Foram parte desde tempos remotos da Estrada de Braga que começava no lado direito do Largo dos Ferreiros, actualmente Carlos Alberto. Presumo que é esta a famosa estrada que desde o séc. XVI se chamava dos 9 Irmãos. Mas séculos antes a Via Romana que ligava o Porto à Bracara Augusta terá por aqui passado.
Antes da construção do Jardim, em 6 de Fevereiro de 1866, Antero de Quental e Ramalho Ortigão andaram a bater ferros um contra o outro por causa da Questão Coimbrã. Quer dizer, parece que o duelo se deu derivado aos insultos escritos com que Antero mimoseou as obras e/ou opiniões de Castilho tendo este sido defendido pelo Ramalho chamando covarde a Antero. A história regista que Antero ganhou por um arranhão. No final ficaram todos amigos. Gente culta é outra coisa. Por curiosidade e para demonstrar a falta de cuidado com o que se publica, no site da Junta diz que foi em 1865. Quem escreve verdade ?
Quási no final da Rua de Vale Formoso - desconheço a razão do toponímico - encontra-se o que o portuense chama de Bom Pastor. Presumo que seria um antigo convento de uma irmandade vocacionada para o acolhimento de mulheres. A Congregação do Bom Pastor, com ramificações pelo País está activa. Aqui viveu entre 1894 e 1899, altura do seu falecimento, uma monja - me desculpem se erro o nome, mas é um leigo que vos escreve - nascida na Alemanha em 1863 e sepultada no Cemitério de Paranhos. Criou um carisma muito especial e ficou reconhecida com a Santinha de Paranhos.
Não sei ao certo se as antigas instalações do Quartel de Transmissões, conhecido como Quartel do Bom Pastor, agora uma ruína, desactivado desde 1995, fazia parte das instalações da Congregação. Em tempos numa conversa, afirmaram-me que sim, tendo resultado de uma troca de interesses com o Estado Novo. Adiante.
O JN de 19 de Julho de 2008 publica que o Comando Metropolitano da PSP do Porto vai deixar o Aljube e instalar-se no antigo quartel que vai sofrer obras de restauro. Provàvelmente a começar em Janeiro, segundo o Secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna da altura, José Magalhães. E incluirá uma nova esquadra, a do Bom Pastor. Um longo artigo o do JN.
O Expresso de 13 de Março de 2010, com origem na Lusa, publica a seguinte notícia: A PSP do Porto vai concentrar o seu comando metropolitano, a Divisão de Trânsito e um hotel para polícias na zona do antigo quartel militar do Bom Pastor, onde também já está a construir-se uma esquadra. Afirmações do Secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna, Conde Rodrigues.
Ora bem. A degradação está igual, mas a nova esquadra lá está. Num novo edifício entre o da Congregação e o do antigo Quartel, adquirido pelo Ministério do Interior em 1995. Com umas traseiras onde se pode apanhar o bom sol de inverno, jogar com uma consola manual e tomar um café e conversar. Assim estavam 4 pessoas fardadas à PSP quando entrei pela porta do cavalo e fui pedir autorização para entrar e fotografar apenas o emblema das transmissões. Manias de veterano. Claro que fui corrido com um não pode em formas grosseiras, tanto pelo jogador de consolas - um chavalo aí dos seus 23 a 25 anos - como por um outro agente (?) que apareceu à janela, mas que pelo sim pelo não falou para dentro e renovou o não pode no mesmo estilo policial. E depois quer esta rapaziada que  fiquemos do lado deles... O Peixoto, velho companheiro destas minhas andanças, só se ria. Mas fiz a foto tanto de parte das ruínas como do emblema, encostado à esquadra. E não foi às escondidas, porque os policiais disseram pode.
Mas os meus finalmentes eram a Rua de Monsanto.
Que começa mesmo em frente à Arca d'Água. Lá estão ainda as velhas Alminhas, agora sem santo - ou santa - bem como o antigo tanque público, mas devidamente renovado. E os terrenos que eram a utopia do falecido Linhares ex-presidente do Salgueiros, para a construção do novo estádio. Tudo a monte e o lago que se criou e onde parecem existir peixes que amigos do ambiente trouxeram para se reproduzirem e servirem posteriormente só para entretimento de pescadores com alma. É pescar e devolver ao lago.
Pela Rua de Monsanto ou nas suas cercanias, encontramos ainda caminhos antigos. Mas a história da Cidade diz que foi Rua do Regado pelo menos até 1933. E tomou o nome, pensa a nossa autarquia, advindo da vitória republicana sobre as monárquicas na serra do mesmo nome, junto daquela cidade. E atiram para o Andrea de Cunhas Freitas esta hipótese. Homem de Lisboa que veio para o Porto como secretário da Câmara de Falências e morreu em Vila do Conde em 2000 deixando muitas obras sobre o Porto. Mas uma coisa é certa. Não encontro a cidade de Monsanto em Portugal, mas sim a Aldeia, que foi considerada no tempo Salazarista como a mais Portuguesa. Gostos. Mas na história da Aldeia não há nenhuma referência quanto a vitórias republicanas contra monárquicas. Será que a nossa querida Câmara não tem registos das actas em que se resolvem dar o nome a Ruas e os porquês ? Até que esta nem é antiga. Mas quem sou eu para me meter nestas coisas. 
Aqui temos a "famosa" Rua Nove de Abril, à entrada de Monsanto e bem próxima da Praça com o mesmo nome, a tal que os tripeiros chamam de Arca d'Água. Trabalhei numa oficina metalúrgica fabricante de candeeiros, sediada na rua. Acontece que para secar umas peças com um bico de gás conforme me ordenaram e que eram metidas num pequeno foço onde estava a garrafa bem como uns desperdícios de algodão, resolvi pegar fogo aos ditos, involuntàriamente, claro. Entrei numa segunda-feira de Outubro de 1959 e saí na segunda-feira seguinte, data do incidente. Ainda não tinha completado 14 anos mas já se adivinhava que o meu futuro não era a industria do ferro.
Então o porquê desta Rua e a Praça se chamarem de Nove de Abril. Diz a tal toponímia da cidade que é em lembrança da Batalha de La Lyz, travada nos campos da Flandres no ano de 1918, onde as tropas portuguesas se vestiram de glória. Curiosamente, foi em Nove de Abril de 1833, que os liberais de D. Pedro IV sitiados pelas tropas do absolutista D. Miguel, tomaram de assalto o forte reduto do Covelo, aqui em Paranhos. Assim, questiono se a antiga Rua da Bica Velha, chamada desde 1933 (?) de Nove de Abril, bem como o Largo, serão em memória de La Lyz ou do assalto ao Covelo ?

No final de Monsanto encontramos o Bairro do Carvalhido e o que foi o Monte da Caramila. Só conheci este nome porque o meu amigo e freguês do Luxemburgo mo referenciou. E confirmei por uns habitantes com quem meti conversa.
Porque o meu amigo fez a primária na escola 105, da Caramila fui investigar. Hoje chama-se como muitas outras de EB.1+2, ou coisa parecida, que não faço ideia do que quer dizer, mas inclui um infantário. Mas é conhecida como naquele tempo, da Escola da Caramila. E sabem como descobri ? Porque um escritor juvenil escreveu no seu blogue que foi lá promover um livro de sua autoria. Bem escrevi há Junta de Freguesia de Paranhos para saber mais coisas do lugar. Mas como é habitual e por isso já nem estranho, o meu pedido não teve resposta. O rumo é o mesmo de todas as autarquias, incluindo a Câmara Municipal: O cesto dos papeis. A excepção honrosa foi a da Junta de Santo Ildefonso, que me informou onde era - é - a Casa de Germalde, mas não sabiam que o Ramalho Ortigão tinha lá nascido.
Chegado a São Dinis resolvi, contràriamente aos meus princípios subir a Rua. O antigo canil onde o  Boby, adoptado pelos meus pais já eu era bem grandinho, foi abatido ficando um grande vazio lá em casa e enorme desgosto. Hoje é mais uma entre tantas repartições do ambiente da Câmara.
No início (ou fim não sei bem) da Rua de S. Dinis próximo da Vale Formoso, está o saudoso Cine-Teatro Vale Formoso. Por me portar bem, a minha avó dava-me 25 tostões para ir ver os filmes do Joselito e do Marcelino. Era um cinema de bairro, mas meio aristocrático. Em 1950 os meus pais vestiram-me de Pierrot, fato feio pela minha mãe em cetim amarelo com botões e gorro preto e fomos a um carnaval no Vale Formoso. A maquilhagem esteve a cargo da Mimi. Tenho a foto feita dias mais tarde no Salvador em Santa Catarina e a lembrança de alguns pormenores, incluindo a orquestra vestida de branco. 
Ao palco onde Merce Cunninghan dançou com musica de John Cage nos anos 60'
estão agora os senhores mal aventurados da IURD que não conseguindo comprar há uns anos o Coliseu do Porto vieram tomar conta deste belo espaço.
Fechado no momento, mas dizem que vai ser centro de convívio social.
Imagino as obrigações que os irmãos vão ter de fazer para conviver


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

90 - Espinho e Ó Tempo Volta p'ra Trás

Nunca gostei particularmente de Espinho. Nem há 44 anos quando fui obrigado a vegetar por ali, nem agora. Acho mesmo que quem gostou e amou Espinho verdadeiramente, foi o camarada Canhão, companheiro de muitos companheiros meus, que foi como uma marca registada da vida desde Vendas Novas, ali bem próximo de Évora. Infelizmente já não está entre nós desde há precisamente dois anos. Esse Alentejano de Borba, que escrevia poemas e amou, se não todas, quási todas as meninas Espinhenses. E nunca se esqueceu delas, nem desta Cidade, alguns anos depois.
Mas o António Canhão foi único. Sem ele, Espinho não seria tão lembrado.
Espinho, bem como os seus vizinhos a norte, embora não tenham nada a ver com um comum autárquico, Miramar, Aguda e Granja, tomaram desde o princípio do século passado um ar burguês, onde as vivendas e palacetes da gente fina que vinha de fora, se lhes impôs como uma marca registada. Hoje, quási tudo está em ruínas. Eram as praias dos ricos. Mas era e é, terra de gente séria e franca, conserveiros, cordoeiros, pescadores. Com as quais ainda convivi algum tempo. Hoje já não existem estes misteres. Os pescadores ainda se arrastam por essa costa, da Aguda até Silvalde. Só para lembrar aos mais novos que ainda existe alguma faina. Os tractores substituindo os bois na Arte Xávega.
Mas Espinho ainda continua a querer impôr-se como estância de veraneio. E acho muito bem. Mas a moda dos edifícios recuperados é muito sui-generis: recupera-se a fachada e constroi-se logo atrás em altitude. Este da foto é um pequeno exemplo, mas outros são bem mais gritantes no seu exagero. Que poderá não ser em altitude, mas a descaracterização do que foram alguns belos edifícios da época de ouro de Espinho. O Cine-teatro São Pedro é um exemplo. O outro é o Nosso Café. Um àparte, dirigido especialmente à minha querida amiga Gisele, a mais Portuguesa de todas as Cariocas: Se quiseres as fotos destes mamarrachos, tens de me pedir muito. E mesmo assim não sei se as enviarei. Por vezes, nas recordações não se devem mexer.
A velha Estação da Linha do Vouga. A Linha ainda funciona, com as bilheteiras aqui ao lado num pequeno cubículo e os funcionários com ar de arreliados e complicando a vida a quem quer utilizar o comboio. Estive lá e tenho fotos. Por vezes tenho pena de não gravar vídeos, só para se ouvir como  funcionários zelosos de uma empresa altamente deficitária do Estado Português tratam os utentes de um serviço que deveria ser público.
Precisei, neste momento do campeonato, de desafogar umas m'águas. Tentei utilizar as traseiras da antiga Estação. Não sou de indecoros, muito menos junto de uns rapazinhos utilizando umas seringas e cantando o hino nacional da sua comunidade. Para alguma coisa servem as paredes da Estação velha.
As placas comemorativas dos 100 anos da fundação da Linha do Vouga e da Estação de Espinho. Uma das mais antigas linhas férreas do País.
O comboio iniciando a sua viagem. Todo aquele espaço que outrora foi lindo, deve servir para tudo. Mais parece que caiu por ali uma bomba e nada foi recuperado.
Mas voltemos ao veraneio e aos seus espaços.
A enorme piscina municipal que vista das janelinhas voltadas para a praia, mais parece um aquário. Mas não de peixes ou outras espécies marítimas.
Aquela tijoleira a toda a volta deve dar uma sensação de prazer que nem os romanos nas termas que descobriram por esse nosso Portugal sentiram.
A praia norte não tem limites. Podem os trabalhadores e trabalhadoras do bronze vir até ao "Calçadão".  Há sol para todos. E vento também, ou não fosse ele aqui de uma qualidade impar.
Mas há algo extraordinário em plena cobertura - uma enorme praça sem graça nenhuma - da linha ferroviária do Norte. Uns tubos enormes, surrealistas, que talvez ficassem bem num museu de arte contemporânea. Mas na via pública ? Mesmo que sejam respiros indispensáveis ao interior da linha férrea, não era (será) possível um artista tirar um bom partido da situação ? Mas isso sou eu a imaginar...
Voltando à praia e a uma mimosa tenda-casa de veraneio. Com vistas para o mar. Ao montar e ao desmontar.
Nem tudo é mau e para os saudosistas desfrutarem desta vista antiga de Espinho, mas não tanto como isso. Com destaque para o Estádio Violas onde o meu Salgueiros há cerca de 20 anos, derrotou os Tigres sagrando-se Campeão Nacional da segunda divisão, permanecendo na primeira até acabarem com ele. No mesmo dia, o FêCêPê também realizou feito igual, mas referente à primeira. Noite de farra, ainda a Avenida dos Aliados, no Porto, claro, era palco de grandes festanças. Tudo acabou no Mal Cozinhado, cheio como um ovo  e também na extinta Taverna de São Jorge, nas Virtudes. Como queria ser o Mourão e saber cantar Ó Tempo... Volta p'ra trás...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

62 - O Salgueiros e o Campo Engº Vidal Pinheiro

O meu Salgueiros fará 100 anos a 8 de Dezembro. Mas é do seu último campo de jogos, hoje transformado num terreno baldio, que quero recordar.
Depois da zaragata com meu pai - ver poste 61 - e relacionada com o Porto (clube) e o Campo da Constituição, passei a "frequentar" muito assiduamente o velho campo de Augusto Lessa, nome com que primeiramente foi baptizado o Vidal Pinheiro. Cuja estória remonta a 1930, quando o velhinho Salgueiros foi expropriado do Campo do Covêlo em 1929, por motivos gananciosos do famigerado sr. Paranhos.
Encontrei esta foto cuja legenda refere um jogo com o Futebol Clube do Porto, no Covêlo, esse lindo campo de futebol. Palavras de meu Pai.
Mas é de Vidal Pinheiro e do tempo que por lá passei a assistir (muito mais tarde a jogar) a jogos de andebol, voleibol, futebol de juniores, reservas (não me lembro das 2ªs e 3ªs categorias) e claro às grandes tardes dos seniores. Em pista improvisada, também lá treinavam as equipas de atletismo masculinas (de onde saiu Henrique Inglês, o nosso "Carlos Lopes" muito antes deste aparecer) mas principalmente as femininas, que ao nível nacional eram das melhores, a par da famosa equipa do Belenenses.
Mas adiante, que é de Vidal Pinheiro a recordação.
Haviam várias entradas para o Campo. Uma pela viela, assim chamada por causa do caminho estreito cujo piso em dias de chuva era um autêntico lago. Valiam as pedras que os moradores e o dono do tasco ali deitavam para se poder passar. Claro que os copos (antes, durante e depois dos jogos) eram importantes. Para todos.
Hoje estão todas as habitações em ruínas, tão lamentável como tudo à volta. Lá ao fundo, o velho portão de acesso ao campo.
As outras entradas faziam-se pela Rua Augusto Lessa, do qual o campo tomou o primitivo nome. Dizia-se que o Sr. Engº Vidal Pinheiro, dono destes terrenos, o alugava por um preço simbólico ao Salgueiros. Enquanto foi vivo e depois os seus herdeiros, permitiram toda a série de alterações que ao longo dos anos foram feitas no terreno. Daí ter tomado o nome porque era conhecido em sua homenagem. Mesmo depois de comprado, continuou com o mesmo nome.
Soeiro numa defesa que hoje se diria para a "fotografia". Ao fundo a primitiva bancada de madeira, que em 1957 foi remodelada, com camarotes na parte superior.
A Académica em apuros. Wilson aguarda expectante enquanto Ramin (tenho dúvidas se será ele mesmo) enfrenta Teixeira e o baixinho Lalo. Ao fundo, o peão que já havia sido remodelado.
O grande Alfredo Valadas, legenda do Benfica e da selecção nacional, alentejano de nascença, nos anos 50 treinando em Vidal Pinheiro. Creio que o fazia às equipes juniores e seniores. O varandim do peão era todo trabalhado
Um jogo contra o Vitória de Guimarães. Ao fundo, meio encoberto pelo braço do Mendes, o do pé canhão, o célebre sobreiro que existia na topo do peão, onde se reunia a "malta do bota abaixo".
Em meados da década de 70 um jogo com o União de Tomar.
Será o Conhé o guarda-redes do União ?
Nessa mesma década, com o impulso do treinador Joaquim Meirim (que quási levava o Salgueiros a subir ao primeiro escalão de futebol nacional) iniciaram-se obras no campo. Foi a época dos 25 tostões para as obras e o sorteio da bola do jogo entre os contribuintes. Foi o fim do sobreiro.
Obras posteriores foram as do arrelvamento, a luz eléctrica e a bancada. Não sei como foi permitida a sua utilização. Poucas vezes lá me sentei, pois além de ser uma passagem escorregadia, tinha medo da maneira como ela assentava em terreno pantanoso. Mas admirava imenso os operadores de câmara de TV, que subiam por uma escada de "trolha", talvez com uns 5 metros, para uma plataforma suspensa das vigas.
Já vi em reportagens da TV imensas bancadas caírem. Aquela numa localidade Brasileira e a do Algarve foram as mais recentes. Nunca percebi como a de Vidal Pinheiro nunca caiu.
O Estádio como se passou a chamar estava airoso na década de 80/90. O espaço em branco foi posteriormente coberto com relva sintética.
Por aqui passaram grandes nomes do futebol nacional e internacional. Vi o Zé Augusto, ainda no Barreirense, ficar sem calções, puxados pelo Gualdino, numa das suas famosas arrancadas, neste caso, pelo lado esquerdo. Vi num treino o Barrigana partir a perna ao Rosas. Deliciava ver os pés de veludo do Porcel, um dos rejeitados do Porto na era Yustrich; A fúria do estremo esquerdo Benje, saído incompatibilizado com o Guimarães; e a famosa linha avançada que levou o Salgueiros a Campeão da 2ª em 1957: Lalo, Lopez, Júlio Teixeira, Taí e Pintos.
Mas o jogo mais dramático que vi neste campo foi na era do menino Henrique Calisto, um dos bébés do Leixões, transformado em bébé treinador. Princípios dos anos 80 e o campo ainda era pelado. Último jogo da Ligilha de subida à primeira divisão. Salgueiros precisava de ganhar e estava a perder com a Académica 1 a 0. O Braga era o virtual campeão pois ganhava em casa. Se empatasse, subia a Académica. Faltavam 15 minutos para os jogos acabarem. O Braga sofre o empate. Sobe a Académica.
O Salgueiros vai buscar a Alma e em 15 minutos resolve o jogo a seu favor por 3 a 1 e ganha a subida.
Restos do velho campo, vendido ao Metro do Porto em finais dos anos 90.
O ex-peão de topo ainda guarda algumas relíquias dos velhos tempos.
Para ali está abandonado, com o elevador e duas caixas de concreto bem à mostra,
no meio da planície pantanosa
Um campo relvado é o que resta e onde os miúdos mostram as suas qualidades
Um dos bares de antigamente
Obras do Metro
A actualidade
Fica perpetuado na estação do Metro o nome do velho Salgueiros. É bem pouco para uma Instituição de Utilidade Pública, Comendador da Ordem do Infante e tantas outras coisas, que não servem para nada. Será que a Câmara Municipal e a Sociedade do Metro teriam (ou terão) direitos para utilizar o velho nome ?
Foto de autor desconhecido, recolhida na net.

Palavras para quê ? É um terreno baldio, como tantos outros espalhados pela cidade. Neste caso tem um dono bem conhecido. Sociedade Metro do Porto. Não sabem que fazer com ele e portanto para ali vai estando. Mais uma vergonha da Cidade. É o que resta do velho Estádio Vidal Pinheiro. Que foi do Sport Comércio e Salgueiros. Um clube Centenário

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

61 - O Campo da Constituição

Este escrito não tem nada a ver com cores clubísticas. É mais uma recordação das minhas infância e juventude e do local onde vivi. Portanto, os fanáticos que tirem o cavalinho da chuva e não prometam pancada antes do tempo.
Morei a dois passos, entre os campos da Constituição, do Luso e do Estádio do Lima. E a quatro do de Vidal Pinheiro. Quer dizer, Futebol Clube do Porto, Académico Futebol Clube e Sport Comércio e Salgueiros. Fui sócio de todos e de alguns em simultâneo. Atleta de dois deles. E de mais outros dois, que não tendo campo, jogávamos em todos eles; tudo isto entre os meus 16 e os 30 anos. Com um interregno entre os 20 e os 25.Mas voltemos às recordações que o Campo da Constituição me deixou. Era bem pequeno e um vizinho, portista ferrenho, levava-me a ver os jogos do Porto. Umas vezes de manhã, creio que seriam dos júniores ou das segundas ou terceiras categorias, não me lembro. Outras de tarde, aos jogos do campeonato nacional. Fiquei andrade ferrenho, também. O meu pai, bem como meu irmão, bastante mais velho, eram e foram toda a vida, Salgueiristas. Embora meu irmão tenha tido uma costela academista, pois foi seu atleta durante muitos anos.
Em determina altura, julgo que andaria pelos meus 5 a 6 anos, tive uma discussão futebolística com meu pai. Num domingo à noite, à mesa de jantar. Pelos vistos duríssima, pois foi necessário a minha avó pegar em mim e levar-me para casa dela salvando-me de uma tareia. Tudo porque o Salgueiros perdeu e o Porto ganhou.
Conclusão: fiquei proibido de ir ao futebol com o Sr. Júlio Cardoso. Para que conste, dois ou três anos mais tarde, como prémio pelo bom aproveitamento escolar - passei da segunda para a terceira classe - meu pai fez-me sócio do Salgueiros. Mas antes, sem ele saber (???), meu irmão já me havia feito sócio do Académico. Mas isso fica para outro dia.
Há dias passei pelo Campo, agora funcionando como Escola de Formação do Clube. Olhei à volta, recordando o que era aquele espaço. E à volta ainda se vêm algumas das casas do meu tempo de menino e não só.
Num espaço destinado a recepção, cafetaria e sala de espera, encontra-se um painel com fotos recordando jogos e a assistência que nele cabia.
A sua inauguração ocorreu em Janeiro de 1913 e foi o recinto desportivo do Futebol Clube do Porto até Maio de 1952, data da inauguração do Estádio das Antas. Também foi utilizado por outros clubes aos quais era subalugado.
Por todo o lado esquerdo, encontrava-se uma bancada em madeira. No canto à esquerda, havia um caminho criado para saltar um muro baixinho por onde se passava para ver os jogos.


Grandes momentos com as imagens focadas para o lado da principal bancada a todo o comprimento do lado esquerdo de quem entra.
Aqui eram os balneários. Entre eles e as bancadas do topo havia um ringue pavimentado a cimento onde se praticavam todas as modalidades que hoje o são em pavilhões. As entradas eram de ambos os lados.
Uma imagem dos balneários. E lembro-me muito bem da árvore entre os balneários e o ringue.
Todo o lado direito era o peão lateral. Quási encostadas ao muro, ainda existem casas daquela época.
Ao fundo era a entrada para os peões, lateral e de topo chamemos-lhe Noroeste.


Imagens de jogos com esses peões em fundo. Com a chuva o terreno ficava vidrado.
A Bancada do Topo Sul. Era aqui que ficava quando o meu vizinho me levava à bola. Nos jogos grandes tinha de estar ao seu colo. Os atletas entravam pelo lado direito e os adeptos pelo centro da bancada.
Um vista actual tomada a partir do antigo ringue.

Duas panorâmicas a partir do Google com 4 anos de diferença.

Na de cima, o pelado ainda é bastante visível, bem como o ringue.
Na de baixo é o aspecto actual
Pronto amigos, já está. De memórias e recordações se faz a vida, que não é nenhum museu. E para que conste, desse meu tempo de menino e da Constituição, só me lembro de um jogo. Porto x Oriental, com a vitória azul por 4 a 0. E de um atleta: O Barrigana, o famoso mãos de ferro, que veio para o Porto, emprestado pelo Sporting, por uma época mas que ficou por 12. Tendo acontecido apenas por casualidade, porque o Andrasik fugiu à Pide, pois era anti-nazi. E o FêCêPê ficou sem Keeper. Dispensado por Yustrick, ganhou o único titulo nacional da sua carreira ao serviço do Salgueiros em 56/57. Outras estórias.