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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

258 -Trás-os-Montes, o Bem Receber e as Boas Comidas - Amigos. I

Há cerca de dois anos, o já velho e muito conhecido Bando do Café Progresso recebeu um convite do membro Barreto Pires para visitar a sua Terra Dornelas, ou Couto de Dornelas e assistir ao acto do almoço durante as Festas em honra de S. Sebastião em 20 de Janeiro de 2015.
Dornelas é uma Freguesia situada a Noroeste de Portugal, no Concelho de Boticas envolvida pela Serra do Barroso.
O Couto de Dornelas, criado em 1127 teve a sua origem num nobre cavaleiro chamado Ay Ayres, que tendo raptado uma Dama da corte de D. Afonso Henriques, o nosso primeiro Rei, e com ela veio viver para estas terras. Como eram despovoadas fez cá a sua residência e capela.
Este nobre tinha privilégio real e por isso todos os que se acoutassem à sua capela, não poderiam ser presos nem punidos pela justiça do rei. Juntou-se muita gente a quem ele mandou que cultivassem todas as terras à volta da sua capela. Desta forma povoaram-se as sete aldeias da freguesia: Vila Grande, Vila Pequena, Antigo, Espertina, Gestosa, Lousas e Casal.
No dia 20 de Janeiro, Dornelas oferece o almoço aos milhares de pessoas que por ali passam para participar na Festa de São Sebastião.

O nosso querido amigo e ex-camarada Barreto Pires ofereceu-nos na sua linda "Casa Nova" uns aperitivos e entradas com muitas coisas boas.
Em seguida fomos assistir à cerimónia. Na imagem o Barreto Pires e o Presidente Teixeira.
Ao longo da Rua principal vão-se juntando as vizinhanças de outros lugares para receberem simbólicamente o almoço de carne cozida, pão e arroz.
Arroz e Carne são cozinhadas em 20 potes de ferro. 
Segundo a lenda a festa resulta de uma promessa feita pela população local que, em troca da protecção do santo contra a fome e a peste decidiu oferecer um almoço anualmente a todos os que passassem pela região.
 É rezada Missa...
 Assistindo à Benção das Panelas
...Depois a sua distribuição na companhia do Santo.
A Mesa, no dia da nosso visita, teria cerca de 2 km. 
Não vimos a distribuição pois o Barreto Pires convidou-nos a conhecer a sua Aldeia. 


Estava na hora do Barreto Pires nos Bem Receber...
E nada melhor do que junto à lareira da Casa Velha onde lhe fizeram companhia o
Alberto e o Presidente
  No fogo da lareira estrugiam Rojões na sua própria gordura.
Ei-los na mesa com a bela cor dourada própria dos produtos de primeira qualidade.
No tecto pendurados pedaços do melhor Porco, que já passaram pela cura do sal.
Agora é o fumo que lhe vai dar o resto do excelente paladar

Que dizer do "grandioso" cozido que nos foi apresentado ? Por todo o Portugal, o Cozido à Portuguesa é um prato que fazemos nas nossas casas e qualquer restaurante o tem na sua ementa.
Mas recordemos que estamos no Frio Noroeste Transmontano onde se produzem das melhores carnes do País e se cultivam os legumes mais saborosos. O segredo dos grandes pratos começam pela confecção dos melhores produtos.
A gentileza do Casal Barreto Pires foi ao ponto de nos oferecer um pão de seu fabrico, cortado para cada um dos membros do Bando.
O Barreto Pires em plena operação.
Eis as razões porque gosto de Trás-os-Montes e dos Transmontanos. Lhaneza no trato, casa aberta e bem receber com o melhor que têm. Carnes, Legumes, Vinhos, Azeite, Amendoa, Mel.
Obrigado Barreto Pires

domingo, 2 de agosto de 2015

223 - O ciclismo e uma lágrima ao canto do olho

Por ordem de preferências atlético-desportivas de quando era menino, à frente do futebol, do andebol, do hóquei em patins, esta foi a ordem de trás-para-a-frente, o ciclismo era a minha modalidade preferida.
Peso da Régua
Li sobre as rivalidades de outrora entre Nicolau-Trindade, coisa mais de clubes Sporting-Benfica o que para o Norte parece não ter representado grande coisa. Mas o ciclismo começou para mim com os mitos Alves Barbosa-Ribeiro da Silva, representantes de clubes pobres, como foram o Sangalhos e o Académico do Porto.  
Santa Marta de Penaguião
Li há dias no JN uma crónica sobre a volta a Portugal e a sua chegada a Vila Real nos anos 50 e 60 pelo embaixador Seixas da Costa ( http://www.jn.pt/opiniao/default.aspx?content_id=4708575 ) que é uma espécie de visão de como eu imaginava as maravilhas dos Reis da Estrada, para além das espreitadelas que dava para ver os homens em carne e osso, principalmente os do Porto no Café Excelsior. O meu pai rememorava o Café dos Ciclistas pois as lembranças são poucas.
Entre Santa Marta de Penaguião e Vila Real
Depois apareceram outros mitos ciclistas portugueses que acompanharam o meu crescimento como Emídio Pinto, Américo Raposo, Artur Coelho, Sousa Cardoso, Jorge Corvo, Lima Fernandes, Henrique Castro, António Baptista, Alberto Carvalho, aliados já nessa altura aos estrangeiros Bahamontes, Anquetil, Van Looy, Bobet, que vi actuar em exibições ciclistas na Pista do Estádio do Lima, local de muitas chegadas e finais de voltas.
Aproximação a Vila Real
 Na minha fase de adulto-velho apareceram o Peixoto Alves, o José Pacheco, o Marco Chagas e o maior de todos o saudoso Joaquim Agostinho.
Porquê o relembrar destas coisas do ciclismo ?
Vila Real
Porque agora para além de apreciar o esforço de alguns ciclistas, que só de olhar pela TV me cansa, vislumbro imagens de sítios por onde nunca andei e outros que tenho bem frescos na memória.
A Caminho da Barragem do Alvão
Nunca me canso de dizer-escrever que o meu Portugal tem locais deslumbrantes dignos de serem vistos e apreciados. Sei que muitos portugueses tecem imensos louvores ao que há lá por fora e não o contradigo. Mas creio que a maioria nunca olhou para nós cá dentro.
Barragem do Alvão
Não é por ser nortenho, mas tem o norte maravilhas únicas e não me refiro apenas às paisagens. Sou um especial admirador da Região Transmontana-Duriense que em tempos muito calcorreei (bem como quase todas as regiões de Portugal) mas nunca admirei devidamente por falta de poder descansar o olhar.
Fisgas do Ermêlo
Ora hoje os ciclistas vieram lá da Beira e atravessaram o Douro na Régua para acabar no Monte da Senhora da Graça.
A caminho de Mondim de Basto. O Monte da Senhora da Graça recortado no fundo
 Eles não tiveram oportunidade de olhar o que os rodeava, mas eu fui matando saudades pelo que ia vendo através da TV, refastelado e acompanhado pelo D. Helena, aquele brandy maravilhoso que o Luís Bateira há pouco me ofereceu.

Foto acabada de roubar na net. Ao fundo a Senhora da Graça
 O templo no alto do Monte da Senhora da Graça, um dos Caminhos de Santiago, foi há dias local de rememorar tempos idos com uma peregrinação das gentes de Mondim de Basto e não só.
Foi final da etapa.
 Não sei que montanhas vemos em redor. Mas sei que estão unidas umas às outras: Peneda, Gerês, Soajo, Amarela, Larouco, Barroso, Marão, sei lá. A minha memória já não me deixa debitar todas nem a ordem porque vinham nos livros de Geografia da minha-nossa infância.
 Para o caso não interessa nada. Portugal a Norte-Noroeste é isto.
 Viva o ciclismo e o meu amigo Fernando Súcio que me tem proporcionado viagens maravilhosas pelo Reino Encantando, como escreveu Miguel Torga.
As fotos seguiram o itinerário que os ciclistas da Volta a Portugal fizeram hoje. Desde que atravessaram o Douro, vindos dos lados de Lamego.
As últimas são uma pequenina parte do que podemos apreciar do alto da Senhora da Graça.

Agora vai uma loirinha porque estou com muita, muita sede. E cansado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

208 - O Couto de Dornelas e a Festa de S. Sebastião

O meu amigo e ex-camarada desde os tempos de Vendas Novas e já lá vão mais de 47 anos, o Barreto Pires, fez um convite ao Bando do Café Progresso - os amigos e ex-camaradas sabem a quem me refiro - na pessoa do Presidente Jorge Teixeira (Jotex para os amigos ) para uma visita à sua terra por altura das Festas de S. Sebastião.
Dornelas fica nas terras de Barroso, freguesia do Concelho de Boticas em Trás-os Montes.
Convite aceite e a rapaziada meteu carros e camionetas ao caminho. Uma grande parte do percurso desde a minha-nossa Cidade do Porto - e há duas alternativas - é feita por auto estradas e depois por estradas nacionais de muito boa qualidade.
O nevoeiro e a neve são presenças nesta altura do ano. E se nuvens escuras são sinónimo de frio, não assustam viandantes experimentados, tenham ou não assumido temperaturas de 40 e mais graus nos velhos tempos.
Vamo-nos aproximando do destino, Barroso cá estamos nós, mas ainda há tempo para umas fotos paisagisticas
Chegados e bem dispostos, (já tínhamos feito o mata-bicho na casa nova do Pires) vamos então conhecer Dornelas e a história da Festa de São Sebastião. Na foto, o Cruzeiro.

O Povo local gosta que lhe chamem Couto de Dornelas, criado em 1127 pelo nobre Ay Ayres que raptou da corte de D. Afonso Henriques (o nosso primeiro) uma dama e com ela veio viver para estas terras que, segundo a história era despovoada. Construiu residência e capela.

Torre posterior e Igreja matriz onde se realizou a Missa em honra de S. Sebastião
Foram chegando forasteiros para a povoar e logo que se acoutassem à capela não poderiam ser presos nem punidos pela justiça do rei. Começaram a cultivar os terrenos para o senhor.
 Pelourinho. Ao fundo a serra do Barroso e a neve.
Vamos descobrir a Festa de S. Sebastião presa a duas lendas.
Uma antiga de há muito, muitos anos... houve na região um ano de muita fome e peste. O Povo pediu a S. Sebastião que os protegesse. Em troca prometeram realizar  uma Festa onde não faltasse carne e pão a quem a ela comparecesse.

A Torre vista de trás e o Povo esperando à porta da Igreja o final da missa

A mesa do Santo que se estende pela Rua principal
Os anos passaram e o povo foi ficando esquecido do seu Santo e da Festa, mesmo que tenham havido anos de doença e fome. Até que chegaram as invasões napoleónicas, mais concretamente a segunda de 1809 com a sua fama de pilhagens, violações e mortes.
O povo voltou a acolher-se sob a protecção do Santo: Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos no dia 20 de Janeiro uma festa em tua honra onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier...

 A mesa entendendo-se ao longo da rua principal.
Continuando a história da lenda, caiu um nevão tão grande que não permitiu aos invasores franceses descer ao Couto.
Diz o meu amigo Barreto Pires que os invasores transitavam em direcção ao Porto pela estrada romana Chaves-Braga que passa pela serra do Barroso e aqui bem perto.
 A carne era e ainda é cozinhada nos potes de ferro, na casa do Santo à volta de uma grande lareira.
Porque não consegui melhores fotos, recorri ao meu amigo Fernando Súcio.
O Povo cozinhando para o Povo
A bênção da comida 

Saída para a procissão 
O Santo saindo da sua casa

Espigueiro onde se guardam ou guardavam os cereais. Existem alguns ainda. 

Aguardando a distribuição da comida, o Povo faz a festa. 

Vem gente de muitas localidades para a Festa. A tradição ainda é o que era.

Vão-se comendo os merendeiros trazidos de casa enquanto se aguarda pela comida benzida.
Festa é Festa e há muita animação mesmo com imenso frio. 


Velho moinho de água. Um casal sénior aproveita para merendar. 
Nestes moinhos moíam-se os cereais para fazer o pão.

Uma parte do percurso onde a mesa está instalada. Digo eu que não medi que tem 500 metros. Há quem diga que são 1000 metros. Percorrêmo-la toda mas nem dei fé da sua extensão.
Não assistimos à distribuição da comida, iría demorar muito. Seguimos para a casa velha do Barreto Pires no lugar de Gestosa, que pertence à freguesia e onde fomos presenteados com uma bela refeição.
Começando por aperitivar com verdadeiros Rojões como são servidos na região, rojidos na sua banha,  juntamente com o pão tradicional.

Contou o meu amigo Barreto Pires que no tempo dele, da tradição fazia parte o doar das carnes, que eram de Porco como ainda hoje é. Quem oferecia o Peito, o Cachaço, a Barriga, enfim, cada parte do bicho, essa parte é a que vinha para a sua mesa onde partilhava com os seus convidados e amigos no dia da Festa.
Fazendo jus à tradição da Festa fomos presenteados com o melhor e mais completo cozido trasmontano que já apreciei.
Carnes e enchidos da região, criados e fabricados em "casa". Incluiu carne de boi barrosã e frango da "casa" .
Legumes da terra, mais o feijão vermelho, arroz e hortaliças. O vinho não era o dos mortos, porque essa tradição acabou.

No final do repasto, as senhoras que trabalharam - a esposa e a cunhada do Pires, ofereceram o pão que havíamos de trazer para a viagem.
A partilha do pão pelo Barreto Pires e pela esposa D. Maria da Luz.

Assim é a tradição das gentes transmontanas, gente que muito considero desde há anos. Já não me admiro pela seu lhano e gentileza pois habituaram-me a elas.
Um abraço fraterno ao meu amigo que para além do mais me fez conhecer mais um pouco desta região e das suas tradições.