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sábado, 17 de outubro de 2015

227 - Eu, cicerone na minha Cidade. Parte I

Durante uns dias tive o prazer de ciceronear pela minha-nossa Cidade. Entre viagens, convívios, dias de mau e bom tempo, há sempre momentos e coisas a registar.
Já muito divulguei o Jardim das Águas e das antigas Fontes do Porto em Nova Sintra. Parece não receber o cuidado que deveria merecer. Será porque a entrada é livre e portanto é o deixa andar ? A Fonte que se encontrava nos claustros do Convento de S. Bento está cercada por uma fita de proibição de aproximação e por muitas mais silvas e mato do que nas anteriores visitas. Outras Fontes estão sem as referências das suas origens. A de Cedofeita logo à entrada pela esquerda é uma delas.
Resolvi fotografar uma das muitas enormes árvores que por lá se encontram. A montagem que preparei dá uma má ideia da sua altura.
Não sei que serviços ainda existem nas Águas, mas os parques de estacionamento estão por todo o lado e completos. E não são de visitantes.
O Jardim da Fonte dos Passarinhos até que está bem tratado...mais erva, menos relvado...

 Esta escultura de grandes recordações pessoais deixa-me sempre encantado. Foi Henrique Moreira o seu autor e chamo-lhe Ternura. Está no sempre romântico e bem tratado Jardim de S. Lázaro.
É sempre um prazer passear e olhar o Jardim que D. Pedro IV dedicou às Mulheres do Porto. Apreciar as esculturas, o chafariz da Sacristia do Convento de S. Domingos -a precisar de mais restauros - as belas árvores. Existe do lado da Biblioteca Pública um novo laguito que já vi a deitar água, mas entretanto parece que secou. Mas dá uma foto catita.

A pedido fui mostrar o Cemitério do Prado de Repouso. Já o divulguei em trabalhos anteriores, creio que há uns 7 anos e por causa dele deixei o meu querido amigo Álvaro à espera nas Fontaínhas para imos beber um copo. Trabalho recebido com pouco agrado,  mas actualmente as visitas a cemitérios fazem parte de estudos e de turismo. O Turismo Negro como são chamadas.
Penso que ando adiantado uns anos...
Mas sem dúvida que valem a pena, pois existem enormes obras de arte de grandes escultores e arquitectos e simbolismos que nos dão que pensar.
Só há pouco tempo fiquei a saber que o Cruzeiro fez parte do Convento de S. Bento de Avé Maria.
O Mausoléu onde foram depositados os restos mortais das freiras do mesmo convento.
 Monumento e lápides de alguns combatentes recordando o 31 de Janeiro de 1891. Nem vencedores nem vencidos. Era a República a mexer. Por muito que investigue não consigo saber quem foi o autor do monumento.
 Mausoléu dedicado ao grande Francisco de Almada Mendonça, continuador da obra do pai João de Almada e Melo a quem o Porto e algumas cidades do Norte muito ficaram a dever. Escrevem que morreu pobre, em 1804, enterrado na Igreja da Misericórdia. Os restos mortais foram trasladados para este local a expensas da Câmara do Porto sendo o busto obra de Soares dos Reis.

Passando ao lado do antigo Seminário -ainda hoje os portuenses assim lhe chamam- (edifício recuperado após dezenas de anos, que o vandalismo dos franceses durante as invasões, depois as lutas liberais  e finalmente um incêndio o ter destruido, foi instalado o  Colégio dos Orfãos  instituição criada em meados do séc. XVII no Olival, mais ou menos onde está a Reitoria da Universidade do Porto), seguimos em direcção às Fontaínhas.
O local dos lavadouros públicos está desterrado, a monte. Uma sobrevivente "Ilha" das muitas que ainda existem entre Campanhã e o Bonfim na foto.

O Morro das Fontaínhas do lado Leste. E as pontes de D. Maria e de S. João. O antes e o depois da travessia do Rio Douro pelo comboio.
 O túnel das Fontaínhas. A última parte do trajecto que liga as estações ferroviárias de Campanhã e São Bento

 A memorável e sempre recordada Calçada das Carqueijeiras, nome actual que no meu tempo de menino se chamava da Corticeira. Há quem escreva que era Rampa. Mas parece que ninguém sabe ao certo porque assim se chamava.
À esquerda ficava a primitiva fábrica de Cerâmica do Carvalhinho cujas ruínas ainda lá estão e à direita estão as ruínas da Capela de Santo António.
Não sei porquê, mas achava muito bem que esta Capela fosse restaurada. O local é histórico por várias razões.
Bom, mas já escrevi sobre isso anteriormente e estava a ciceronear e prontos.
 Carqueijeiras no seu trabalho. Está aprovada a maqueta para lhes ser erguida uma estátua.
Esperemos que não aconteça o mesmo que à do Soldado do Ultramar que deve estar à espera de não sei quê...

Santa Catarina, a Rua, e é impressionante como o Majestic consegue manter níveis de admiradores e consumidores em qualquer altura do ano e com qualquer tempo. Mas isso já não é novidade.
Nem é novidade o Alvão, sim a fotografia Alvão, com o seu "novo" espaço a servir copos. Uma ginginha com ela, em copo dedal, custa 1 euro. Estás feito ó portuense, com estes preços.
 E Santa Catarina continua a ser o ponto mais importante da Cidade. Pelo menos no consumo em Cafés e Esplanadas. E claro, para passear.

Um dos percursos que escolhi foi pela Rua da Madeira. Muitos prédios restaurados, novos restaurantes - vazios - e os velhos Quim e Viseu cheios. Almocei neste umas belas tripas - dose que dá para dois - já havia confirmado a qualidade com o Jorge Peixoto por altura do fim de ano passado. Mas fiquei surpreendido pela pescada em posta, tipo das antigas de Vigo ou actuais Chilenas, cozida, a que faltou um pouco de sal. Preços muito bons mesmo considerando a nossa bolsa. A honestidade foi ao ponto de informarem antes da encomenda que era congelada. O que eu já suspeitava pelo preço na ementa. Continuo a recomendar o Viseu.
A fachada em azulejo de um dos prédios - já a tinha procurado mas não encontrava pois haviam dito que cada azulejo era ao gosto de cada como o quisesse fazer, incluindo as cores - está com esta apresentação artística.
Nada do que presumi mas aceito porque se destaca numa rua histórica que esteve quase em ruínas.

Os tons são em branco, cinzas e preto. Um pouco como a cidade sem cor mas com imensas cores.

Em Santa Catarina chamou-me a atenção o painel informativo: Louças do Porto - Carvalhinho e Devesas. Presumo que Porto e Gaia não foram muito fortes em louças decorativas e de mesa. As fábricas do Carvalhinho e Devesas já há dezenas de anos que foram encerradas.
Segundo fui informado, a criadora destas louças produ-las (será que deverei escrever produze-as ? ou outra palavra ? Help. estou desesperado ...) segundo processos artesanais e coze-as em fornos que possui em sua casa. Nas fotos do cartaz estão as fases de produção. Devo dizer que me apaixonei por elas e não são caras.

 É numa Casa do Porto, com certeza, este belo painel.

Nas proximidades da Estação de São Bento - onde o Egas continua firme nos azulejos de Colaço - foram colocados calhaus decorados com elementos que nos parecem azulejos. Os da foto são uma ilusão de óptica. Valem a pena ser apreciados. Ao fundo o novo veio artístico muitíssimo propagandado pela Câmara do Porto (que nos retirou a possibilidade de no seu site estudarmos a toponímia) que pretende esconder as ruínas das casas que estavam na pedreira do início da Avenida da Ponte.
Esta é a verdadeira imagem destes calhaus.
E o mercado da droga e sala de chuto continuam por detrás do muro que a infeliz escultura em azul-verde pretende disfarçar.
Lamento que ninguém tome uma atitude em relação a este triste e lamentável espaço. São milhares de turistas e de população que passam por aqui diàriamente. A estação de São Bento e o Morro de Penaventosa tão histórico e monumental estão a meia dúzia de metros. A venda e consumo de droga faz-se à vista de todos. Muito triste, mas talvez seja típico nas cidades turísticas.
Ah, agentes de segurança pública não se vêm. A Cidade ainda é segura. Dizem...São vistos apenas às portas das Casas de Penhores e dos compradores de ouro. 
Tá beinhe, prontos.
Vou acabar este episódio - que em tempo real demorou uns dias a produzir - comemorado na Ribeira, na antiga Casa da Portagem da Ponte Pensil, onde uma loirinha tem um pouco mais de 30 cl. mas é servida com menos dois dedos de líquido espumoso e custa dois euros.
O Elevador dos Guindais já funciona, mas pkp, custa 2,50 euros a viagem. Digam lá se os STCP não estão a roubar a rapaziada. Julgam que somos todos camones europeus, cheios de dinheiro e levam a pobre população ribeirinha a ser comparada ao povo rico de outras bandas.
A foto acima é a reprodução de uma obra de arte e está na janela do primeiro andar de um dos restaurantes ribeirinhos. O texto parece querer referir-se à maneira do falar portuense. Se assim foi falhou pois deveria ser escrito assim:
Menina, toma este copo de binho. 
É binho do Porto muito bounhe.
Teus vraços serom gaiolas 
que prenderom o meu coraçom  
Em camone não sei se fica melhor. Adiante e para terminar. 
Sempre mostro as casas do Muro da Ribeira e os telhados em azulejo que formam as caleiras, oriundos do séc. XIX. Só que ainda não tinha reparado nas novas águas furtadas desde edifício. Presumo que está recuada - talvez casa de hóspedes turísticas - para ninguém dar fé da clandestinidade. Penso eu de que...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

171 - A Casa-Oficina de António Carneiro

Passava há dias com uns amigos pela Rua de António Carneiro, ao Bonfim, (antigamente era a continuação da Barros Lima) e junto da Casa-Oficina do Pintor que deu o nome à Rua, perguntei-lhes se algum a conhecia. A resposta foi negativa. O mesmo deve acontecer a muitos Portuenses e não só. O Porto é uma cidade escondida para os seus habitantes e os da área metropolitana, onde raramente se divulga o que tem entre portas. Há as excepções, claro, principalmente alguns, poucos, templos católicos. E o Majestic e a Lello e a Torre dos Clérigos e a Ribeira. Mas os carolas da net lá vão divulgando o que temos cá dentro. 

Recordo que visitei a Casa-Oficina em Setembro de 2009 logo na sua reabertura ao público. Já não me lembro se foi por casualidade ou por ter lido alguma informação. Esteve encerrada desde 1998 para obras de remodelação. É propriedade da Câmara Municipal desde 1973, embora tivesse vindo a adquirir parcelas desde 1958. 

António Carneiro, auto-retrato. Um dos muitos que produziu.
S. Gonçalo de Amarante, 16 de Setembro de 1872. Porto, 31 de Março de 1930.

Oriundo de uma família pobre, foi abandonado pelo pai aos 7 anos e pouco tempo depois ficou órfão de mãe. É em 1879 encaminhado para o Asilo do Barão de Nova Sintra (a 100 metros desta casa) onde fez a instrução primária. Começou a desenhar copiando desenhos de ilustrações de textos.
Reconhecida a sua vocação, ingressou na Academia Portuense de Belas Artes em 1884 com o apoio da Santa Casa da Misericórdia, tutelar do Asilo.


A casa foi construída entre 1925-1930 segundo projecto de Álvaro Miranda, um não arquitecto amigo do António (que projectou e restaurou o Hotel e várias vivendas na Granja, Vila Nova de Gaia) . Para além do atelier foi a casa de habitação da familia: esposa Rosa Carneiro com quem casou em 1893 e os filhos Cláudio, músico e grande compositor chegando a ser director do Conservatório de Música do Porto (1895-1963) 
Maria Josefina (1898-1925); Carlos, também pintor (1900-1971) 

Na Academia fez o curso de Desenho Histórico, frequentou Escultura que abandonou após a morte de Soares dos Reis em 1889 e transferiu-se para Pintura. Em 1896 terminou o Curso de Pintura da História com 18 valores.

As obras do conjunto foram concluídas em 1930, tendo o pintor António Carneiro falecido nesse ano em 31 de Março.

Em 1895 reencontrou-se com o pai, recém-chegado do Brasil e vai com ele a Amarante onde conhecesse o poeta Teixeira de Pascoaes.  Em 97 parte para Paris após receber uma bolsa patrocinada, onde frequenta a Academia Julien. 
Regressa ao Porto em 1911. É convidado a leccionar na Academia Portuense de Belas Artes e em 1918 é investido na qualidade de Professor de Nomeação Efectiva, responsável pela Cadeira de Desenho de Figura. Em 1929 foi nomeado Director mas nunca chegou a exercer.  
A par das actividades de Pintor, Professor, Poeta fez parte desde 1911 da Renascença Portuguesa desenhando o logo-tipo usado em todas as edições, nomeadamente na Revista Águia  da qual era coordenador literário e ilustrador. Aos interessados remeto-os para a minha postagem: http://portojofotos.blogspot.pt/2012/03/123-rua-dos-martires-da-liberdade.html 
Entre 1893 e 1929 expôs individual ou colectivamente em Portugal e em várias Cidades Brasileiras ( Rio de Janeiro, S. Paulo, Curitiba) e participou nas Exposições Universais de Paris (1900), Saint Louis (1904) e ainda na Internacional de Barcelona de 1907.
Pormenor da Sala principal. A casa sofreu alterações para expôr o espólio do Artista que a Câmara Municipal vinha adquirindo e creio que também dos filhos, oferecido pelo neto Nuno Carneiro. O primeiro andar onde foram os aposentos da Residência estão vedados ao público. Ou estavam na altura da minha visita.
A foto do Artista com o quadro que pintava. Presumo que os retratados eram a filha e o filho Carlos, mas já não me lembro da descrição.
Este é o original pronto. 
À esquerda o material usado por António Carneiro

 Lembro-me de ler que é um Estudo. Não sei qual mas se a memória não falha, o trabalho final está no Palácio da Bolsa.

 Sé Catedral, Sacristia

 Porto Azul visto da Vitória

 Presumo que se chama A Última Ceia

 Camões lendo os Lusíadas aos Frades de S. Domingos

 À esquerda o tríptico de A Vida

A exposição é constituída por outros acervos como livros, fotos, documentos, objectos pessoais.

Há uma sala reservada para alunos de Pintura. Algumas das suas obras não acabadas estavam bem visíveis.


Nos pequeno jardim da entrada, na altura ainda não tratado bem como os outros, estava um trabalho e mais uma vez fico na incerteza. Mas julgo que se chamava Homem amarrado. Também as árvores estavam amarradas com vários materiais.  

António Carneiro, foi um retratista por excelência (Guilhermina Sugia, Antero de Quental, Correia de Oliveira, Teixeira de Pascoaes, foram alguns dos amigos retratados) mas as suas paisagens são muito singulares. Tem obras espalhadas em Museus e colecções particulares. Destaque a decoração produzida para a Sala de Leitura da Associação Comercial do Porto, no Palácio da Bolsa.

António Carneiro, é consagrado como precursor do Simbolismo, uma corrente que não teve continuadores. Foi o artista "mais para o sentimento do que para a razão; mais emocionar do que explicar". 

Pesquisa em alguns link's  e especialmente:



terça-feira, 7 de setembro de 2010

40 - Das Muralhas Fernandinas às Fontaínhas

Andavam uns bichinhos a moer na minha cabeça. Quando assim acontece há que bater com ela até os bichinhos se soltarem. Pronto, - como agora se diz - os bichinhos se soltaram e consegui o pleno. Isto é. Três em um. Mas não totalmente. Mas isso é para outra ocasião.
O primeiro de três em um:Vi esta foto num arquivo de Arnaldo Soares. Julgo que de finais do séc. XIX, ou princípios do XX. A legenda diz: Dispensário da Rainha D. Amélia. Conversei com vários amigos sobre esta foto. Para nós, o dispensário com este nome, seria o dos Tuberculosos, na Praça e Edifício que ainda existe, mas para os lados de Santo Izidro. Mas nada batia certo: Será que havia uma Torre defensiva para aqueles lados ? A Capela não se parece nada com a de S. Crispim... As Torres que se vêm à direita parecem as da Sé, mas... O Dispensário da Rainha D. Amélia não tem este aspecto. Então um olhar mais atento leva-nos a concluir que a foto é mesmo junto às Muralhas. Embora em ruínas, presumo, a Torre não têm nada a ver com a estrutura arquitectónica da actual reconstruída. Mas há uma Capela entre a Torre e o edifício do antigo Mosteiro de Santa Clara. Que Capela era esta ? Quem nos sabe informar ?
Para que a confusão com os meus bichinhos fosse maior, recebi uma informação errada, de alguém que é cicerone de um Monumento Nacional. O edifício que se vê nesta foto, à direita, não tem nada a ver com o antigo Convento, pois é uma obra posterior de muitos séculos. Já foi a central dos Correios - Largo 1º de Dezembro - e esconde-nos a Sé.
No meio desta conversa toda, apenas um desejo. Identificar a Cidade.
Como andava por ali com terceiras intenções (uma delas já divulgada no meu escrito anterior) fui espreitar a subida - e a descida - do funicular. Repito-me muito ? é natural. Esta Cidade repete-se e está sempre a renovar-se a cada olhar. E de quem nos visita, é a primeira vez...
Desci pelos Guindais e não resisti a este contraste. A estória deste bairro será em futuro próximo.
Mas do alto dos Guindais, um olhar sobre a serra do Pilar e o seu Convento. Miradouros não faltam na Cidade. Sobre si mesma ou sobre as vizinhas.
Entrando já pelas Fontaínhas, ex-Passeio e/ou Alameda, olhamos para a Serra do Pilar. Que tanta controvérsia deu, sobre a questão dos desmoronamentos. E os despejos aos moradores. Antes de alarmismos e das sanções que o sr Presidente da Câmara de Gaia propôs, não só aos moradores legais ou não, como ao Estado - que falta de honestidade não só política como humana que o Sr. Presidente Meneses demonstrou. E nunca deverá esquecer-se que é médico - deveria fazer-se o que agora está em curso: Regular e proteger a escarpa. Um organismo estatal o disse sempre. O sr Presidente é que não gostava de o ouvir ou ler... Mas porquê ? Agora, depois de toda a polémica, aproveita-se e muito bem, a criação de uma rota turística. Escrevo conhecedor de parte daquele meio ambiente. E aplaudo. Um tasquinho lá no meio também dava geito. Penso eu de que... Bem lá no meio da escarpa, a Capela do Senhor d'Além tem gente à volta. Será que vão haver obras ? Não consigo descrever o quanto é calmante olhar o Rio. Nem tudo será bonito nas escarpas, deste e daquele lado, mas tiremos partido do que podermos. E fumo um cigarro, mesmo debaixo dum sol de mais de 35 graus, imaginando as antigas praias do Aurélio e do Borras, que já não existem, levando-me a recordações de muitos mergulhos nas águas deste Rio Douro. Continuando, agora o segundo dos três em um.
Sempre em conversas com os amigos, de vez enquanto saltam recordações como por exemplo, onde passava e desembocava o comboio Leixões/Alfândega. Fica o pessoal a pensar, e a cabeça a desenrolar a bobine. Pesquisando, vim a saber que alguém pretende reabrir esta linha turisticamente. Cena maluca, com tantas directivas, sugestões, apreciações e etc. que vêm desde 2003, que nem sei se se referem realmente a este ramal. Ou alguém está a inventar.
Agora a sério, aqui vai mais ou menos uma estória.
Em 1889 uma carta real estabelece que deve ser criada uma linha entre a Alfandega (a Nova, claro) e Leixões exclusivamente para mercadorias. Há as velhas confusões de quem deve ser o "dono" da linha. Tudo começa por Campanhã - Pinheiro - e a Alfândega. Depois que o término deve ser em Contumil. Em 1892, ordena-se que deve seguir a Leixões. Agora, como a estória é apaixonante e longa, mando-te amigo e leitor, ver a wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramal_da_Alf%C3%A2ndega
Ainda utilizei esta linha em finais dos anos 70 quando fui trabalhar para S. Mamede. Principalmente à sexta-feira. Entrava lá no apeadeiro e saí em Contumil, que era onde acabava a linha.
O ramal foi encerrado em 1989. Mas a GARRA quer reabilitá-la. Força amigos.
É que a linha está preservada e pode ser utilizada a qualquer momento. Ainda há (houve)inteligências nesta Cidade... As actuais não sei se darão seguimento a alguma coisa...
Aqui na foto saquei a saída (ou entrada) de um dos túneis. Que são (eram) três. Este é na Zona das Fontaínhas, a quem este escrito é dedicado e também ao meu amigo Adriano Moreira, que ía para aqueles lados dar uns chutos na bola de trapos. Ou seria para o túnel do Seminário ? Adiante.
Lembrem-se, caros leitores, que estamos nas Fontaínhas. E então apreciem as belas Pontes sobre o Douro. Confusão ? Nenhuma. É uma questão de "olhares". Infante, D. Maria e S. João, são as Pontes visíveis deste ângulo.
Uma parte das nossas Fontaínhas, um antigo bairro populacional de Campanhã - ou do Bonfim ? ou das duas freguesias ? - que albergava os operários (agora diz-se trabalhadores) das muitas industrias que no princípio e meados do séc. XX começaram a proliferar pela zona.
A actual Rua da Corticeira. Há um século não sei como se chamava A antiga Calçada da Corticeira. Hoje Rua das Carquejeiras. Mas Corticeira, porquê ? a Câmara Municipal não sabe porque assim se chamava. Talvez morasse lá alguém que trabalhava numa fábrica de cortiça. Mas até coloca a hipótese de ter existido por ali uma fábrica daquele produto, a cortiça. Lá no fundo está uma ruína com todo o aspecto de ter sido uma fábrica. Embora tenha descido (e subido) esta calçada imensas vezes para atravessar o Rio no caíco (ou deverá escrever-se caíque ?) que me levava até à Praia do Aurélio, nunca olhei para a fábrica. Ou se olhei... Mas nessa altura era eu um menino de 10 anos e só queria a água do Douro.
O certo é que havia um cais junto ao Rio e por esta íngreme Calçada, com uma inclinação de 40%, subiam, com a carqueja descarregada de Rabelos e Batelões, mulheres (e talvez homens, não sei),com ela à cabeça, destinada aos vários fornos das industrias da região e também de outros pontos da cidade.
À esquerda, o Colégio dos Órfãos. Agora, o terceiro dos três em um. Nas velhas discussões com os amigos, perguntava-mo-nos (será que é assim que se escreve ?) como se chamava este edifício e para que serviu. Das vezes que por aqui passava, inquiria dos mais velhos senhores que por ali estavam o que foi, mas só me diziam que era um Lar. Agora é mesmo um Lar, sim. Mas eu queria saber qual a sua antiga função. Diziam-me que estava ligado aos Lázaros. Outros aos Orfãos. A razão dos primeiros não podia ser. Os Lázaros estavam ligados ao Hospital, hoje Biblioteca Municipal. Os Orfãos estão lá na ponta de Campanhã. As orfãs estão juntas ao Jardim de S. Lázaro. Na Nossa Senhora da Esperança.
Entrei no edifício, e então descobri que foi criado como Asilo de Mendicidade cuja origem veio de Lisboa para que se seguisse o seu exemplo. Para acabar com a mendicidade pelas ruas e proteger os inválidos e necessitados, recolhendo os indigentes e pobres. Distribuindo alimentos a quem não pudesse sair de casa. Está lá escrito num folheto. (séc.XIX).
Não sei se era esta a casa que abria as suas portas, no meu tempo de menino, para se visitarem os velhinhos. A minha memória só recorda as palavras da minha avó e pais.
Mas o edifício tem estória. Começa assim: Séc. XVI. O Açougue da cidade, ali na Sé - no actual Largo de Pedro Vitorino - começa a deitar muitos cheiros. A capacidade para matar 180 bois é pequena. Faz-se um novo açougue na Porta do Sol - mais ao menos onde é hoje o Largo Actor Dias, Capela dos Alfaiates, por aí -. Mas o espaço continua a não servir. As gentes bem da altura residentes no local, sentem-se mal. Então em 1796 começa-se a construção de um novo edifício nas Fontaínhas. Que é utilizado até 1840, quando passa para o Carvalhido. ( Para o pessoal do meu tempo, lembrai-vos do Canil, em S. Dinis ? Pois foi aí que ficou o Matadouro/Canil, até ser mudado para a Corujeira. Já nos nossos anos 50. Claro, do século passado.)
Concluindo, aquele edifício que foi criado para ser Matadouro Municipal (?), devidamente restaurado passou a ser o Asilo da Mendicidade. A foto lá em cima será de Arnaldo Soares. Pormenor do topo da fachada. Não sei quem foi o autor.
Não sei mais pormenores. Nem imaginam como consegui descobrir estas coisas.
Não foi trabalho, só casualidades. E de casualidade em casualidade, o JN tem sempre uma estória publicada. Pode ter 10, 20 anos, mas lá vamos dar.
E já que estamos nas Fontaínhas, olhai a Fonte, que no S. João é escondida para nos mostrar a Cascata "S. João a baptizar Cristo". Fontaínhas quer dizer Fontinha, isto é, local por onde corre muito água ou é nascente. Por aqui correu água para os Bispos e vejam lá, só agora o soube, pela Porta das Verdades, que além de ser local de passagem (e portagem) de quem subia pelo Codeçal (ou Codessal, palavra com dois significados, mas isso é outra estória) para entrar na Cidade Medieval, foi também aqueduto.
Este é o meu Porto surpreendente em cada esquina.