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sexta-feira, 25 de março de 2016

241 - Quinta-feira Santa - Parte I

Há mais de dois meses que por várias razões não ia à Baixa. Pensei que seria óptimo aproveitar a Quinta-feira até porque o tempo prometia estar bom.
Levantei-me de madrugada, espreitei o céu para confirmar e dei os bons dias à lua.
Tudo se conjugava para tornar agradável o passeio que projectei. Prontinho, saí de casa às 11,15 horas, apanhei quase logo o autocarro par o Bolhão e meia hora depois entrava na Farmácia Sá da Bandeira para arrumar um problema.
A partir daí era só testar as minhas novas capacidades após a recauchutagem.

Essencialmente, este passeio destinava-se a fotografar umas quantas Igrejas nesta época Pascal. Congregados, Clérigos, Carmo e Carmelitas, Vitória (não foi possível por estar fechada e só abria às 16 horas), S. João Novo, S. Nicolau e S. Francisco, a do Convento. Em futura deambulação por este espaço, referir-me-ei em pormenor.

Fui tirar umas medidas no passeio intermédio em frente à Estação de S. Bento voltado para os Congregados, quando toda a gente ficou embasbacada com o espectáculo que o condutor (?) do veículo mostrado na foto resolveu fazer.
Vindo da esquerda do lado da Praça da Liberdade e pela faixa que dá para Sá da Bandeira, atravessou-se em frente do eléctrico que estava a preparar a subida para 31 de Janeiro em frente aos Congregados. Não contente criou uma confusão entre os outros veículos, apanhou o lado esquerdo guinando a seguir para o passeio onde me encontrava com os outros pedestres à espera do verde para atravessar, saltou-o e enfiou para o outro lado atravessando-se na rua e acabando por parar à entrada da Rua da Madeira.
 
Mas a vida continua e na esplanada do Hotel Intercontinental nas Cardosas apanhei esta bela camélia. Uma foto com carinho.

Quem está no coração da Cidade tem de olhar o que o rodeia para a sentir. E motivos não faltam.
Há muitos anos que é tradição nesta época pascal sermos invadidos -  pacificamente claro - por milhares de turistas, naturalmente são mais os espanhóis e especialmente os galegos. Notam-se pelo seu vozear e comportamentos alegres que contagiam.
O lado sul da nossa Sala de Visitas, sem dúvida um ponto obrigatório de passagem e acolhimento, estava bem preenchida de gente conversando, máquina fotográfica pendurada ao pescoço e mapa na mão.
As esplanadas estavam já quase cheias mas a hora matinal convidada a apreciar umas loirinhas, um Vinho do Porto, um copo de verde branco fresquinho ou um tinto de qualquer boa região portuguesa. Para turista, meia-hora da tarde é o ideal também para apanhar sol e absorver o nosso calor para além do solar que deveria rondar os 16 a 18 graus.
16 marcava o termómetro da Sá da Bandeira quando meia hora antes passei lá. Muito bom.

Tinha visto nas nossas TV's - pelo menos em dois canais - uma reportagem que deve ter começado por um convite sobre o fabrico das Amêndoas de Páscoa da Arcádia. Fui lá espreitar mas desisti da ideia das fotos para a minha reportagem derivado à quantidade de pessoas que se aglomeravam em espaço tão pequeno..
Mas como tinha de comprar amêndoas para que se não diga que a tradicção já não é o que era, fiquei por ali a observar e a esperar. Deixei que abusassem de mim duas vezes, mas à terceira saiu recado geral com descompostura destinada às senhoras queques armadas em tias de cascais e para quem não há os outros.
O meu pedido foi atendido com desculpas da empregada, que não teve culpa nenhuma, e saí carregado com 100 gramas de licor e 100 de chocolate. De amêndoas, claro, que se juntaram na sacola ao remédio adquirido na Farmácia.

Acabei de descer a Rua do Almada e ao chegar aos Clérigos quase apanhava um susto. Tanta gente a circular fazia lembrar o S. João e um trânsito congestionado mas mais ou menos sossegado.

Do Adro da Igreja dos Clérigos, chamemos-lhe assim, ficamos com uma imagem de como estava a confusão.
A fotógrafa fotografando os namoradinhos, para mais tarde recordar. Só juventude, que maravilha olhá-la.

Não era minha intenção entrar nas Igrejas do Carmo e dos Carmelitas, mas apenas fazer as fachadas. As que tenho são todas escuras e vou precisar de coisa mais decente.
Pois na realidade é uma dificuldade fotografar estas fachadas. As esplanadas do Universidade e do Piolho e os toldes da Gelataria, que por sinal estavam recolhidos, complicam o tentar-se conseguir uma boa imagem.
A quantidade de fios e cabos aéreos, postes, sinais de trânsito e outros estragam igualmente o meio envolvente e a Ordem do Carmo, a quem as duas Igrejas pertencem até terá razão ao reclamar.
Turistas de calções e mangas arregaçadas também não faltam nos Leões.

Afinal acabei por fazer mais umas fotos das Igrejas e preparei-me para comer alguma coisa. Era uma hora e picos da tarde. Já tinha feito também a dos Clérigos. 

Depois da refeição simples composta de umas fatias de lombo de porco assado que sempre faço no Café da Porta do Olival quando passo por aqui, acompanhadas por uma loirinha, regressei ao caminho.
Várias coisas interessantes encontrei, mas também ficarão para nova postagem.

A seguir mesmo é o caminho que foi pela Rua de S. Bento da Vitória, rezando para que a Igreja estivesse aberta. Não adiantou porque o horário é para cumprir mesmo na Quinta-feira Santa. 

Um olhar pelo Tribunal da Polícia Judiciária, fechado. Será que já não funciona ?
Aproveitando estar ali, vale a pena um saltinho até ao largo do Miradouro da Vitória.

Mas não sem antes olhar o edifício que está em ruínas mesmo junto ao palacete da Judiciária.

 Valer a pena é como quem diz. Francamente, senti-me mal.

O edifício onde funcionou a esmaltagem (soube-o há dias) e a Tipografia está a desfazer-se. Já não se ouve o barulho das máquinas.
 O chão é uma grande lixeira especialmente em alguns pontos.
O miradouro já não é o que era principalmente se nos chegarmos para o lado esquerdo.
Este local seria privilegiado se se conjugassem vários factores: Eliminação dos cabos aéreos e das torres que encimam alguns telhados que parecem caixas de som; dos grafitos sem qualquer gosto artístico; do restauro e limpeza de alguns edifícios na encosta. Da implosão dos edifícios que circundam o espaço. E claro, de um local limpo bem ajardinado e um negócio de restauração.
Mas também a zona circundante do Morro da Vitória parece ter sofrido atentados bombistas. Vários antigos palacetes e outros edifícios estão em ruínas há dezenas de anos: Em S. Bento da Vitória, em S. Miguel, nas Taipas, em Belmonte.
A antiga e última Judiaria oficial da Cidade do Porto está arruinada.
Enquanto andei por aqui e mesmo depois descendo S. Miguel a caminho das Taipas, vi gente com cara de turistas. Creio que estariam enganados e até perdidos. A péssima sinalização presta-se a confusões. Claro como água que o importante é sinalizar CLÉRIGOS, não interessa como. E é vergonhoso que se sinalize entre outros o Convento de S. Bento da Vitória quando nem sequer é visitável. Melhor, ser, parece que é, através do Teatro S. João para um mínimo de 30 pessoas por um valor per capita exorbitante e podendo mesmo ser anulado se o S. João assim resolver. Vergonhosa esta situação. Não sei sequer se há alguma coisa que valha a pena visitar. Mas também nunca o saberei.

O mesmo acontece com a Igreja do Convento. Nunca a encontrei aberta. Disse-me em tempos um habitante da rua que ao domingo havia uma missa.
Por acaso conheço-a de fotos, pois um amigo conseguiu autorização para a visitar e fotografar enviando-me o seu trabalho. Que divulguei também.
Presumo que o conseguimento foi através de uma boa cunha - desculpe-me a ousadia senhor Professor Elias Moreira - mas o senhor mereceu essa cunha e por causa dela muitos ficamos a conhecer o interior dessa bela igreja.
Esclareça-se para que não restem dúvidas, que a Igreja e o Convento são Monumentos Nacionais desde 29 de Setembro de 1977, conforme publicado no Dec. Lei nº 129 o que não quer dizer que os nacionais habitantes - e os estrangeiros que nos visitam - usufruam qualquer regalia.

O número 4 da Rua de S. Miguel, Imóvel de Interesse Público estará a restaurar ? Numa janela aberta no último andar existe um letreiro sobre obras, mas não se vê qualquer actividade.
Todas as vezes que por aqui passo e faço uma foto, é sempre pior que a anterior. Nunca se cumprirá o dito do meu querido e saudoso camarada Victor Condeço. E os azulejos que são o grande património não só do dono do edifício como da própria Cidade ainda se irão perder.

Já nas Taipas, continua sem solução o palacete do séc. XVII da família Leite. Abandonado talvez por altura das Lutas Liberais e do Cerco do Porto (1832/32), foi sede do Clube Inglês antes de se mudarem para os lados das Virtudes; e depois foi uma drogaria.

Vamos descer às Taipas olhando o seu casario antigo e pensando na toponímia que já vem desde o séc. XIV.
Acertamos em Belmonte entre contrastes de casarios para descer até S. João Novo onde a Igreja esperava. Já a tinha fotografado duas vezes, a última na companhia do amigo e camarada Jorge Peixoto há cerca de quatro anos.

Obrigatóriamente temos de encarar outra das vergonhas ruinosas desta zona - e continuarei sempre a referi-la até que as mãos me doiam -. São os restos do Palacete de Pedro da Costa Lima, mandado edificar em 1727 e que desde 1945 albergou o Museu de Etnografia e História abrangendo não só a Cidade do Porto, considerado o mais rico do País.
Fechado desde 1992 devido à degradação e condições de segurança, dizem-me não se saber do património que albergou. Se existe algum guardado - oficialmente - onde se encontra ? Que projectos existem,se há que existe alguma coisa para o edifício e para o Museu ? Há anos que pergunto e ninguém me responde.

Depois da visita à Igreja de S. João desci a Rua até à Comércio do Porto, inflecti à esquerda pela Rua da Bolsa entre os núcleos Hospitalares e Ordem de S. Francisco, contornei por cima o Palácio da Bolsa para apreciar o Infante.

Visitantes atropelando-se no Palácio da Bolsa. Levei com um carrinho de bebé, uma máquina fotográfica, atropelado por um casal - por acaso com características orientais que não souberam pedir desculpa - incluindo as mochilas. Por mim, só queria ficar ali um pouco a olhar para a Praça e imaginar se o Infante levava com a grua na cabeça ou não.

Além disso seguir com olhar o que se avista do Morro da Sé no alto e do casario cá em baixo.

Umas peripécias engraçadas junto a S. Francisco já tinham passado. Outra também em S. Nicolau. Contarei brevemente. Agora, naquele momento, precisava de matar o bicho e nada como uma loirinha.
No passeio da Rua do Infante do lado das casas há muitos e diversos comércios. Entre eles, vale a pena meter o nariz nas entradas e tentar descobrir algo interessante. E imaginar a Rua antiga que se chamava dos Ingleses e deixá-la fluir levada pela pena de Júlio Dinis.
Mas isso já os meus queridos e queridas visitantes leram no: http://portojofotos.blogspot.pt/2013/05/158-o-infante.html

Num dos muitos bares que por aquele passeio existem, gosto do D. Antónia desde que me amesentei com a família do Júlio de S. Paulo. Tomei a minha loirinha que aliás foram duas de 20 cl. cada acompanhando um pastel de carne, tipo de Chaves.
Mais passeio, nesta (que foi ontem) quinta feira santa para mais tarde recordar a sair em breve.


Tempo ainda para deixar lembranças para o Menino e para a Menina. Agora já não lembro se são do Bazar Paris se do Londres. E as pedrinhas do paseio da Calçada à Portuguesa a refletirem no vidro.
Mas para o caso não interessa nada.
Boa Páscoa

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

235 - A época natalícia

Nada como um valente tempo de invernia aliado a muita preguiça para vasculhar alfarrábios caseiros, navegar pela Internet o que desde há uns meses se me tornou muito difícil e não adianta perguntar ao Google porque não me respondem; ler, ver e ouvir o que encontramos nos caminhos da TV e nos blogues dos amigos.

Porque acabamos de atravessar um período onde o simbolismo é dirigido para o consumismo, deu-me em recordar épocas da meninice e o barulho que o Pai Natal fazia ao descer da chaminé para me deixar um carrinho ou uma mota ou um carrossel de aviões, todos em folheta (chapa de alumínio ?) e de corda, onde a família dava a corda e eu só via os brinquedos girar. Não tenho recordações de outras prendas natalícias, mas estas duraram anos pois raramente me era permitido tocar-lhes e não fui eu que lhes dei sumiço.

Mas também não me davam gozo. O meu prazer era a bola feita de trapos e papel envolvidos numa meia velha da avó ou da mãe, o pião, as sameiras (cápsulas de garrafas) que serviam para inúmeros jogos e corridas, o arco em ferro e pôr a navegar na água do tanque de lavar a roupa as latas de conserva. Diga-se de passagem não me serem muito permitidas estas brincadeiras pelos meus velhos por causa das corridas e o perigo de uma queda, dos gastos dos sapatos, dos ressaltos no empedrado do pião, brinquedo mais que perigoso para a cabeça, olhos e vidros, ou de um afogamento na água do tanque.

A Árvore de Natal, sempre um ramo de pinheiro natural, demorava dias a fazer pelo meu pai. Começava em princípios de Dezembro pela base que tinha se ser bem segura para fixar o pinheiro, o seu arranjo em papel de seda, a verificação das luzes (que serviam também para a cascata de S. João e tanto quanto me lembro já vinham do tempo do meu irmão, passaram por mim a caminho da infância do meu sobrinho e seguiram até não me lembrar como acabaram), até à penduresa dos enfeites que eram colocados após a chegada do "Pinheiro" o que acontecia pelos meados do mês. A árvore era dada por acabada na semana do Natal e as luzes acesas só quando ele chegava a casa depois do trabalho.

Também havia que fazer o Presépio, um estábulo e acessos feitos pelo meu pai - uma obra de arte artesã - onde as inúmeros imagens, os santinhos, eram colocados em devida ordem e a distâncias milimétricas não fosse algum cair e dar cabo daquilo tudo. Os mais perfeitos vendiam-se na Rua da Assunção, junto aos Clérigos a 10 tostões. Uma arte tradicional dos santeiros do Porto e Gaia.

Claro que tinham algodão em rama para imitar as nuvens, palhas todos os anos renovadas para a cobertura do estábulo e a cama do menino e demais utilidades, fios coloridos, enfim, uma obra de arte à qual só me era permitido olhar e nunca tocar, nem mesmo para chegar os bonecos ao meu velho pois as minhas mãos frágeis poderiam deixar cair alguma coisa.

Toda esta conversa porque por casualidade li uma crónica do Prof. Germano Silva, vi e ouvi o Prof. Joel Cleto nos seus Caminhos da História sobre o Pai Natal, os Reis Magos e os Presépios e o que representam ou representaram na história do Porto, a minha Cidade.

Comecemos por S. Nicolau, (de Mira, na Ásia Menor,Turquia ou de Bari, em Itália) comemorado a 6 de Dezembro, dia da sua morte em 342 nessa cidade.
Este Santo foi reconhecido pela sua generosidade para com gentes humildes e sem posses e a amizade pelas crianças.
Dele nasceu o Santa Claus, o Pai Natal dos nossos dias, o patrono das crianças e cujas histórias vem desde os primórdios do séc. XIX., da Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e mais recentemente da Lapónia e dessa horrível bebida que é a Coca-Cola.

A Festa de S. Nicolau no Porto foi grandiosa onde as crianças tinham participação activa. Com restos de madeiros que recolhiam pela cidade junto ao rio Douro gritando ao som de campaínhas: Quem dá lenha ou algum pau para a fogueira de S. Nicolau. Depois era a enorme fogueira, para onde eram lançadas castanhas, um alqueire delas ofertada pelo abade.
Esta tradição manteve-se desde tempo imemorial até pelo menos 1855. (Segundo Pinho Leal, escrito em Lisboa em 1885 e respigado no blogue amigo portoarc de Rui Cunha.
No dia 6 celebrava-se com grande pompa as festividades do padroeiro.

Em 2014 sei que se comemorou no dia 5 como é tradição e lógicamente com crianças da zona que ouviram a sua história na Igreja, foram recebê-lo ao Cais da Estiva vindo pelo Douro e depois marcharam para a Alfândega onde houve festa em sua honra.

Esta Igreja construída a partir de 1671 - a primeira pedra foi colocada no dia de S. Nicolau - foi erguida no local de uma pequena ermida do séc. XIII devido ao crescimento populacional e à criação da junta de freguesia. Sofreu um incêndio em 1758, e as obras da reconstrução terminaram em 1762.
Uma imagem de S. Nicolau copiada do portarc
Uma das lendas sobre S. Nicolau e a amizade pelas crianças é representada na imagem que se encontra do lado esquerdo da Capela-mor, vendo-se três crianças numa celha. Conta-se que as crianças desapareceram numa floresta e foram encontradas por um talhante que as matou e salgou. S. Nicolau foi tempos depois a casa do talhante, descobriu os corpos das crianças e ressuscitou-as.
Outra lenda refere-se à sua generosidade. Um pobre homem viúvo tinha três filhas em idade de casar. Não tendo dote para lhes dar vivia triste. Então S. Nicolau deitou pela chaminé um saco com moedas que caíram junto das meias que estavam a secar. Na imagem também podemos ver o saco na mão.
Cá temos então o porquê das imagens da nossa infância das meias na chaminé para receber os presentes do Pai Natal.
No meu caso, tanto quanto me lembro era colocado um sapato em cima do fogão.
Este texto foi composto após ouvir o Prof. Joel Cleto e a imagem copiei do blogue portoarc.

Agora é o momento reservado aos Presépios e aos Reis Magos.

Até ao rompimento da agora chamada Praça da Liberdade e à abertura da Avenida dos Aliados cujas obras começaram em 1916, existiu um capela ao lado do edifício da Câmara que fechava a actual Praça, chamada dos Três Reis Magos, construída no séc. XVI.
Ficava a frente voltada para a Rua do Laranjal  à entrada do lado esquerdo (um pouco encoberta pela canastra da senhora) cuja rua era paralela à de D. Pedro. Tudo isto foi arrasado para a abertura das atrás referidas Praça e Avenida - e é assim mesmo que os Portuenses lhe chamam.
Segundo Germano Silva a festa dos Reis Magos era de arromba chegando a rivalizar com os festejos de S. João. A expensas da Câmara.
A Capela foi demolida e vendida a um endinheirado do lugar da Pocariça de Cantanhede que a mandou reconstruir mas agora dedicada a S. Tomé ou a S. Tiago. Estou na dúvida e espero uma informação de um caríssimo correspondente local para me esclarecer e que fez o favor de me enviar esta foto.
As festas e tradições dos Três Reis Magos, ditos do Oriente, são muito antigas na Cidade. O Convento de Avé-Maria de S. Bento foi inaugurado no dia de Reis de 1535. As noviças quando chegavam dirigia,-se ao coro e cantavam loas a lembrar a adoração dos Magos em Belém de Judá.
Há documentação que no séc. XV os moradores da Cruz do Souto pediram autorização para montar um palco para encenar uma pantomina em honra dos Reis Magos.
E havia procissão e a Câmara chegou a reunir no dia de Reis.
Não sei se ainda existe a tradição que se manteve durante anos de grupos recreativos e culturais cantarem as Janeiras neste dia.

O professor Joel Cleto deixou-me suspenso e espero não o ter ouvido e/ou interpretado mal.
Na Igreja das Almas de S. José das Taipas, existe um Presépio dos finais do séc. XVIII, o mais antigo da Cidade segundo li, da escola do escultor e estatuário Machado de Castro (Coimbra, 17 de Junho de 1731 - Lisboa, 17 de Novembro de 1822).  O único assinado por ele encontra-se em Lisboa.
O Presépio quase na totalidade. Impossível melhor foto por causa dos reflexos. 
Chamou o Prof. Joel Cleto a atenção por haver na representação quatro e não apenas três Reis Magos.
Ampliação para melhor se compreenderem as imagens
A última figura da fila dos Reis no caminho para a adoração, é um indígena americano. Mas o resto da explicação não consegui ouvir, nem porque ficaram a ser três os Magos.
Um dia revendo o vídeo devo chegar lá.

A representação dos Presépios é muito antiga. Os de arte barroca serão do séc. XVII. Precisamente desse século - que não o estilo, julgo - é o que se encontra na Igreja de S. Lourenço, ou dos Grilos como é por nós portuenses conhecida. Pelo menos é o que podemos ler num página em pdf da PortoVivo e referente ao Morro da Sé, Porta a Porta. Construído em Tecido, Papel, Madeira, Vidro e Metal. Desconheço a sua origem, mas pelo que se presumo será este o mais antigo Presépio do Porto.

As representações dos Presépios continuam a fazer-se ainda na Cidade, havendo até concursos. A exposição que vi há dois anos na Igreja dos Carmelitas era soberba. Aqui ficam algumas imagens.

Neste, não sei onde foi parar a Virgem.

Aqui vos deixo, caros visitantes e leitores uma "obra" que demorou algum tempo a desenvolver e cheia de recordações da minha meninice.

sábado, 26 de julho de 2014

190 - Novos espaços públicos - 2. A Antiga Praça de Lisboa

Não sei como se chama agora este espaço. Ou continua como Praça de Lisboa ou será Passeio dos Clérigos. De qualquer forma é um espaço novo num velho espaço, com centenas de anos. O Olival.
Foto aérea de parte da Cidade do Porto. 
Ao centro, em baixo, era o que restava do Shoping da Praça de Lisboa.

Comecemos pelo fim. 
A Câmara Municipal do Porto em Janeiro de 2007 abre concurso para a concepção, projecto, construção, manutenção e exploração do espaço a que chamávamos Praça de Lisboa, ganho pelo Gabinete do arquitecto Pedro Bolonhas.
 Este espaço desde 1839 e até 1952 foi o Mercado do Anjo.
Após o fecho do Mercado abriram uma Central de Camionagem. Espero não estar a laborar em erro. Mas sei que na Praça de Lisboa, assim se passou a chamar o lugar, estacionavam camionetas de aluguer para transporte de mercadorias. Inúmeras vezes liguei para a central a pedir camionetas para fazerem serviços à Empresa Litografia Artistas Reunidos (onde comecei a trabalhar em 1959 e durei até 1978).
Anos mais tarde foi o ponto de chegada e partida de autocarros que transportavam militares de todos os lugares do País que faziam o seu gozo de fim de semana. 
Muito bisbilhotei na net mas não consegui uma única foto desse tempo.
Nos anos 80 do século passado, acabou a Praça de Lisboa como estacionamento de camionetas e foi edificado um tal de Shoping Clérigos. Boa intenção mas mau fim.

Vamos recuando no tempo e olhemos o Mercado do Anjo. Repetindo-me, foi aberto em 1839 após a revolução liberal e presumo sob os seus auspícios.
Segundo as crónicas da época era um belo mercado, onde senhoras e serviçais faziam as suas compras de frescos, com a ceirinha no braço.
Começou a ser demolido em 1952. Não me lembro de lá ter ido alguma vez, mas lembro-me bem das minhas avó e mãe falarem dele com saudade. Por altura da demolição tinha 6/7 anos.

Já me referi algumas vezes a este espaço aqui no blogue. É o lugar do Olival e o espaço presente é uma pequena parte da superfície que ocupou durante séculos.
Nas fotos, em cima, o mercado ainda exitia; Em 2006  parte superior do Shoping estava ajardinada.
Em baixo, já estava vedado o espaço com obras e  como é actualmente.

Evolução das obras do lado dos Clérigos

Recuando no tempo, o Lugar do Olival pertencia ao Bispo do Porto. Não sei se doado pela Rainha D. Teresa, mãe do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques. O Bispo D. Vasco Martins em 1331 cedeu à Câmara do Porto este espaço com a cláusula de não ser destinado a feira. No entanto em 1682 foi criada a Feira de S. Miguel, mais ou menos onde os cordoeiros se estabeleceram em 1661, ficando esta parte do Olival a ser conhecida como Cordoaria. Que ainda se mantém, embora o Jardim se chame de João Chagas.
Estou a fazer fé no site da Câmara do Porto  http://www.cm-porto.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=cmp.stories/372 . A história - ou que se lê dela - é um pouco confusa. Mas para o caso não interessa nada de momento.
Seria este o Campo do Olival. Para uma orientação mais ou menos definida dos dia de hoje em espaço - a foto é de 2007 - digamos que ia desde a Torre dos Clérigos a Sul até para lá da Praça de Carlos Alberto a Norte (ainda existe a Rua das Oliveiras); e a Cordoaria (hoje com Jardim) a Oeste, até a Igreja dos Clérigos a Leste.
Um dia ainda hei-de fazer um Roteiro desta Zona pois para além de ser uma das mais importantes da Cidade é digna de ser visitada. Ver para crer.
Antes e agora
Devido a um acidente sofrido por sua esposa D. Mafalda neste lugar do Olival quando se dirigia para Guimarães, D. Afonso Henriques prometeu mandar erigir uma capela em honra de S. Miguel-o-Anjo se a Rainha ficasse curada. Assim aconteceu e o Rei cumpriu a sua palavra e até hoje, para nós tripeiros o lugar é o do Anjo. Já lá vão mais de 800 anos.
No local da Capela foi erigido um recolhimento (do Anjo) em 1672 para albergar senhoras nobres sem bens. Foi, acho eu, o Convento de S. José e de Santa Teresa das Carmelitas Descalças, demolido após o Cerco do Porto - Guerra Liberal entre D. Pedro IV e D. Miguel - foi então transformado no Mercado do Anjo. Ficou o nome da Rua Das Carmelitas e da Praça de Santa Teresa, mais tarde mudada para Praça de Guilherme Gomes Fernandes, o Bombeiro. Mas na nossa identificação de Portuenses, continua a ser a Praça de Santa Teresa. 
 Então vamos seguir para o presente.
Ainda não percebi como se permite estacionar neste local havendo um parque de estacionamento a cerca de 50 metros. Estão lá os mecos em ferro a vedá-lo (melhor "dizendo" estão lá alguns) mas não adianta. 

O tal concurso que a Câmara abriu e publicou em 2007 até à abertura do novo espaço, decorreram 7 anos. É certo que a parte pedonal foi aberta em meados de 2013. Mas só dei fé de há cerca de 2 meses o Jardim das Oliveiras, na parte superior, ter sido aberto.
A obras iniciaram-se em 2010 e o prazo para a abertura seria na primavera de 2012. Os custos também derraparam, coisa normal em qualquer obra no País. Tanto quanto eu saiba, a Câmara não teve nada a ver com o assunto. Mas sobre isso já escrevi antes.
Reconstituição da Porta do Olival

Lê-se no site da Câmara atrás referido que a Farmácia tem 200 anos. São dignos de ser vistos o tecto e os móveis. O Café da Porta do Olival funciona com este nome desde pelo menos 1853. No entanto deve ter derivado de um antigo botequim, o Botequim de Adães que já existia há anos, segundo podemos ler num escrito do Prof. Germano Silva no Jornal de Notícias e reproduzido no blogue do amigo http://cadernosdalibania.blogspot.pt/2014/01/cafe-da-porta-do-olival.html
Neste café podem ver-se algumas pedras da antiga Muralha Fernandina e existe ainda um pouco da Porta do Olival que se abria para o Morro da Vitória e a sua Judiaria. A talhe de foice, diga-se que vale a pena descansar da jornada neste café e comer entre outros petiscos um delicioso lombo de porco assado. O meu preferido.

Pormenor da passagem inferior que liga os Clérigos às Carmelitas. 
Creio que se chama Passeio dos Clérigos.

Os edifícios das Carmelitas vistos do Jardim. 
Destaque para a Livraria Lello.

Alguns dos edifícios sofreram melhoramentos e limpezas das fachadas.
Já agora gostava de saber porque é que em alguns locais onde foram plantadas as oliveiras ao qual o público não tem acesso por estar vedado, se plantaram também uns arbustos que mais parecem mato selvagem. É para o pessoal não "saltar o muro " julgando que se vai picar naquelas ervinhas ? Se é para imitar um "monte" de oliveiras, é erro do tamanho da Torre dos Clérigos. Tanto quanto fui apreciando ao longo do País em terrenos cultivados com oliveiras, estes estão sempre limpos. Se estou errado, os meus amigos podem-me corrigir.  
 No centro do Jardim um bar de apoio aos visitantes.Tem música, mas acho que é só à noite.

Olhando para a Velha Senhora. 
O Jardim relvado e bem tratado, para já pelo menos, serve de descanso e as oliveiras dão sombras. E dá um bem melhor aspecto do que as "ervinhas".

De dentro do espaço do Bar, uma panorâmica incluindo o lado Leste do 
edifício da Reitoria da Universidade

Olhando para Sul e o casario que veio substituir os Muros da Muralha Fernandina. Enfim não sei se serão dessa época, mas a Muralha corria por aqui. Mais metro menos metro.
Uma Oliveira com frutos ainda verdes. 

A entrada para o Jardim pelo lado dos Clérigos. A estátua memoriza D. António Ferreira Gomes, o grande Bispo do Porto. Pormenores e história já referidos neste blogue.
A rodear o pedestal cá estão as tais ervinhas. Mas que me lembre sempre existiram flores no outro canteiro. Porque não agora ?

Do lado da antiga Porta do Olival, obras recuperam edifícios. À direita a estátua do Camilo vestido e a mulher (uma das suas muitas mulheres, mas qual ? não interessa) nuinha da silva. É uma memória ao Amor de Perdição. Já mostrei a minha indignação ao autor da obra pela nudez da mulher. Ainda se estivessem os dois nús, vã que não vá. Mas o escultor tem um gosto muito especial por mulheres nuas. Pelo menos em esculturas...É só ver as suas obras. Claro que se houvesse uma explicação talvez entendesse melhor.

Os turistas que enchem a Cidade aproveitam para trabalhar o bronze. Para nós, é uma delícia a sombrinha, onde a loirinha não aquece de repente.
Vale a pena espreitar os vitrais da Garrafeira dos Clérigos.
E olhar as suas montras onde a Torre se reflecte apreciando os nossos vinhos, digestivos e não só.

E lá vai o 22  caminho da Batalha

Tenho de terminar que esta coisa já vai longa. Sei que vos é difícil aturarem estas minhas deambulações. Mas tenho de deixar uns apontamentos.
Atrás escrevi que a zona é digna de ser visitada. Não tenho dúvidas. Se não vejamos, Torre e Igreja dos Clérigos; o edifício do antigo Tribunal e Cadeia da Relação; Por trás é a Rua de S.Bento da Vitória com a sua Igreja Paroquial e o antigo Convento de S. Bento. Resquícios da Judiaria do Olival e um miradouro com vistas espectaculares. 
Voltando à frente e a seguir à Cadeia, é a Igreja de S. José das Taipas. Podemos apreciar a casa onde nasceu Almeida Garrett e os Casarões com história dos Brito e Cunha e dos Sandeman. Digamos que fizemos um percurso pelo sul. 
Voltando à direita e é o Palácio da Justiça com um miradouro nas traseiras sobre as Virtudes e o Hospital de Santo António. Voltamos à direita e encontramos um pequeno Jardim com o busto dedicado a Júlio Dinis, em frente a Faculdade de Medicina e as majestosas Igrejas do Carmo e dos Carmelitas. A seguir é a Praça de Carlos Alberto, tendo à esquerda o belo painel lateral da Igreja do Carmo em azulejos. No centro da Praça as Estátuas do Soldado Desconhecido e do General Humberto Delgado. Por trás o Palácio de Balsemão e o Centro de Materiais de Construção. Pela direita, é a Rua das Oliveiras que ainda nos recorda o Olival, bem como a Fonte que esteve neste local mas passou para umas dezenas de metros mais à frente. 
Regredindo, estamos na Praça dos Leões - este topónimo nunca será esquecido - com a sua bela Fonte e o edifício da Reitoria da Universidade do Porto, que alberga exposições temporárias e os Museus de História Natural, há pouco tempo aumentado e o de Mineralogia.
À esquerda inicia-se a Rua das Carmelitas com belos palacetes e vamos olhar a Livraria Lello, agora com visitas programadas. Do lado direito, estão dois dos mais antigos cafés da Cidade: O Universidade e o Âncora Douro, mais conhecido por Piolho.
Seguindo este percurso, podemos repousar no Jardim da Cordoaria. Enfim, já não é um jardim como foi, mas paciência. Novas arquitecturas paisagísticas ao abrigo do Porto, Capital Europeia da Cultura. Para a esquerda, passando o Jardim, encontramos o novo Olival. 
Para os amigos interessados, podem ir ver no índice cada uma destas relíquias. Só é preciso tempo e paciência, que parece não existir nos dias de hoje.