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quarta-feira, 18 de março de 2015

213 - Regresso aos Estabelecimentos Comerciais do Porto

A memória da Cidade também se faz pelos comércios que ainda existem, guardando ou mostrando preciosidades quer a nível arquitectónico quer de equipamentos, bem como recordações dos seus fundadores, que nos escapam no dia a dia. E também hoje, de algumas memórias minhas.

O grande armazém de Solas e Cabedaes de Adriano Pereira da Silva Lima, na Travessa de Passos Manuel - não sei de ainda tem este topónimo -  é uma destas realidades que desconhecia. Casa fundada em Março ou Abril de 1917 pelo senhor Adriano, natural de Archete, Santarém, nascido em 17 de Agosto de 1869. Administrador do Concelho de Gondomar por 17 vezes e Presidente da Câmara entre 1919 e 1922. Ficou ligado a Rio Tinto pelo casamento (Casa do Cristóvão) e adquiriu mais tarde os terrenos onde está o Externato Camões. Republicano convicto, viveu no Bonfim, entre a Rua e a Praça das Flores. Faleceu em 14 de Março de 1946.
Dizia-se ao tempo que era o maior armazém e mais completo não só de Portugal como da Península Ibérica.
Conheci o armazém, realmente enorme e ainda bem apetrechado, quando fui comprar tinta para lustrar os meus sapatos.

Bem antiga é a Ervanária do Bonjardim. Tanto quanto me lembro, entrei várias vezes com a minha avó e era uma casa escura. Hoje é elegante e com várias lojas espalhadas pelo País. O nome correcto é Ervanário Portuense e foi fundada em 1910 mantendo a fachada primitiva.

Que dizer sobre a Casa Christina em Sá da Bandeira que já não tenha referido. Das minhas memórias, lembro que ia comprar uma mistura Timor para a minha patroa (a senhora D. Olinda Monteiro, uma das sócias dos Artistas Reunidos) no princípio dos anos 60. Também a mistura S. Tomé que ela enviava depois de devidamente embrulhada em algodão para uma amiga espanhola. Poderia ser considerado contrabando, eu não percebia aquele trabalho que ela me explicava para não se notar o cheiro. Mas como era difícil esconder aquele cheiro...que sempre cheirava. Meio quilo de café para uma amiga distante sem saber se chegaria ao destino.
A Chistina é anterior às Invasões Francesas. Imaginem uma casa fundada em 1804, com chocolates e café e diz uma blogueira (paga de certeza absoluta) que até o café vinha da Amazónia. Pode ser que sim, mas...
A casa inicial foi fundada na Rua do Bispo. Já soube onde era, quis bisbilhotar de novo, mas com as novas alterações do site da Câmara do Porto (se antes era uma merda com vossa licença agora está em duplicado) não consegui encontrar qualquer referência. Mas presumo que era para os lados do Bonjardim próximo a Liceiras.
Mudaram-se as instalações para Sá da Bandeira nos anos 20 do século passado. Conclusão, na nova sala de café encontra-se uma bela escada em ferro. Todo o interior foi alterado aquando da compra da empresa por uma multinacional, a Nestlé, por volta de 2008. Mas à vista mantêm-se os moinhos e o móvel com as "latas" das misturas.

Ao passar em Sá da Bandeira baixa, próximo da Praça D. João I, chamou-me a atenção uma loja que existe há bem pouco tempo. Anteriormente era a Camisaria Smart. Grande luxo.
Olhei de fora e entrei. É uma das muitas lojas gourmets que se encontram pela Cidade, esta com provas e ofertas de um produto a partir de uma valor de compras. Mais simbólico do que caro, vale a pena.
A decoração-exposição dos produtos está muito bem arranjada. Conservas, vinhos, azeites, bolachas, sabões e outros produtos tradicionais portugueses bem expostos e com vontade de comprar.
Chamou-me a atenção um móvel.Soube a sua origem centenária e adquirido numa fábrica de sirgaria em Gaia, que faliu.
Entre a passagem da loja para o armazém, um quadro, disseram-me que inacabado. Não o poderei reconhecê-lo como a Ribeira do Porto antiga. Mas prontos, é porque é.
No aproveitamento das paredes que tornaram rústicas, sem dúvida de bom gosto, pequenas prateleiras expõem os produtos
Gostei desta Central Conserveira da Invicta, de preços baixos e linda decoração.

Para acabar por agora, uma referência a um Restaurante-Casa de Fados. O Mal Cozinhado.
 Tomou o nome de um restaurante (não sei onde) frequentada por Luís de Camões. O edifício é do século XIV, mantendo as madeiras e pedras originais. Está a 2 metros acima das águas do Douro o que em tempos de cheias obriga a casa a fechar pois fica inundada.
Era uma casa pertença da Hall & Companhia, não sei se ligada à luz eléctrica ou aos eléctricos. Mas também não sei se estou a lavrar em erros. Em 1976 passou a Restaurante pela mão de Fernando Valente Maia. Não sei se o mesmo que foi um fuzileiro condecorado.
Nesta casa encontrei e fiz amigos, grandes figuras do Fado e não só. Só a conheci em meados dos anos 80 do século passado, ao tempo dirigida por Lopes de Almeida, empresário portuense. Foi um local obrigatório para levar amigos e visitantes estrangeiros. Já é raro vir aqui jantar e ouvir fado, mas de vez em quando ainda acontece na companhia de amigos novos que nos visitam. E é sempre um prazer regressar, pois para além do Fado a Cozinha é excelente.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

207 - Comércios novos em velhos Comércios

Depois de deixarmos o Café Piolho que tantas recordações trouxe a amigos que me enviaram mensagens de saudade, continuamos na zona, concretamente no Carmo que faz parte da memória da Cidade do Porto há centenas de anos. Era uma área do Campo do Olival e que a partir de 1619 se começou a designar Carmo.
Lá estão as Igrejas dos Carmelitas e de Nossa Senhora do Carmo mais o seu Hospital, o quartel da GNR nas instalações do velho Convento do Carmo, o Hospital de Santo António e a Escola de Ciências Biomédicas em edifícios que são um marco da arquitectura centenária da Cidade.
Mais histórias existem do Carmo e Carmelitas sobretudo durante as invasões napoleónicas (1809)  onde as tropas invasoras se alojaram e saquearam o que era Carmelita e se trataram no Carmo.

Vamos visitar a Garrafeira do Carmo, no gaveto da Rua e Travessa do Carmo a qual se chamava em 1755 Viela dos Poços das Traseiras da Cordoaria e quatro anos mais tarde passou a Rua.
Em conversa agradável como o actual dono, o senhor Ramos, a dona a quem comprou o edifício, senhora na altura com mais de 80 anos, disse-lhe que já a bisavó morava aqui. Presume-se que a casa terá a sua origem no século XVIII.
 O alvará de comércio mais antigo que se lhe conhece data de 1904 e era de uma sapataria. Posteriormente foi latoaria (funileiro em Portuense) e depois uma charcutaria e mercearia fina, a Casa Ramos. A Garrafeira foi inaugurada em 1990.
Foram mantidas as estruturas iniciais embora se tivessem feito obras grandes, pois a casa precisava delas.
 Mobiliários bem adaptados, obras de arte, fotos, cartazes antigos, peças de utilidade doméstica e de comércios estão à disposição dos olhares de quem gosta apreciá-los.
O sortido de bebidas nacionais e estrangeiras para venda é grande. Destaque para os vinhos portugueses e especialmente para a enorme variedade dos Vinhos do Porto, onde encontramos relíquias com séculos.
Um prazer olhar à nossa volta, e sentir a gentileza como fui recebido. No intervalo, sempre se ouvem conversas com clientes. E posso confirmar que os preços comparados com os das grandes superfícies, da mesma marca, são bem inferiores.
Deixo a sugestão para compras aos amigos que nos visitam. Variedade, bons preços e gentileza. E fazem entregas ao domicílio.
Espreitem a página http://www.garrafeiracarmo.com/

A história do Carmo foi colhida nos escritos do Prof. Germano Silva.

Vamos para a baixa, mais concretamente à nossa Sala de Visitas.
Na Praça da Liberdade, o Café Imperial - que já não o é e não deveria ter sido permitido colocarem-se as letras da nova proprietária, pelo menos com este destaque - foi um símbolo da Cidade na Baixa.
Foi inaugurado na década de 30 do século passado, destacando-se de imediato a Águia Imperial da autoria do escultor Henrique Moreira (Avintes, 1890-1979) que tantas obras deixou espalhadas pela Cidade do Porto, incluindo os Meninos da Avenida.
A imponência da fachada do Imperial ainda nos anos 70/80 
(foto recolhida na página de Susana Faro - http://www.porto24.pt/memoria/viagem-ao-centro-porto/ )

No interior mantêm-se as decorações originais. Espelhos de Cristal e por cima um friso de baixos relevos em gesso representando motivos de dança, também da autoria de Henrique Moreira, mas mudaram-lhe as cores originais.
 Ao fundo por cima do enorme balcão e área de serviço, um vitral representando o ciclo do café, do Grão à Chávena, da autoria de Ricardo Leone, vitralista que recuperou a arte do vitral em Portugal, falecido em 1971.
(Ver  http://sigarra.up.pt/ffup/pt/web_gessi_docs.download_file?p_name=F-1152441855/O%20Vitral.pdf )
Hoje o extraordinário vitral encontra-se parcialmente escondido dos olhares. Comparar com o pormenor da foto, em baixo.
Foto recolhida em http://porto-desaparecido.blogspot.pt/2014/07/cafe-imperial.html 

 A iluminação está muito diferente, bem como o mobiliário. Sofás de couro estavam ao longo das paredes. Não sei se desde a origem mas sentei-me muitas vezes neles.
Ao fundo a entrada para os andares. 

Para irmos ao salão dos bilhares, tínhamos de passar pelos "engraxadores", uma fila de várias cadeiras,  já não me lembro de quantas,  que tinham sempre clientela para puxar o lustro aos sapatos.
Foto recolhida na página do amigo http://doportoenaoso.blogspot.pt/

Fui um frequentador assíduo deste café durante anos. Primeiro no salão de bilhares que existia, creio, no segundo andar e mais tarde na salão do café, principalmente após a saída do trabalho para o cimbalino do relaxe. Na altura do 25 de Abril era à porta que se compravam os jornais da tarde para saber as últimas. Saudades do Norte, conforme apregoavam os ardinas.
Aqui conheci Virgínia Moura.
No andar inferior, totalmente modificado agora, era um restaurante bem frequentado. Ali recebi uma festa-jantar de despedida ofertada por companheiros de trabalho nos anos 70. O prato foi Polvo à Bordalesa.

No passeio do outro lado, já na Avenida dos Aliados, encontra-se o Guarany. Conhecido como o Café dos Músicos, pois era aí que paravam esses profissionais antes e depois dos espectáculos diários que se ofereciam à noite na Cidade nas muitas e diversas casas.
Isto sou eu a contar pelas recordações que ouvi do meu Pai. Mas é verdade porque na página do Café lá está referido em destaque.
Inaugurado em 29 de Janeiro de 1933, foi obra do Arquitecto Rogério de Azevedo - já escrevi neste espaço sobre o homem e parte da obra dele. A decoração foi de Henrique Moreira.
O nome do Café relembra os índios da América Meridional e é uma alusão ao Brasil dos anos XX , o primeiro produtor mundial de Café.
O Café Guarany teve um período difícil a partir dos anos 80. Foi recuperado em 2003 , restaurados mobiliários, candeeiros, apliques, cobres. Quase voltou aos anos 30 do século anterior.
A pintora Graça Morais ( n.1948 em Vieiro - Vila Flor - Trás-os-Montes ) produz os painéis Os Senhores da Amazónia para a inauguração pós recuperação.

De destacar o ÍNDIO, relevo em mármore de Henrique Moreira.
Foto recolhida na página do Café Guarany.
http://www.cafeguarany.com/pt/Utilidades/Homepage.aspx

Outras fotos recolhidas na página do Café



Meus amigos, leitores e seguidores. Minhas amigas, leitoras e seguidoras.
É mais uma página de interiores e não só, de estabelecimentos comerciais da minha-nossa Cidade do Porto que podem apreciar. Boas visitas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

199 - Café Majestic

De vez em quando debruço-me sobre os estabelecimentos comerciais da Cidade do Porto. Uns passam-nos desapercebidos, outros são ex-libris.
É o caso do Café Majestic situado na Rua de Santa Catarina, bem próximo da Praça da Batalha, do qual vou recordar a história a partir da sua página.
Seja Verão ou Inverno, o Majestic é uma referência da Cidade e está sempre cheio. A grande maioria são turistas que aproveitam para sentir uma época já há muito afastada, mas que foi de grande esplendor: A Bélle Époque e a Arte Nova.
É verdade que a maioria dos Portuenses não conhecerão o seu interior e para ser franco entrei três vezes, a primeira por volta de 1980 já um café custava 100 escudos. O equivalente hoje a 50 cênt €..
Vamos à história do Majestic que começa com a abertura em 17 de Dezembro de 1921 mas com o nome Elite.
Foi a época das tertúlias políticas, das artes, da cultura. Mas o seu nome seria mudado rapidamente para Majestic indo ao encontro dos gostos afrancesados da cultura portuguesa da época, impregnados do charme da Bélle Époque.
Bancos aveludados, (não sei se era assim antigamente, parece-me que não, agora são cadeiras forradas a couro e os sofás são almofadados em pele, não sei qual) madeiras envernizadas, confundindo-se os cinco sentidos nos tectos de gessos decorados, abundante espelharia em cristais flamengos. Mármore e metal ligavam-se com requinte inigualável.
O Porto já era a Cidade dos Cafés, com origens bem antigas. As tertúlias organizavam-se para debates de ideias e culturas.
O Majestic não foi um espaço indiferente a essas tertúlias: José Régio, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoais, entre outros, emprestaram à Casa a literacia para que sucedesse o debate entre as figuras públicas e as que viriam a ser...
Alunos e professores da Escola de Belas Artes do Porto, na altura bem próxima, juntavam-se para debate de arte num autentico local de arte. Júlio Resende, entre muitos foi um frequentador assíduo.
 Gago Coutinho com as suas ninfas e Beatriz Costa marcaram presenças, bem com governantes de algumas partes do mundo que não quiseram deixar de conhecer este espaço. 
 
As tertúlias de antigamente e os turistas de hoje, ficam registados na história do Majestic
 Nos anos 60 do século passado o "adormecimento"  forçado das culturas do País, ataca também o Majestic. É um declínio lento, continuo.
Em 1983 é decretado Imóvel de Interesse Público. A degradação acelera e em 1992 fecham-se as portas para voltarem a ser abertas em 15 de Julho de 1994 com o lustro de outrora.
Agora há música, exposições, eventos e muito imediatismo.
O Café Majestic de traça ideada pelo arquitecto João Queiróz inspirada na obra do seu mestre Marques da Silva, é ainda hoje um dos mais belos representativos exemplares da Arte Nova da Cidade do Porto. 
Passagem para o Pátio interior, inaugurado em 1925, arquitectado por Pedro Mendes da Silva como um Jardim de Inverno.
A construção do Bar e a ligação ao Café pelas escadas, permitiam vender Vinho do Porto e mais tarde Cerveja.
A Bélle Époque no Pátio.
Em 1925 é aberta uma janela no muro do Pátio que dá para a Rua de Passos Manuel, onde passou a vender-se tabaco e rapé explorada pela Tinoco & Irmãos a partir de uma pequena cabine construída para o efeito como Tabacaria.
Bom, como exprimir as minhas impressões em relação ao "serviço" que tive um pouco de cuidado em analisar. Melhor, aos serviços pois são vários. Desde a porta de entrada.
Uma espécie de mordomo, impecavelmente vestido de fato preto e gravata também preta e camisa branca, controla com eficiência, gestos e um sorriso a entrada dos clientes em função das mesas vagas ou a vagar. (Vejam a foto inicial) Sabe barrar com gentileza os apenas curiosos e a multidão de fotógrafos. Parece saber distinguir quem vai consumir e os outros. A mim disse-me, da última vez, que lá entrei, há pouco mais de 2 meses, por favor ao fundo à esquerda tem a sua mesa. Ou algo parecido.
Vi com agrado uma coisa há muitos anos em prática na Europa que conheci - muito pouca - mas que em Portugal só em alguns bares se usa: Uma simples base para copo, garrafas, chávenas. Recicláveis. isto é, podem ser usadas inúmeras vezes. Com excepção das que os clientes guardam como recordação e é permitido. Curioso que na década de 80 comercializei essas bases e vendi bem poucas. 
Adiante pois estava a contar-vos sobre o serviço, melhor, o atendimento: Com um sorriso, sem sinal de stress, seja do empregado ou da empregada, também vestidos a rigor: Coletes brancos, calças e sapatos pretos .
Não fazem "fintas" a quem fotografa o local e a conta é apresentada quando pedida, com elegância também. Não me lembro se em pires ou numa pasta. 
Apresentei cumprimentos e agradeci as gentilezas. Claro que o que tomamos é caro, para o nosso dinheiro. Uma cerveja custa três vezes mais que em outro local bem como um café. Mas os preços estão expostos à entrada.
Não sei a qualidade das comidas, por isso fico-me só pelo Café e pela Loirinha.

Como referi antes, as minhas pesquisas basearam-se na história publicada na página do Café. As fotos a preto também. Aos meus queridos leitores que queiram aprofundar pormenores, deixo-vos a página:
http://www.cafemajestic.com/pt/Majestic-Cafe/Historia.aspx

sábado, 26 de julho de 2014

190 - Novos espaços públicos - 2. A Antiga Praça de Lisboa

Não sei como se chama agora este espaço. Ou continua como Praça de Lisboa ou será Passeio dos Clérigos. De qualquer forma é um espaço novo num velho espaço, com centenas de anos. O Olival.
Foto aérea de parte da Cidade do Porto. 
Ao centro, em baixo, era o que restava do Shoping da Praça de Lisboa.

Comecemos pelo fim. 
A Câmara Municipal do Porto em Janeiro de 2007 abre concurso para a concepção, projecto, construção, manutenção e exploração do espaço a que chamávamos Praça de Lisboa, ganho pelo Gabinete do arquitecto Pedro Bolonhas.
 Este espaço desde 1839 e até 1952 foi o Mercado do Anjo.
Após o fecho do Mercado abriram uma Central de Camionagem. Espero não estar a laborar em erro. Mas sei que na Praça de Lisboa, assim se passou a chamar o lugar, estacionavam camionetas de aluguer para transporte de mercadorias. Inúmeras vezes liguei para a central a pedir camionetas para fazerem serviços à Empresa Litografia Artistas Reunidos (onde comecei a trabalhar em 1959 e durei até 1978).
Anos mais tarde foi o ponto de chegada e partida de autocarros que transportavam militares de todos os lugares do País que faziam o seu gozo de fim de semana. 
Muito bisbilhotei na net mas não consegui uma única foto desse tempo.
Nos anos 80 do século passado, acabou a Praça de Lisboa como estacionamento de camionetas e foi edificado um tal de Shoping Clérigos. Boa intenção mas mau fim.

Vamos recuando no tempo e olhemos o Mercado do Anjo. Repetindo-me, foi aberto em 1839 após a revolução liberal e presumo sob os seus auspícios.
Segundo as crónicas da época era um belo mercado, onde senhoras e serviçais faziam as suas compras de frescos, com a ceirinha no braço.
Começou a ser demolido em 1952. Não me lembro de lá ter ido alguma vez, mas lembro-me bem das minhas avó e mãe falarem dele com saudade. Por altura da demolição tinha 6/7 anos.

Já me referi algumas vezes a este espaço aqui no blogue. É o lugar do Olival e o espaço presente é uma pequena parte da superfície que ocupou durante séculos.
Nas fotos, em cima, o mercado ainda exitia; Em 2006  parte superior do Shoping estava ajardinada.
Em baixo, já estava vedado o espaço com obras e  como é actualmente.

Evolução das obras do lado dos Clérigos

Recuando no tempo, o Lugar do Olival pertencia ao Bispo do Porto. Não sei se doado pela Rainha D. Teresa, mãe do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques. O Bispo D. Vasco Martins em 1331 cedeu à Câmara do Porto este espaço com a cláusula de não ser destinado a feira. No entanto em 1682 foi criada a Feira de S. Miguel, mais ou menos onde os cordoeiros se estabeleceram em 1661, ficando esta parte do Olival a ser conhecida como Cordoaria. Que ainda se mantém, embora o Jardim se chame de João Chagas.
Estou a fazer fé no site da Câmara do Porto  http://www.cm-porto.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=cmp.stories/372 . A história - ou que se lê dela - é um pouco confusa. Mas para o caso não interessa nada de momento.
Seria este o Campo do Olival. Para uma orientação mais ou menos definida dos dia de hoje em espaço - a foto é de 2007 - digamos que ia desde a Torre dos Clérigos a Sul até para lá da Praça de Carlos Alberto a Norte (ainda existe a Rua das Oliveiras); e a Cordoaria (hoje com Jardim) a Oeste, até a Igreja dos Clérigos a Leste.
Um dia ainda hei-de fazer um Roteiro desta Zona pois para além de ser uma das mais importantes da Cidade é digna de ser visitada. Ver para crer.
Antes e agora
Devido a um acidente sofrido por sua esposa D. Mafalda neste lugar do Olival quando se dirigia para Guimarães, D. Afonso Henriques prometeu mandar erigir uma capela em honra de S. Miguel-o-Anjo se a Rainha ficasse curada. Assim aconteceu e o Rei cumpriu a sua palavra e até hoje, para nós tripeiros o lugar é o do Anjo. Já lá vão mais de 800 anos.
No local da Capela foi erigido um recolhimento (do Anjo) em 1672 para albergar senhoras nobres sem bens. Foi, acho eu, o Convento de S. José e de Santa Teresa das Carmelitas Descalças, demolido após o Cerco do Porto - Guerra Liberal entre D. Pedro IV e D. Miguel - foi então transformado no Mercado do Anjo. Ficou o nome da Rua Das Carmelitas e da Praça de Santa Teresa, mais tarde mudada para Praça de Guilherme Gomes Fernandes, o Bombeiro. Mas na nossa identificação de Portuenses, continua a ser a Praça de Santa Teresa. 
 Então vamos seguir para o presente.
Ainda não percebi como se permite estacionar neste local havendo um parque de estacionamento a cerca de 50 metros. Estão lá os mecos em ferro a vedá-lo (melhor "dizendo" estão lá alguns) mas não adianta. 

O tal concurso que a Câmara abriu e publicou em 2007 até à abertura do novo espaço, decorreram 7 anos. É certo que a parte pedonal foi aberta em meados de 2013. Mas só dei fé de há cerca de 2 meses o Jardim das Oliveiras, na parte superior, ter sido aberto.
A obras iniciaram-se em 2010 e o prazo para a abertura seria na primavera de 2012. Os custos também derraparam, coisa normal em qualquer obra no País. Tanto quanto eu saiba, a Câmara não teve nada a ver com o assunto. Mas sobre isso já escrevi antes.
Reconstituição da Porta do Olival

Lê-se no site da Câmara atrás referido que a Farmácia tem 200 anos. São dignos de ser vistos o tecto e os móveis. O Café da Porta do Olival funciona com este nome desde pelo menos 1853. No entanto deve ter derivado de um antigo botequim, o Botequim de Adães que já existia há anos, segundo podemos ler num escrito do Prof. Germano Silva no Jornal de Notícias e reproduzido no blogue do amigo http://cadernosdalibania.blogspot.pt/2014/01/cafe-da-porta-do-olival.html
Neste café podem ver-se algumas pedras da antiga Muralha Fernandina e existe ainda um pouco da Porta do Olival que se abria para o Morro da Vitória e a sua Judiaria. A talhe de foice, diga-se que vale a pena descansar da jornada neste café e comer entre outros petiscos um delicioso lombo de porco assado. O meu preferido.

Pormenor da passagem inferior que liga os Clérigos às Carmelitas. 
Creio que se chama Passeio dos Clérigos.

Os edifícios das Carmelitas vistos do Jardim. 
Destaque para a Livraria Lello.

Alguns dos edifícios sofreram melhoramentos e limpezas das fachadas.
Já agora gostava de saber porque é que em alguns locais onde foram plantadas as oliveiras ao qual o público não tem acesso por estar vedado, se plantaram também uns arbustos que mais parecem mato selvagem. É para o pessoal não "saltar o muro " julgando que se vai picar naquelas ervinhas ? Se é para imitar um "monte" de oliveiras, é erro do tamanho da Torre dos Clérigos. Tanto quanto fui apreciando ao longo do País em terrenos cultivados com oliveiras, estes estão sempre limpos. Se estou errado, os meus amigos podem-me corrigir.  
 No centro do Jardim um bar de apoio aos visitantes.Tem música, mas acho que é só à noite.

Olhando para a Velha Senhora. 
O Jardim relvado e bem tratado, para já pelo menos, serve de descanso e as oliveiras dão sombras. E dá um bem melhor aspecto do que as "ervinhas".

De dentro do espaço do Bar, uma panorâmica incluindo o lado Leste do 
edifício da Reitoria da Universidade

Olhando para Sul e o casario que veio substituir os Muros da Muralha Fernandina. Enfim não sei se serão dessa época, mas a Muralha corria por aqui. Mais metro menos metro.
Uma Oliveira com frutos ainda verdes. 

A entrada para o Jardim pelo lado dos Clérigos. A estátua memoriza D. António Ferreira Gomes, o grande Bispo do Porto. Pormenores e história já referidos neste blogue.
A rodear o pedestal cá estão as tais ervinhas. Mas que me lembre sempre existiram flores no outro canteiro. Porque não agora ?

Do lado da antiga Porta do Olival, obras recuperam edifícios. À direita a estátua do Camilo vestido e a mulher (uma das suas muitas mulheres, mas qual ? não interessa) nuinha da silva. É uma memória ao Amor de Perdição. Já mostrei a minha indignação ao autor da obra pela nudez da mulher. Ainda se estivessem os dois nús, vã que não vá. Mas o escultor tem um gosto muito especial por mulheres nuas. Pelo menos em esculturas...É só ver as suas obras. Claro que se houvesse uma explicação talvez entendesse melhor.

Os turistas que enchem a Cidade aproveitam para trabalhar o bronze. Para nós, é uma delícia a sombrinha, onde a loirinha não aquece de repente.
Vale a pena espreitar os vitrais da Garrafeira dos Clérigos.
E olhar as suas montras onde a Torre se reflecte apreciando os nossos vinhos, digestivos e não só.

E lá vai o 22  caminho da Batalha

Tenho de terminar que esta coisa já vai longa. Sei que vos é difícil aturarem estas minhas deambulações. Mas tenho de deixar uns apontamentos.
Atrás escrevi que a zona é digna de ser visitada. Não tenho dúvidas. Se não vejamos, Torre e Igreja dos Clérigos; o edifício do antigo Tribunal e Cadeia da Relação; Por trás é a Rua de S.Bento da Vitória com a sua Igreja Paroquial e o antigo Convento de S. Bento. Resquícios da Judiaria do Olival e um miradouro com vistas espectaculares. 
Voltando à frente e a seguir à Cadeia, é a Igreja de S. José das Taipas. Podemos apreciar a casa onde nasceu Almeida Garrett e os Casarões com história dos Brito e Cunha e dos Sandeman. Digamos que fizemos um percurso pelo sul. 
Voltando à direita e é o Palácio da Justiça com um miradouro nas traseiras sobre as Virtudes e o Hospital de Santo António. Voltamos à direita e encontramos um pequeno Jardim com o busto dedicado a Júlio Dinis, em frente a Faculdade de Medicina e as majestosas Igrejas do Carmo e dos Carmelitas. A seguir é a Praça de Carlos Alberto, tendo à esquerda o belo painel lateral da Igreja do Carmo em azulejos. No centro da Praça as Estátuas do Soldado Desconhecido e do General Humberto Delgado. Por trás o Palácio de Balsemão e o Centro de Materiais de Construção. Pela direita, é a Rua das Oliveiras que ainda nos recorda o Olival, bem como a Fonte que esteve neste local mas passou para umas dezenas de metros mais à frente. 
Regredindo, estamos na Praça dos Leões - este topónimo nunca será esquecido - com a sua bela Fonte e o edifício da Reitoria da Universidade do Porto, que alberga exposições temporárias e os Museus de História Natural, há pouco tempo aumentado e o de Mineralogia.
À esquerda inicia-se a Rua das Carmelitas com belos palacetes e vamos olhar a Livraria Lello, agora com visitas programadas. Do lado direito, estão dois dos mais antigos cafés da Cidade: O Universidade e o Âncora Douro, mais conhecido por Piolho.
Seguindo este percurso, podemos repousar no Jardim da Cordoaria. Enfim, já não é um jardim como foi, mas paciência. Novas arquitecturas paisagísticas ao abrigo do Porto, Capital Europeia da Cultura. Para a esquerda, passando o Jardim, encontramos o novo Olival. 
Para os amigos interessados, podem ir ver no índice cada uma destas relíquias. Só é preciso tempo e paciência, que parece não existir nos dias de hoje.