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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Guimarães - Parte III

Para terminar o pequeno percurso pelo Centro Histórico de Guimarães acompanhem-me da Oliveira até ao local da peregrinação na zona do Castelo.
O Zé Ferreira, com aquele ar de sonso e de quem não faz mal a uma formiga, pôs-me a caminhar indicando de longe e dedo apontado "olha" ou "é por ali".

A última imagem da postagem anterior (Guimarães - Parte II) mostrava umas arcadas que agora vamos ultrapassar e que são de ligação entre a Praça de S. Tiago e o Largo da Oliveira.

Os baixos da Casa da Câmara, edifício do séc. XVI-XVII ocupando o mesmo local de uns primitivos Paços construídos no séc.XIV no reinado de D. João I. Presumo que actualmente está instalado o Posto de Turismo.

Realçam-se as cinco janelas da sacada, o alpendre sustentado por cinco arcos góticos e uma estátua na fachada que representa Guimarães.
Olhemos em volta.
Estamos no Largo da Oliveira, destacando-se a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, o Padrão do Salado e a árvore Oliveira. Para além do casario envolvente.
A Igreja teve as suas origens num mosteiro fundado por Mumadona Dias cerca de 950 e dedicado à Virgem de Santa Maria e aos Santos Apóstolos. A construção primitiva terá sido iniciada em 1387 impulsionada por D. João I, fervoroso devoto da Senhora da Oliveira. O altar que levou para Aljubarrota é a ela dedicado e pode ser visto no Museu Alberto Sampaio.
Vários Reis e épocas ditaram os seus estilos ao longo dos séculos.
O Largo, antigamente chamado de Praça de Santa Maria, está ligado às géneses de Guimarães e foi um terreiro implantado defronte do mosteiro.

Diz a Tradição ou a Lenda, que existia uma velha Oliveira seca ao lado onde foi construído o Padrão do Salado. Três dias após a construção deste, a oliveira refloresceu considerando o povo que foi milagre.
A árvore subsistiu até a Câmara a mandar cortar em 1870. Terá sido a mesma ? acho que é muita idade para esta árvore. Aquando da recuperação do Largo há 25 anos, foi plantada a Oliveira que podemos ver hoje.

O Padrão do Salado (ou de Nossa Senhora da Vitória) de 1340 relembra a vitória de D. Afonso IV sobre os mouros em 30 de Outubro desse ano na Batalha do Salado, província de Cádis no sul da actual Espanha. Uma ajuda preciosa ao seu genro Afonso XI de Castela que não sabia o que fazer à vida perante a situação.
A Cruz gótica representa de um lado Cristo crucificado e do outro a Virgem Mãe. No plano inferior quatro esculturas representando S. Vicente Apóstolo, S. Filipe Mártir, S. Torcato e o Anjo da Guarda. Foi oferecida em 1342 pelo vimaranense Pedro Esteves. É Monumento Nacional desde 1949.

Em comemoração da Batalha de Aljubarrota, todos os anos a 14 de Agosto saíam em procissão Câmara e Cabido, rezando-se missa no Padrão, expondo-se a Pelote de D. João I. Era chamada a Missa da Pelote. Não sei se ainda há esta tradição.

Igreja de Nossa Senhora da Oliveira de arquitectura religiosa românica, gótica, manuelina, maneirista, neoclássica e revivalista, assim a considera o SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, que não sei se ainda existe com este nome. No entanto, nos restauros do séc.XX no interior o neoclássico foi praticamente retirado devolvendo o estilo gótico original.
O portal é encimado por um janelão que originalmente possuiria um caixilho pétreo com a forma da Árvore de Jessé. Agora tapado, ou cego como escreve o SIPA. É enquadrado por cinco arquivoltas decoradas e ritmadas por anjos coroados.

Quem entra na igreja pela direita, encontra esta máquina da qual não descobri a sua serventia. Talvez o Zé Ferreira ajude pois passou muito tempo à volta dela e tenha descoberto qualquer referência.

O interior da Igreja e altar-mor. Na altura realizava-se um serviço religioso.

 Altar do Santíssimo Sacramento

Orgão superiormente decorado, "feito em 1838 por Luis António de Carvalho Guimarães, desta Vila"

À esquerda, escuríssima, a Capela dos Pinheiros e as arcas tumulares de Pedro Esteves e esposa Isabel Pinheiro. À direita a arca tumular de Inês de Guimarães uma descente em 3º ou 4º grau de D. Pedro I e de D. Inês de Castro. Mais uma conjuntura minha.
Só uma nota para confundir. Ou este Pedro Esteves com Capela e Túmulos teve uma vida longuíssima ou não é o mesmo que ofereceu a cruz que se encontra no Padrão do Salado. Pormenores de datas e de "serviços" levam-me a essa conclusão, embora pelas leituras das páginas consultadas incluindo a Geneall.net/pt se depreenda que é o mesmo.

Museu de Alberto Sampaio, instalado nos edifícios anexos da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, formando o conjunto da antiga Colegiada de Guimarães posterior ao Mosteiro, do qual restam duas alas do Claustro e a Sala do Capítulo. Mas do Mosteiro do séc. X parece que nem vestígios existem.
Pela antiga Casa do Cabido faz-se o acesso ao Museu. Não o visitei, pelo que as fotos são meio-clandestinas. Isto é, pelo que consegui ver da entrada foquei e apontei para posterior visita.
Guarda no seu interior obras de mestres ourives, acervos históricos como o loudel usado por D. João I na Batalha de Aljubarrota, peças, tesouros de valor incalculável. É Monumento Nacional desde 1910.

 À saída do Museu uma das Capelas dos Passos, creio que são 5, que existem em Guimarães.

Uns passos caminhados e surge-nos uma imagem interessante a meia encosta da subida para o Monte de Penha. É a Igreja do Mosteiro de Santa Marinha da Costa. Segundo a tradição, o mosteiro (hoje é um Hotel) foi fundado em 1154 pela Rainha D. Mafalda, esposa do nosso primeiro, o D. Afonso Henriques e doado aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, cuja ordem foi substituída pela de S. Jerónimo em 1528.
Admite-se que tenha sido erguido sobre um pequeno templo de características únicas do séc. IX que por sua vez foi construído sobre um estabelecimento romano. Também se supõe que tenha sido este o local do Paços Condais Portucalenses e que a Igreja tenha sido a Capela Palatina.
Todo o conjunto foi alterado e ampliado ao longo dos séculos.

Depois de toda a caminhada anterior - não foi tão pequena como o conjunto das fotos parece demonstrar- o Zé Ferreira foi buscar o carro mandando-me subir uma rua íngreme e que nos encontraríamos no Castelo.
Lá fui subindo a desalmada, se não estou em erro é a Avenida Alberto Sampaio e reparei que ainda há um troço de Muralhas em Guimarães, coisa que não imaginava. Lá atrás, o Paço dos Duques de Bragança.

Pois agora também sei que o início da construção da muralha que circundou o primitivo povoado foi no reinado de D. Sancho I, o segundo de Portugal, nos séc. XII-XIII e só terminou no reinado de D. Dinis, antes de 1322. Era a parte alta.

Tem histórias de cercos: Em 1322 o Infante D. Afonso luta contra o pai D. Dinis;

Em 1369, Henrique II de Castela (que fundou a dinastia de Trânstamara e andou metido na Guerra dos Cem Anos - apoiado pelos franceses à sucessão do trono de Castela enquanto o irmão Pedro, sucessor legal era apoiado pelos ingleses e portugueses e que veio a morrer assassinado - cercou a vila depois de já ter tomado Braga. Talvez pelo apoio dado por Portugal ao meio-irmão, talvez por causa de uma história antiga de assassínio da mãe, amante do Rei Afonso XI de Castela, por ordem da Rainha Maria de Portugal sua esposa legítima. Isto são deduções minhas.

Por causa desses amores, a Rainha Maria regressou a Portugal separando-se do marido Castelhano e acolheu-se a Évora. Mas acabou por exercer muita influência junto do pai D. Afonso IV para ajudar o ex-marido  Afonso XI de Castela, perdido na luta contra os mouros.
Lembrem-se, queridos e queridas visitantes que têm a paciência de me ler, o que escrevi sobre o Padrão do Salado, atrás referido.

Novo cerco desta vez por D. João I em 1385 durante a crise iniciada em 1383 e que durou dois anos. O alcaide Aires Gomes da Silva mantinha o apoio a Castela e a Henrique II. Em 1389 D. João I unifica o lugar - a parte alta (Castelo) e a parte baixa (villa de Santa Maria) - ordenando que fossem ambos um só povo doravante Guimarães.

Na chamada agora Zona do Castelo iniciava-se a parte alta, quando no século X a Condessa Mumadona Dias, viúva do Conde Hermenegildo Gonçalves que governou os domínios de Portucale e cheio de posses, fundou um Mosteiro no sopé do Monte Largo.
Castelo de Guimarães
Local de peregrinação, sujeito às investidas pelo sul dos muçulmanos e dos normandos oriundos do mar do Norte através dos rios de boa navegabilidade, para defesa do núcleo monacal e para recolhimento das gentes necessitadas, a Condessa mandou construir um Castelo que é doado em 958 aos religiosos.
Acredita-se que a estrutura então erguida, sob a invocação a S. Mamede, fosse bastante simples, composta por uma torre envolvida por uma cerca.
Destaque para a monumental Torre de Menagem
Um século após, a povoação Vimaranes era dos domínios de Afonso VI de Leão e Castela que a doa em favor de Henrique de Borgonha, formando o Condado Portucalense, mas seu vassalo.
Casou este com Teresa, filha ilegítima do rei Afonso VI tomando o castelo por residência o qual foi sendo ampliado.
Do casamento nasceu talvez em 1109, talvez em 1111 como refere a cronologia dos Reis de Portugal, talvez no verão (não se sabe se em Viseu, Coimbra ou Guimarães) o que viria a ser o nosso primeiro rei, Afonso Henriques, D. Afonso I de Portugal, o Fundador, iniciando a Dinastia Afonsina ou de Bolonha.

Uma história simples de poder: Morreu o pai ao Afonso e a mãe amantizou-se com um galego, o Conde de Trava. O jovem talvez influenciado pelo arcebispo de Braga D. Paio Mendes, tão novinho que ele era, presumo que tinha três anos quando recebeu as primeiras influências, contrário à ligação e ao desejo do Trava de tomar a soberania do espaço galaico-portucalense, arranjou uns amigos fidalgos que armaram uns guerreiros que lutaram contra o exército da mãe derrotando-o na célebre Batalha - há quem lhe chame Torneio - de S. Mamede, um campo próximo do Castelo.
Claro que se andou nisto alguns anos, fugido com o arcebispo e com D. Egas Moniz - há quem escreva na história que talvez seja ele o pai do futuro rei - até receberem o perdão da mãe Teresa. Com umas traições pelo meio, mas são já outras histórias. Certo é que devido a esse primeiro passo acabou por nascer Portugal.

O Castelo também serviu de Cadeia no séc. XVI e palheiros do Rei no século seguinte. Esteve quase a ser destruído em 1836 pela Câmara para apagar a imagem de prisão dos fieis de D. Pedro IV durante as Lutas Liberais. Foi salvo por 1 voto.
É Monumento Nacional.

Próximo do Castelo a Igreja ou Capela de S. Miguel do Castelo. A lenda diz que D.Afonso Henriques, o nosso primeiro, foi nela baptizado o que é impossível visto o templo ter sido sagrado pelo Arcebispo de Braga em 1239 e a sua construção de indefinida data será das primeiras três décadas do séc. XIII.
O estudioso de arte românica Manuel Monteiro concluiu que se trata de uma construção um tanto ilegal devido à simplicidade da capela e outros pormenores que o levaram a essa conclusão.
Talvez por isso, houve oposição do Arcebispo de Braga (terá sido Silvestre Godinho ?) à Colegiada de Guimarães, os autores da construção, chegando a haver troca de armas.

Na parte inferior da colina no sentido do centro da Cidade, encontramos o Paço dos Duques de Bragança, imponente casa senhorial mandada construir no séc.XV por D. Afonso, futuro Duque de Bragança, filho ilegítimo do rei D. João I, que aqui viveu com a segunda mulher D. Constança de Noronha.
Foi progressivamente abandonado entrando numa quase ruína até ao séc. XX. Entre 1937 e 1959 realizou-se um ampla e complexa intervenção de reconstrução segundo um projecto do Arquitecto Rogério de Azevedo. Paralelamente foram adquiridas peças que compõem o recheio actual, datadas principalmente dos séc. XVII e XVIII.
Monumento Nacional desde 1910, integra um museu, uma ala destinada à Presidência da República e uma área destinada a eventos culturais.

Do outro lado da colina fica o antigo Convento de Santo António dos Capuchos edificado no séc. XVII. Foi comprado pela Misericórdia em 1842 para instalar o seu Hospital. Hoje é Museu e segundo me informaram também uma clínica privada.

Tudo o que escrevi nestas três postagens foi colhido em variadíssimas páginas. Também tentei cruzar dados e daí algumas dúvidas. Acabei por não perceber quantos Mosteiros a Senhora Mumadona Dias mandou construir.

Claro que a "corda dada aos meus pedantes" foi accionada pelo Zé Ferreira. Ele sabe muito mas raramente se abre.

Ainda houve luz para subirmos ao Monte da Pena. Mas isso é outra história e é já a seguir.

Fica um apelo, visitem Guimarães. Vale a pena.

domingo, 6 de setembro de 2015

226 - Moeda ao ar

Tive na sexta-feira uma missão a cumprir. Aliás, foi um dia de missões a cumprir e  por isso levantei-me "muito de madrugada". Eram 7 horas. Mas esta missão era muito importante porque foi imposta à ordem de um certo Bando do Café Progresso.

Saí do transporte público na Capela das Almas e dirige-me à Batalha. Pelo caminho nada de interessante a registar. A multidão continua a encher a Rua e as Esplanadas. Os restantes Comércios quase às moscas. Reparei neste mural feito de reproduções de reproduções de pinturas serigráficas que muitas vezes estão na rua expostos. Deve ser recente pois a cola ainda os mantém unidos. Adiante.

Depois da missão cumprida, que foi exactamente no Parque das Camélias de onde partem serviços de transportes públicos com destino a Sul, principalmente para Gaia e arredores, sentei-me à sombra das Muralhas Fernandinas, nos Guindais.
Estava no Largo Actor Dias e comecei a olhar em volta.
A pequenina Estátua de Arnaldo Gama, no local onde esteve a do Porto que agora está na Praça da Liberdade, é fotografada com carinho. Reparem no estilo da pequenina fotógrafa. É assim que começa o vício.
Não estranhei pessoas  no elevador que sobe e desce até ao elevador dos Guindais. Só mais tarde li nas portas do dito elevador dos Guindais, na Ribeira, que estava encerrado. Sem mais informações. Lamentável é apenas o que tenho a dizer.

As ruínas daqueles arcos pertenceram a um palacete que serviu durante dezenas de anos à Escola Comercial de Oliveira Martins, onde fiz algumas cadeiras há muitos anos. A entrada era pela Rua do Sol e os terrenos estendiam-se até à Alameda das Fontainhas, mas foram utilizados para a construção do Viaduto que creio chamar-se Rua Duque de Loulé. 

 Já que estava à sombra das Muralhas, não custava nada registar um pormenor mesmo sentado.
A casa era a do antigo Elevador dos Guindais que um dia se desprendeu e foi por lá abaixo 
até à beira do Rio Douro.

Sem qualquer razão, nunca fotografei exclusivamente o Chafariz nem o incluí nos meus "trabalhos" sobre Fontes e Chafarizes do Porto. Também não descobri qualquer referência sobre ele, mas sei, pelo menos, que é anterior a 1910.
Cansado de descansar dei comigo a pensar o que fazer a seguir. Apetecia-me tanta coisa que resolvi atirar uma moeda ao ar e ela que resolvesse o destino: descer os Guindais ou ir até à Sé.

Os Guindais são um fascínio para olhar a Ponte D. Luís. Mas enfiando pelos seus cantos, temos miradoiros extraordinários sobre o Douro e Gaia. Existem dois clubes, o Cultural e o Guindalense, a meio e no fim respectivamente, que têm cervejinhas frescas a bom preço. Mas ainda era cedo, a viagem relativamente curta e a sorte da moeda acabou por determinar a  Sé, ali a uma centena de metros.
Aproveitando o trajecto, espreito a Igreja de Santa Clara que está em restauros e por isso fechada. Mas quem quiser dar um saltinho às Muralhas não perde nada.

O que chamamos de Sé é não só a Catedral mas o que a envolve.
O Miradouro no Largo ou Calçada de Vândoma é outro fascínio que não podemos recusar. Lembremo-nos que estamos no Alto de Penaventosa onde tudo começou desde logo o nome Portugal e alonguemos a imaginação e a vista, pensando no primitivo povoado Celta sem data verdadeiramente definida mas de alguns séculos A.C. ali aos nossos pés; na era Romana e as suas muralhas que os historiadores dizem terem sido edificadas por eles da qual resta um pequeno cubelo bem próximo à entrada de Vândoma e em que ninguém repara; um pouco mais além a Cidade Medieval antiga que se foi alargando até à Vitória e Miragaia, registos existentes em monumentos e nas muralhas do séc. XIV que sobraram. Dos Mouros que nos invadiram e foram donos da Cidade e da Região, parece que a história só nos relata o sangue das muitas batalhas travadas até os expulsarmos no séc. IX depois de 150 anos de usurpação. Mas ainda demorou mais 50 anos para definitivamente serem despachados.
Gostava de saber exprimir o que sinto para descrever aos amigos o que são os meus olhares sobre estes casarios, as torres das igrejas e conventos que se descobrem, os séculos de história que se tentam preservar.
Para Norte, mandado desbravar pelos Almadas, entre as torres da Cidade moderna vislumbro a torre da Igreja de Nossa Senhora da Conceição no ponto geograficamente mais alto da Cidade, o Marquês para os Portuenses e que foi a minha zona de vida durante 17 anos.

O registo de um Casamento na Sé. 

Outro miradoiro que nos deixa abismados está mesmo em frente, do lado esquerdo superior da foto, junto à Igreja de Nossa Senhora da Vitória. É uma pena aquela casa-torre e os fios que ela segura, tapar uma parte do bom visual para estes lados.

Descendo 50 metros encontramos outro miradoiro. Fica abaixo do Largo do Terreiro da Sé. À esquerda na foto, a Igreja de S. João Novo em Belmonte, com Miragaia aos pés para o outro lado. Para cá é S. Nicolau.
Apraz-me duas coisas. Ver muitas casas restauradas e saber que a Casa da Mariquinhas reabriu e com uma novidade, Fados à Tarde em alguns dias da semana. Vamos lá, amantes do Fado. É aqui em S. Sebastião de onde estou a olhar o que me rodeia.

 Baixamos os olhos para o Rio Douro e encontramos S. Nicolau e a sua Igreja, embocando para a Alfândega Nova a caminho de Miragaia.
Do outro lado do Rio, os restos do que foi um grande estaleiro, servindo hoje para restauros e arranjos dos Rabelos que ancoram no Cais de Gaia.
Chegados aqui, antes ou depois de visitarmos a Sé e a Igreja de S. Lourenço, ou dos Grilos como lhe chamamos, pôem-se a questão se pretendermos ir para a Ribeira.
Pela direita, dois itinerários. Vamos pelas Ruas das Aldas, de Santana, Penaventosa ? Ou pela Rua Escura, Bainharia, Souto, Pelames, Mercadores ? É certo que as podemos entre-cruzar em vários pontos. Umas estavam fora outras dentro das primitivas Muralhas, a dos Romanos.
A moeda ao ar escolhe a esquerda.
Retorno ao Terreiro da Sé, desço as escadas encostadas ao Palácio Episcopal, encontro a Rua de D. Hugo.

O muro do Seminário não deixa ver o Rio, mas a imagem sobre Gaia e as Caves de Vinho do Porto é magnífica.

 Finjamos não ver a arruinada Capela da Senhora das Verdades, descemos mais umas escadinhas e entramos na Rua do mesmo nome. Se seguirmos em frente vamos dar ao Codeçal. Dá para recolher uma imagem da Ponte D. Luíz, das Muralhas e do Convento de Santa Clara. Pormenores, claro.
O que resta do antigo aqueduto que levava a água das Fontaínhas até ao Convento de S. Lourenço (ou dos Grilos como dizemos)  o Arco das Verdades, está meio encoberto pelo entaipamento de uma casa em reconstrução.
Mas sem a moeda determinar, vamos voltar à direita e percorrer o Barredo

Entra-se pelas Escadas do Barredo, o bairro de gentes tão acarinhadas pelo Padre Américo. E que foi restaurado rua a rua, casa a casa, pela CRUARB que o ex- Presidente Rui Rio resolveu despachar.
A descida é íngreme pelas Escadas mas que nos há-de levar à Ribeira após atravessarmos ruelas que se entre-cruzam no interior do Bairro.

 Jovens turistas acompanharam-me um pouco na descida. A meio das Escadas apaixonaram-se pelo gatito que estava sossegado à sombra.

 Olhando para fachadas, algumas das quais com nichos que deveriam ter tido imagens de Santos.

Algum caminho descido e um olhar para trás dá-nos ideia do que é subir este morro.

Pensei que o altar do Senhor da Boa Fortuna na Rua do Barredo já lá tivesse uma imagem representativa. Um escrito do Prof. Germano Silva publicado há pouco levou-me a isso. Boato falso. Tudo como da primeira vez quando visitei o Barredo interior há mais de 8 anos.
As festividades em honra deste santo costumavam ser em finais de Agosto, principalmente na Vitória. Não sei se a tradição se cumpriu.

Este é o Largo do Padre Américo onde umas senhoras da melhor idade desenham e pintam.

Por entre o casario de cores quentes, vê-se Vila Nova de Gaia.

Pormenores entre ruas que se cruzam

A Casa Torre é um dos edifícios mais antigos da Cidade e sem dúvidas do Barredo. Remonta ao séc. XII ou XIII.

O Largo do Terreirinho e o Fontenário restaurado.
Diga-se de passagem, os puristas da língua exigem que se escreva Fontanário, porque vêm do latim Fontana, fonte + ário, sufixo que exprime função. Mas por dissimilação achamos que Fontenário está bem dito e a palavra foi registada nos dicionários. 

Ruínhas estreitas, com escadas entre desníveis do caminho onde o sol nunca bate. Mas onde pára a população, senhores ? Se não fossem as passagens de um ou outro habitante, um ou outro turista, as roupas a secar às janelas, diríamos que estamos no meio de paredes sem vida. E nota-se perfeitamente que há casas desabitadas.
Há anos perguntei a uma jovem que encontrei numa destas ruas, o porquê da desertificação. Resposta simples: o custo do aluguer das casas restauradas, os idosos sem posses foram viver com as famílias, outras que desajoladas para outros locais não quiseram regressar após os restauros. Campanhã e os seus bairros sociais receberam a maioria que por lá ficaram. Tanto quanto eu saiba, não houve e continua a não haver uma política de reintegração populacional nesta parte da zona histórica. E em algumas casas começa a notar-se a degradação.
Ali em baixo está a balburdia da Ribeira.
Reparem nas lajes gastas por gentes que aqui viveram anos difíceis, mas se calhar mais alegremente do que hoje.

Mesmo em frente da famosa casa das Iscas da D. Ermelinda, que por sinal estava fechada, era escusada esta visão.

Chegamos à  Ribeira, onde o homem-estátua-sapateiro provoca a admiração das crianças acabadas de chegar de um passeio de barco.
Por cada moeda ofertada, o bater na sola do sapato assusta a meninada.

As fachadas das velhas casas do Muro da Ribeira

O movimento da Ribeira

Encaminhando-me para o bar meu preferido, reparei na Sardinha da fachada desta casa. Quase poderei jurar que não estava lá há 15 dias. 
Pegada, a casa onde nasceu o Comandante Carvalho Araújo heróico marinheiro na 1ª Guerra Mundial.

Enquanto descansava e me dessedentava, estendia o olhar em volta. Os famosos Meninos Saltadores da Ponte.

Nunca havia visto este elegante barquito. Não deve pertencer a estas paragens, mas nunca se sabe.

De repente, vi passar lentamente um caíque que não me pareceu estranho. Será mestre Gastão, ex-companheiro e seguidor do Duque que fazia a ronda do rio ?
Há pouco teve direito a reportagem e entrevista num jornal que publiquei na minha página do Face. Um homem de grande exemplo para a humanidade.

O Codeçal termina ou começa, conforme as situações, junto à Ponte D. Luíz. E o painel publicitário do novo Porto não fica nada bem esticado no paredão que sustenta a parte ribeirinha do morro. Mesmo reconstruído em pedra moderna, tira-lhe a majestade e fere a visão.
Bem que podiam tratar melhor a página da Cidade na internet em vez de andarem a espalhar em sítios menos próprios painéis modernistas com a nova imagem que na minha opinião se parece com tudo menos com a Cidade do Porto.

A seguir não podemos deixar de olhar a Ribeira Negra. Este painel nunca fere susceptibilidades visuais.

Para montante do Douro, novos olhares, novas Pontes. E bem no alto do morro das Fontaínhas o Colégio dos Orfãos, local de lutas acesas com as tropas napoleónicas durante as Invasões Francesas e também durante o Cerco do Porto.
Mas como diz o Prof. Joel Cleto, isso são já outras histórias.
Meus amigos e amigas, queridos e queridas visitantes. Este passeio não custa nada se for feito no sentido "sempre a descer". É o lema que uso e utilizo também como arma.
Mas é só mais um passeio turístico como tantos que temos na Cidade. Se conseguir meter um pouquinho na alma o Ser Tripeiro e Portuense o "aroma" é diferente.