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segunda-feira, 8 de julho de 2013

164 - Memórias de Trás-os-Montes e Alto Douro. 5

De S. João da Pesqueira à Régua

Tinha uma curiosidade grande em conhecer S. João da Pesqueira. Um nome que é como um mito na história do Vinho do Porto. Para mim. O amigo Fernando Súcio fez-me a vontade.
Vindos de Linhares de Ansiães, é só atravessar o Rio Douro na Barragem da Valeira e já estamos na área do Concelho. 
Sobre a Barragem e a história envolvente do Cachão da Valeira, podem os meus leitores ver a postagem número 161. E já agora recomendo as últimas quatro.
As três fotos que se seguem podem já ter sido publicadas, ou pelo menos umas parecidas, mas é para melhor nos concentrarmos no tema.

 Vindos de Linhares, em frente é já pertença do Concelho de S. João da Pesqueira.
Registados os caminhos das propriedades e as estradas. 

A Barragem está lá no fundão mas por ocasião desta foto já a ultrapassamos e fomos subindo. Tem de se aproveitar cada curva da estrada, pois não sabemos se mais acima lamentaremos a falta do boneco.

Pois, aqui já não se vê a barragem. E é sempre a subir, curvas e contra-curvas, num rolar constante e que nunca mais acaba.

A região é muito antiga e gaba-se de ter o foral mais antigo de Portugal que ainda o não era, doado antes da nacionalidade. Linhares e Ansiães também puxam para si este título. Para o caso não interessa nada e só temos de olhar o que nos rodeia. E já não é pouco.

Olhando muito ao longe, um zoom para ver o que dá. Embora uma placa lá no meio de umas subidas nos tivesse deixado com a pulga atrás da orelha. Vim a descobrir que é S. Salvador do Mundo, um Santuário composto de nove capelas que começaram a ser construídas desde a base do Monte até ao cimo a partir do séc. XVI. A primeira capela fundada em 1594 estava ligada à devoção dos marinheiros. 
Muitas lendas associadas ao Santuário que os caros leitores interessados podem ler pormenorizadamente em:
http://www.sjpesqueira.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=30467

Segundo a Câmara Municipal, há muitas casas brasonadas. Devem haver bastantes no interior das propriedades que aqui lhes chamam Quintas. Não esqueçam os meus leitores que apenas fiz um pequeno percurso por Pesqueira e as Casitas não aparecem à vista. Creio mesmo que a maior parte estão ao serviço do Turismo Rural e são pertença das grandes empresas de Vinhos do Douro e do Porto. Coisa só para camones.
   
Chegados ao centro do Concelho e mesmo a correr, memorizei este palacete porque o seu desenho não me era estranho. Uma corridinha para fazer a foto e mais tarde verificar do que se trata. Chama-se Casa do Cabo, nome que lhe advém por estar no extremo Este da antiga localidade. Símbolo do desenvolvimento económico e do poder nobiliário que se desenvolveu no Douro no séc. XVIII, de tipologia arquitectónica de Nasoni. Lá está, tinha razão a minha memória.  Parece que se pode visitar e é onde funciona o Tribunal de S. João da Pesqueira. Tem jardins e 365 portas diferentes.
Fiz uma foto do totalidade da fachada, mas a minha máquina...

O Concelho foi berço de gente ilustre da qual destaco: José Paradela de Oliveira, professor, advogado e cantor de fados de Coimbra; o escultor Eduardo Augusto Tavares (tem Casa Museu); Sequeira Costa, músico e compositor; José Augusto Seabra, professor, embaixador, político; e em homenagem ao meu primo Seixas, aqui vai recordado um seu antigo parente José Maria da Cunha Seixas, jornalista e advogado. Presumo que o seja, pois nasceu em Trevões, tal qual o Alfredo.
  
Mas S. João da Pesqueira também foi terra de Távoras, família cuja origem se perde nos tempos.O primeiro Távora existiu antes da Nacionalidade Portuguesa. É o que está escrito. Depois foram donos de grande parte de Portugal. 
Chegados aqui, dei comigo a magicar se não foi nesta terra que começou a pensar-se no desaparecimento da família. Já lá chego.
José Sebastião de Carvalho e Melo, mais tarde Conde de Oeiras e mais tarde ainda Marquês de Pombal estudou no Convento Franciscano da Vila e amandou-se a uma bela filha Távora. Estes não gostaram do assunto e mandaram passear o José, um jovem plebeu. 
Sabemos o resto da história, mas para quem não saiba aqui vai contada à minha maneira. O José  chegou a primeiro ministro no reinado de D. José I e aproveitando uma cena muito mal contada, ou seja um atentado ao Rei, pegou nos Távoras como culpados e mandou os homens para a fogueira e as mulheres e crianças para conventos. Mas deveria haver também uns ciumes, pois o Rei D. José andava de amores com uma Távora. Não sei se a mesma que foi negada ao juvenil José. Prontos.

Passamos por alguns lugares a correr, a caminho do Rio Douro e da Régua.

É só beleza, muito pelo arrojo dos homens, que subindo os montes construiram os célebres socalcos do Douro.

 Já avistamos Pinhão, o antigo coração da Região.

Por aqui já conhecia a região, embora percorrida em sentido contrário e em outro horário. E há menos de um ano.
Mas nunca cansa olhar. 


Régua, final desta viagem maravilhosa oferecida pelo amigo Fernando. Que me levou às terras altas do Marão por Vila Real e Santa Marta de Penaguião, passando por algum Nordeste Transmontano e me trouxe até aqui.

Sobra um tempo para ler esta placa cheia de sentido. Quer dizer, sentido já não tem muito porque os comboios estão a desaparecer. E não só na região. Portanto, é uma revolução ao contrário.
Uma informação para quem precisar de usar os quartos de banho. Já não funcionam no edifício da Estação, mas sim em contentores. Também não posso dizer que seja para sempre ou não.

Obrigado pela vossa paciência amigas e amigos leitores. Desfrutem mais as fotos do que os textos. E venham a Trás-os-Montes e ao Alto Douro.

Não liguem a alguns defeitos especialmente do lado direito das imagens. A minha máquina estava quási pronta para entrar em greve. Que ainda dura. Mas fizemos um acordo e brevemente regressará ao trabalho.   

domingo, 2 de junho de 2013

159 - De novo Trás-os-Montes e Alto Douro. 1ª parte

O meu querido amigo Fernando Súcio tem um hábito muito simpático de convidar o pessoal para lhes dar a conhecer as belas regiões Transmontanas -de onde é filho natural- e Durienses. 
Já por várias vezes andei à boleia dos seus convites. Como a meteorologia parecia querer ajudar e esta é uma época excelente, lá fui eu todo feliz da vida. Embora me tivesse custado a levantar da cama, ainda era de madrugada.
O ponto de encontro era Vila Real. Com a Ferrovia extinta, o transporte utilizado foi a camioneta da Rodonorte, que em termos de comodidade é excelente. E também dá a vantagem de oferecer um desconto à terceira idade. Enquanto se faziam horas, há que aproveitar para tirar uns bonecos para futuras quaisquer coisas. E chegou a hora da partida, 11 em ponto. 
Infelizmente começou a cair uma chuva meiguinha, que volta e meia engrossava.

Foi assim quási toda a viagem, a estragar a paisagem. A partir de Amarante aumentou de intensidade. Em alguns troços da estrada IP4 ou A4, nunca sei como estas coisas se chamam, vêm-se obras e desvios, sinal de que a Estrada para o Nordeste avança, com ou sem polémica sobre o túnel do Marão.
O último desvio levou-nos para a velhinha N15 e por ela entramos em Vila Real. Um pouco de frio estava à nossa espera juntamente com o Fernando. Só tempo de fumar um cigarro e lá vamos a caminho da Campeã, a cerca de 15 km.

Nada melhor para o almoço que um excelente Galo à Moda da D. Graça. Acompanhado de um perfeito arroz solto e a gentileza da revelação de segredos culinários para quem gosta de aprender. Mas os donos da casa excederam-se em muitas outras gentilezas, ao ponto de apresentarem umas entradas em que sobressaíram queijos da Serra (da Estrela, pois claro) cremoso e um de ovelha curado, salpicão e chouriço que nem sei se vos diga se vos conte, caros leitores. Branco e Tinto, engarrafado pelo amigo Fernando, e mai'nada. Houve ainda uns ós'pois mas a barriguinha já não estava esfomeada. Café e bagaço do nosso - branco e amarelo - e prontos.
Regressou a chuva e desta feita já não era para brincadeiras. Mas promessa tem de ser cumprida e os de P'ra lá do Marão não faltam à palavra. Pelas fraldas (ou faldas) da Serra, coloridas pelo amarelo das giestas, fomos subindo até lugares de recordações de muita vida do amigo Fernando.
Chegados a Montes, lugar que pertence à freguesia da Campeã, a chuva era mais intensa e o vento muito forte. De guarda-chuva e gorro, com boa vontade sempre se fixam recordações. Uma singela capela surge no meio de um pequeno largo.
Há algumas habitações novas no meio das velhas casas, umas em ruínas outras bem conservadas.
O vento intenso acabou por levar os guarda-chuvas e encharcados como um pinto é a frase adequada para a situação super-húmida em que ficamos. Mas não esmorecemos.

Velhos espigueiros, também chamados de canastros. Uma terra que é um paraíso para fotógrafos e caminheiros mesmo com chuva e vento e molhados até aos ossos. Não ficaram registados os melhores bonecos, mas o importante é mesmo que se dê a conhecer o que ainda temos.

Água é coisa que não falta neste lado da Serra do Marão. Pelas encostas desliza e cai em cascatas, vindas do interior da terra ora se mostrando ora terminando num dos muitos ribeiros que aqui abundam.
Existiram alguns moinhos, vendo-se aqui e ali apenas algumas pedras que sobraram das suas construções.

Descemos e subimos para chegar a Cotorinho, outro lugar (ou aldeia) da Campeã, de habitações com as mesmas características. Bem assinaladas as pequeninas ruas e um largo famoso. Não tem que enganar. A palavra Pecado, quer dizer isso mesmo. Como foi determinado pelos Padres ou sob a sua influência, não nos restam dúvidas sobre os Pecados que deveriam ser lembrados para não serem praticados. Tá--se mesmo a ver...

Cerejas quási no ponto de amadurecimento. Mas não são as únicas frutas que por aqui se produzem.

Uma pequena levada apanhada em andamento. A chuva embora tivesse diminuído de intensidade não permitia caminhadas. O terreno também não. E a roupa estava a secar...

Vamos no sentido de Santa Marta de Penaguião, a chuva parou e podemos apreciar um pouco melhor o que nos rodeava.

Estrada de montanha em bom estado de conservação. O Fernando recorda os tempos dos caminhos em que só a cavalo se transitava entre estes lugares.

Sempre um pára-arranca para olhar em volta, fazer os bonecos e seja o que Deus quiser.

Estamos na freguesia de Fontes, elevada a Vila, a maior do concelho de Santa Marta, local de muita história que vem desde o início do séc.XII. Há documentação e um monumento que prova ter existido um povoamento castrejo, depois muito romanizado.
Paramos para um café e logo se nos deparam bem destacadas, coisas portistas, incluindo uma foto da equipa campeã nacional e se a memória não me falha é referente à época 84/85. 
É tempo de olhar mais belezas e especialmente a atmosfera onde um arco-íris já começava a desfazer-se. Nem sei como a velha Sony DSC-V3 registou a imagem. (Um abraço para o amigo Álvaro). E não há photo-shop. É limpinha. Como todas as outras.
Já estamos em pleno Douro Vinhateiro. As fotos não nos dão minimamente a ideia da grandeza da paisagem em volta.  
Do alto, que já não é muito, conseguimos ver alguma luminosidade sobre os lugares espalhados 
pelos montes e vales.
Entramos na estrada principal que leva ao centro de Santa Marta. Uma luz extraordinária incide sobre os montes e não permite sequer a cor correta do casarão que é de um amarelo quente. Sobressai o céu plúmbeo em contraste com a terra.
A meia dúzia de quilómetros está a Quinta da Senhora da Graça, cuja visita ando a prometer há muito tempo. Devido ao adiantado da hora e porque não gosto de aparecer sem pelo menos avisar, ainda não foi desta que levei o abraço àquela gente boa que dá pelo nome de Zé Manel, Luísa & Companhia. E nesta altura até que ainda devem estar necessitados de muito apoio e amizade.   

Apoio e amizade que sentimos em quaisquer fins do mundo. Terras de Santa Marta sempre presentes.

O lugar da Veiga, na freguesia e Vila da Cumieira, ainda território de Santa Marta, merece um profundo olhar de respeito. Um grande zoom só para se poderem distinguir as casinhas lá no fundo do vale.
Nicolau Nazoni andou por aqui em 1739, a expensas do senhor 3º Morgado de Mateus, provavelmente no intervalo da construção do Solar (que fica a 2 km de Vila Real) pintando na Igreja Matriz da Freguesia as paredes e abóbadas hoje desaparecidas, assim se lê no site do Concelho de Santa Marta/Freguesia da Cumieira. Fico sem saber o que realmente desapareceu. Mas não havia tempo para procurar a Igreja. Era quási noite.
O lugar da Veiga teve foral concedido por D. Manuel I em Dezembro de 1519.

A caminho de Vila Real, de regresso a casa, não podemos deixar de apreciar mais uma ponte. Sei que são muitas nesta região, já atravessei algumas, mas impressiona vê-las a ligar os vales a altitudes surpreendentes. Pelo menos nesta parte do nosso Portugal, o dinheiro da rapaziada não foi mal empregue. O pior são os acordos e os atrasos nas construções e o resto que eu não sei, mas imagino...

Por razões diversas, tenho de dividir o passeio-turístico em diversos temas e por vários tipos de espaços. Ainda não pensei a sério como será, pois primeiramente tenho de rever o trabalho feito, depois pesquisar, depois, depois logo se verá.
Ficam agora estas simples memórias passadas num dia de forte assédio temporal.  

Tenho de meter este àparte. A roupa já tinha secado, a pele também, mas o frio era "catastrófico". Nada melhor do que uma lareira junto à qual saíem umas conversas, alinham-se umas coisas sobre o Dia do ex-Combatente P'ra cá do Marão, em Justes, aqui bem próximo, no dia 15; guardam-se as fotos do dia num CD e na perfeita companhia das tais branquinhas e amarelinhas da casa. 2 da manhã, ei, horas de deitar.

 E foi assim o trajecto deste dia razoável, mau, péssimo, suficiente, excelente.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

137 - As Belas Terras do Norte de Trás-os Montes e Alto Douro.

Longe vão as minhas memórias de viagens que fiz por estas terras, embora os caminhos, com algumas excepções, não fossem estes que acabei de atravessar.
Trás-os Montes e Alto Douro são terras de excelência, que começaram por ser criadas regionalmente (como em todo o Portugal) no séc. XV,  adaptaram-se e desenvolveram-se durante séculos, confirmaram a sua regionalização na Constituição de 1933, até que os inteligentes inventores da Constituição de 1976 destruíram tudo, criando organismos e serviços administrativos que se multiplicam e repetem funções, sem funções nenhumas, apenas para dar tachos aos amigos e complicar a vida aos portugueses.
Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro - eu continuo a chamar-lhe assim e "prontos" - é fácil e difícil. Percorri durante alguns anos as (péssimas) estradas que ligavam as Cidades principais da Província, com duas raras excepções em passeio, as restantes sempre a trabalho. Uma vez ou outra tinha tempo para visitar algumas aldeias - será que hoje se chamarão assim ? - e fazer algumas fotos que devem estar no arquivo do Instituto Português de Fotografia do Porto. 
Tantas e belas recordações me marcaram para sempre, mas isso são outras histórias.   

Em pleno coração do Douro Vinhateiro, algumas terras foram e continuam a ser preparadas para novas formas de plantio das vinhas. Terão também influência depois para a forma como as vindimas serão processadas.
E a paisagem muda a cada curva do caminho.

Embora o Douro seja um Miradouro constante, uma das visitas obrigatórias é ao Monte de São Leonardo (de Galafura). Situado a 566 m. de altitude, conforme refere a Câmara Municipal da Régua no seu site, ou a 630 a 640 conforme se lê na placa que está no caminho que leva ao Monte - para o caso não nos aquenta nem arrefenta -, é formado de sílex e quartzo. Aqui existiu um castro romano do qual foi governador Galafre, que etimologicamente deu o nome a Galafura, localidade criada pelos Mouros a Oeste do Monte, mas que derivado a um ataque de formigas foi deslocada 5 km. do local primitivo.
Gosto de saber datas quanto mais não seja para situar as coisas no tempo, mas isso a Câmara não nos informa. Assim como gostaria de saber o porquê de S. Leonardo. A capela no cimo do Monte deve ser a ele dedicado, mas em Portugal apenas há um templo dedicado a este Santo, para os lados de Peniche, em Atouguia da Baleia. E por dedução presumo que seja S. Leonardo de Noblac - ou Noblat - nascido no séc. V, patrono dos presos e das parturientes.

Ficam-nos as belezas que do seu alto podemos desfrutar. É "O Doiro sublimado"...

...como escreveu Miguel Torga: "O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à forma de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza..."

Bem próximo temos o acesso à IP4 que nos leva a Vila Real, enquadrada nas "Escarpas do Corgo".

Uma relíquia recordando a chegada do primeiro comboio a Vila Real vindo da Régua em 1906. É uma locomotiva de via estreita mod. 409, construída em 1908. Para quem gosta de comboios (olá Júlio, olá Mary,) uma visita a este blogue é obrigatória: http://luis363.blogspot.pt/

Vila Real tem as serras do Marão e Alvão ali à mão. A sua idade é velhíssima, vem do paleolítico e  terá nascido e crescido a partir de Panoias de quem recebeu o nome primitivo (Vila Real de Panoias). Neste lugar existe um santuário romano construído entre os séc. II e III.
Saibam os hoquistas de todo o mundo, que o hoje denominado vulgarmente stick e profissionalmente aléu, nasceu aqui com a choca, jogo que se praticava jogando-se uma pedra com um pau ao qual os naturais chamavam aleo. Conta a lenda que passando D. João I (1357/1433) por estes sítios, mostrou-se zangado com os rapazes que praticavam o jogo por "estarem distraídos das lutas guerreiras". Responderam os rapazes "o pau que bate na pedra também bate nos inimigos".

Seguimos para o Parque do Alvão e o olhar vai descobrindo relíquias. Uma pequena ermida num alto e na encosta, aglomeradas velhas casas.

Um batatal e à conversa com as pessoas, ficamos a saber o porquê de uma em cima e outras em baixo. Estão a regá-lo. A água vai passando e os regos vão sendo abertos e fechados para que percorra o batatal de cima abaixo. A missão de cada um é orientar o caminho da água com a sachola.

Velha Aldeia, casas de xisto e granito. Os telhados de colmo foram sendo substituídos.

Novas casas foram-se espalhando pelos lugares, alterando o aspecto habitacional que não o paisagístico.

Placas de informação bem rústicas, mas muito úteis.

O Parque Natural do Alvão é toda a Serra com o mesmo nome, paredes meias com a do Marão. Foi classificado em 1983 derivado à sua abundante avifauna, riqueza e variedade da flora e interesse da arquitectura local.

É uma área de formações xistosas de silúrico de grande interesse paisagístico e geológico, cujo fulcro é a queda de água do rio Olo. Este forma as Fisgas do Ermelo, passando muitas vezes incógnito por baixo das formações rochosas, mas que no seu todo é uma das maiores cascatas da Europa com 200 metros de extensão. Deve ser um sonho percorrer desde a nascente do Rio Olo até ao lago final. Mas acho que é só para alpinistas e águias, salvo alguns locais dos quais já vi maravilhas fotográficas.

Pelos meandros da Serra do Alvão vamos avistando o Monte Farinha em terras de Basto.

Vários caminhos, tanto pedestres como automobilísticos vão dar ao Monte.

Numa encruzilhada de vários caminhos que se juntam para chegar ao alto, assinala-se um ramal antigo do Caminho de Santiago. No alto de um enorme pedregulho granítico, encontra-se esculpida uma imagem do Santo. Em Julho realiza-se uma Romaria em honra do Santinho, como lhe chamam e  dizem ser das mais populares da região de Basto.

O Monte situa-se a cerca de 1000 metros de altitude  e nele encontra-se o Santuário de Nossa Senhora da Graça. É a terceira ou quarta ermida no mesmo local e esta foi construída entre 1748 e 1758 em granito da região. Já era ocultada em 1566.
O Monte antes de ser conhecido por Farinha ou Senhora da Graça, chamava-se de São Veríssimo e de Santo Apolinário.
Mas existe uma lenda sobre o porquê do Monte chamar-se Farinha e se venerar a Senhora da Graça. A grosso modo a coisa passou-se assim: Um moleiro andava de terra em terra com um pequeno moinho montado na sua carroça puxada por um velho jumento, moendo os cereais da população. Um dia deu "boleia" a uma jovem mas foram atacados pelos mouros. Na precipitação da fuga, o jumento ficou entalado nas penedias, a jovem emparedou-se numa das pedras que se abriu e fechou. O moleiro foi morto mas o moinho trabalhou como um danado fazendo farinha em quantidades tais que os mouros acabaram por fugir assustados. O Monte ficou com o seu nome e a Senhora embora nunca mais tenha sido vista e dizem que ainda hoje lá está na Pedra Branca, por causa do milagre e as Graças recebidas pela Farinha, erigiram-lhe um ermida em sua memória.
Claro que as datas históricas não batem certo, mas quem sou eu para não gostar de uma boa lenda?

Mas certos são os panoramas deslumbrantes em 360º que do alto se avistam. Na região existiram vários Castros anteriores à ocupação romana.
Outros indícios arqueológicos levam a presumir que seria um local de culto.

Três capelas seguem por um caminho que irá dar a Mondim. Foram construídas em 1886, 1889 e 1933. Mas todo o Monte mais parece uma enorme pedreira de onde se extraí granito amarelo, dizem que muito apreciado na Europa.

O meu querido amigo Fernando Súcio, a quem devo este passeio, bem enquadrado na paisagem.
E está na hora de seguir para novas paragens.
A partir da sua terra, a freguesia da Campeã, um belíssimo vale em plena serra do Marão, bem próximo da do Alvão.


O mais antigo documento conhecido que lhe faz referência data de 1091 («in terrotoris Pannoniarum… subtus mons Campelana»). Em 1134 foi-lhe concedida por D. Afonso Henriques carta de couto à chamada à Albergaria do Marão, aí situada. 
Em 1530 a freguesia é denominada de Santo André, mas em 1721 já surge com o seu nome actual. 

A Igreja matriz é um tempo do séc. XVIII, dedicada a Santo André. Tem quatro confrarias, a do Santíssimo Sacramento, a de Nossa Senhora do Rosário, a de Santo Nome de Jesus e a de S. Sebastião, todas sustentadas com esmolas e devotos dos fregueses.
Realizam-se anualmente festas importantes em honra do padroeiro Santo André, de S. Sebastião e de Santa Ana.
Para um leigo como eu, gostaria de saber mais coisas sobre o Templo. Ficam os registos de pormenores do tecto lindamente pintado e do Altar-Mor, uma relíquia em talha dourada. Realmente é uma Igreja belíssima, com muitos pormenores que a estudiosos deveriam interessar.
Estava em obras na altura da visita, preparando-se para as suas festas.
A Campeã foi uma zona mineira, principalmente de ferro. Desde há uma meia dúzia de anos que a sua exploração foi abandonada. Ficaram as recordações da Capela e das habitações dos mineiros. Hoje transformadas em Bairro Social.
Nos caminhos e suportes murais foram aproveitados os resíduos da exploração.

Um outro Bairro e uma exploração turística estão bem enquadrados na paisagem da região.
Subindo ao Marão, "deste lado", notam-se rasgadas "no outro lado" a velhinha Estrada Nacional nº 15 que faz a sua curva impressionante junto à Estalagem do Marão e o novo IP4/A4, que dará um dia, quem sabe, ligação à futura auto-estrada Transmontana.
As encostas dos montes precipitam-se por desníveis impressionantes. E para os amigos que fazem perguntas "esquisitas" sobre Túneis, desníveis, viadutos, etc. deixo-lhe uma amostra do que é viajar nesta montanha. Já Camilo Castelo Branco no séc. XIX se referia às velhas estradas, saindo do Porto. Escreveu ao seu amigo Alberto Pimental quando esteve encarcerado na Relação (na Cordoaria), uma lembrança que transcrevo de cor mas que será mais ou menos esta: Da minha cela vejo a Igreja do Bonfim e as saudades aparecem ao recordar quando ali apanhava a estrada real que me levava a Vila Real.
Lembro-me bem das dificuldades da N15, principalmente a partir de Amarante. Mas nunca imaginei verdadeiramente como era o Marão visto de outros montes.
Fez questão o meu amigo Fernando de me levar até ao ponto mais alto da Serra. Antenas de Rádio, não sei se de TV, o Vértice Geodésico e Observatório Astronómico estão a 1416 m de altitude.
O Miradouro chama-se da Senhora da Serra e pertence ao Concelho de Santa Marta de Penaguião mas na divisória com o de Baião. Dizem que em dias claros, daqui até o Atlântico se avista.
As "ventoínhas" da energia eólica são um presença constante na serra e esta assiste à nossa partida. Portugal o ano passado, era o 10º. produtor Mundial.  Mesmo assim andamos a morrer aos poucos... E há quem diga que interferem com o voo das aves, a paisagem é poluída sonora e visualmente e muitas precauções devem ser tomadas. Para o caso presente isso não nos interessa, porque vamos passar aos finalmentes.

Os finalmentes, claro, são as comidas e os vinhos. Tudo simples, como a feijoada à transmontana, os enchidos/fumeiro, mas até umas lulas grelhadas estavam no ponto, servidas no Chaxoila em Vila Real debaixo de uma ramada onde o calor não penetrava. Uma surpresa para aperitivar, Tripas(sim, das nossas, tripeiros)recheadas com presunto.Uma receita do tempo da velha tasca que já vem desde 1947. É só espreitar em  http://chaxoila.com/
Para terminar a refeição, um doce/gelado onde os fios de ovos são reis. Não há etiquetas nem papariquices e o vinho é da região. Mas há muita simpatia.

A minha querida Amiga Alda Paulino, Gaúcha-Portuguesa de todos os costados, tal como Torga ao seu/nosso Douro, sublimou o nosso Vinho com este belo poema de alma.

PORTO E VINHO
Cidade – vinho – rio,
caudal de águas
revoltas ou silenciosas,
rio Douro amante,
reflexos do casario
na água errante.
Vêm de longe
ao serpentear serrano,
lágrimas e suores
de brava gente.
Descem sinuantes,
mesclando serranias.
Labor constante
ao sonhar das noites,
e realizar aos dias.
E a parra agreste,
donzela enamorada,
espera a boda ansiosa.
Ao revolver
adubos e gestos,
vai brotando
o cacho macho.
De amor constante,
vindima e suor
promissor de castas.
E brota o sangue parido
entre esperança e gemido:
néctar rubro reverberado ao sol.

E até Outubro se faz discreto
recluso em tonéis e sombras
até o mistério se fazer completo.
Então, irrompe ao mundo
em brinde e farra,
filho dileto do Douro e terra.
Espanto único de prazer secreto
que cada gota, uma a uma encerra.
E por ser o melhor entre uso e fim
diga comigo degustando a essência:

TIM! TIM!
Um último adeus ao Sol que aquece e também separa as
Terras Quentes e Frias de Trás-os-Montes e Alto Douro
Um mundo infelizmente muito esquecido