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quinta-feira, 24 de maio de 2012

130 - Do Mirante à Praça de D. Filipa de Lencastre

Prometi voltar para acabar o circuito do antigo Mirante.
Mas antes devo publicar uma informação  prestada pelo meu amigo Fernando Ribeiro sobre o edifício onde se encontra a actual Ace-Escola de Artes.

Escreve-me o amigo que neste edifício funcionou uma parte da Faculdade de Engenharia, na altura sita na Rua dos Bragas, devido à exiguidade das suas instalações. Posteriormente foi o Colégio Almeida Garrett, onde estudou, bem como o nosso antigo primeiro ministro, Francisco Sá Carneiro, tràgicamente desaparecido em 4 de Dezembro de 1980. As instalações já estavam degradadas por essa altura.
Esta informação levou-me a programar a máquina do tempo e a recordar uma conversa que tive já há uns largos tempos com o meu amigo J.Teixeira/45, sobre Teatro e também sobre a Escola Académica. Disse-me na altura que se recordava de ter existido naquele edifício uma escola, mas não sabia o nome.
Portanto, daqui vão os meus agradecimentos ao amigo Fernando Ribeiro pela sua informação e por aumentar os meus conhecimentos sobre a Cidade do Porto.

Para o nosso circuito vamos sair pela esquerda alta do antigo Largo do Mirante, actual Coronel Pacheco, e entrar na Rua do General Silveira. Conta-se que foi um herói da Guerra Peninsular, mais conhecida entre nós como as Invasões Francesas (1807/1812). Combateu também em Espanha contra os Franceses, principalmente na famosa Batalha de Vitória em 1813. Retirou-se para a sua Terra em Vila Real, não aderente ao Liberalismo nem à Revolução do Porto de Agosto de 1820. Contràriamente a seu irmão, também lutador contra as tropas de Napoleão, mas um dos cabecilhas da Revolta.
Esta rua chamou-se anteriormente rua do Coronel Pacheco.

Anteriormente referi esta edifício como possuindo na loja uma padaria. Não tenho a certeza. Mas sem dúvida, a sua fachada é muito linda.

Do mesmo lado e no final da rua, que é pequena, a casa que é considerada de interesse público, pois na fachada está adoçada a Fonte das Oliveiras.
Tem a Rua, do lado direito, um correr de belos outros edifícios, cada um com o seu estilo. Não entendo nada de arquitectura, mas dá prazer sentar no Largo Alberto Pimentel e apreciar estas obras.
A Fonte das Oliveiras.
Do lado esquerdo, a Rua do General Silveira.
Do lado direito a Rua dos Mártires da Liberdade
Este é o Largo de Alberto Pimentel, homenageando o homem de letras nascido na freguesia de Cedofeita - de que o Largo faz parte - em 14 de Abril de 1849. Iniciou a sua vida profissional no Jornal do Porto como revisor e tradutor.
( Jornal do Porto, propriedade de José Barboza Leão (1818-1888) médico, militar, político. - 1º numero em 1 de Março de 1859, último número, o 250, em 27 de Outubro de 1892)
Informações sobre o Jornal, recolhidas na Biblioteca Nacional de Portugal. Sobre José Barboza Leão em  http://www.arqnet.pt/dicionario/barbosaleaoj1.html
Imensas são as suas obras, desde biografias ( de Júlio Dinis, de Camilo - Os Amores de Camilo, os Netos de Camilo, o Romance do Romancista ) traduções, viagens, etnografia, algum teatro e política, poesia e claro romances.
Escreveu várias obras sobre o Porto e o Norte. Faleceu em Queluz em 1925.

Seguindo em frente iríamos dar a Carlos Alberto, mas isso são caminhos já muito conhecidos. Portanto voltamos à esquerda, na Rua da Conceição, que vai dar ao Largo de Mompilher (ver post anterior). 
Destacam-se mais dois belos edifícios. O "amarelo" já anteriormente fiz referência a ele. Está na esquina com a Rua das Oliveiras. Bom, esta Rua à esquerda pertence a Cedofeita, mas à direita já faz parte da freguesia da Vitória, que tem direito a folheto impresso, especial sobre o Património, mas que não nos dá referência ao edifício. Será que faria parte do edifício que está em José Falcão que foi da Cerâmica das Devesas ?
Nem a este, já na esquina com a Rua José Falcão. Na loja, uma galeria de arte, digna de uma visita.
Mas já é tempo de informar os meus queridos leitores e visitantes sobre a toponímia da Rua da Conceição.
O plano urbanístico de João de Almada e Melo (Monção, 15 de Agosto de 1703- Porto, 30 de Outubro de 1786) , o grande obreiro da Cidade do Porto no séc. XVIII, depois continuado por seu filho Francisco de Almada e Mendonça, incluía o traçado de várias ruas novas. As artérias - Rua e Largo (o actual de Mompilher), foram abertas junto à Quinta do Pinheiro e à sua Capela setecentista dedicada a Conceição de Maria Santíssima e desta invocação passou para as artérias próximas. Lê-se na toponímia da Câmara Municipal, referindo o sempre presente Andrea de Cunha e Freitas.
Creio que também já se chamou Rua da Cancela Velha em 1933. Talvez porque faria parte da Cancela Velha (agora já não tem esse nome) que vinha do Bonjardim. O portuense "velhinho" ainda chama a esse "bocadinho" de rua, a Cancela Velha.

Voltando à direita para a Rua José Falcão (Miranda do Corvo, 1 de Junho de 1841 - Coimbra, 14 de Janeiro de 1893; foi um político e catedrático de Matemática) mas que já se chamou de Rua de D. Carlos, creio que até 1933, (teria sido em homenagem ao penúltimo Rei de Portugal, assassinado em Lisboa em 1908 ?)  encontramos o belo edifíco do Depósito de Materiais da Fábrica de Cerâmica das Devesas, de Vila Nova de Gaia.
Em estilo neo-árabe, notável pelo revestimento cerâmico, é de 1899 e da autoria de Teixeira Lopes, pai, escultor e ceramista (S. Mamede de Riba Tua, 1837-Vila Nova de Gaia, 1918). Foi co-fundador da Fábrica das Devesas, (infelizmente a ruir e parece que não há vontade política de resguardar o que foi a maior fábrica Cerâmica do País com uma história fabulosa - ver  http://www.queirozportela.com/devesas.htm ) onde criou uma escola de desenho e modelação. Tem várias obras na Cidade, destacando-se a Estátua de D. Pedro V, na Batalha, e os baixos relevos do batistério da Sé e as Alminhas, na Ribeira.
Já aqui esteve uma fábrica de chocolates; hoje estão escritórios e bares. Talvez por isso, seja uma prenda o acessório que se encontra fixado.
Pormenor dos azulejos da fachada.
Com um acessório que é de arrepiar
Como há gente tão estúpida que faz uma coisa destas

Alguns edifícios foram sendo recuperados ao longo da rua. Por isso é fascinante olhar para estas obras.

No final damos com a antiga Praça de Santa Teresa, mas isso é para outra viagem
A caminho da Praça D. Filipa de Lencastre, a nunca completada Rua de Ceuta. Assim chamada em homenagem à que foi uma das praças militares portuguesas em África, até meados do séc. XVII. Nessa altura vieram os espanhois governar-nos e levaram-na quando os corremos.
Esta rua foi projectada em 1942 pelo gabinete camarário chefiado por Arménio Losa (Braga, 28 de Outubro de 1908 - Porto, 1 de Julho de 1988). Entre vários planos, previa-se que fosse até ao Jardim do Carregal, ligando-o desde a Praça dos Poveiros. Mentes abertas, mas que ou o dinheiro (a sua falta) ou o medo de mexer em coisas "proíbídas" sempre adiaram.
No início do século XX finalmente esta ligação completa-se mas por baixo da terra, através do túnel aberto salvo erro em 2005 ou 2006.
Politicamente, Losa não era correcto. Por isso, o poder instalado retirou-lhe o gabinete bem como obras camarárias. Assim, acabou só por projectar edifícios particulares, mas de grande relevo, incluindo um em Sá da Bandeira, que faz parte do roteiro arquitectónico mundial.
Um dos edifícios com a sua marca é o do Soares & Irmão, mais conhecido como o Vouga - Fábrica de Moagem - , na esquina com a Picaria. Para os baixos do edifício, convidou Gomes de Oliveira (Matosinhos, 12 de Julho de 1910 - 20 de Outubro de 1976) formado em pintura pela Escola de Belas Artes do Porto e mais um não alinhado politicamente, para a criação de um mural em cimento colorido e pedra.
É uma rua essencialmente de escritórios médicos e de advogados. Nas suas lojas ainda existem algumas livrarias famosas e o bonito Café Ceuta. Nos velhos tempos também algumas grandes industrias tinham os seus salões de esposições.   
Joel Cleto ensinou-me a ver em paineis da cidade alguns simbolismos, que tiveram de ser "disfarçados" no tempo de censura. Este não fugiu à regra. A foice vê-se nitidamente. E o martelo onde está ? Reparem na base da bigorna do ferreiro.


Estamos na Praça de D. Filipa de Lencastre, toponímico homenageando a Rainha e esposa de D. João I com quem casou no Porto em 1387; Mãe dos mais famosos Infantes de Portugal. Nasceu em Inglaterra em 1359 e morreu em Odivelas em 1415.
Na esquina com a Rua de Ceuta-Picaria, o edifício Vouga, colado às antigas instalações da Companhia dos Telefones, como a designávamos. Comercialmente foi The Anglo-Portuguese Telephone Company Limited, vulgo APT, criada em 1887 e o contrato com o Estado durou até 1968.
Então cá temos a famosa Rua da Picaria, comercialmente importante pela quantidade de estabelecimentos de marcenaria e venda de mobílias. Quer dizer, tudo que fosse em madeira, era aqui que vinhamos antes de mais, espreitar, passar a mão, saber preços, até à decisão final. Ainda há alguns, mas nada que se compare com o que foi. Francisco Sá Carneiro, nosso primeiro-ministro, já referido, tinha aqui também o seu escritório. Era uma zona de gente republicana e / ou maçónica.
A rua vai dar ao Largo de Mompilher, e dela deixo aqui esta imagem. Mas porquê Rua da Picaria ?
Picaria é a arte de adestrar cavalos. Logo admite-se que aqui houvesse um picadeiro. O lugar pertencia ao Bairro dos Laranjais, também já referido anteriormente. A urbanização foi determinada por João de Almada e Melo e o projecto de 1761 vem já planeada. Havia em baixo, uma rua chamada de Santo António (da Picaria, distinguindo-se da Rua de Santónio, hoje 31 de Janeiro) mas desapareceu com a abertura da Praça D. Filipa de Lencastre.
Regressemos a esta Praça e vê-se um correr de casas que fariam parte da Rua de Santo António da Picaria, também designada por Travessa da Picaria. São imóveis de Interesse Público e estão todas recuperadas da degradação em que se encontravam. Numa delas, hoje um BAR, foi o Tribunal que julgou Camilo Castelo Branco e Ana Plácido no famoso caso de adultério, que apaixonou a Cidade. Existiu também o famoso Cabarét Primavera. Igualmente foi cenário escolhido de Manoel de Oliveira para o Porto da Minha Infância. Na esquina está o famoso Turco, o único restaurante de especialidades do Porto. E o Capas-Penada - Bicicletas e Acessórios, ainda existe 
Em primeiro plano o resguardo da entrada do Tunel. Ao fundo à direita, a Rua do Almada, onde terminava no séc. XVIII a Rua das Hortas. Hoje liga os Loios ao Campo de Santo Ovídio, melhor dizendo à Praça da República. Quantos kilómetros têm as minhas pernas por ter calcorreado esta artéria. Mas isso são outras histórias.

Ao fundo o edifício do Jornal e Garagem do Comércio do Porto, que vai até à Avenida dos Aliados. O jornal já não existe. Foi o segundo mais antigo do País. Prosseguindo, este é um notável edifício projectado por Rogério de Azevedo (1898-1983) construído entre 1928 e 1933.
Terminando a volta, o Hotel Infante de Sagres, luxo, albergue de Reis e gente que está de visita à Cidade.
Foi também projectado por Rogério Azevedo em finais de 1940. Vi há dias uma reportagem sobre ele e na realidade são um sonho as instalações.
Um último olhar sobre os Imóveis de Interesse Púbico para a
Torre da Câmara.

13 comentários:

  1. Mais um notável trabalho de fotografia e pesquisa histórica do amigo Jorge Portojo.
    Parabéns.
    Carlos Vinhal
    Leça da Palmeira

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  2. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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    Fernando Castro Freitas

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  7. Escreve-me um amigo o seguinte texto:
    Vi no seu blog uma informação quer está incorrecta.
    Diz que o edifício da Praça Coronel Pacheco foi Faculdade de Engenharia e “posteriormente” Colégio Almeida Garrett”. A incorrecção está na palavra posteriormente, pois o colégio foi fundado no ano lectivo de 1913-1914, celebrou em 1963-64 as suas bodas de ouro e este ano antigos alunos, nos quais estou incluído, celebramos o centenário da fundação, tendo visitado o edifício.
    O colégio funcionou até 1975 e em 1976 passou a ser parte da Faculdade de Engenharia.
    Mantenho uma página de facebook onde pode verificar informação.
    https://www.facebook.com/colegioalmeidagarrett

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  8. Adorei este artigo e acredito que os demais são igualmente interessantes. Tenho uma preguiça enorme em sair de casa, mas em qualquer passeio que dê no Porto, venho sempre com uma foto tirada com o telemóvel. Ainda ontem andem na Rua das Fontaínhas e na entrada dum prédio degradado reparei num lindo piso de landrilho hidráulico que logo fotografei. A seguir, na primeira transversal da Rua do Heroísmo fotografei belos edifícios com pormenores Art Déco e Arte Nova. O sol estava a pique e as fotos ficaram horríveis. Como forma de compensação, e porque gosto de facto das suas fotos e texto muito esclarecedor, vou partilhá-lo num dos meus blogs.

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    1. Obrigado pela visita, amiga Laura e pela partilha

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. De nada. Já agora, e a propósito do painel de Augusto Gomes, também eu vi o excelente programa do Dr. Joel Cleto. Ele refereriu que a técnica empregada se chama "cavan". Ora não há nada, mas absolutamente nada na net sobre o "cavan" a não ser que é também o nome de uma cidade irlandesa. O meu interesse deve-se a que, enquanto amante da arquitectura, noto que muitos edifícios modernistas têm, nas áreas comuns, pavimentos no estilo do mural, alguns lisos outros com motivos mais ou menos elaborados. Sabe alguma coisa sobre o assunto?

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    4. Amiga Laura, parece que a arte Cavan será uma espécie moldagem. Tanto quanto consegui apurar, os produtos Cavan em várias fábricas, pelo menos no Brasil são moldados.

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  9. Multi obrigada pelo seu amável esclarecimento.

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