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terça-feira, 22 de maio de 2012

129 - Do Largo de Mompilher até ao Mirante, pela Rua do Pinheiro

Uma amiga portuense desde há uns tempos que me perguntava para quando fotos e histórias sobre a Rua do Pinheiro.
Pois bem, chegou agora a vez de mostrar e escrever sobre esta artéria que tem muitas e belas histórias.  Que vou estender até ao Mirante, para sul, a uma centena de metros.
Antes de subirmos as Escadas do Pinheiro, encontramos o Largo de Mompilher, nome aportuguesado da Universidade francesa de Montpellier, muito ligada à cultura nacional na idade média e no renascimento. Lê-se isto mesmo (embora esteja escrito Montpelier) na toponímia da Câmara Municipal do Porto. Sem dúvida uma das mais antigas Universidades do Mundo, fundada em 1220.
O Quiosque no Largo está classificado como Imóvel de Interesse Municipal. Nas últimas décadas do séc. XIX e princípios do XX, estas estruturas arquitectónicas - hoje chamar-lhe-iam equipamentos urbanos - foram crescendo pela cidade e eram ponto de encontro de artistas, escritores, aristocratas. A função comercial era a venda de bebidas, flores, frutas. Não sei se ainda algum estará a ser explorado, mas lembro-me de nestes quiosques se venderem jornais, revistas, tabaco, artigos de papelaria. Há meia dúzia de anos este ainda funcionava,
Foi construído nos anos 30 tendo substituído um em ferro que existia desde 1910.

Mas o Largo teve outros nomes. Chamou-se da Conceição (ou Senhora da Conceição) sendo substituído posteriormente pelo da Picaria. Rua da Picaria que se vê na imagem, descendo até à Praça Filipa de Lencastre. Mas essa descoberta fica para a próxima viagem.

Então subimos os dois lanços das Escadas do Pinheiro, projectadas em 30 de Janeiro de 1775, para encontrar a Rua com mesmo nome. Na altura chamava-se Rua da Misericórdia. À esquerda ficam as instalações de um serviço de apoio aos Imigrantes e à direita a setecentista Capela do Pinheiro ou da Senhora da Conceição.

A Capela deveria ter feito parte de uma propriedade adoçada a uma casa. A casa actual deve ser relativamente recente. Segundo a minha amiga antes referida, o seu proprietário era um tal Lencastre.
No entanto a história do lugar é muito antiga.
Em 1508, João Rodrigues de Avelar e sua mulher Grácia Luís, venderam o seu campo no Casal do Pinheiro «junto aos Carvalhos do Monte, prez da cidade» e um par da estrada pública. Em 1533, nova venda do « Lugar ou Casal do Pinheiro, situado entre a estrada que vem de Guimarães (actual Rua Mártires da Liberdade) para a Porta do Olival (actual Cordoaria) e o caminho de Liceiras (ainda existe a Rua de Liceiras, junto à Trindade, cerca de duas centenas de metros a baixo). Tinha então esta propriedade um pombal e várias árvores de fruto, entre as quais se mencionam laranjeiras que mais tarde, com outras por ali existentes, dariam ao Casal do Pinheiro o nome de Quinta do Laranjal de Cima, que já tinha em 1661. A Quinta do Pinheiro foi alienada há poucos anos pelos últimos sucessores dos Monteiros, na posse desta bela propriedade desde princípios do século XVIII. (Copiado da toponímia da Cidade, Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas).
O antigo Bairro do Laranjal era extenso. Incluía toda a zona desde a Trindade até às Cardosas. 

Para esta Quinta do Pinheiro foi transferido o Instituto Escolar de S. Domingos que presumo ter existido antes na Rua da Sovela, actual dos Mártires da Liberdade. Deve ter sido por volta de 1880. Tomou o nome de Escola Académica do Porto. Gente ilustre aqui estudou, destacando-se António da Rocha Peixoto (1866-1909), Naturalista, Etnógrafo, Arqueólogo, Bibliotecário. A sua biografia pode ser consultada em http://sigarra.up.pt/up/WEB_BASE.GERA_PAGINA?P_pagina=1004207
Por volta de 1975 no mesmo edifício foi criada uma Comissão de Moradores da ex-Escola Académica, com ATL, Jardim de Infância e Lar de 3ª Idade. Em 2008 receberam ordem de despejo e em 2009 despediram os 20 trabalhadores. Presumo que o dono da propriedade é o Montepio Geral.
Actualmente encontra-se tudo vedado e sujo. Gatos também não faltam. A foto possível foi feita atravez da rede.
Consta-se que estava projectado um estudo urbanístico para a zona.
A Câmara Municipal vista do adro da Capela e que terá sido um Miradouro em outros tempos.

Tomamos então a Rua do Pinheiro. Muitas casas da Rua foram recuperadas e existe numa delas um espécie de Hostel - parece que é assim que agora se chamam às Casas de apartamentos de aluguer temporário -.
No princípio da rua ainda há algumas em ruínas. Curiosamente foi numa delas que viveu a minha amiga parte da sua infância e juventude. Na outra viveu também Ruth Escobar.
Maria Ruth dos Santos, mais conhecida como Ruth Escobar, nasceu no Porto em 1936. Mudou-se para o Brasil em 1951, onde casou com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar. Em 1958 partiram para França onde Ruth estudou arte de interpretação. Regressada ao Brasil, criou a sua própria companhia. Tornou-se uma das mais importantes produtoras do Brasil e atriz de grande mérito. Nos anos 80 veio a Portugal e ao Porto onde se apresentou no Teatro Rivoli. Voltou-se para a política, foi eleita deputada estadual para duas legislaturas, (presumo que por S. Paulo) tendo-se dedicado a projectos comunitários. Fundou o seu próprio teatro, actualmente em ruínas. Sofreu a perseguição da censura brasileira.
(texto copiado de http://spescoladeteatro.org.br/noticias/ver.php?id=1977 
Muitas outras páginas se encontram na net dedicadas à Ruth
Ruth que se encontra muito doente desde há uma dezena de anos.

Pormenores da Rua do Pinheiro. Em baixo e à esquerda, a velhinha "Oliveira Encadernadores", tipografia e encadernação de livros. Fui lá algumas vezes a mando dos meus primeiros patrões, levar obras para encadernar. Segundo me pareceu, na altura, eram velhos "compinchas de tainas" desde a juventude, o Sr. Monteiro e o Sr. Oliveira. Quem esteve ligado às artes gráficas (hoje, indústria) ainda deixa muitas saúdades sentir o cheiro das tintas, mesmo que de leve...
Tanto quanto me apercebi, esta rua foi verdadeiramente democrática. Trabalhadores braçais, capitalistas, militar graduado, renegado político morto no Tarrafal, todos aqui conviveram. Era uma rua como tantas outras, pequenas, da cidade esquecida, onde todos se conheciam, cumprimentavam, partilhavam.
A Rua termina na dos Mártires da Liberdade e nesta começa a Travessa do Coronel Pacheco que por sua vez vai dar ao Largo do mesmo nome. Na esquina do lado esquerdo, um antiquário e alfarrabista com belas obras em exposição, num lindo edifício recuperado.

No outro lado, na esquina da Rua do Pinheiro com Mártires da Liberdade, outro belo edifício com as fachadas cobertas a azulejos.
Aliás, belos edifícios não faltam neste perímetro. Ocupando quási todo o lado direito da Travessa, outro lindíssimo edifício cuja fachada principal é digna de ser apreciada. Infelizmente não consegui encontrar quaiquer referencias sobre as suas origens.
Nos anos da descolonização de África, serviu para alojar alguns dos chamados retornados até conseguirem encontrar a sua nova vida. Foi pensão de aluguer de quartos baratos, degradou-se mas foi recuperado recentemente, sendo agora um Hotel-Residencial de boa qualidade.

Olhemos agora em volta da Praça do Coronel Pacheco. Da esquerda para a direita, de cima para baixo, seguindo as fotos. Isto é de Leste até ao Norte. Um correr dos tais belos edifícios que por aqui se encontram. Nos rés-do-chão, vários comércios, incluindo uma alfaitaria à moda antiga. Seguindo, dois palacetes, um de cada lado da Rua do Mirante. O da esquerda abriga a Escola Contemporânea do Espectáculo - A.C.E ; O da direita, um núcleo não sei de que Faculdade (a placa à entrada está partida) da Universidade do Porto. Do outro lado, isto é, para oeste, já lá iremos em pormenor. Rodando de novo, definitivamente, entre dois novos edifícios, um deles Hotel, encontramos a velha esquadra da Polícia.
Mas agora vamos à história deste Largo que evoca a memória do Coronel Pacheco. Comecemos pelo fim. O Liberal Coronel José Joaquim Pacheco foi comandante do Regimento de Infantaria 10 e morreu em 2 de Dezembro de 1833 na Areosa (local limite da Cidade do Porto para Norte, confontando com Rio Tinto. Aqui termina a Rua de Costa Cabral que vem da Praça Marquês de Pombal, ou antigo Largo da Aguardente. Isto é "canja" para os portuenses, mas devo estas explicações aos meus leitores) enfrentando as tropas absolutistas de D. Miguel durante o terrível Cerco do Porto. E assim o Largo passou a ter esta toponímica por decisão camarâria de 28 de Outubro de 1835.
Antes chamava-se Largo do Mirante. Bem como a Rua voltada a sul e que daqui sai até à de Cedofeita e ainda mantém o mesmo nome.

Pois neste Largo foi a Feira do Carvão e toponìmicamente falando, o Largo do Mirante. O seu nome deriva de uma Quinta que aqui existia propriedade de António Ribeiro Braga (que também deu o nome à Rua dos Bragas. Anteriormente já me referi à família quando escrevi sobre a Rua de Cedofeita). Um mirante existiria onde hoje está a rua que conserva este nome. Mas a toponímia Largo do Mirante já vem referenciada desde cerca 1760  figurando na planta do Bairro dos Laranjais.
No cimo do portão que dava acesso à quinta podem ver-se as iniciais ARB. Este pormenor foi-me revelado num escrito do Historiador e Jornalista Germano Silva. Será verdade que é o portão original ?

Passando o portão do edifício que será mais um polo (sou eu a imaginar) da Universidade do Porto, este das Ciencias da Comunicação, ao fundo estão as traseiras da primitiva Faculdade de Engenharia. O imóvel foi construído entre 1927 e 1937 com as frentes para a Rua dos Bragas. Ràpidamente se tornaram as instalações insuficientes. Mas só em 2000 o novo polo na Asprela entrou em funcionamento. O edifício foi recuperado para a Faculdade de Direito, inaugurado em 22 de Março de 2004.
Mas vale a pena copiar na íntrega este escrito:  Os terrenos onde se rasgou esta Rua dos Bragas pertenciam a um casal rústico , chamado dos Carvalhos do Monte (…) à beira da estrada de Braga. (ou de Guimarães, nota minha, e que é a actual Rua dos Mártires da Liberdade)  Este casal veio por herança, à posse da família Ribeiro Braga [e] incorporou-se na Quinta do Mirante (…). Foram estes proprietários que deram o seu apelido à Rua dos Bragas." [Freitas, Eugénio Andrea da Cunha e – Toponímia Portuense. Matosinhos: Contemporânea Editora. [1999]. ISBN 972-8305-67-2].
http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?p_pagina=1006597
Quando as tropas Miguelistas cercaram a cidade, a casa da Quinta do Mirante foi ocupada pelo exército Liberal que nela instalou o Regimento de Infantaria 10. O tal que era comandado pelo Coronel Pacheco.

No mesmo correr a oeste, situa-se a Igreja do Mirante, o templo protestante mais antigo da cidade que se reveste de uma grande importância para os Metodistas por ser a sede nacional da Igreja Evangélica Metodista.
Diz-se que os primeiros metodistas em Portugal foram os soldados ingleses que nos ajudaram na luta contra os franceses durante as Invasões (1807/1812)
O edifício começou a ser construído em 1860 e a Igreja inaugurada em 25 de Março de 1877.
Parece que foi construído apenas por estrangeiros, visto que os portugueses não podiam abrir nenhuma igreja que não fosse Católica. http://jpn.icicom.up.pt/2009/01/07/religioes_no_porto_igreja_do_mirante_e_o_templo_protestante_mais_antigo_da_cidade.html

Seguindo por esse passo entramos na Travessa de S. Carlos, cuja origem toponímica desconheço. Mais alguns belos edifícios, onde predomina a pedra na sua construção e o ferro das varandas.
Vai esta Travessa dar à Rua dos Mártires da Liberdade. Com pena e nostalgia olho a sede do que foi uma das grandes empresas ligadas às artes gráficas, o Polónio Basto.
Recordo alguns escritos de amigos, dando-me a conhecer a sua vivência de jovens trabalhadores na zona de Mártires da Liberdade.  Pois aqui vai a foto da Casa Bento, onde um deles iniciou a sua vida de trabalho.
Voltando atrás vemos todo o pormenor da zona leste do Largo do Coronel Pacheco.
Terminamos este roteiro junto à Rua do General Silveira. Por aqui começaremos um novo, em próxima publicação.
Mas fixemos mais um belo edifício, em cuja loja, se a memória não me atraiçoa, exixtiu uma padaria.

23 comentários:

  1. Travessa de s.carlos aonde ficavam tambem os ecritorios das ediçoes asa ( mesmo em frente ao polonio e basto ), e aonde muitas vezes fui para receber o meu misero salario de miudo !!!!
    Mais uma vez , viagei e recordei coisas e lugares que ja estavam apagados da minha memoria, obrigado amigo Jorge!!!

    JOAO VALE

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    1. Caro João,
      É também a pensar nos queridos amigos e conterrâneos portuenses, e não só, estejam onde estiverem, que eu dedico estes passeios. Sei como foi a nossa vida de meninos-trabalhadores. Uns mais sacrificados do que outros, mais ou menos alegrias, mas isso deu-nos força para aguentar muita coisa. Tomara eu hoje que os meninos-jovens tivessem a nossa dinâmica,a alegria,a irresponsabilidade-responsável do nosso tempo.
      Um abraço, querido amigo tripeiro.

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  2. Eu procurei mas não encontrei nada a identificar a Capela do Pinheiro ou da Senhora da Conceição - obrigada por mais uma identificação, esta indirecta ;).
    Esse quiosque é lindíssimo.
    Ana Rita

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    1. É verdade amiga Ana Rita. Não há qualquer identificação sobre esta Capela.
      Mas isso acontece com quási todas as Capelas da Cidade. Tenho mais de 60 identificadas e queria fazer um roteiro sobre elas. Com raras excepções, não conseguimos nada. E quando pretendemos ver o seu interior, ninguém nos ajuda. Têm medo que as assaltem. Ou então temos de esperar por um velório para conseguir uma foto, sem ofender a família.

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    2. esta capela abre no 1º sabado de cada mes

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    3. Obrigado pela informação, amigo Pedro

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    4. Ana Rita, vê o último comentário. Pode ser que consigas algo sobre a Capela.

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  4. Sabe que ei fiquei sem fala, só com mil pensamentos
    muito rica em seres humanos donde tenho saudades de tanta gente boa, numa sociedade de tão falsos valores !
    Se lhe contasse saía um livro rico de afectos!
    o meu filho perfilha a mesma dedicaçao a essa rua!
    como diz e muito bem era uma vivencia democrática,enriquecedora dos verdadeiros valores da vida...os HUMANOS!
    Como lhe agradecer?! Sempre sensibilizada e grata
    Um muito obrigada de coração cheio
    Sempre,sempre grata e amiga
    olga

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    1. Cara Senhora D. Olga
      Boa amiga.
      Quem tem a agradecer sou eu.
      Foi a Senhora que me deu o impulso para conhecer a "sua" Rua.
      Transmitiu-me as suas lembranças, os seus afectos, a vivência que era tão comum nos nossos tempos.Fêz-me recuar à minha juventude e lembrar-me de como gostava da minha Rua.
      Um muito obrigado pela paciencia que teve em me aturar.

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  5. Lindas imagens.
    Sabes, não entendo como a Ruth Escobar chegou a este ponto de miséria. Ela esteve na política e normalmente quem se mete em política, tem a vida inteira garantida. Não sei o que se passou para ela chegar a este ponto da filha pedir ajuda pois estão passando necessidade.
    Espero que consigam ajudá-la.
    Beijocas,
    Gisele

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    1. Querida amiga Gisele
      Na realidade também não entendo o apelo da Pat.
      Independentemente de ela ter sido política e os políticos passarem bem, normalmente, não quer dizer que ela se tenha aproveitado disso.
      Mas já não entendo porque os políticos ou a classe artistica não se interessam pelo edifício do seu teatro. Vi fotos da sua ruína. Mas isso, cá como aí, acontece a quási todos.

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  6. Deus ! A paciencia foi toda sua,mas o resultado foi belíssimo e muito trabalho lhe deve ter dado!
    já o partilhei e tambem para o meu filho que ficou sempre ligado aquela RUA!
    OBRIGADA E PARABENS!
    Olga

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  7. Caro Jorge
    Falando em Pensão Portuguesa.
    Uma tia-avó da minha mulher foi durante muitos anos empregada dessa pensão, primeiro como dama de companhia da dona, e mais tarde com funções de governanta, já com os herdeiros.
    Ainda namorávamos (1972, quando cheguei da Guiné), fui com a minha mulher (então namorada) visitar a tia Gracinda à Pensão, onde conheci os donos à época, senhores com posição social, trato elegante e bens algures na Beira Alta.

    No ano 2000, passeávamos pelas Beiras, e a minha mulher quis visitar os senhores, afinal os últimos patrões da sua tia, que conhecia muito bem. Passámos por Lagares onde perguntámos por essa família. Alguém nos levou lá casa.
    Por coincidência, pelo caminho encontrámos uma prima da mãe da minha mulher, já muito doente, que ia a caminho da Missa, também ela empregada daqueles senhores, mas ali em Lagares.
    Fomos recebidos com muita simpatia pela senhora, já viúva, que se lembrava muito bem da minha mulher embora não a visse há quase 30 anos . Notei que a propriedade estava descuidada e os campos abandonados. A senhora vivia naquele casarão enorme só com a empregada, de quem já praticamente tratava por consideração à sua dedicação de tantos anos à família, como empregada de quartos, que tinha inclusive ajudado a criar as duas filhas do casal, agora radicadas, ao que sei, no grande Porto.

    Lembro-me Jorge que vim de lá completamente abismado. Sabes o que é visitar um museu? A senhora levou-nos a ver a enorme casa e especialmente um salão de festas pejado de peças de prata, estátuas, loiças, pinturas, fotos e outras coisas antiquíssimas. Uma vez que em 2000 a senhora tinha mais de 80 anos, terá eventualmente já falecido. Que será feito daquele espóçio? Oxalá não se tenha perdido.

    Enquanto trabalhou na Pensão Portuguesa, a tia-avó Gracinda tinha outra sobrinha a trabalhar lá com ela, que morava na mesma rua, de quem não sabemos nada há muito. Cortam-se os laços e nunca mais se reatam. Que será feito dela? Terá também já falecido?

    Nos anos 70 eu ia aos domingos buscar a tia-avó Gracinda, já reformada, a casa e trazia-a a almoçar à nossa em Leça da Palmeira. Uma bonita senhora e bem falante.
    Entretanto apareceu-lhe uma doença grave que a levou, já muito para lá dos oitenta.
    Continuámos ainda durante uns tempos a visitar a prima Carolina, mas entretanto, sabe-se lá porquê, deixámos de nos ver.

    Vidas.

    Recebe um abraço
    Carlos

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    1. Caro Carlos,
      Permiti-me colocar a tua mensagem aqui nos comentários do blogue.
      Partilhaste uma história de vida e é isso que eu procuro também nestes meus roteiros.
      A cidade não é feita só de ruas. Tem histórias com as histórias das gentes que nela vivem. Ou viveram.
      Isso torna mais rico o nosso património e aí tento descobrir novas coisas. Que de certeza vão bater à porta de alguém.
      Nem imaginas o prazer que tenho em ler comentários para além do trivial "fotos bonitas e etc.".
      Um abraço do teu amigo
      Jorge

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  8. Lindo como sempre.
    Me emocionei meu amigo, Ruth Escobar foi pioneira em muitas coisas.
    Nos anos 60 ela levou o teatro ao povo da periferia de S.Paulo num ônibus adaptado como palco.
    Hoje, graças a Deus, temos até teatro nas ruas.
    Um grande abraço.
    Vera

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  9. As instalações da atual Escola Contemporânea do Espetáculo (no Largo Coronel Pacheco, à esquerda de quem está virado para a Rua do Mirante) eram do antigo Colégio de Almeida Garrett, colégio este que foi frequentado por Francisco Sá Carneiro, entre outros. Depois de o colégio ter sido extinto, estas instalações passaram a funcionar como uma extensão da Faculdade de Engenharia, pois esta faculdade estava a rebentar pelas costuras. Muitas aulas tive eu nestas degradadas instalações, quando frequentei a faculdade, sentado em carteiras que tinham sido feitas para miúdos! Aquilo era tudo tão precário, que o teto da cantina estava escorado com traves de madeira para não desabar em cima dos comensais! Felizmente consegui escapar com vida...

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  10. Este blog é uma excelente partilha que é necessário estimar. Só desejo acrescentar o seguinte: na esquina da Rua do Pinheiro com Mártires da Liberdade, existe um belo edifício com as fachadas cobertas com azulejos de tom azul. Há uns anos (30 ou 40) atrás, não existia o 3º piso. Vendo com atenção a foto atual, nota-se uma pequena parede e uma beirada a toda a volta que era o cimo do edifício. Conheci quem passasse lá duas ou três vezes por dia (Da Faculdade para casa e vice-versa) e assistisse à construção daquele acrescento que se destinou na altura a ter quartos para alugar a estudantes do Garrett, da Académica e da Faculdade de Engenharia. São recordações que vão surgindo quando as pessoas têm a feliz ideia de lembrar o que resta do seu passado.Tudo mudou um pouco, inclusivamente as placas das mobiliárias e os sinais de trânsito.

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  11. Paulo Moreira da Silva23 de outubro de 2013 às 14:59

    Belissimo trabalho!! Nasci no nº 10 da Rª do Pinheiro, uma casa agora em ruínas e vivi no 46. Conta a minha mãe, que ali viveu cerca de 65 anos, que na ex Escola Académica vivia há muitos anos um senhor de uma abastada família que teriam sido os donos da propriedade. Pela descrição dela, deveria viver ou no edifício cor de rosa, propriedad também do Montepio Geral e onde vviviam funcionários e famílias (mais tarde, claro) ou noutro ali, naquele local. Esse senhor era o proprietário da capela, na época forrada com maravilhosos azulejos pintados e talha dourada (palavras da minha mãe). QUando entrou em falência, foi vendendo bens, inclusivamente os azulejos das paredes e as talhas. Eu conheci a capela como armazém, já com as paredes esburacadas com as marcas dos azulejos arrancados. Curiosamente, quando se decidiu recuperar a capela, ficou à frente da obra o sr Carlos conhecido como Carlos da Corininha (nome da srª sua esposa, conhecida vendedora de peixe lá da rua e que residiam no nº 31, 1º andar). Ora um dos arranjos foi levantar 2 partes de madeira do chão, que ladeavam o acesso em pedra da porta até ao altar. Ao levantarem essa madeira encontraram 2 talhões de terra. Eu estava presente, teria os meus 11 ou 12 anos de idade). Essa terra foi cavada para se reencher com cascalho e acimentar. Foi então que se encontrou a parte superior de um crâneo humano. Eu estava presente, e assisti. Chamadas as autoridades e consultadas as "velhinhas lá da rua", a minha mãe incluída, soube-se que ali estavam enterrados os membros da família proprietária da quinta e da capela. Foi de novo enterrado o crâneo e cimentados esses 2 talhões que qualquer observador atento poderá descobrir ao observar o piso da capela. Ali, portanto, encontram-se os restos mortais, pelo menos dos últimos proprietários (ou penúltimos) da quinta do pinheiro ou do espaço ocupado pela ex Escola Académica do Porto. Um abraço e parabéns pelo excelente trabalho. Paulo Moreira da Silva, nascido na Rua do Pinheiro

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    1. Obrigado amigo Paulo Moreira pela sua participação.
      Um abraço

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  12. Na foto 24, não foi uma Padaria mas sim uma mercearia. Fiz imensas compras com a minha avó (quase diariamente), nasci e cresci na Praça Coronel Pacheco!! :)

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    1. Obrigado pela correcção minha amiga. Como já lá vão imensos anos desde quando andava por estas artérias, a recordação foi-se. Mas também deixei ficar a dúvida.

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