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sábado, 20 de abril de 2013

156 - Tripeiro eu sou

Muitos Amigos me perguntam o porquê de Tripeiros. E porque fazemos muita honra, os naturais ou habitantes da Cidade do Porto, mas não só esses, em usar este apelido.
Pois bem, a História diz-nos e a Lenda veio junta, que foi por causa de D. João I e do Infante D. Henrique.
Começando pelo princípio, a coisa é assim. Tripeiros, porque comem Tripas, os folhos e as favas - o chamado livro - do gado bovino. A partir daí criamos um típico prato culinário único no mundo, que faz dele uma curiosidade e vontade de ser provado pelos nossos queridos visitantes.
Mas o porquê da Lenda e da História ? Lá chegarei.
Conjunto Monumental da Conquista de Ceuta no Jardim do Calém, em Lordelo do Ouro.
Obra de Lagoa Henriques

Então tudo começa com a ideia de D. João I conquistar Ceuta, no Norte de África. Por questões Geográficas, para evitar a pirataria nas costas do Algarve; Sociais, porque a nobreza queria terras, honras e rendas; o clero, expandir a fé; a burguesia novos produtos e mercados. Económicas, porque poder-se-ía chegar ao trigo de Ceuta, um grande produtor e às especiarias e ao ouro vindos do Oriente transportados pelas caravanas que atravessavam o Saará. Políticas para nos adiantarmos aos Espanhóis não só pela defesa do Sul como pelo gosto das Descobertas de novos territórios.
Outra razão poderá ter sido o interesse do Rei em armar cavaleiros os seus filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, por feitos de guerra.
Neste escultura, de um lado temos artesãos. Do outro um açougueiro e um animal limpo.

Assim é organizada uma logística. D. Pedro, trata de mandar construir uma esquadra em Lisboa. E D. Henrique o mesmo no Porto. 
No Porto, D. Henrique é recebido com grandes honras como filho da Cidade, pois aqui nasceu. E também pela forte relação do pai, o Rei D. João I, à Cidade e que durava há mais de 30 anos. Ninguém soube a finalidade da sua visita, assim conta a história.


Os antigos Cais de construção naval no Rio Douro

Embora ignorando-se a finalidade de tão grande empreendimento, foi dado todo o apoio para a construção de vários tipos de embarcações nos estaleiros do Douro, desde o Ouro a Miragaia.

Parte da Cordoaria vista da Cadeia

Também os Cordoeiros do Campo do Olival -daí veio o nome Cordoaria como ainda hoje é conhecido  o enorme espaço entre os Clérigos, a Reitoria da Universidade, o Palácio da Justiça e a Cadeia e Tribunal da Relação (Centro Português de Fotografia actualmente)- deram o seu apoio. Bem como os ferreiros da Ferraria de Baixo, junto a Miragaia/S. Nicolau.

Réplica de uma Nau Quinhentista que pode ser vista em Vila do Conde

Nas terras vizinhas da Maia, Gaia e Bouças (hoje Matosinhos) prepararam-se as provisões para a numerosa frota que o Infante D. Henrique deu por pronta em inícios de Junho de 1415.A armada zarpou do Rio Douro em 10 de Junho e era composta por mais de 70 navios afora muita outra fustalha. Nela embarcaram milhares de Portuenses.

Jardim do Calém. Recordações Marítimas

Ceuta é conquistada em 22 de Agosto de 1415 e os Portugueses tornam-se donos da possessão durante dois séculos e meio. Oferecida depois aos Espanhóis para sua defesa e que hoje ainda guardam. Isso são outras estórias da história que os meus amigos interessados poderão ler em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ceuta.

Pois então vamos até onde começa a lenda dos Tripeiros. O Porto forneceu para toda a frota os mantimentos que tinha e as carnes foram limpas, salgadas e acamadas nas embarcações. A Cidade sacrificada ficou para si com as miudezas e as Tripas e foi com elas que se alimentou inventando o excelente prato de culinária que é hoje um ex-libris.
Para mim tenho que não só os Portuenses devem ser denominados Tripeiros. Todas as regiões à volta da Cidade, e não só as que atrás distingui segundo a história, mas também às que hoje denominamos como do Vale do Sousa,  eram grandes fornecedores de carne à Cidade. Para mim são tão Tripeiros como eu. Vamos seguir.
Isto são as Tripas do gado bovino. Folhos e Favas.

Cartaz tipo que se colocava devidamente destacado nos vários restaurantes da Cidade no dia das Tripas, normalmente às Quintas-Feiras e aos fim de semana. O que ainda hoje acontece. Tradição é isso mesmo.
Há uns anos atrás, com um grupo de amigos, fazíamos ao almoço a "Viagem às Tripas" nesses dias.

Lembrando santuários das Tripas, vamos percorrer um pouco a Cidade. Na foto acima, a Praça dos Poveiros e em destaque o edifício Aquiles de Brito. O segundo andar foi meu (local de trabalho, expressão simplificada mas verdadeira durante uns anos). Por baixo era o Restaurante Ribeiro, fechado há uns anos. À direita é a Rua de Passos Manuel onde ainda existem o Tripeiro e o Escondidinho.
À Esquerda, é a Rua do Campinho onde existiu a famosa Mamuda. Consta-se que o grande artista Vasco Santana, num célebre dia ao abrir as portas à texas perguntou se era ali a Mamuda. Resposta pronta: vá chamar mamuda à pkp. Disse o Vasco, é aqui mesmo rapazes. Em frente ficava o simples mas acolhedor Dois Irmãos ou Irmãos Unidos, já não me lembro bem. Ainda lá fiz umas festinhas de Natal.
Na foto de baixo, é a Rua do Loureiro onde existiu o célebre Onix que muitas recordações me deixou.

Fotos acima à esquerda é a Travessa dos Congregados, onde existiu o primitivo Girassol. Ainda encontramos por lá o Paris, o Novo Paris, A Viúva (primitiva) não sei, o Romão. 
À direita é o início da Rua do Bonjardim e lá estão, à esquerda, a Maria Rita e à direita a Regaleira.
Infelizmente o Rei dos Queijos, que não vem para esta história, já fechou.

Nesta sequência temos em cima a Rua da Madeira, do lado esquerdo da Estação de S. Bento. O Quim ainda faz umas Tripas muito boas que se podem também comer ao lanche. Mas há o Viseu e mais uns tantos de que não me lembro o nome.
Na foto de baixo é a zona da Ribeira e os seus imensos restaurantes. Mas foi na Adega de S. Nicolau - renovada e linda - que comi ultimamente um bem apaladado pratinho delas.

Antigos Tascos-Adegas que mantiveram o nome, transformados em Restaurantes íntimos e bem simpáticos. A comida, especialmente as Tripas continuam a ser raínhas.
Muitos outros Restaurantes serviam Tripas à maneira. Não sei se ainda existem. Era o caso da Fernanda e do seu vizinho Fernando, o do Caçarola, um às Quintas-feiras e outro aos Sábados faziam-nos a delícia dos olhares e estômago. Estes eram (não sei se ainda são) na Rua da Alegria, entre as Ruas da Firmeza e a da Escola Normal. Mais ou menos a meio. Era uma subida dolorosa mas bem compensada.
Outros haviam e alguns ainda os hão: o Ramos no Bonjardim, o Buraquinho do Freixo, o Manel do Heroísmo (este depois de deixar o Buraquinho), o Manuel Alves (primitivamente no mesmo local do Manel, depois passou para a Avenida Fernão de Magalhães), o Pedro dos Frangos no Bonjardim; e a Confeitaria do Bolhão na Rua Formosa.
A talhe de foice vou apenas referir o Restaurante Salmão, antigamente A Ramadinha, no largo do mesmo nome, junto aos Poveiros. O prato não é mau mas os seus preços são exorbitantes. Não recomendo.
Em Gondomar, não posso deixar de referir o Vigário, na Aboínha e o Choupal dos Melros, em Fânzeres. Mas só por encomenda. E que encomendas eles nos fazem...





Servidas com requinte ou em convívios de amigos, de confecção simples ou mais sofisticada, as Tripas são o prato de excelência e o preferido pelos Portuenses e não só.

Claro que as tripas em si, são comidas em vários locais do mundo. Temos os Callos à Madrileña -ou/e também os Asturianos-, a Dobrada Brasileira e Lisboeta, o Cassoulet Francês, as Drzky Checas; e as famosas Tripas Escondidas Transmontanas.
Mas agora entra em acção (já entrou antes e onde fui beber algumas dicas) o meu amigo Joel Cleto dizendo que talvez a Lenda dos Tripeiros tenha  origem muito mais antiga, remontando ao séc. VI e à época Suévica. O povo Suévo após a queda do Império Romano, atravessou toda a Europa, passou por França, demorou-se no norte da Península Ibérica e acabaram por se fixar no seu Noroeste,  estabeleceram um Reino onde o Porto foi uma das mais importantes Cidades e chegou a ser Capital. 

(Joel CLETO – Lendas do Porto: A Origem dos Tripeiros. O Tripeiro, 7ª série, vol. XXVII (7), Porto: Associação Comercial, 2008, p.210-211.)


Posto isto, não sei se a rapaziada daqueles tempos comia as tripas com feijão. Este parece que teve a sua origem no Peru 10 mil anos antes de Cristo, passou à América do Norte e já era conhecido na Grécia antiga e os Romanos davam-no a comer aos seus guerreiros. 
As Tripas exigem o feijão branco, mas como fomos melhorando ao longo dos séculos a arte de confeccionar este prato, para dentro da panela vão também cebola, alho, cenoura, tomate, colorau (ou pimentão doce) pimenta, cominhos. Pés de porco, toucinho (fresco e fumado ou bacon inglesando o nome), chouriças diversas, salpicão, presunto, galinha. E um toque final de salsa picada. 
Exigido também é o arroz branco (tipo arroz crioulo) e vinho tinto. Douriense ou Alentejano, mas também cai bem um Verde de Lavrador.

Aos meus Amigos deixo então o que aprendi e li. Lenda e História são tão juntas como não há fumo sem fogo. Desejo-lhes bom apetite e o meu recado: Tripas é comê-las sempre que um homem quiser.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

155 - A cidade num dia de Invernia

Dia alternando entre o bom e o mau, este (ontem) 10 de Abril de Águas Mil. Aliás, começou pelo muito bom, pois o meu amigo Fernando Súcio pediu-me um passeio para mostrar alguma coisa da Invicta à sua filha Susana e genro Allan, ambos a trabalharem no Luxemburgo.
A amigos destes não se nega absolutamente nada, ainda para mais tratando-se de promover a Cidade do Porto, pois então.
Claro que as Águas Mil estavam previstas desde há uns dias, mas não seriam elas que iriam causar transtornos.

Por questões logísticas começamos o passeio pelas Areias e Azevedo de Campanhã. O Porto a Oriente. Ligeiras explicações sobre Furamontes e o Horto Municipal (a talhe de foice vem a propósito lembrar que ainda não recebi resposta sobre o meu pedido de autorização para visitá-lo. E já lá vai um ano...), o Parque Oriental, o Monte do Forte e a Guerra Civil, e o Estádio do Dragão visto cá de longe, os Rios Torto e Tinto.
Sinais de trânsito mal colocados obrigaram o meu amigo Fernando a andar às voltas, mas lá chegamos à Circunvalação no Freixo, e uma ligeira explicação sobre a Quinta da Revolta e o Horto Moreira da Silva.
     
A primeira paragem para recordar em imagens logo a seguir à Mota-Engil. Ver o rio Douro turvo, revolto e de grande caudal e a magnífica Ponte do Freixo. Ao fundo o Palácio do Freixo, hoje Hotel, o Museu da Imprensa - a não perder uma visita - a antiga Fábrica de Moagem em tons de rosa escuro, também fazendo parte do complexo hoteleiro e cujo edifício estava prometido para o Museu da Indústria. Coisas da Vida. A Marina sem movimento. 

Seguimos circunvalação fora e lá estavam os destroços provenientes da derrocada de há dias, junto à Calçada da Corticeira. Nada que não se esperasse, dado a imensa infiltração de águas naquela zona e as ruínas de edifícios que ali se encontravam. Já eu o dizia há dois anos. (Postagem nº 59).

Logicamente é preciso ir ao Terreiro da Sé. Não só ver a Cidade cá de cima, como também visitar o que fosse possível. Por causa do estacionamento, começamos a visita à Igreja dos Grilos e ao Museu de Arqueologia. 
Mais uma vez recomendo esta visita, bem como à Sala Irene Vilar. Aproveitei para fazer mais umas fotos de algumas das peças em exposição e colher a imagem deste Cristo, para mim um trabalho extraordinário. Pena estar localizado junto a uma janela bastante luminosa o que não permite olhar bem toda a escultura.  

Normalmente a Cidade encontra-se bastante limpa. E nos bairros velhos nota-se perfeitamente. Infelizmente nas escadas de acesso aos Grilos, isso não acontece. O latão encontrava-se cheio e ao longo das escadas imenso lixo. Sei que são lixos turísticos, mas a Câmara ou a Junta de Freguesia deveria ter mais cuidado e esvaziar estes contentores. Lamentável. 

Rumamos à Sé e fiquei feliz por encontrar a imagem de Nossa Senhora da Batalha que esteve num nicho na Porta de Cimo de Vila das Muralhas Fernandinas, junto à Capela da mesma Padroeira. É uma imagem do séc. XIV. 
Essa Capela - a segunda, construída provavelmente no local de uma primitiva - estava na Praça da Batalha, mais ou menos próximo onde hoje temos o Teatro S. João. A confraria de Nossa Senhora da Batalha já vem desde o séc. XVII. Não sei datas sobre a edificação das Capelas, mas sei que esta foi destruída em 1924.
Lá fora a chuva caía impiedosa. Os muitos turistas que por ali encontramos estavam recolhidos. Hora de aproveitar para fazer uns bonecos de dentro da Sé.

Sábado passado, se não estou em erro, o amigo e ex-camarada Zé Carvalho, acordou-me de madrugada para informar que O Porto já não estava de castigo voltado para o mamarracho actual recordando a velha Casa da Câmara. Lá, no Terreiro da Sé.
Pois bem, ontem foi o dia para confirmar esse feliz acontecimento e só tenho de dar os parabéns ao Presidente Camarário Rui Rio pelo seu acto. Tardio, mas assunto resolvido. 
A estátua do nosso Porto estará feliz por se encontrar próximo do seu primitivo poiso, a antiga Câmara Municipal, entre as actuais Praça da Liberdade e Avenida dos Aliados. Não está tão alto como outrora, mas o lugar é digno.
Imagens na Sé e na Praça da Liberdade. Antes e agora. Só lhe falta uma luz bem como às outras estátuas que se encontram na nossa Sala de Visitas.
 
Para facilitar o nosso movimento, guardou o Fernando o seu carro no Parque das Fontaínhas. Uma vista sobre o Rio e a Serra do Pilar deste belo local e tão maltratado. É um morro em vias de desmoronar.

A Capela do Senhor d'Além daqui não mostra sinais de estar a ser recuperada. 

O itinerário a seguir era até à Ribeira para almoço. Uma espreitadela à Rua do Miradouro, que continua entaipada. Um buraco que não se resolve.

O caminho escolhido foi o dos Guindais. Limpo, bem arrumado, embora se veja pequena degradação em alguns prédios.
 O amigo Fernando em grande pose, guarda uma recordação.
A meio encosta a majestade da Ponto Luís I.

Olhamos o Rio Douro na Ribeira. Continua forte e alto. Momento para lembrar a Ponte Pênsil, a Ponte das Barcas, as Alminhas da Ponte, as Invasões Francesas e os saques. O Rio da Vila, a Praça da Ribeira, as Fontes e o mamarracho do S. João do Cutileiro, o granito, o ferro e os azulejos do casario. Os Cais, os Muros e o Postigo do Carvão.

Caminhando à procura de Sável para o amigo Fernando, entramos pelas traseiras de S. Nicolau e amesentamos - e bem - na Adega S. Nicolau, hoje um bonito restaurante. 
Portanto, Sável de Escabeche para o Fernando, Linguado e Salmonete para a Susana e Allan e para mim, claro, umas belas Tripas. Em dose individual, um exagero. Para mim, claro. O Allan provou delas (nunca vi um enorme homem comer tão pouco) e o Fernando também lhes acertou. Vinho da Casa duriense, pois claro, bem razoável.

E a chuva não parava. Mas era preciso ir ao Hotel descarregar malas pois os jovens ficaram no Porto para na sexta-feira regressarem ao Luxemburgo. Escolheram o Vitória Village. Na Vitória. (Ver minha Postagem 152). 

Este conjunto edificado é o Palacete dos Maias que vai dar à Rua das Flores. Está em restauro como já disse. Foi-me permitido olhar o pequeno jardim.
Por entre os entaipamentos avista-se a Sé no outro morro.
É uma pena a dificuldade em fazer chegar o carro até ao Hotel, pelo menos a quem só sabe andar a pé e assim as informações não são precisas. Aquele sinal de proibição na esquina da Rua de S. Miguel, ao fundo da Rua de S. Bento da Vitória é uma preciosidade...Claro que vimos carros que não lhe obedeceram, mas realmente são talvez uns 50 metros sem sentido nenhum. 

A Velha Senhora Torre dos Clérigos espreita lá do alto, com o seu garbo habitual

Outra boa notícia, o Miradoiro da Vitória já abriu e limpo. Escusado referir as belas imagens sobre outros locais da Cidade. 
No largo, estudantes de Capa e Batina deveriam estar a praxar novos universitários. Vestidos vulgarmente. Uns e outros desandaram quando entramos. Não sei se por casualidade. Uns e outros com uma cara, que, como explicar, tipo tristeza, de caso, enfim, espero que compreendam. Eu não compreendo, quando é Festa - ou deveria sê-lo - mostrar aqueles rostos.

Era Dia de Bando e ficou acordado irmos ter com os Bandalhos ao Café Progresso, casa-sede dos ditos. Uma cervejinha que a sede já era muita e acordamos o local do jantar. A Churrasqueira das Antas.
Esperava-nos uma surpresa desagradável.

O carro ficou estacionado no Parque em Carlos Alberto. Registado às 17h46m. Registamos o Pagamento às 18h54m que foi de €.2,85. Pois bem, a saída foi-nos recusada pois teríamos de pagar mais €.0,90. Voltamos atrás para pagar o que aconteceu às 19h05m. Quer dizer, os 11 minutos que demoramos a sair (incluindo o regresso à máquina para pagar esse excedente, talvez 2-3 minutos ) valeu um roubo de €.0,90 cêntimos.Ora toma. Os autores são a SABA PORTUGAL. Para que conste. Num País de Ladrões, mais um menos um não se nota. Mas fica o aviso.
  
Ao jantar, para lá do trivial queijo branco no azeite e azeitonas ao alho e azeite, não nos desviamos do habitual frango pestisqueiro, seguindo-se o Bacalhau na Braza. Como de hábito. 
Para a posteridade aqui ficam os comensais.

Um Porto noturno desde o Cais de Gaia, um café e bagaço no Bar do Grupo dos Mareantes do Rio Douro - não esqueci de contar a história de S. Gonçalo - foi para terminar em beleza este dia. Onde a chuva parou ao final da tarde.  


Uma vantagem da chuva: limpa o tempo e a poluição e deixa-nos olhar a Cidade. Com outro olhar.

Pai, Genro e Filha escondida. Final de dia.
Para que conste, o Fernando chegou perfeitamente a Casa. Para mim foi um grande prazer poder ser útil.
Não sei se Allan se escreve assim ou assim Allen. Para o caso, espero apenas que não me leve a mal se errei.

terça-feira, 19 de março de 2013

154 - Lendas, Estórias e História da minha Cidade do Porto

Os nossos olhos não negam o que vêm. Verdade ou ficção, é História, está escrito como tal, embora a História nem sempre é (foi) conforme a interpretamos. E na continuidade dos séculos, muita da História se mudou ( muda-se ainda) conforme os interesses do momento.
No meu caso de leitor de História - pobre de mim - busco conhecer o que se publicou sobre factos que podem ter muito de Lendas. Para completar o que vou conhecendo escrito, os meus olhos e a câmara fotográfica, companheira inseparável enquanto nos vão deixando, tentam registar, bem ou mal, a realidade de hoje.
Assumo que sinto uma certa emoção quando estou próximo de algo com muita História, mesmo que tenha Lendas à mistura. Mas sabemos que tudo teve um início, talvez nunca correctamente descrito, por ignorância, por desleixo ou por interesses. Principalmente no que se refere à Cidade do Porto, tento olhar em volta e perceber o que me rodeia. Descreverei como factos reais, mas não acreditem pois muito das narrativas que li estão cheias de "ses, mas, talvez, supõem-se".
Sei que vou repetir algumas descrições das imagens abaixo representadas, mas organizei este conjunto para poder dar uma pálida ideia do que podemos encontrar sobre o que ajudou a fazer a História desta velha Cidade.  
   
Na Sé Catedral, encontra-se do lado esquerdo do transepto, o altar de Nossa Senhora de Vandoma. Também conhecida por Nossa Senhora do Porto e Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação. É uma das invocações à Virgem Maria, representada no Brasão da Cidade.
A sua devoção tem origem num episódio por volta do ano 990 quando uma armada originária da Gasconha (Região Basca Francesa) comandada pelo nobre Português Munio Viegas, ajudou a expulsar os Mouros da Região do Porto.
Junto estava o Bispo da localidade de Vendôme, D. Nonego, que trouxe com ele uma cópia da imagem de Nossa Senhora que havia na Catedral. Após a expulsão dos Mouros, as muralhas da Cidade foram reconstruídas e numa das quatro portas da fortificação, que passou a denominar-se de Vandoma, foi colocada a Imagem trazida de França. Aí começou a devoção a Nossa Senhora de Vandoma que a população venerava levando a imagem em procissão, principalmente em épocas de epidemias. Foi consagrada Padroeira da Cidade do Porto.
Notas à parte: A sua devoção chegou ao Brasil centenas de anos mais tarde, como Nossa Senhora do Porto, tornando-se orago das Cidades de Andrelândia e Senhora do Porto, em Minas e Morretes no Paraná.
A Porta de Vandoma foi demolida em 1855 e próximo do local onde existiu (entrada da Rua Chã/Avenida da Ponte) pode ver-se numa reconstituição do séc. XX um cubelo e um pouco de pano muralhado. Estas muralhas foram edificadas pelos romanos no séc. III.
A imagem actual sofreu várias alterações nas cores das roupas, conforme os interesses políticos reinantes em cada época. 
Li que esta mesma imagem é a mesma que os Gascões trouxeram. Uma inverdade e se existiu deve ter desaparecido há muito. A imagem actual e que esteve no Arco de Vandoma é do séc. XIV. 

Quero agradecer ao meu amigo leitor Fernando Ribeiro os esclarecimentos que nos deixou em comentário há duas ou três postagens atrás, quando escrevi sobre uma imagem em pedra junto ao altar da Nossa Senhora da Silva, na Rua dos Caldeireiros. E também o link que me vai ser de muita utilidade.
Pois bem, a Nossa Senhora da Silva tem como história o achamento de uma imagem nos silvados junto à primitiva e futura Sé do Porto. No séc. XII. Há quem escreva que foram os pedreiros que faziam os alicerces. Há quem escreva que foi D. Mafalda, esposa do nosso primeiro, D. Afonso Henriques.
Até agora, não consegui encontrar nada que nos refira outra origem para o nome desta Senhora. 
Comparando as duas imagens que conheço da Senhora da Silva, não têm nada em comum. A da esquerda encontra-se no bonito altar voltado para a Rua dos Caldeireiros; informa-nos o Fernando Ribeiro, porque lhe foi dito durante uma visita à capela a qual tem a dimensão de um quarto de dormir,  que foi assim construído por não haver espaço para o colocar dentro.
A imagem é do séc.XVIII e já teve a acompanhá-la as imagens evocativas de S. João Baptista (lembrança do antigo Hospital) e S. Baldomero, francês do séc. VII, mártir cristão e padroeiro dos Ferreiros. 
A outra imagem está no transepto da Sé Catedral do lado direito. E vejam lá o que encontramos para ler:  Será uma imagem do séc. XIV/XV. Mas também pode ser a primitiva, porque é em pedra.
Certo é que está registado em 1623 pelo Bispo D. Rodrigo da Cunha o legado da Rainha D. Mafalda à Santa.
Uma nota: este Bispo inquisidor não deixou grandes recordações na população. No entanto foi um oposicionista aos governos dos Filipes espanhóis quando tentaram integrar Portugal em Espanha e um dos governantes de Portugal até à coroação de D. João IV a quem jurou fidelidade.

A Capela dos Alfaiates, assim conhecida, era da Irmandade dos oficiais desta arte e que se constituiu no séc. XVI num andar de uma casa pertença do Cabido, na Sé e desde então veneram Nossa Senhora de Agosto e São Bom Homem. É Monumento Nacional. Não sei se a Irmandade ainda existe.
Começou a ser erigida a Capela em meados daquele século, demorando muito anos a sua construção. Ao longo da vida recebeu vários melhoramentos, mas acabou por ser desmantelada em 1936 para a abertura do Terreiro da Sé e reconstruída no local actual em 1953, na bifurcação das Ruas do Sol e de S. Luís, entre a Praça da Batalha e o Convento de Santa Clara.
O retábulo composto por oito quadros pintados da vida da Virgem, segundo uns de 1565, segundo outros de 1590/1600 são do Pintor Francisco Correia, mas levantam-se dúvidas se serão todos da sua autoria. 
Foi restaurado em 1950 pelo Pintor Abel Moura.
Foi-me contada no local uma estória como verdadeira e corroborada por uma informação escrita, sobre a imagem em calcário de Nossa Senhora de Agosto, do séc. XVI. A imagem sofreu um restauro e os técnicos opinaram que o braço direito estava totalmente deteriorado. Então substituíram apenas a mão por uma em madeira, que está carunchenta, e colocaram-na presa ao manto, deformando a imagem. O braço e a mão originais estão em exposição, devidamente protegidos e bem de saúde, que registei na medida do possível. É a foto à direita, ao fundo da qual embora com fraca visibilidade se vê uma reprodução a preto e branco da imagem como era antes do restauro. 
A imagem de Santo Bom Homem, o outro patrono.
Presumo que é uma imagem do séc. XV
Em 1140 nasceu em Cremona, Itália, Homobono, que viria a ser o Padroeiro dos Alfaiates, Costureiras e Comerciantes de tecidos. Na vida profissional a justeza foi o seu lema, além de muito caritativo com os pobres. É-lhe atribuído um milagre de multiplicação dos pães. Faleceu em 13 de Novembro de 1197, subitamente enquanto assistia à missa.
Casou com uma mulher muito má, que após o milagre da multiplicação se converteu e passou a ser boazinha.

A Igreja de Nossa de Campanhã, da segunda década do séc. XVIII, arrasada e saqueada pelas tropas francesas durante as Invasões, mais precisamente em 1809, e muito danificada durante as lutas civis-liberais-fratricidas de 1832/34, possui uma imagem de Nossa Senhora a quem são atribuídos vários milagres. 
No entanto e primitivamente, tudo começa com a reconquista da região do Porto aos mouros. Estará ou não associada a outras lendas (depende do historiador) com a mesma reconquista, como a da Senhora da Batalha, cuja capela da sua evocação existiu no local junto ao actual Cine-Teatro S. João; Com Contumil (conto mil) e Rio Tinto - Tinto de cor vermelha pelo sangue derramado nessas lutas.
Certo é que Campanhã, ou Villa Campaniana é de origem antiquíssima da qual Rio Tinto fazia parte e Contumil lhe pertence.
No dia da batalha Mouros versus Cristãos em Contumil, foi achada uma imagem a quem o povo atribuiu a razão da vitória cristã. Mandou erguer uma ermida com o nome de Santa Maria de Azáres, passando mais tarde a chamar-se de Nossa Senhora da Entrega. Presume-se que terá sido esta a primeira Matriz.
A imagem da Senhora de Campanhã, do séc.XIV, esculpida em calcário, estofada e policromada, sofreu algumas alterações e restauros ao longo dos séculos, está envolvida em aparecimentos. Presumo que terá a ver com o primitivo aparecimento da tal imagem no dia da batalha em Contumil. Mas não tenho referencias, embora a estória venha do séc. X.
A devoção à Senhora de Campanhã era tal que a sua imagem só podia ser vista em dias especiais com luzes e toques de órgão. Saía em Procissão (pelas doenças, condições atmosféricas por exemplo) e tocá-la poderia ser perigoso ou milagroso.
Num dia de 1722, ano de grande seca, saiu a Procissão e a imagem caiu do andor em Bonjoia partindo a mão. Nesse local brotou água e povo construiu uma fonte e um cruzeiro. Que ainda hoje existem. Em 1967 foi inaugurada próximo do local uma capela.
Restaurou-se a imagem com uma mão em madeira.
Em apontamento diga-se que na Igreja existe uma linda imagem da Senhora do Rosário em pedra ançã do séc. XIV/XV. 
  
As relíquias de São Pantaleão chegaram à Cidade do Porto, trazidas pelos Arménios em meados séc. XV, fugidas à ocupação turca de Constantinópola em 1453 e deixadas em S. Pedro de Miragaia onde se passou a celebrar a sua memória.
Entre ordens reais de D. João II e depois de D. Manuel I para que se construísse um túmulo, foram as relíquias passadas para a Sé em 1499 por ordem do Bispo D. Diogo de Sousa. O Santo passou a ser Patrono da Cidade substituindo S. Vicente, até 1963.
A urna de prata foi roubada em 16 de Novembro de 1841. Ficaram as relíquias que se guardam no altar-mor da Sé. Mas um pequeno osso está na Igreja de S. Pedro de Miragaia dentro de um braço em prata. A Cabeça-Relicário foi para Lisboa para ser desenhada pela Rainha D. Amélia. Depois da implantação da República ficou no Palácio das Necessidades, donde passou para o Museu de Arte Antiga. Regressou ao Porto e foi colocada no Museu Nacional de Soares dos Reis, onde andou perdida até há pouco tempo. No seu interior encontraram-se vários fraguementos de madeira e tecidos e um pequeno osso do crânio. 
Um prezado leitor da minha postagem 47, teve a gentileza de colocar este comentário:

Gostaria de acrescentar, sendo nascido e educado em Constantinopla (Istanbul) que Sao Pantoleão é um santo do qual o nome é um épitéto, uma alcunha é a tradução de Aghios Pantéleimon que etimologicamente significa o homen que "elei" dá a piedade à todos em grego o tous pantas-eleei...era de Nicemedia da Bythinia hoje Izmit cidade turca cerca de 90 km à leste de Istanbul...Os arménios que troceram as reliquias eram Hay-Horom (ou seja armenios ortodoxos) dos que não se separaram da cristiandade depois do concil ecumenico de Khalkidon Calcedonia...alguns historicos sustentam que primeiro o feretro do santo em prata e ouro foi transportado de Nicomédia à Heraclia (uns 20 km à oeste de Nicomedia) que hoje se chama Hereke e sempre foi um porto de mercadorias e pesca e tb de exportação da seda e dos texteis Conhecidos no sec 18 e 19 como soie de Brousse (hoje Bursa) que rivalizavam os de Lyon e os de Milão, como dos tapetes orientais finos em seda com mais de 150000 nós por metro quadrado..Havia lá uma fabrica tb pertencente ao grupo industrial de Sümerbank que jánãoexiste...Há ca de duas decadas esta peq cidade foi arasada e praticamente desaparecida por um seismo..há alguns indicios que estes arménios byzantinos foram dos que tentaram se revoltar com os byzantinos gregos depois da queda de Constantinopla em 1453 em 29 de maio
A Igreja Ortodoxa venera o Santo Pantoleão em 27 de Julio(novocalendaristas) e 13 dias depois os do velho calendario juliano..A paroqui ortodoxa do Porto é dedicada à S Pantoleão
Lefteris Zygopoulos (Lisboa)
A
Muitas coisas nos acontecem quando percorremos caminhos. Há dias, entrei na Igreja de S. Lourenço, vulgarmente conhecida como dos Grilos e em conversa com um senhor, de quem infelizmente não anotei o nome, foi-me mostrada esta imagem. Decapitada, bem como o Menino, não se sabe desde quando. 
É uma imagem do séc. XV/XVI de Nossa Senhora do Ferro que se encontrava no antigo Recolhimento do Ferro, (o actual encontra-se no Codeçal desde o séc. XVIII) junto à desaparecida Porta da Muralha Primitiva - ou Românica - de S. Sebastião. Na altura conhecida como Porta do Ferro ou ainda da Sapataria, porque o culto a S. Sebastião é quinhentista. Por isso a Rua de S. Sebastião chamava-se Rua da Çapataria, documentada já em 1286. Teve outros nomes até chegar ao actual em 1570, mais coisa menos coisa. São outras estórias da história.

O que me levou à Igreja de S. Lourenço foi tentar descobrir a imagem de Santa Ana que esteve no Altar do Arco e Porta da Muralha Primitiva com o mesmo nome. Tinha lido que a imagem foi para a antiga Capela de Santo Isidro e após a sua demolição veio para esta Igreja, onde está exposta no Museu de Arte Sacra, localizado anexo à Igreja.
Foi-me indicada a imagem e o meu espanto foi grande ao ver que também foi vandalizada. Alguém roubou o menino...
Outra desilusão seguiu-se quando li na informação junto à imagem que esta é do séc. XVIII. Esperava uma imagem muito mais antiga, especialmente porque a Santa se venerava naquele local pelo menos desde o séc. XV. E ainda hoje se venera juntamente com S. Joaquim, seu marido. Na Rua de Santana.
Mas serviu também para conhecer a história da Santa, uma referencia para os Católicos.
Uma nota. Visitem esta Igreja e este Museu. Na minha opinião de leigo, há algumas raridades a par de muita história.

A escultura em madeira da imagem de Nossa Senhora da Vitória na Igreja do mesmo nome terá cerca de 120 anos de existência, mais ou menos. Porque os fieis não gostaram do rosto da Santa, foi retirado o primitivo e encomendado um novo. Não ao mesmo escultor. O autor foi o grande Soares dos Reis  que esculpiu um rosto lindíssimo, o de sua mãe. Era uma Santa que não podia ser Santa. Os fieis têm às vezes atitudes bem desagradáveis. Se seguissem esse caminho, hoje não haveria uma obra de que gostassem. Mas os fieis agora não mandam nada.

Tudo pode ter retórica. Explícita ou mentirosa a arte de bem falar, escrever, neste caso, também nos confunde. Quem diz sim, pode receber um não mas a retórica pode nem ser verdadeira. E/ou incompleta. É não porque é não e pronto.
Escreveram os antigos que a Igreja primitiva de S. Pedro de Miragaia ou no local da actual, foi a primeira Sé do Porto mandada construir por S. Basílio na primeira metade do nosso primeiro século. Então aí está um não, mas o porquê do não, não sei. 
Pela data presumo que este S. Basílio foi o Bispo de Braga (anos 60 a 95); nessa altura o bispado do Porto estava dependente de Braga. Mas se a eventual Sé foi mandada construir por ele na primeira metade do séc. I, nessa altura o Bispo era S. Pedro de Rates, o homem da Póvoa de Varzim (anos 45 a 60). 
Não sei ser retórico, mas alguém nos legou uma pedra, colocada no exterior da actual igreja do lado direito, com uma inscrição que foi recuperada. Verdade ou lenda, é história.

No corredor voltado para a Praça dos Leões do edifício da Reitoria da Universidade, uma verdade fóssil. Que sensação tocar numa coisa com 150 Mil Anos.
Uma nota: Merecem uma visita os Museus de História Natural, o de Mineralogia e a Exposição Egípcia, que julgo vai ficar permanente. Bem como o interior principalmente até onde nos é permitido e as escadas que conduzem à Sala da Reitoria.
 
História e muita é a dos Judeus do Porto. Embora se refiram muito as Judiarias de Miragaia e depois a da Vitória, o certo é que os Judeus foram parte integrante da população do Porto desde muito antes da fundação da nacionalidade. 
Esta placa colocada na parede do antigo Mosteiro de S. Bento da Vitória, do lado da Rua com o mesmo nome, simboliza a sua memória e a desculpa da Cidade, que embora reagindo ao Decreto de D. Manuel I, a igreja cumpriu com uma tenaz perseguição.
Uma das humilhações impostas aos Judeus foi o contributo para a construção da Igreja de Santa Maria da Vitória, ali bem próxima, no local onde existiu uma Sinagoga. Vitória, da Igreja sobre os Judeus.

Neste conjunto estão três símbolos de épocas bem distintas. A Casa da Câmara, ou dos 24, ou como era conhecida à época, Torre da Rolaçam, tem a sua origem no séc. XIV. Aí se reuniam os representantes dos 24 mesteres - ofícios - da Cidade e foi como que a sede do poder autárquico.
A primeira Câmara era em madeira e em 1350 foi acordado mandar-se construir uma em Arcos sobre a Muro Velho, ou seja a Muralha Românica. 
O edifício de 100 palmos de altura e a 7 metros da parede da Sé, localizado no cemitério (ou adro) da Igreja sofreu vários acidentes e por isso muitos restauros e até mudança de lugar (séc. XV). A edilidade entretanto reuniu em vários locais, incluindo no Convento de S. Domingos. 
No ir e vir, acabou por abandonar as instalações em 1784, mudando para uma parte do Colégio de S. Lourenço (Grilos) tendo arrendado parte do edifício. Mas mandou demolir até ao primeiro andar para aproveitar a pedra e barras de ferro para a construção da Cadeia. As barras pesavam 30 quintais, 2 arrobas e 20 arráteis (Livro das Vereações, 19 de Agosto de 1795).
Em 25 de Abril de 1875 houve um enorme incêndio destruindo o edifício. Na altura, no rés-do-chão funcionava uma fábrica de refinação de açúcar e no primeiro andar era a sede da Associação dos Latoeiros.
A partir daí as ruínas ficaram ao abandono quási um século. No local procederam-se a escavações arqueológicas que revelaram vários achados e provando a ocupação do Morro de Pena Ventosa nos séc. IV e III a.C.
Não sei ao certo, mas a recuperação das ruínas fizeram-se já nos anos 80 do século passado.

Para recordar a Casa da Câmara, ou dos 24, nos anos 90 foi edificado um "mamarracho" (é a minha opinião) sobre parte das ruínas da antiga, julgo que só respeitando apenas a altura.
O autor, arquitecto Fernando Távora referiu que era para termos uma ligação à Cidade, espraiando a vista. Claro que não espraiamos vista nenhuma pois apenas se deslumbra um pequeno território entre ameias para os lados dos Clérigos. O resto são cimos de telhados. Isto é se entrarmos no edifício e a porta interior estiver aberta para passarmos ao passadiço sobre as ruínas.

Ainda por cima resolveu castigar o nosso Porto, voltando-o para os vidros sujos e coloridos do "mamarracho". Era para melhor visão da Cidade para além do Porto, estátua.
Esta estátua esteve desde Agosto de 1819 no cimo dos Paços do Concelho, edifício alugado na Praça Nova - actual Praça da Liberdade - demolido para a abertura da Avenida dos Aliados.
Passou depois para o Largo Actor Dias - creio que se chama Jardim Arnaldo Gama - e posteriormente para o Palácio de Cristal, junto ao Castelo, no Bosque, se a memória não me falha.
Foi seu autor o Mestre Pedreiro João da Silva, de Pedrozo (Pedroso, Vila Nova de Gaia) e custou trezentos quarenta e três mil e duzentos réis, pagos em três prestações iguais, sendo uma delas adiantada.
Estória ou não, esta estátua pode ter sido criada para reabilitar a imagem d'O Porto, sobre a qual escreveu Garrett no Arco de Santana "...estamos junto à veneranda estátua do velho Porto que rodeado de assopradas tripas, olha, como do próprio trono, para sobre os domínios da sua juridisção..."
Essa Estátua que Garrett referiu era conhecida como Pedra do Porto e estava em 1293 na Rua das Eiras (Rua Chã actual). Passou para o cimo dos Açougues Reias na altura, nos Palhais (Rua de Pena Ventosa actual) algures entre essa época e 1503 onde tomou o nome de O Porto "...um mui mal trabalhado e até monstruoso homem todo feito de pedra..." que faz lembrar uma estátua tardo-romana, de aspecto guerreiro, talvez Marte, que ficaria bem associado à Cidade. O rasto dela perdeu-se quando o edifício dos Açougues foram demolidos no séc. XIX para a abertura do Largo de Penaventosa, hoje Largo de Pedro Vitorino.

Propositadamente não refiro as minhas fontes de leitura, que foram imensas. Algumas já as nomeei em outros escritos. É verdade que há cópias umas das outras, parágrafos inteiros. Outras induzem-nos em erro. Mas descobrem-se novos pensamentos e estórias.
Dessa amalgama de leituras retirei o que pude para completar as imagens. Com a intenção principal de conseguir que os meus leitores se entranhem um pouco em alguma História da minha Cidade. E das  suas Estórias e Lendas.