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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

53 - As estátuas da nossa Sala de Visitas

Sou um admirador de Estátuas e de Monumentos comemorativos. Temos bastantes espalhadas - e espalhados - pela cidade, sendo talvez o de maior grandiosidade e não só pelo tamanho, o conjunto na Rotunda da Boavista, memorizando a Guerra Peninsular e as Invasões Napoleónicas.

Da Praça da Liberdade até à Praça do Município e passando pela Avenida dos Aliados, encontramos várias estátuas merecedoras de um olhar e de uma foto. Nem sempre se consegue o melhor ângulo, pois estes espaços normalmente estão "alugados" desde bares a standes de automóveis, de barracas para festas de natal e afins, enfim, tudo que deixe dinheiro à Câmara, mesmo que desfeie a nossa Sala de Visitas. Começando de Sul para Norte, na Praça da Liberdade, está a homenagem ao Ardina. Obra de Manuel Dias de 1990. Representa o antigo vendedor de jornais, vulgo Ardina, que apregoava as manchetes dos jornais do dia. Houve alguns famosos na cidade, entre eles o Feio, que estava em Santa Catarina junto ao antigo Paladium. Refiro-me a este em particular, porque as feições da estátua, para mim e alguns amigos, é a reprodução desse homem, que julgo já ter falecido. Embora em altura, nada a condizer. No centro da mesma Praça está o monumento a D. Pedro IV - 1º do Brasil - da autoria do escultor Célestin Anatole Calmels (a estátua) e do arquitecto Joaquim Costa Lima. Foi inaugurado em 1866. Pesa 5 toneladas e tem cerca de 10 metros de altura
Representa o Rei segurando na mão direita a Carta Constituicional de 1826, vestido com a farda de Caçadores 5 e sobre ela uma espécie de sobrecasaca, seu traje habitual.
No pedestal duas cenas da vida do Rei, em baixo relevo. Do lado poente, a entrega do coração à Cidade do Porto - que está na Igreja da Lapa devidamente conservado - . Na altura da foto, este baixo relevo não deveria estar colocado, pois vê-se um pano preto. Mas lendo abaixo irão perceber porquê. Do lado nascente representa a entrega da Bandeira a Tomás de Melo Breyner, Comandante do Batalhão dos Voluntários da Rainha, após o Desembarque do Mindelo. A título de curiosidades, refira-se que esta bandeira foi bordada pelas Damas do Faial; O monumento foi pago pelos habitantes da Cidade; Tomás de Melo Breyner era familiar da escritora e poetisa Sofia de Melo Breyner Andresen, mas não encontrei nenhuma referência pessoal. Aliás a página da Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Monumento_a_D._Pedro_IV faz uma ligação errada a um outro senhor com o mesmo nome e com certeza seu familiar.
Mais duas curiosidades: Primitivamente estes baixos relevos eram em mármore de Carrara - terão sido destruídos é o que presumo - e substituídos mais tarde por outros em bronze, que foram roubados em 2007 aquando da recuperação do monumento pela Porto com Pinta. Quando se retiraram os painéis publicitários, cá delas ? Quem as terá ? G'anda Pinta... Bom, para o caso não interessa nada. Fizeram-se novas placas partindo de fotos das anteriores, que foram colocadas em Março de 2008. Mas também fico cheio de dúvidas quanto à data, pois as duas fotos acima foram feitas em 12 Abril (com o pano preto) e 28 de Dezembro de 2007, já sem os panos.
Na base acenta um pedestal em Pedra Lioz um calcário raro existente na zona de Lisboa, principalmente na Serra de Sintra/Pêro Pinheiro. No frontal Norte, as Armas da Cidade do Porto.
No frontal sul, as armas dos Braganças.

Iniciando a subida da Avenida dos Aliados deparamos com a Juventude, mais conhecida como a Menina Nua.
Obra em mármore de Henrique Moreira de 1929 e a modelo foi a belíssima Aurélia Magalhães Monteiro (4/12/1910-2/6/1992)
No outro topo está a representação da Abundância, mais conhecida como "Os Meninos da Avenida" ou "Os Meninos Nus".
Obra igualmente de Henrique Moreira de 1931, em Bronze Dourado e taça contem Flores e Frutos.

Já na Praça do Município está o "Garrett" - na versão popular portuense - obra de Barata Feyo em bronze de Novembro de 1954. Concebida para assinalar o centenário da morte do Liberal Revolucionário, Poeta, Dramaturgo, Romancista, Jornalista, Político, Sedutor, João Baptista da Silva Leitão, mais tarde (1821, Almeida Garrett ) e feito Visconde (de Almeida Garrett) por Decreto Real de D. Pedro V de 25/6/1981. Nasceu no Porto em 4 de Fevereiro de 1779, viveu exilado na sua juventude na Ilha Terceira, nos Açores, e morreu em Lisboa em Novembro de 1854. Pelo meio exílios e funções diplomáticas e políticas na Europa e em Portugal. A ele se deve o Teatro Nacional D. Maria II, O Panteão Nacional e o Conservatório de Arte Dramática.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

52 - A Fábrica dos Chumbinhos

Há muito tempo que um edifício no centro histórico me intrigava pela sua altura em relação aos vizinhos. Visível de vários pontos das cidades do Porto e Gaia ainda mais se destaca devido à publicidade ao "Homem da Capa Preta" - Vinhos do Porto Sandeman. Ninguém ma paga mas é uma referência para o edifício se quiserem reparar nele. E mai'nada.Numa conversa sobre outros temas com o meu amigo Mário Lemos, vendo umas fotografias, apontei-lhe o edifício. Diz ele, é a Fábrica dos Chumbinhos.
Tratei de pesquisar na net o que era a tal fábrica. E a descoberta começa por saber que é um dos raros exemplares de shot tower em Portugal. (http://museudaindustriacd.blogspot.com) Porque não sou dado a línguas - nem às de vitela estufada acompanhada com ervilhas e puré de batata - fui ao tradutor da Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Shot_tower) saber o que era o tal de shot tower. À letra descobri que é Torre de Tiro. Um aparte, e que tem a ver com o texto seguinte do Museu: que é única em Portugal. Como o título está escrito, parece que haverá mais raridades destas em Portugal. Ou temos confusão ou este exemplar raro é no mundo. Mas para o caso não interessa nada, pois só me interessa agora o edifício.
Fiquei a saber que a Torre de Tiro - deixemos as línguas - é uma torre projectada para a produção de bolas de tiro por queda livre de chumbo derretido, que depois é travado numa bacia de água. Utilizado como projécteis de armas de fogo.
O processo foi inventado pelo sr. Willian Watts e patenteado no século XVIII. E parece que o processo era coisa complicada.
Esta fábrica foi instalada cerca de 1880 por José Pereira Cardoso na Rua de S. Francisco, em pleno Centro Histórico. Tem cerca de 45 metros de altura e lá de cima caía o chumbo.
Nos finais da década de 60 do século passado terminou a produção, mas continuam em exposição, pelo menos periodicamente, os fornos e apetrechos de fabrico.
E assim matei a minha curiosidade

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

51 - As Virtudes

As Virtudes são como uma espécie de lugar - que na realidade o é, na Freguesia de Miragaia - mas que abrange Rua, Calçada, Passeio, Alameda, Fonte, Jardim, e também Judeus, Padres, Ingleses, Muralhas, Horto, Miradouro, Burgueses. E a lembrança recente de amigos da extinta Taverna de S. Jorge, (creio que anteriormente se chamaria Passeio das Virtudes e onde declamava os seus versos Vasco de Lima Couto, poeta grande da Cidade) um já falecido, o guitarrista Jorge Barradas, madeirense de nascimento, portuense de adopção, um dos fundadores dos 3 de Portugal e criador do bonito Fado "Cidade das 3 Pontes", na década de 80 do século passado. Ela, cidade, a minha, o Porto, que agora tem 6 Pontes. Uma casa e amizades que me deixaram muitas saudades. Hoje é um restaurante, não direi de luxo, mas com preços de comidas e bebidas a saber a tal. E nada de especial neste campo. A nascente encontramos a casa dos Padres Bernardos, que já aqui viviam pelo menos no ano de 1619. De mão em mão após a extinção das ordens religiosas acabou por ser vendida ao Clube Inglês em 1923. Abandonada e degradada, foi recuperada e é hoje uma instituição de solidariedade social, que segundo li, da responsabilidade da Ordem de Malta . Parece que no seu interior tem pormenores de arquitectura dignos de visita. Por aqui existia a Porta ou Postigo das Virtudes, uma das passagens nas Muralhas Fernandinas para o interior da Cidade. Até ao século XIX.
Por ali ainda se podem ver alguns torreões e panos das Muralhas bem conservados

No Passeio ou Alameda das Virtudes, que já foi Praça, olhando para Norte, encontramos estas casas (na verdade não sei se são as originais, recuperadas) que foram da Procuradoria, se a minha interpretação é correcta dos textos que fui lendo, dos tais Padres Bernardos. Se bem tenha escrito, anteriormente, que o cemitério Judeu poderia ter existido na Bandeirinha, também é verdade que escrevi e porque li, claro, que poderia ser na Calçada das Virtudes; agora também leio que poderá ter sido aqui, na Alameda. É certo, a calçada passa perto, mas bem lá em abaixo. E como não há nada escrito, tanto quanto sei, os palpites disparam. Uma coisa sei, da primitiva judiaria lá em Monchique até aqui é um pedacinho razoável. Mas vou-me deixar de palpites e seguir em frente. Legendando a foto, é uma vista do Passeio ou Alameda das Virtudes sobre Miragaia de baixo. Os terrenos para a sua construção foram doados pelos tais Padres Bernardos para que a Câmara construísse o miradouro que planeou, sobre o Rio e sobre Gaia. Poder-se-ia ver também a Foz. Um aspecto sobre o antigo Horto das Virtudes, hoje Jardim, visto da Alameda. Que tem umas grades de protecção para evitar que possíveis suicidas com ideias pré-concebidas as percam. A ideia foi equacionada desde o início da sua construção. É o que dizem os escritos.
A Calçada deve ter sido aberta por altura da construção da Fonte que está lá no fundo. Ora se uma é de 1619, a outra não deve andar longe desta data. Penso eu. Criou-se aqui um passeio público muito bem frequentado e segundo os cronistas, pelas mais belas mulheres da Cidade. Para que os coches pudessem passar e vir até aqui ao sítio, alargou-se a Porta das Virtudes, aberta nas Muralhas. Do lado direito de quem desce, foi construído um paredão que veio a ruir. Passados anos construiu-se outro, com arcos. Mas como cenas menos dignas para a moral vigente ali se passavam, foram os arcos entaipados, como ainda hoje se podem observar.
Do Jardim das Virtudes, podem-se ver bem a Alameda, a Calçada, o Paredão com os Arcos. E as costas do Chafariz ou Fonte. E o parque de estacionamento.
O Chafariz das Virtudes ou Fonte do Rio Frio é Monumento Nacional, construída em 1619, para aproveitamento das águas do Rio que nascia para os lados da actual Rua da Torrinha, em Cedofeita e que desagua no Douro. Agora por baixo da Alfandega, mas anteriormente na chamada Praia de Miragaia. Onde estão as casas arcadas, já referidas em escritos anteriores. Tem duas carrancas que vertiam a água para um tanque. Francamente, ou o tanque desapareceu destruído ou está subterrado. Um dia destes, com uma manobra menos feliz de um condutor, lá vão as carrancas também. Será que não era de proteger o pobre Monumento Nacional ? Nesta foto do princípio do século XX, creio que de Arnaldo Soares, o tal tanque já não existia. Se é que alguma vez existiu. Pelo menos é o que dá para se entender. É verdade que foi o Chafariz vandalisado. Nesta data já não existia no nicho a imagem que deveria ser de Nossa Senhora das Virtudes.Este painel também está em muito mau estado. E no escudo ao alto, também faltam dois castelos.

As carrancas têm agora na boca uns tubos de chapa, não sei para quê, pois a fonte está desactivada. Será o tanque aquelas formas côncavas por baixo das carrancas ? Ou será desconhecimento do autor do escrito primitivo ? Como se pode comprovar, os carros estão estacionados a meio metro.
Convido a voltarmo-nos a situar no Passeio ou Alameda, mas agora olhando, digamos assim, para Poente. Encontramos do lado esquerdo o edifício da Cooperativa Árvore, de ensino de artes e como tal tem os seus muros cheiinhos de grafitis. É uma casa de 1767, pertença dos Albuquerques. Não sei se são os mesmos que anteriormente referi, mas se são, não há dúvida que era gente cheia de nota. Em frente, uns passos abaixo, existe outro casarão mas entaipado, com uns grafitis até que bonitinhos, e do qual sobressai apenas um brasão. Como não encontrei nenhuma referência à casa, passo adiante.
A casa tinha anexa uma quinta, o actual Jardim das Virtudes, de onde esta imagem foi obtida. No alto o Palácio da Justiça e um pouco escondida a Igreja de S. José das Taipas, que nunca está aberta, pelo menos nas horas decentes que por lá passo. E já foram muitas as vezes. Parece que possui uma das três obras "flamengas" da Cidade. As outros são o retábulo da Capela dos Alfaiates e o tríptico de Pentecostes na Igreja de Miragaia. Ambos já por aqui mostrados.
Aspecto do Jardim, próximo do Largo do Viriato. Nele esteve instalada uma bateria aquando do Cerco da Cidade durante as Lutas Liberais.
Mas antes também era um quinta que passou a ser Horto. Em 1884 é de José Marques Loureiro, que criou estufas onde produziu ananazes. Parece que com sucesso. Dedicou-se também ao cultivo de plantas chegando a ser fornecedor oficial da Casa Real.
Os primeiros catálogos de flores e fruteiras na nossa língua são lançados por ele.

A quinta-horto ocupava uma área bastante grande, mas acabou por ser retalhada. Li no sítio de Junta de freguesia que serão da quinta original, algumas das árvores que se vêm pelas encostas de Miragaia. Mas li também em http://dias-com-arvores.blogspot.com/2004/09/jardim-das-virtudes-visto-da-rvore.html que nada existe do velho Horto, (ou serão só as camélias ?) com excepção de uma árvore de nome Ginkgo, bicentenária, classificada como de interesse público.
Não sei quando passou para a posse da Câmara, mas sei que em 1996 foi reconvertido em Jardim Público. Que pelos vistos esteve muito tempo fechado, ou por longos períodos, pois nunca o vi aberto nestes últimos 4 anos.
Reabriu em Junho, e dele podem apreciar-se belas paísagens sobre Miragaia, o Douro e Gaia.
Pormenores


Miragaia e os seus Armazéns
A Igreja de Miragaia no centro do casario.
À direita a Alfândega
Vista parcial de um bairro social impulsionado pelo saudoso Padre Américo.

Uma nota para os visitantes. O Jardim tem duas entradas. Uma pela Rua Azevedo de Albuquerque, de quem vem do Viriato ou descendo pela Cordoaria. Outra pela Rua de S. Pedro de Miragaia, logo a seguir ao Chafariz das Virtudes.

Bons passeios.




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

50 - Miragaia de alto a baixo

Esta Freguesia da Cidade do Porto é das mais pequenas em superfície mas uma das maiores em termos históricos, arquitectónicos e culturais. Tinha projectado um complemento à série Miragaia referida nos 3 escritos anteriores de uma outra forma. As circunstâncias levaram-me a rever a ideia inicial. E aqui está uma Miragaia sem ordem, do género ao correr da pena.
Para iniciar, uma bela vista parcial de um dos morros de Vila Nova de Gaia. Em destaque, ao centro, o Palácio das Sereias. Junto ao Rio Douro, à direita, a Alfandega Nova. Só para orientação.
A curiosidade levou-me ao Carregal. Com o Jardim pelas costas não resisti a esta bela cor. A ave em voo foi apenas casualidade.
Queria conhecer o Beco do Paço, pois tinha lido umas coisas sobre ele. É mesmo um beco e não tem saída. Consta que existiu aqui uma quinta pertença de um tio de Almeida Garrett, que cedeu os terrenos para a abertura da Rua do Rosário. Nada mais existe neste beco que não seja esta casa a cair e uns terrenos nas traseiras abandonados.

Voltando atrás e já na Rua do Rosário, (que tomou o nome do doador dos terrenos para a sua abertura) encontra-se este belo edifício, construído em meados do século XIX, pertença dos Albuquerques (não faço ideia de quem tenham sido, mas fica a referencia) cujo interior está transformado numa galeria comercial. Do pátio, com cafetaria e esplanada, podemos ver uns terrenos a monte, que parece terem sido dos mais belos jardins particulares da Cidade.

Andando para trás, na esquina da Rua do Rosário com a D. Manuel II, outro edifício com história. Foi o Hotel do Louvre, propriedade de uma senhora de origem francesa, Maria Huguette, cujas boas relações com os másculos da época lhe permitiram angariar um pé de meia para fundar o Hotel. Em Março de 1872, D. Pedro II do Brasil aqui esteve hospedado. Acontece que, na altura o ainda apenas Imperador, resolveu não pagar a conta por a achar elevadíssima. Os tribunais deram razão à senhora e aí vai ela ao Brasil fazer escândalo e exigir o pagamento da dívida. Que foi feito por uns endinheirados portugueses para evitar mais complicações. Isto foi o que li no sitio da Junta de Freguesia. Verdade ou mentira, estou a vender o peixe ao preço que o comprei. Neste mesmo edifício esteve instalada a sede do MUD - Movimento da Unidade Democrática - que em 21 de Novembro de 1946 foi assaltada e fechada pela polícia política da ditadura de Salazar. Já era a nossa bem conhecida PIDE em funções, criada em 1945, substituindo a PVDE (mas que interessam os nomes se o efeito era o mesmo ? ). O edifício ostenta ao lado da porta da entrada duas placas memorizando estes factos: O assalto da polícia e a hospedagem do Imperador. Igualmente e entre outras, esteve aqui a sede do meu velhinho Salgueiros, nos anos 30 do século passado. Ao fundo e à esquerda, vê-se o Palácio das Carrancas (o mais recente e que começou a ser construído em 1795 para fábrica e habitação dos Morias e Castro, os Carrancas, albergando actualmente o Museu Nacional de Soares dos Reis). Tema para outros escritos futuros.

No Largo do Viriato, anteriormente chamado de Santo António da Bandeirinha, à esquerda dois edifícios, na esquina com a Restauração. O da direita está localizado onde outrora foi a casa de João Allen. Coleccionador de muita arte, aqui criou um museu expondo ao povo o que foi adquirindo pelo mundo juntamente com obras de autores portugueses, entre eles Vieira Portuense. Maus negócios e talvez uma burla de que foi vítima por um seu sócio inglês, teve de vender as suas obras. Uma grande parte, julgo que a mais valiosa, está no Museu de Soares dos Reis. Talvez outras ainda se encontrem na Biblioteca Municipal. Aproveitando, deixo aqui a informação que a sua Quinta em Campanhã, quási em frente ao Palácio do Freixo, (hoje Hotel) é digna de uma visita. Foi e é esta Família responsável pelo desenvolvimento das Camélias em Portugal. E tenho o prazer de ser amigo do descente de um dos ramos da Família (Olá Xico, um abraço). O prédio da esquerda alberga o Museu do Filuminismo - se a informação é correcta - provàvelmente o maior e mais completo de Portugal.

Saindo para o lado das Virtudes, é difícil não reparar neste conjunto de casas cujas frentes estão voltadas para o Jardim da Cordoaria e uma delas alberga agora a Junta de Freguesia. (Olá Junta, façam uma revisão aos textos do vosso sítio. Já vos escrevi nesse sentido. Entre tantas coisas desactualizadas, está a vossa localização).

Continuando a descida pela antiga Rua dos Fogueteiros, à esquerda fica o grande muro que sustenta sobre estacaria devido aos terrenos pantanosos do Rio Frio, a Rua da Restauração. Em frente, as velhas escadas da Rua da Laje, com séculos de existência. Parece que na época aquando da construção do Palácio da Justiça foi prometida uma solução para esta zona. Mas raramente nesta minha Cidade, o prometido é devido...


Um troço da Calçada das Virtudes, abaixo da Fonte do Rio Frio
O meu último passeio, tinha uma finalidade. Descobrir se havia uma ligação desde a Fonte de Rio Frio até Miragaia de Baixo. Pode parecer incrível, mas não sabia que existia. Os mapas impressos com edição da autarquia camarária e os do Google têm uma zona cinzenta. E ainda bem, porque foi da maneira que descobri que o Jardim (antigo Horto) das Virtudes já está aberto. Desde Junho. A última vez que por aqui passei foi no triste dia, para mim, de 14 de Maio passado. A Câmara e a Junta nunca se dignaram informar-me. Paciência. Já me conformei há muito que não vale a pena escrever para as autarquias, pois nunca se têm respostas. Por outro lado aproveitei para olhar bem de perto a Fonte, já que nunca me atrevi a descer a Calçada das Virtudes sem saber se tinha saída. É que para subir aquilo deve ser um sacrifício ao qual nunca me quis eventualmente sujeitar. O Jardim e a Fonte serão para novos temas.

Mas isto é uma viagem sem ritmo nem rumo certo e vou entrar de novo pela zona das Taipas, com as suas típicas varandas e estendais. Do lado de cá é Vitória, eu sei, e mesmo aqui ao lado há um palacete em ruínas. Que pena, mas enfim.

Na Rua Dr. Barbosa de Castro, mais ou menos paralela às Taipas pelas costas, está a casa onde nasceu Almeida Garrett, devidamente memorizada. Descendo-a, vamo-nos encontrar novamente com as Taipas. E com Belmomte. Mas isso é já freguesia de S. Nicolau. Se não estou em erro.

Um olhar saudoso para a sede do Rancho do Douro Litoral (grandes bailaricos aqui se faziam; hoje nem sei se funciona alguma coisa) e prosseguindo vamos dar ao antigo Largo da Esperança, hoje de S. João Novo.À esquerda está a Igreja de S. João Novo - fica para outras histórias - e à direita o Palacete de Costa Lima, do séc. XVIII, meio arruinado. Esteve aqui até há uma dúzia de anos e desde 1945 o Museu de Etnografia e História. A boa vontade e o sacrifício de boa gente do Porto foi ignorada deixando a burocracia camarária que as ruínas falem mais alto. O espólio, que julgo ser valioso estará onde ? Leiam esta página http://www.amp.pt/gca/?id=253 , mas não riam porque é triste demais.
Um pouco abaixo encontra-se a Capela de Nossa Senhora da Esperança, cavada numa das torres da que foi a Muralha Fernandina. A sua construção está ligada a gente de vida marítima.
Escrevi na minha última postagem sobre uma estória que diz ter sido supostamente a Igreja de Miragaia a primeira Catedral do Porto. E que essa suposição seria baseada numa legenda inscrita numa pedra. E o Bispo Dom Basílio aparece associado a outras terras. Mas isso é muita história que fascinado ouvi, leccionada pelo Sr. Graciano Barbosa. Pois ela, a inscrição, foi-me mostrada e aqui está.

Outro tema que queria confirmar, embora mais ou menos já conhecesse, era a localização da Capela e do Hospital do Espírito Santo. Confirmadíssimo. Presume-se que seja uma edificação do séc. XVI e a Capela já foi Museu, tendo à sua guarda entre outras peças valiosas, o tríptico de Pentecostes ou do Espírito Santo, já anteriormente descrito.
O Hospital estava ligado à Igreja de S. Pedro de Miragaia, notando-se ainda paredes e caminhos.
Quási fazendo parte do mesmo conjunto, as memórias da antiga Fábrica de Cerâmica (ou da Louça) de Miragaia, fundada em 1775 por João da Rocha, um emigrante que fez fortuna na Bahia. Foi herdeiro seu filho João da Rocha Soares, que chegou a Presidente da Câmara do Porto. A fábrica foi encerrada 77 anos depois, deixando apenas de laborar durante as Invasões Francesas e aquando das Lutas Liberais. O Brasil foi um dos seus mercados e parece que ainda existem peças do seu fabrico por lá. Como não capino sentado recomendo o sítio:
http://velhariasdoluis.blogspot.com/2010/09/vasos-de-faianca-miragaia-no-brasil.html .
Uma das minhas descobertas foi a Rua dos Armazéns, com estória ligada à Real Companhia Velha, a tal dos Vinhos do Porto, criada pelo Marquês de Pombal. Becos de uma lado, muros altíssimos do outro. Para trás ficaram as Virtudes lá bem no cimo. Por isso recomendo sempre as descidas, pois por elas todos os santos ajudam.

Final da Rua a chegar à antiga praia de Miragaia

E paragem para molhar o bico.

Olho em frente e pergunto porque será que o relógio da Torre da Alfandega não trabalha há anos nem está limpinho ? Mistérios... como diria o Bafo de Bode...

Ao lado da Igreja de Miragaia vem dar a íngreme Rua de Tomaz Gonzaga bifurcando com a Rua Arménia

Provàvelmente seria aqui a entrada da residência dos donos da Fábrica de Cerâmica de Miragaia.

Voltei atrás só para mostrar esta inscrição. O que será que quer dizer ?

Na Rua Arménia, roupa estendida com cheiro a lavado.

Pena que todo este património habitacional não esteja devidamente recuperado.

Disseram-me que aquando da Cimeira Ibero Americana realizada há uns anos na Alfandega, a Câmara (quem haveria de ser ?), escondeu Miragaia dos olhos dos participantes, com panos pretos.

E mais uma vez ouvi vozes contra o Porto Vivo e outros organismos camarários. É o desleixo, a burocracia, a incompetência e provàvelmente outras coisas que se sobrepõem aos interesses de recuperação da Cidade. E dizem que querem devolver a Cidade ao Povo. Só blablabla

De Rui Rio, ficam-nos zero de obras (com excepção da destruição da Avenida dos Aliados), mas da alcunha de Bom Rapaz não se livra. São os seus seguidores (?) que o dizem. A versão é sempre a mesma.

Miragaia faz parte do Centro Histórico e do Património Mundial da Humanidade. Mas nos roteiros turísticos é como se não existisse. Nem faz parte da área turística sublinhada no mapa oficial.

Por esta freguesia davam entrada na cidade os Reis quando visitavam o Porto. Era pela Porta Nobre das Muralhas, prepositadamente alargada para bem receber à moda do Porto. Lá no alto ainda se vê um torreão das Muralhas. Há uma postagem já com uns 3 meses, que dedico às Muralhas Fernandinas na Vitória e Miragaia. É só recuar no espaço, que não no tempo.

Lá no alto também se vêm coisas que entram em conflito com o olharAs Muralhas, o que resta delas por aqui, fazem parte de um itinerário que sabe bem percorrer Na Praça de Artur Arcos, um artista miragaiense, encontra-se uma fonte que foi destinada para dar de beber aos animais, construída em 1907. A Fonte de Hulsenhos, mandada edificar por uma filha do conselheiro Hulsenhos ficaria à guarda do povo. É hoje um equipamento urbano decorativo, restaurado. Fica já bem próximo do limite da freguesia a ocidente. A Casa das Francesinhas, se bem que muito in, não é lá grande coisa nos comes. Se forem lá, arrisquem nas Francesinhas. Não se metam a comer outras coisas. Muito menos bifes.

Uma última vista parcial de Miragaia, para oriente.

Espero que na próxima legislatura camarária, embora demore ainda uns anos, um portuense a sério e não um playboy fora de época seja capaz de pegar na Cidade e a trate com carinho. Porque na legislatura corrente, o Presidente e seu séquito segue o rumo do Deixa cair, que alguém levantará. Duas notas finais: Uma, para a Junta de Freguesia. Não adianta ter casa nova. Há muita coisa que se pode melhorar sem custos elevados. É só andar por aí. E aproveitar as gentes da casa. Outra, para a Senhora que já anteriormente tinha referido e que me ajudou a descobrir a Igreja de Miragaia. Prespicaz, viu-me na Igreja e discretamente apresentou-me ao Sr. Graciano Barbosa. De quem recebi uma memorável lição de história. Aos dois, o meu muito obrigado.