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domingo, 8 de julho de 2012

135 - Rua da Restauração

Provàvelmente quem passa por esta Rua, não se apercebe o que ela possuiu - e ainda possui alguma coisa -  em tempos não muito longos.
Dividida entre as Freguesias de Miragaia e Massarelos, começou a ser construída por iniciativa da Misericórdia do Porto em 1816. Em 1825 ainda não tinha nome. Em 1839 não rompera ainda a pedreira da Torre da Marca (parte dos Jardins do Palácio de Cristal assentam nesta pedreira, mas não sei se deve o seu nome à Torre da Marca que assinalava desde 1542 o tráfego do Rio Douro precisamente no que viriam a ser os Jardins do Palácio, ou à Torre da Marca mais conhecida como de Pedro Sem que se encontra na Boa Hora, junto ao Palacete de Terenas antigo Paço Episcopal durante um período após as Lutas Liberais.
Numa planta de 1844 vê-se que já está ligada ao Rio na Alameda de Massarelos.

Começa junto ao Hospital de Santo António - fica para outra vez a sua história - ligada à Cordoaria e o seu primeiro nome foi de Rua do Hospital, depois de D. Miguel (o Absolutista) até 1832 e ainda Rua da Bandeirinha. Esta agora é apenas a que parte do Largo do Viriato, já ali em baixo a uma centena de metros até às traseiras do Palácio das Sereias e à Torre da Bandeirinha da Saúde. Presume Andrea de Cunha e Freitas, na sua Toponímia Portuense, que o nome actual se referirá à Restauração do Governo Constituicional e não à Restauração da Independência em 1640. (Lembram-se dos governos espanhóis Filipinos de 1580-1640 ?). Não sei desde quando ficou com o nome actual.

Esta parte da Rua - da Cordoaria até ao cruzamento do Largo do Viriato à esquerda e da Rua de Alberto Aires de Gouveia à direita -, assenta em estacaria derivado às águas que por aqui passavam e acabando no Monumento Nacional que é a Fonte do Rio Frio, lá no fundão das Virtudes. O Hospital de Santo António - ala Oeste do edifício e as traseiras da sua ampliação recente - ocupa o lado direito. Do lado esquerdo um gradeamento em ferro, encimado por lanças, foi colocado para prevenir eventuais quedas de uma altura superior a 30 metros. Vista de baixo, é uma muralha com um aspecto impressionante.

A paisagem que daqui se avista é deslumbrante. Ao fundo, o Rio Douro e Vila Nova de Gaia. Em baixo, parte do antigo Horto Real das Virtudes, hoje Jardim das Virtudes, que presumo já estar aberto de novo ao público.

Fazendo esquina com o Largo do Viriato a casa do Dr. Fernando Valente, provàvelmente o maior coleccionador Filuminista de Portugal. Segundo li no site da Junta de Freguesia de Miragaia, possui um Museu que a pedido poderá ser visitado.

Do outro lado da Rua, existiu o Palacete de John Francis Allen (1785-1848) um negociante de Vinho do Porto, que foi coleccionando obras de arte, história natural e epigrafia ao longo da vida tendo oferecido à Cidade do Porto a considerada maior colecção particular de Portugal. O seu Museu, aberto ao público aos domingos, cresceu de tal forma que teve necessidade de aumentar o edifício.

João Allen foi um dos fundadores do Banco Comercial do Porto e da Associação Comercial. A sua história e a da sua descendência ainda estão bem vincadas na Cidade. Um abraço especial ao meu amigo Xico Allen. Do outro lado da história da vida, recomendo uma visita à Quinta de Vilar de Allen e ao seu património incluindo as célebres Camélias. Fica quási em frente ao Palácio do Freixo, na Estrada Marginal para Gondomar.
Voltando à Restauração, o Palacete foi destruído e um novo edifício alberga numa parte, os Jogos da Santa Casa da Misericórdia. Curioso um triângulo que aparece mesmo na esquina do edifício e para o qual o meu amigo Bernardino Sardinha me chamou a atenção. Esquisitices de Arquitecturas.

Começamos a descer a Rua para o Rio. Do lado direito as instalações do Bloco Gráfico da Porto Editora, para além de umas garagens. Do lado esquerdo é tudo diferente.

Devido à minha amizade com o Senhor Eduardo Alberto Aguiar de Sousa, actualmente a viver no Rio de Janeiro, descobri o edifício onde esteve instalada a primeira clínica privada da Cidade pertença do avô, o Professor Alberto Pereira Pinto de Aguiar tendo também aí a sua residência.

O edifício foi sendo aumentado e ainda mostra, gravada na pedra, a legenda Laboratório Médico. Hoje, numa parte alberga escritórios de advogados, mas presumo que ainda mantém o recheio pertença da família.
Alberto de Aguiar nasceu no Porto a 22 de Setembro de 1868 e faleceu a 27 de Abril de 1948. Em 1893 licenciou-se pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto e três anos depois editaria a sua tese de doutoramento referente à urologia. Leccionou várias cadeiras na Escola Médica e mais tarde na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto entre 1896 e 1935, ano da sua jubilação. Durante 5 anos dirigiu o Laboratório Nobre resultante de um acordo entre a Escola Médico-Cirúrgica e o Hospital de Santo António. Problemas foram surgindo e acabou afastado dessa instituição bem como do concurso para a direcção do Laboratório de Análises da Misericórdia. Não sei as razões destas discórdias, mas olhando para os dias de hoje "Quem não está comigo, está contra mim. Portanto despeça-se"

Fundou o seu laboratório que ràpidamente alcançou grande fama nacional e tornou-se um prestigiado centro científico de investigação. Produziu teses inaugurais de concursos e 6 Volumes da Revista de Semiótica Laboratorial, criada e dirigida por Alberto de Aguiar.

Interviu civicamente, tendo presidido à Junta Patriótica do Norte, organismo constituído na cidade do Porto em 1916 com os fins de propaganda patriótica e de assistência às vítimas da Guerra, com fundos provenientes de cotizações de voluntários e de verbas dos seus membros.
Em 1917 a 25 de Maio é inaugurada a Casa dos Filhos dos Soldados num edifício na Rua de Cedofeita que um mês depois já albergava 42 órfãos.
Esta instituição deu lugar anos mais tarde, em 1921, à actual  Liga dos Combatentes da Grande Guerra, sediada no Porto na Quinta Amarela, ao Carvalhido, onde ainda se encontra. Aos interessados, mesmo aos de hoje ex-combatentes do Ultramar, aqui fica o link que pode ajudar a saber o que é a Liga e a sua antecessora  Casa dos Filhos dos Soldados: http://www.primeirarepublica.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&catid=17%3Ainstituicoes&id=187%3Alcgg-liga-dos-combatentes-da-grande-guerra-&Itemid=13
Gostava de saber (à atenção do Carlos Vinhal, por favor não esqueças o meu pedido) se o espólio desta Casa está guardado ou integrado na Liga.
Alberto Pinto de Aguiar foi agraciado com a Comenda da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e por ser considerado o precursor do estudo e investigação em Bioquímica foi apelidado o Patriarca da Bioquímica Portuguesa. Está sepultado no Cemitério de Agramonte.
Textos compilados em

Ao meu amigo Eduardo agradeço as fotos que me ofertou, parte delas aqui reproduzidas com a devida autorização.

Continuemos pela Restauração e vamos encontrar alguns belos edifícios. Este não conheço a sua origem nem a propriedade.

Mas este onde está instalado um organismo dos Vinhos Verdes, foi considerado em meados do séc. XIX "a casa mais luxuosa do Porto". Pertenceu a António da Silva Monteiro - o Conde da Silva Monteiro - nascido em Lordelo do Ouro em 16 de Agosto de 1822 e falecido em 15 de Janeiro de 1885. Filho de pais comerciantes, embarcou jovem para o Brasil e no Rio de Janeiro tornou-se comerciante e próspero capitalista. Os seus negócios continuaram no Brasil para além da sua morte. Regressado a Portugal, contribuiu para a criação das Escolas Primárias de Lordelo e Miragaia e na ajuda aos Soldados que entraram no conflito da Guerra Franco-Prussiana. Igualmente foi importante na ajuda às vítimas da enchente de 1877.  Presidente dos Bombeiros Voluntários, da Sociedade Palácio de Cristal e da Associação Comercial, Vice-Presidente da Câmara do Porto, esteve ligado aos incentivos dos projectos do Porto de Leixões e ao Caminho de Ferro para Salamanca. Criou várias empresas e empreendimentos destacando-se o dos Caminhos de Ferro da Póvoa. Foi um apaixonado pela horticultura e jardinagem que desenvolveu na sua Quinta da Lavandeira em Oliveira do Douro, Gaia.
Vista do ar, a propriedade deve ter uns jardins magníficos.

Uma linda casa com fachada em azulejo fecha esta parte da rua, seguindo-se um autentico miradouro sobre o Douro.

Infelizmente destacam-se as ruínas do antigo Convento de Monchique, presumimdo-se ter sido edificado sobre a Sinagoga Judaica de Miragaia pelos Portocarreros, os mesmos do Palácio das Sereias, também em Miragaia.

Do lado direito fica a muralha da pedreira da Torre da Marca e lá no alto o Palácio de Cristal, nome que sempre daremos aos seus Jardins, pois o Palácio foi destruído impunemente em princípios dos anos 50 do séc. XX. Quem vem do Palácio - Jardins - pode seguir por um dos itinerários dos Caminhos do Romântico - Entre Quintas, Macieirinha, por exemplo - e vem dar à Restauração. É um dos muitos e belos itinerários do Porto antigo de Massarelos. À chegada podemos apreciar alguns edifícios reconstruídos no local onde existiu a antiga Fábrica de Cerâmica de Massarelos.

Pormenores da Rua da Restauração.

Local onde mais ou menos esteve a Fábrica de Cerâmica de Massarelos. Foto antiga da Fábrica e actual local, vistos de Gaia.  As novas casas, escritórios e armazéns vistos da ponte-desvio que entra no Rio, e do lado da Restauração. Fundada em 1766 por Manuel Duarte Silva, viveu vários períodos de fabrico. Entre 1819 e 1845 esteve arrendada à Fábrica de Miragaia, de Rocha Soares, cujas famílias se uniram por laços familiares. Em 1912 a gestão passa para a empresa Chambers & Wall. Em 1920 é destruída derivado a um incêndio de enormes proporções. A produção continuou na Quinta de Roriz, junto à Ponte D. Maria do lado de Gaia. Hoje temos a recordação desta Fábrica devido a dois grande fornos recuperados e instalados na Avenida Gustavo Eifell, na marginal do Douro e relativamente próximo do Freixo.

O início ou fim da Rua, como queiram, junto ao Rio na Alameda de Massarelos.
 Hoje chama-se Alameda de Basílio Teles.

Alguns elementos para ajudar ao texto foram descobertos na net: Junta de Freguesia de Miragaia, Porto XXI, Toponímea da Câmara Municipl do Porto, Wikipédia (John Allen, António da Silva Monteiro).
Recomendo uma visita à Rua, descendo-a e subindo-a de Eléctrico.

segunda-feira, 21 de março de 2011

67 - Do Hotel do Louvre a Metralhadoras 3

Uma promessa feita ao meu camarigo Vasco da Gama, levou-me à Rua do Rosário para lhe "mostrar" a casa onde viveu nos seus tempos de estudante. E aproveitando a pedalada, dei uma "volta ao quarteirão.Comecemos por referir que a rua tomou o nome do tio de Almeida Garrett, Domingos do Rosário, aqui foi morador e proprietário tendo provavelmente doado uns terrenos para a abertura da rua. Na esquina com D. Manuel II fica o degradado edifício do antigo Hotel do Louvre. Já referido em notas anteriores, mas nunca é demais falar dele. Faz precisamente este mês 139 anos que D. Pedro II do Brasil aqui se hospedou. Albergou o Cine Clube do Porto, a Sede do velhinho Salgueiros, o Orfeão Lusitano, a sede do MUD assaltada pela Pide em 1948, o Clube de Campismo do Porto. Uma pena a situação em que se encontra e logo numa zona altamente visitada.

Quási no início encontra-se o palacete que foi dos Albuquerques - desconheço quem teriam sido -também doadores de uns terrenos na zona. Hoje é um centro comercial, bem conservado.
Em frente encontra-se uma verdadeira obra de arte de arquitectura. Na minha opinião, claro.
A par de construções recentes, vêm-se obras arquitectónicas de outrora onde a pedra, o ferro forjado e o azulejo imperam. Cumprindo a promessa, cá está o 150 de cama, mesa e roupa lavada, do camarigo Vasco. O prédio está bem conservado e quem disse o contrário enganou-te.
Vizinhos próximos são o novo Hotel Das Arts...
... e a Escola de Comércio do Porto. cuja fachada em azulejo é espectacular.
Para os saudosos e principalmente para quem trabalhou na Têxtil, relembro o edifício da famosa Caixa da Têxtil, na esquina de Miguel Bombarda, onde outro camarigo, o David Guimarães, passou parte da sua vida.
Olhando para trás, bem ao fundo, vemos uma das colinas de Vila Nova de Gaia.
Voltando à esquerda, ou por Miguel Bombarda ou pelo Breyner, vamos dar à Maternidade Júlio Dinis. No Largo com o seu nome, que já foi Largo dos Ingleses e do Campo Pequeno, o Chafariz de 1894. Foi território Inglês, incluindo Cemitério e Igreja. Os terrenos foram litigados com a Colegiada de S. Martinho de Cedofeita. A Maternidade Júlio Dinis foi construída de raiz por Saul Domingos Esteves sendo o risco do arquitecto francês George Epiaux, em terrenos que pertenciam a Alfredo Castro vendidos ao Estado. Foi seu impulsionador o Dr. Alfredo Magalhães. Inaugurada em 1939 esteve dependente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Desde essa data sofreu várias alterações, reformas e aumentos, tendo por isso os seus jardins, que eram magníficos, sido diminuídos na sua superfície. Por fim, também recordo este Hospital onde nasci - por isso sou de Massarelos - e fui operado duas vezes. Logo, sinto um carinho especial por esta casa. O seu sítio http://www.mjd.min-saude.pt/Frame.htm é um dos mais perfeitos e completos que conheço. Desconhece-se a origem desta Fonte, mas presume-se ser do séc. XVIII e terá pertencido ao primitivo dono dos terrenos, um súbdito o inglês. Transito difícil pela Rua da Maternidade. Não esqueci o antigo Conservatório de Música, mesmo pegado aos espaços da Maternidade. Terá direito a uma crónica especial.
Esqueçamos os ingleses que foram donos deste pedaço e siga-se pela Rua do Pombal, que afinal já não o é, pois agora chama-se Adolfo Casais Monteiro. Não sei a origem da designação antiga mas a da actual refere a C.M.P. que é uma homenagem ao escritor e professor universitário. Nasceu no Porto em 4 de Julho de 1908 e morreu em S. Paulo em 23 de Julho de 1972.

Não tinha programada a volta a este quarteirão. Mas como o caminho se faz caminhando, lembrei-me de ter lido em tempos no http://www.portoantigo.org/2010/01/o-velodromo-maria-amelia.html que por aqui existiu um velódromo. E fui tentar procurá-lo. Vi uma senhora à janela, já entradota na idade e perguntei-lhe se o conhecia. Expliquei-lhe que era um local onde a rapaziada de há 100 anos, talvez menos, andava de bicicleta. Olha, diz-me ela, no meu tempo foi no Palácio (ali a dois passos) que aprendi e andava de bicicleta. Recuei uns anos e também me vi por lá a dar ao pedal. Quási toda a estrutura do Velódromo continua lá. Foi-lhe dado o nome de D. Amélia em homenagem à Rainha, esposa de D. Carlos, a quem os terrenos pertenciam e que os doou ao Velo Clube do Porto. Ou terá sido Real Velo Clube ? Para o caso não interessa nada. Claro que não o vi, pois faz parte dos jardins fechados do Museu Nacional Soares dos Reis. Foi inaugurado em 1895 mas a história do ciclismo português está ligado a ele, até porque o primeiro clube de ciclismo nasceu no Porto.


Esta era a entrada para o Velódromo. Nada a refere, mas não tenho dúvidas, pois é a única abertura para as traseiras do Museu.
Por casualidade (?), no muro que se projecta até à Rua D. Manuel II, existem estes nichos, milagrosamente formatados para cartazes de publicidade. Serviriam antigamente para o mesmo efeito, por exemplo, anunciando as corridas ?
O velódromo. A foto "saquei-a" do blogue Porto Antigo, atrás referido.
Para completar a volta ao quarteirão, entramos na Rua D. Manuel II, cujo Palácio das Carrancas, hoje Museu Nacional Soares dos Reis se destaca do lado esquerdo.

Este edifício começou a ser construído em finais do séc. XVIII para residência e fábrica de ourivesaria dos Carrancas, apelido de uma família abastada cá do burgo, os Morais e Castro. Foi quartel general de Soult aquando das invasões francesas e depois de Wellington após a expulsão dos saqueadores. Durante as Lutas Liberais foi local de acolhimento de D. Pedro IV; adquirido aos descendestes da família em 1861, por D. Pedro V por 300 contos de réis para residência real durante as suas visitas ao Porto. Li que D. Manuel II ainda o utilizou numa das raras visitas ao Porto, já exiliado. Daí o nome da Rua em sua homenagem.Passou a chamar-se Paço Real. Após a instauração da República e porque o Paço Real era propriedade privada do rei, esteve encerrado até 1932 data do falecimento de D. Manuel II. Este legou-o à Santa Casa da Misericórdia do Porto. Passou para o Estado em 1939 para aí instalar o espólio do Museu Municipal do Porto e do ex-Museu Portuense de Pinturas e Estampas, fundado em 1833 onde tinha nascido o primeiro museu de arte em Portugal. A foto é de Arnaldo Soares do princípio do séc. XX


Do outro lado da Rua D. Manuel II, um monumental edifício cheio de história.Em 1838, poucos anos após o levantamento do cerco miguelista (1829/1932), a Câmara do Porto evoca a vitória liberal determinando que a Rua dos Quartéis, - já tinha tido outros nomes e hoje de D. Manuel II - passasse a ostentar a designação de Rua do Triunfo. Aqui existiam desde o séc. XVII - presume-se que o seja apenas por causa do portão de entrada - um conjunto de edifícios destinados a aquartelamento militar. O governo Miguelista estabeleceu aqui o R.I.9 passando posteriormente para o antigo R.I.6. Há quem escreva que só existiu o R.I.6. Mas também não sei quem, quando e como foi recuperado o edifício actual, na medida em que dos antigos pouco sobreviveu. Actualmente o edifício alberga serviços do Hospital de Santo António.

É já no séc. XX que passa para Metralhadoras 3 e posteriormente, nos anos 60, derivado à Guerra do Ultramar, passa a albergar o CICA 3, se não estou em erro. O emblema primitivo continua gravado no granito.A seguir ao Quartel, eram os terrenos do primitivo Horto das Virtudes, fornecedores reais, que se estendiam, desde meados do séc. XIX, até Miragaia. Para a abertura de novas ruas, foi sendo retalhado. Posteriormente passou para o Moreira da Silva, de Campanhã. A fachada em vidro era enorme e junto à entrada, ostentava uma pera gigante gravada na pedra. Desse Horto, resta para o portuense visitar, o bonito Jardim das Virtudes que vai desde as traseiras da Cooperativa Árvore até um magnífico miradouro sobre Miragaia. A não perder uma visita.



Finalmente, paz e sossego no Jardim do Carregal. Mas isso fica para outra vez.

Os textos, principalmente os históricos foram pesquisados em vários sítios, alguns referidos. Mas não se pode esquecer o http://www.portoxxi.com/ .

Uma curiosidade sobre a Rua D. Manuel II. Logo após o 25 de Abril de 1974, foi proposto na reunião camarária que a Rua mudasse o seu nome para Estaline. Chumbada a proposta, energúmenos resolveram pichar as placas da Rua com o nome do ditador soviético.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

47 - Miragaia e a Judiaria

Tem esta bela freguesia da nossa Cidade do Porto, muitas estórias e lendas. Talvez a mais antiga seja a que envolve o Rei Ramiro, o Castelo de Gaia, o Mouro e a Bela Princesa de nome Mira e por aí fora. Mas a história é história e é baseada nos vários escritos dela que proponho este passeio. Miragaia (de Baixo) foi um pequeno aglomerado populacional que nasceu a partir do rio, já referido documentalmente no séc. X, como sendo um local onde atracavam os romanos vindos do Norte antes de seguirem viagem para sul. Quando as gentes da Cidade se voltaram para ocidente fazendo-a crescer fora das muralhas Suevas ou Primitivas, Miragaia cresceu também, subindo o morro. Para os lados de Monchique. Referencio estas muralhas que existiram em torno de Sé, enquanto os arqueólogos não se pronunciarem sobre outras possíveis muralhas que parece terem havido antes desta. Porque as Muralhas, todas elas, tiveram um papel preponderante na vida e expansão da cidade. E Miragaia continuou a crescer mesmo fora das posteriores Muralhas Fernandinas do séc. XIV. Mas o nosso passeio de hoje tem dois começos e um fim comum. Os Judeus de Miragaia.
Comecemos então por um lado tendo como referência a Rua da Restauração, nas traseiras do Palácio de Cristal que fica bem lá no alto de um imenso morro, que muitas vezes escalei quando "chavalo" para entrar de borla, e olhamos para Monchique e para as ruínas do seu extinto Convento, construído no séc. XVI. Ah, a bela-triste história dos amores de Simão e Teresa e da pobre Mariana, enredo apaixonante de Camilo Castelo Branco no seu best-seller Amor da Perdição, escrito em 1862 no Aljube (Cadeia da Relação) e do qual faz parte o velho Convento.
Ora este Convento foi erigido no local onde existiu uma Sinagoga até pelo menos 1386 e que terá sido a terceira da Cidade. Posteriormente, os terrenos foram doados em 1410 por D. João I aos Coutinhos, cujas origens nobiliásticas eram muito antigas. Nestes terrenos foi construída uma casa para residência, mas as leis do Porto não permitiam presenças fidalgas na Cidade para além de um pequeno período por ano. Acabou por ser construída na clandestinidade e para a legalizar demorou dezenas de anos, que nem as "cunhas" do Rei tiveram força para dar contorno à lei. Outros tempos...
Para já continuemos a fixar-nos no Convento. Descendo a Rua de Sobre o Douro podem visitar-se as ruínas pois a proprietária actual (Sociedade Clemente Meneres) permite-nos esse prazer. Que é relativo, claro, na minha opinião. Diz-se que será um novo hotel em breve. Para já não se percebe nada que o indique. Mas sigamos. Já no reinado de D. Manuel I e os judeus expulsos da região para a Vitória, e logo a seguir de Portugal, os tais Coutinhos, descendentes dos outros, conseguiram que a casa fosse legalizada, mas não autorizados a viver nela, e destinaram-na a um Convento. Pelo menos, uma parte. O que conseguiram, com cunhas do Bispo.
Sobre a Sinagoga, não há registos. E dos poucos achados arqueológicos, relativamente recentes, um foi preservado. É uma inscrição em hebraico numa pedra, mantida na Capela/Igreja do Convento e transladada para o Museu de Arqueologia (?) no Convento do Carmo, em Lisboa.
Depois da extinção das ordens religiosas, no século XIX, pouco sobrou. Sabe-se que a Capela ou Igreja, construída em 1535, era uma preciosidade em talha dourada, equiparada à das Igrejas dos Conventos de Santa Clara e de S. Francisco. Desmantelada, foi um altar para a Igreja de S. Mamede de Infesta, outro para a Igreja de Massarelos e outro para a de S. Pedro de Miragaia. Do resto nada se sabe. Coisas à moda do Porto.
Passemos agora a outro percurso para iniciar o segundo começo, pois a história faz-se de caminhos. Saindo do Largo do Viriato, toponímia que passou a vigorar apenas em meados do séc. XIX, entramos na Rua da Bandeirinha, antes conhecida pela Bandeirinha da Saúde. Desde o séc. XVII. Já lá iremos.
Passando por várias casas que foram habitadas ou berço de ilustres individualidades da cidade, encontra-se o Palácio das Sereias, ou da Bandeirinha ou dos Portocarrero, nome dos penúltimos proprietários, por eles adquirido aos Cunhas e Vilhenas. (A senhora Vilhena foi quem mandou construir o Convento de Monchique) . Hoje pertença de uma irmandade religiosa. Construído no séc. XVI, vamos deixar a sua história para outra altura.
Pela esquerda continua a Rua da Bandeirinha, que nos vai levar à história original dos Judeus em Miragaia. Até ao século XIII viviam os Judeus dentro da Cividade (a zona junto à Sé - Morro de Pena Ventosa - demarcada pelas muralhas primitivas) ou a ela chegada, mas a partir dessa altura foi proibido alugar ou vender-lhes propriedades. Isso levou-os a partir para Miragaia.
Ao fundo da Rua um largo onde se encontra a Torre da Saúde, construída no séc. XVII, que sinalizava a entrada dos barcos no Douro e também para efeitos de controle sanitário.
À direita temos a frontaria do Palácio, com grande destaque para as Mamudas (As Sereias) que ornamentam lateralmente a porta de entrada. Velhas estórias sobre elas e quem as sabe contar é o Hélder Pacheco.
Uma foto de há mais de 100 anos, da autoria de Arnaldo Soares ou de Alberto Ferreira.
Dito por uns, este foi o local onde existiu o Cemitério Judeu. Mas outros crêem que terá sido no final da Calçada das Virtudes, próximo da Igreja de S. Pedro de Miragaia. É muito para lá, a oriente. Quer dizer que a história faz-se depois, relacionada em palpites e não em documentos precisos. Porque os não há. E a arqueologia nem sempre é presente. E cada historiador tem direito ao seu parecer. Adiante.
Certo é que os Judeus ocuparam este Monte, a Escarpa da Bandeirinha (na altura, não sei como lhe chamavam), hoje há as Escadas das Sereias, subindo desde a "Praia" (onde está a Alfândega Nova) e estendendo-se até Monchique para ocidente. A confirmá-lo há os documentos do Cabido de 1380 referentes à cobrança por terrenos a algumas famílias judaicas. Reproduzo conforme li. Porque não a todas as famílias ? Será que o Cabido não era dono de todos os terrenos? Adiante.
O único legado, eu diria lembrança, da Judiaria de Miragaia que aqui existiu até à sua mudança obrigatória para a Vitória em 1386 por ordem de D. João I, é a toponímia. São ruas, travessas e escadas estreitinhas. Aliás o que era normal na idade média. Francamente, lendo aqui e acolá e percorrendo as várias vias de hoje, parece que o espaço da Judiaria seria enorme, e não tão só Monchique e Bandeirinha.
A Rua do Monte dos Judeus começa a uma dezena de metros da Bandeirinha. O tal local onde existiria o cemitério Judaico. Segundo uns.
E prolonga-se para Oriente. Até aos Cidrais.
Um documento de 1410 refere que foi dada autorização a Gil Vaz da Cunha para construir umas moradas no pequeno monte em que tinham habitado os Judeus e onde existia uma Sinagoga abandonada. Ora isto era em Monchique que fica um pedaço de caminho para ocidente.
Mas também é verdade que as demarcações urbanísticas de há 600 anos são muito diferentes das de hoje. E o que vale agora é a divulgação destes "novos" caminhos, sentir a sua vivência antiga - eu sinto e por isso os percorro - e olhar o que nos rodeia. Esta foto é do início (ou o fim, conforme as percorramos) das Escadas do Monte dos Judeus.
Logo a seguir estamos nos Cidrais. Nome que deriva de Pomar de Árvores Cidreiras, de cujo fruto se extraía uma bebida que substituía o vinho, por quanto - e no enquanto - as vinhas não eram (foram) muito vulgares nos tempos dos romanos e da Alta Idade Média. Vale a pena deter-mo-nos e olhar à volta.
O entroncamento e cruzamento de ruas. Casas características dos séculos XIV a XVIII, guardando ainda resquícios desses tempos, mas que durante a sua recuperação não terão sido salvaguardados.
Descendo as Escadas, logo à esquerda encontramos um largo. Nele está uma fonte do séc. XIX, trasladada do antigo Mercado do Peixe, onde é hoje o Palácio da Justiça. No sítio da Junta diz que está em restauro. Refiro não saber se o restauro já está completo. Desde há 3 anos que vejo a Fonte mais ou menos como está. É verdade que agora escorre uma gota de água por um buraco na parede. Mas não sou bom nestas coisas. E a Junta é quem sabe.
O largo é lindo, com a fonte, árvores, bancos e roupas estendidas com bom cheiro a lavado. Mas num cantinho há lixo. Restos de persianas, latas de tintas, pedras e tijolos partidos, etc. - que raio de povo este sempre pronto a emporcalhar o que não deve -. E também se vêm pedras dispersas a fazer lembrar coisas antigas. Penso eu. Na dúvida e tentando matar a curiosidade, escrevi à Junta de Freguesia, enviando esta foto pedindo uma informação. Ora isso foi em meados de Maio e até hoje...
Convido a uma paragem, sentar num dos bancos, puxar de um cigarro e deixar o olhar percorrer Miragaia. É um prazer. Que para ser completo, mesmo, mesmo, era ter a companhia de uma cervejinha.
Na saída aberta no muro à direita, por cima, a pedra que une as ombreiras tem uma inscrição. Não sei em que língua. Infelizmente a foto em que a tentei gravar "pirou". Mas creio ser uma inscrição hebraica.
É a hora de voltar a percorrer as ruas e escadas, por entre muros e séculos de história.
Aqui chegados vindos pelas Escadas dos Judeus, estamos próximos do Centro de Miragaia. Viríamos cá ter na mesma, mais metro menos metro, se optássemos descer por Monchique ou pelas Escadas das Sereias.
Mas isso são outras viagens que prometo para breve. E já agora fica uma recomendação para os viandantes: Miragaia não se conhece num dia e as caminhadas façam-nas de cima para baixo. A não ser que gostem de desportos radicais. Mas para esses, recomendo a subida anual dos 250 degraus dos Guindais.
Nota final: São muitos os sítios percorridos para coligir estórias da história. Como sou muito despistado, raramente me lembro de registar onde li ou vi algo de interessante. Por vezes aparecem-me várias opiniões sobre o mesmo tema. Aí quero, ou pelo menos tento, confirmar in loco. Para conhecer e ser o mais fiel possível. Por essas andanças descobre-se sempre uma coisa nova. Por isso as fotos publicadas podem diferir entre si meses.
E há sempre os amigos, tanto ou mais apaixonados do que eu pela nossa Cidade, que deixam mais uma informação preciosa. Afinal, a Cidade do Porto é uma Paixão.