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quarta-feira, 7 de maio de 2014

187 - Por Estradas e Encruzilhadas de algumas Fontes e Chafarizes do Porto

Por vezes vem-me à ideia que se todos estudássemos por um livro único as coisas eram mais simples. O saber era só um, o pensamento também e seríamos uma bando de carneiros alinhados.
Imaginemos o verso da medalha, mas também o seu reverso.
A cada cabeça a sua sentença, respeitemos a cabeça de cada um. É assim que deve ser.
E se não houvesse verso e reverso nunca andaríamos às voltas com a medalha.

Costumo dizer que a História é de quem a interpreta e muitas das vezes não tem nada a ver com a realidade que foi.
Para um leigo como eu, saber alguma coisa, obriga-me a bater as estradas. Aproveito as que tenho mais à mão. Isto é, à distância de um clique, como agora é uso dizer-se e fica bem. Porque verdadeiramente botar o pé nelas tem que se lhe diga.
Todo este intróito tem a ver com umas estradas que percorri (à distância de um clique) e que me levaram a encruzilhadas, onde fiquei cheio de dúvidas. Embora, qualquer que seja o percurso, o final é sempre o mesmo.

O primeiro bater de estrada tem a ver com uma fonte que existiu na Cidade do Porto, à qual o Povo chamava da Fonte do Olho do Cu. Na realidade era - foi - a Fonte do Laranjal.
O professor Germano Silva, no Jornal de Notícias de 27 de Abril último, escreve: Ao cimo da Avenida dos Aliados, nas imediações da desaparecida viela do Cirne, que ligava directamente com a Cancela Velha (actual Rua de Guilherme da Costa Carvalho) ou seja, sensivelmente no sítio onde agora está aquele tanque... havia uma fonte que tinha um nome, no mínimo pitoresco. Era a Fonte do Olho do C. A estranha denominação tinha a ver com a configuração da Fonte. Ficava a um nível bastante inferior da rua. Lá bem no fundo, havia uma bica que deitava água para uma pia. Para chegar à água era necessário descer alguns degraus em granito. 
(cortesia do meu amigo Fernando Conceição no blogue http://cadernosdalibania.blogspot.pt/)

Um pormenor do lugar "sacado" do Google Earth, desde o Tanque até à Praça da Trindade. 
E porque aparece este "espaço" na encruzilhada ? Então vamos caminhando.

Em 1803 edificava-se a Igreja da Trindade da Ordem que substituíra a de S. Domingos extinta em 1755 e nos alvores do séc. XIX veio a estabelecer-se no Laranjal. Numa planta de 1839 a Praça já se denomina da Trindade, mas em 1877 ainda era conhecida por Laranjal. Houve na Trindade várias Fontes e Chafarizes. (in Toponímia da Cidade, no site da Câmara Municipal do Porto).

Antes de mais um esclarecimento. Para nós, Tripeiros, a Trindade é um espaço grande que vai desde as Traseiras da Câmara até Camões. Com um jeitinho, até Gonçalo Cristóvão. O Laranjal dos tempos idos, também era um espaço muito grande, que começava cá em baixo, salvo erro, onde é o início (de baixo para cima) da Avenida dos Aliados até à Trindade e de larguras várias, desde Liceiras (ainda existe a Travessa) até ao Pinheiro/Mompilher. Mais ou menos. 
Lemos na Dissertação de Mestrado do Professor Diogo Teixeira sobre o Abastecimento da Água na Cidade do Porto nos séc. XVII e XVIII, citando o Padre Baltazar Guedes (1620-1693), ... a Fonte do Laranjal tem este nome devido à grande quantidade de laranjeiras que havia naquele local, que tinha o nome de sítio do Laranjal hoje conhecido como Praça da Trindade. A fonte estava localizada no campo, perto do muro da Quinta do Laranjal e tinha uma arca com vinte palmos de comprimento, cinco de largura e vinte e dois de altura. Era toda emparedada e tinha uma porta e uns degraus que davam acesso à arca. No exterior havia uma pia que vertia água da dita água para uso público.
Continuando a ler o Professor Diogo Teixeira ... sabe-se que devido à sua localização esta fonte era apelidada com uma designação jocosa e no início do séc. XIX havia sido demolida.

Quanto à Fonte, não parece haver dúvidas que é a mesma que os dois Professores referem. Mas quanto à localização ?
O Chafariz que actualmente se encontra na Praça da Trindade, cujo nome inicial era de S. Domingos foi desmontado em 1845 do Largo com o mesmo nome e para aqui trazido em meados da década de 50 do mesmo ano.
Li noutro documento, algures,... para que o povo perdesse o hábito de chamar a Fonte do Olho do C..., no Largo do Laranjal a Câmara mandou erigir um Chafariz com o material que restou da demolição do de S. Domingos a que foi dado o nome de Chafariz do Laranjal.
Não é grave sabermos ao certo a localização, mas eu gosto de saber. Surge outro caminho duvidoso.
A foto é do Alvão, sem dúvidas. Este viveu entre 1872 e 1946. Fico intrigado por não ver a Fonte ou Chafariz do Laranjal/S.Domingos na foto, pois ela deve ser de finais do século XIX princípios do séc. XX. O palacete de D. Antónia Ferreira, ao fundo já existia e a sua construção foi iniciada em 1840. O
Chafariz veio para aqui cerca de 20 anos depois. Mas veio mesmo ?
Porto - Egreja da Trindade I. Newton / A.«O Occidente», 9, 1886, p. 252 
«Segundo uma photographia de E. Biel».
Fotos recolhidas em http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/

O Chafariz está mais ou menos a uma dúzia de metros da escadaria da Igreja. Teria sido montado primitivamente noutro local ?
Ora bem, estamos na encruzilhada a coçar a cabeça.

Vi uma foto no espaço http://gisaweb.cm-porto.pt/ (Arquivo Municipal do Porto) impossível de mostrar por incapacidade minha de transformar o formato pdf em jpeg. Essa foto tem a legenda Largo do Laranjal e Cancela Velha. É do Editor Tabacaria Rodrigues, do Porto, de 1910.
Mas no blogue amigo http://portoarc.blogspot.pt/ encontrei uma foto muito parecida, acima publicada. O meu amigo Rui Cunha, no texto, começa por descrever a velha Fonte do Olho do C... tal qual já referi antes. Mas continua:  Em meados do séc. XIX, contudo, já não se lobrigavam vestígios desta Fonte.
O Chafariz do Laranjal esteve primeiramente no Largo de S. Domingos, foi modificado e colocado no Laranjal em  Fevereiro de 1854 e passou a receber água do Manancial de Camões. Foi desmontado em 1916 quando da abertura da Avenida dos Aliados. Em 1943 foi reconstruído nos Jardins dos SMAS (Águas do Porto, Nova Sintra). Está actualmente no Largo da Trindade. 

Assim sendo, parece-me que esta encruzilhada da Fonte/Chafariz S. Domingos/Laranjal já não me parece um bicho de sete cabeças.

Sigamos em frente por novo caminho aberto, mas também com encruzilhadas. Continua a não ser nada de grave , mas complicam-me a mioleira as encruzilhadas.

A Praça da Liberdade, entre outras toponímias, foi as Hortas do Bispo, Praça Nova, Praça da Constituição, voltou a Praça Nova, de D. Pedro, Praça da República (por 14 dias), e a partir de 27 de Outubro de 1910 ficou com a toponímia actual.

Não sei porque razão a minha avó lhe chamava Praça Nova. Presumo que gostava do nome antigo embora no tempo dela já se chamasse de D. Pedro. Pudera eu saber o que sei hoje e fazer-lhe muitas perguntas. Ela nasceu em meados/finais da década de 80 do séc. XIX. É a vida.
Mas adiante.

Nestas Hortas e/ou Praças, existiram Fontes. Um delas Chamada Fonte da Arca também conhecida por da Natividade. Encontrava-se encostada à Muralha Fernandina, entre a Porta de Carros (mais ou menos em frente da Igreja dos Congregados) e o Postigo de Santo Elói (mais ou menos onde está o Largo dos Lóios. Talvez junto onde é hoje o Palácio (Hotel) das Cardosas. A primeira parte foi inaugurada em 1608 com o frontispício brulesco.  Lo Primeiro mandò derrobar una torre de la Muralha que alli pendia sobre la fuente y espacio de las escaleras para Coger el Agoa. Y se dispuso de suerte la fachada que lo que antes eran tres fuentes se hiseron quatro, que escupen el agua por los Rostos de quatro Seluages com sus caños de Bronse... Fundada no anno de mil seiscentos e outenta e dous pello semnado da camera.
E no lugar mais supremo da dita fonte que hé de maravilhoza architectura e grandeza a coroa hua imagem da Senhora da Natividade.

Ora bem, a minha fonte (estrada) - de reconhecimentos -  continua a ser o Prof. Diogo Teixeira no seu Mestrado e por várias razões. Refere que não se sabe quando a Fonte foi demolida. mas que ainda exisitia em 1886. E que existem alguns elementos que estão no Jardim do Palácio de Cristal.

Presumo que este ano de 1886 deve ser erro de dactilografia. Camilo, nas suas Memórias do Cárcere, quando recebe o bilhete informando-o que a Polícia anda atrás dele para o prender, escreve,... Em uma risonha tarde de maio de 1860 chilreavam as aves o seu hymno crepuscular e de despedida ao formoso sol d'aquelle dia. Os coretos dos alados cantores eram as amoreiras e acacias floridas da praça de D. Pedro, as quaes vaporavam de suas urnas de branco e roza aromas suavissimos. Por entre o arvoredo se andavam passeando e deliciando os amantes da natureza; e ella, d'elles namorada, parecia guardar-lhes para a noite os seus enfeites de mais primor, como fina amante, que mais se poetisa e doura, e enternece ao pallido luzir das estrellas...  não referindo a Fonte, o que seria normal se ela existisse.
Arranjo com elementos decorativos da fonte da Arca (COUTINHO, Bernardo Xavier – Fontes e chafarizes do Porto
(Bernardo Xavier Coutinho - Sernancelhe, 12.Junho.1909-Porto, 3.Maio.1987, historiador Português, Membro da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Portuguesa de História)  

Vamos por agora referir-nos apenas ao frontão. A foto abaixo, no Jardins do Palácio de Cristal, mais concretamente no Roseiral, parece não deixar dúvidas de ser o mesmo reproduzido no desenho acima.
No entanto o Prof. Germano Silva diz que este elemento foi mandado construir para o frontispício da Câmara que funcionou desde 1819 na Praça de D.Pedro (na altura seria ainda Praça Nova) e custou 400 mil reis, pagos em 4 prestações ao pedreiro Manuel Luíz. - ver e ouvir o vídeo em http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=3597233
A foto é do século XX pois a Praça Nova já se chamava de D. Pedro. Vê-se perfeitamente o frontal, encimado pela Estátua do Porto.
Só por curiosidade, a Praça actualmente e chamada da Liberdade.

Agora outro tema, que tem a ver com o segundo desenho, o das Carrancas.
Desenho de Joaquim Villanova de 1833

Essa Fonte, mais conhecida como Chafariz da Praça Nova foi construída entre 1794 e 1797. O local não era o mesmo da Fonte da Arca, mas não andaria longe. Talvez onde está o Banco de Portugal. Creio que foi em 1834, D. Pedro IV mandou destruir a Fonte para que se alargasse a Praça.
Esse chafariz criou várias polémicas, mas na sua construção, lê-se que... .Este chafariz era constituído por um tanque de grandes dimensões, com as paredes côncavas, e um grande espaldar dividido por pilastras a formar cinco panos e arrematado por sete urnas. Cada um dos panos continha uma carranca com bicas de bronze que jorravam água para o tanque
A minha encruzilhada é, se as duas Fontes-Carrancas que estão nos Jardins do Palácio de Cristal (uma delas na foto acima), a qual das duas Fontes pertenceram. Segundo o professor Diogo Teixeira, são da Fonte da Arca. Se sim, uma maravilha com 350 anos. Se não, uma maravilha com 250. Mais ano, menos ano.
Como penso, não é nada de grave e nesta encruzilhada o importante é que estes elementos fazem parte do património da Cidade do Porto e compõem  num espaço cenográfico lindo. Mas que dá prazer ver e tocar-lhes, pensando na sua antiguidade, isso não nego.

Neste meu caminho das Fontes e Chafarizes, estou numa nova encruzilhada e esta parece-me mesmo grave. Já vos explico caros leitores e leitoras o problema da encruzilhada.

Comecemos pela foto do Monumento Nacional, o Chafariz do Passeio Alegre, em S. João da Foz, publicado assim mesmo no Diário do Governo nº 136 de 23.Junho.1910., página 2166. Não tem mais qualquer referência.
Segundo todas as narrativas histórias, o Chafariz que se encontra no Jardim do Passeio Alegre e que deve ter vindo para cá entre os anos 80 e 90 do séc. XIX, foi construído no claustro do Convento de S. Francisco, do qual apenas existe a Igreja, Monumento Nacional.
Agostinho Rebelo da Costa escreveu em 1788..."O convento... com um magnífico e extenso claustro em quadra, rodeado e elevados arcos de esquadria e no meio um grande chafariz que lança perenes jorros de água pública e patente a todos os que quizerem aproveitar-se dela" (in Clube UNESCO da Cidade do Porto).

As minhas dúvidas sobre este Chafariz já vêm de longe. Há quem o atribua a Nicolau Nasoni e a sua primitiva localização na Quinta da Prelada.

Uma tarde formatei-me e fui botar o pé numa outra estrada, o Arquivo Histórico da Cidade, na Casa do Infante, e consultar o que poderia haver sobre Nasoni e o Chafariz. Tive duas ajudas, a da senhora bibliotecária de serviço e do meu amigo Jorge Peixoto. Não encontrei nada. E despiolhamos o Robert C. Smith nas duas obras sobre Nasoni e alguns folhetos editados pela Câmara do Porto, aconselhados pela nossa gentil bibliotecária.
Num aparte, vendo vídeos recentes dos Professores Joel Cleto e Germano Silva em passeios recentes neste espaço da Foz e do Jardim, acho estranho que não mostrem nem falem sobre o Chafariz.

Parado na encruzilhada, leio as Notas sobre o enquadramento urbano do Jardim do Passeio Alegre de Manuel Marques de Aguiar (1978 ?) (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6526.pdf) o qual confirma... é de assinalar o Chafariz, originário do Convento de S. Francisco...

Então perante as dúvidas, que afinal parecem não haver que o Chafariz é de S. Francisco e não da Prelada; e não havendo qualquer referência sobre a sua autoria atribuída a Nasoni; fico admirado quando leio e transcrevo tal-qual em: http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70686/

Projectado pelo arquitecto que mais marcou o barroco portuense, Nicolau Nasoni, O Chafariz que actualmente decora um trecho do Passeio Alegre foi inicialmente concebido para os jardins da Quinta da Prelada, numa solução cenográfica que deveria integrar outros elementos decorativos a acompanhar o monumental chafariz.
No século XX, com a compra da Quinta pela Câmara Municipal do Porto, a obra de Nasoni acabou por ser desarticulada do conjunto onde se inseria, transitando em seguida para o Passeio Alegre, onde actualmente se encontra, seguindo o mesmo percurso dos dois obeliscos também projectados por Nasoni, que se encontram à entrada do passeio.       

Acompanham esta discrição a Bibliografia com o Title "O Grande Porto"; Local Lisboa; Date 1986; Autor: Hélder Pacheco; mais ainda: Title "Guia de Portugal, v.4, t l:Entre Douro e Minho, Douro Litoral"; Local:Lisboa; Date:1983; Autor: Raul Proença

Ai a encruzilhada que parece ter uma galinha preta e restos de cuecas. Primeiro, acho que a Quinta da Prelada nunca foi comprada pela Câmara do Porto. O seu último dono, em princípios do séc. XX, doou-a à Santa Casa da Misericórdia.
Segundo, nas Memórias Paroquiais de Ramalde, da autoria de Francisco Mateus Xavier de Carvalho, nas páginas 602 e 603 e sobre as Fontes e Tanques da Quinta de Dom António de Noronha de Mesquita e Mello, existentes no Lugar da Prelado (?), não se lê qualquer referência ao Chafariz. (pág.240 e seguintes inscritas na tese de Mestrado do Prof. Diogo Teixeira)    
Terceiro, só o Igespar - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, da Secretaria de Estado da Cultura, logo um organismo do Governo de Portugal - refere que o Chafariz é de Nasoni e que esteve na Prelada.
Não consegui encontrar na net o livro Guia de Portugal, de Raul Proença (Caldas da Raínha, 10.Maio.1884 - Porto, 20.Maio.1941), escritor, jornalista, e um dos membros fundadores da Seara Nova.

Pois aqui vos deixo, amigos, nas encruzilhadas das "minhas" Fontes e Chafarizes. Repito que não vem qualquer mal ao mundo. Mas gosto de saber e os organismos do Estado Português deveriam ser os primeiros a serem justos com a História. Ou serão todos os outros que estão enganados ?

Enquanto escrevia estas encruzilhadas a partir de apontamentos que fui guardando, caminhei por outras estradas que me esqueci de registar. Sem elas não teríamos versos e reversos da mesma medalha.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

51 - As Virtudes

As Virtudes são como uma espécie de lugar - que na realidade o é, na Freguesia de Miragaia - mas que abrange Rua, Calçada, Passeio, Alameda, Fonte, Jardim, e também Judeus, Padres, Ingleses, Muralhas, Horto, Miradouro, Burgueses. E a lembrança recente de amigos da extinta Taverna de S. Jorge, (creio que anteriormente se chamaria Passeio das Virtudes e onde declamava os seus versos Vasco de Lima Couto, poeta grande da Cidade) um já falecido, o guitarrista Jorge Barradas, madeirense de nascimento, portuense de adopção, um dos fundadores dos 3 de Portugal e criador do bonito Fado "Cidade das 3 Pontes", na década de 80 do século passado. Ela, cidade, a minha, o Porto, que agora tem 6 Pontes. Uma casa e amizades que me deixaram muitas saudades. Hoje é um restaurante, não direi de luxo, mas com preços de comidas e bebidas a saber a tal. E nada de especial neste campo. A nascente encontramos a casa dos Padres Bernardos, que já aqui viviam pelo menos no ano de 1619. De mão em mão após a extinção das ordens religiosas acabou por ser vendida ao Clube Inglês em 1923. Abandonada e degradada, foi recuperada e é hoje uma instituição de solidariedade social, que segundo li, da responsabilidade da Ordem de Malta . Parece que no seu interior tem pormenores de arquitectura dignos de visita. Por aqui existia a Porta ou Postigo das Virtudes, uma das passagens nas Muralhas Fernandinas para o interior da Cidade. Até ao século XIX.
Por ali ainda se podem ver alguns torreões e panos das Muralhas bem conservados

No Passeio ou Alameda das Virtudes, que já foi Praça, olhando para Norte, encontramos estas casas (na verdade não sei se são as originais, recuperadas) que foram da Procuradoria, se a minha interpretação é correcta dos textos que fui lendo, dos tais Padres Bernardos. Se bem tenha escrito, anteriormente, que o cemitério Judeu poderia ter existido na Bandeirinha, também é verdade que escrevi e porque li, claro, que poderia ser na Calçada das Virtudes; agora também leio que poderá ter sido aqui, na Alameda. É certo, a calçada passa perto, mas bem lá em abaixo. E como não há nada escrito, tanto quanto sei, os palpites disparam. Uma coisa sei, da primitiva judiaria lá em Monchique até aqui é um pedacinho razoável. Mas vou-me deixar de palpites e seguir em frente. Legendando a foto, é uma vista do Passeio ou Alameda das Virtudes sobre Miragaia de baixo. Os terrenos para a sua construção foram doados pelos tais Padres Bernardos para que a Câmara construísse o miradouro que planeou, sobre o Rio e sobre Gaia. Poder-se-ia ver também a Foz. Um aspecto sobre o antigo Horto das Virtudes, hoje Jardim, visto da Alameda. Que tem umas grades de protecção para evitar que possíveis suicidas com ideias pré-concebidas as percam. A ideia foi equacionada desde o início da sua construção. É o que dizem os escritos.
A Calçada deve ter sido aberta por altura da construção da Fonte que está lá no fundo. Ora se uma é de 1619, a outra não deve andar longe desta data. Penso eu. Criou-se aqui um passeio público muito bem frequentado e segundo os cronistas, pelas mais belas mulheres da Cidade. Para que os coches pudessem passar e vir até aqui ao sítio, alargou-se a Porta das Virtudes, aberta nas Muralhas. Do lado direito de quem desce, foi construído um paredão que veio a ruir. Passados anos construiu-se outro, com arcos. Mas como cenas menos dignas para a moral vigente ali se passavam, foram os arcos entaipados, como ainda hoje se podem observar.
Do Jardim das Virtudes, podem-se ver bem a Alameda, a Calçada, o Paredão com os Arcos. E as costas do Chafariz ou Fonte. E o parque de estacionamento.
O Chafariz das Virtudes ou Fonte do Rio Frio é Monumento Nacional, construída em 1619, para aproveitamento das águas do Rio que nascia para os lados da actual Rua da Torrinha, em Cedofeita e que desagua no Douro. Agora por baixo da Alfandega, mas anteriormente na chamada Praia de Miragaia. Onde estão as casas arcadas, já referidas em escritos anteriores. Tem duas carrancas que vertiam a água para um tanque. Francamente, ou o tanque desapareceu destruído ou está subterrado. Um dia destes, com uma manobra menos feliz de um condutor, lá vão as carrancas também. Será que não era de proteger o pobre Monumento Nacional ? Nesta foto do princípio do século XX, creio que de Arnaldo Soares, o tal tanque já não existia. Se é que alguma vez existiu. Pelo menos é o que dá para se entender. É verdade que foi o Chafariz vandalisado. Nesta data já não existia no nicho a imagem que deveria ser de Nossa Senhora das Virtudes.Este painel também está em muito mau estado. E no escudo ao alto, também faltam dois castelos.

As carrancas têm agora na boca uns tubos de chapa, não sei para quê, pois a fonte está desactivada. Será o tanque aquelas formas côncavas por baixo das carrancas ? Ou será desconhecimento do autor do escrito primitivo ? Como se pode comprovar, os carros estão estacionados a meio metro.
Convido a voltarmo-nos a situar no Passeio ou Alameda, mas agora olhando, digamos assim, para Poente. Encontramos do lado esquerdo o edifício da Cooperativa Árvore, de ensino de artes e como tal tem os seus muros cheiinhos de grafitis. É uma casa de 1767, pertença dos Albuquerques. Não sei se são os mesmos que anteriormente referi, mas se são, não há dúvida que era gente cheia de nota. Em frente, uns passos abaixo, existe outro casarão mas entaipado, com uns grafitis até que bonitinhos, e do qual sobressai apenas um brasão. Como não encontrei nenhuma referência à casa, passo adiante.
A casa tinha anexa uma quinta, o actual Jardim das Virtudes, de onde esta imagem foi obtida. No alto o Palácio da Justiça e um pouco escondida a Igreja de S. José das Taipas, que nunca está aberta, pelo menos nas horas decentes que por lá passo. E já foram muitas as vezes. Parece que possui uma das três obras "flamengas" da Cidade. As outros são o retábulo da Capela dos Alfaiates e o tríptico de Pentecostes na Igreja de Miragaia. Ambos já por aqui mostrados.
Aspecto do Jardim, próximo do Largo do Viriato. Nele esteve instalada uma bateria aquando do Cerco da Cidade durante as Lutas Liberais.
Mas antes também era um quinta que passou a ser Horto. Em 1884 é de José Marques Loureiro, que criou estufas onde produziu ananazes. Parece que com sucesso. Dedicou-se também ao cultivo de plantas chegando a ser fornecedor oficial da Casa Real.
Os primeiros catálogos de flores e fruteiras na nossa língua são lançados por ele.

A quinta-horto ocupava uma área bastante grande, mas acabou por ser retalhada. Li no sítio de Junta de freguesia que serão da quinta original, algumas das árvores que se vêm pelas encostas de Miragaia. Mas li também em http://dias-com-arvores.blogspot.com/2004/09/jardim-das-virtudes-visto-da-rvore.html que nada existe do velho Horto, (ou serão só as camélias ?) com excepção de uma árvore de nome Ginkgo, bicentenária, classificada como de interesse público.
Não sei quando passou para a posse da Câmara, mas sei que em 1996 foi reconvertido em Jardim Público. Que pelos vistos esteve muito tempo fechado, ou por longos períodos, pois nunca o vi aberto nestes últimos 4 anos.
Reabriu em Junho, e dele podem apreciar-se belas paísagens sobre Miragaia, o Douro e Gaia.
Pormenores


Miragaia e os seus Armazéns
A Igreja de Miragaia no centro do casario.
À direita a Alfândega
Vista parcial de um bairro social impulsionado pelo saudoso Padre Américo.

Uma nota para os visitantes. O Jardim tem duas entradas. Uma pela Rua Azevedo de Albuquerque, de quem vem do Viriato ou descendo pela Cordoaria. Outra pela Rua de S. Pedro de Miragaia, logo a seguir ao Chafariz das Virtudes.

Bons passeios.




sábado, 26 de junho de 2010

22 - Fontes e Chafarizes do meu Porto - II

Socorri-me da página dos SMAS http://www.aguasdoporto.pt/publico para descobrir algumas coisas interessantes.

Fiquei a saber que o mais antigo registo sobre a utilização de Fontes e Chafarizes públicos data de 1392. No reinado de Filipe I no séc. XVII a água de uma das principais nascentes, a de Paranhos no Jardim da Arca d'Água, foi encanada para distribuição pela cidade.

Manancial de Paranhos. Foto da pág. do SMAS
Podem-se visitar estes subterrâneos, em grupos de 20 a 30 pessoas.

Mas até a água ser encanada para a casa dos habitantes, passaram-se muitos anos. A população abastecia-se nas Fontes e Chafarizes e os mais abastados contratavam os "aguadeiros", sendo uma maior parte galegos fugidos de suas terras.
Aguadeiros enchendo os canecos. Foto da pág. do SMAS

Com o crescimento da população foi necessário captar água nos rios Douro e Sousa. E construíram-se depósitos e reservatórios, grandes e pequenos, em vários locais da cidade e também nas localidades limítrofes.
Brasão da Cidade do Porto
Coroava a Fonte de S. Domingos

Falando ainda de mananciais, um dos mais importantes, já referido no tempo de D. João I, portanto no séc. XIV, era o do Poço da Patas ou a Fonte de Mijavelhas. (Hoje, Campo 24 de Agosto). Segundo a lenda, as mulheres vindas de Valongo e S. Cosme para comercializar os legumes e o pão em S. Lázaro, ali se aliviavam. Nesse local construiu-se uma fonte.
O volume da água nascente junto com a que descia de Santo Izidro, provocava inundações. Parece que foi mais fácil soterrar a Arca e destruir a Fonte, que acabou por secar, do que aproveitar o manancial.
As ruínas deste espólio foram descobertas aquando dos trabalhos da construção do metro e da estação do Campo de 24 de Agosto. As pedras foram aparecendo aos poucos. As armas reais estão lá.
Pormenores do que seria a Arca

O interior
A estória romanceada da descoberta e da reconstrução está em
e no documento pdf anexo
Acreditem que ainda hoje, quando chove um pouco, os ribeiros que aqui vêm dar enchem e a estação do metro inunda, sendo por vezes necessário encerrá-la. Obras de quem não sabe nem conhece o solo do Porto. Outra coisa curiosa. A reconstrução está ali mas não podemos fotografá-la. Quási me peguei com um segurança que me proibiu de fazê-lo. Será o medo de alguém pensando que um seguidor de Bin Laden, ou do próprio, precisar das minhas fotos clandestinamente para destruir esta beleza ?
Um depósito de água.
Agora está nos Jardins do SMAS. Anteriormente não faço ideia onde estava.

Mas vamos primeiro olhar para as minhas recentes descobertas.

Em Azevedo de Campanhã, próximo à Circunvalação, vi esta pequena memória com uma fonte.

Pormenor da Fonte, que tem a inscrição do ano de 1871. Por casualidade a descobri. Descia desde o novo Parque da Cidade a Oriente (Campanhã), e ali está ela. Talvez a sua água tenha dado de beber aos Miguelistas-Absolutistas aquando do cerco da cidade. Presumo que esta Fonte é a do Rio da Bica ou Fonte de Cima. E presumo porquê ? Porque ao lado está o Largo da Bica. Encontrei-a por simples acaso. Não tem qualquer referencia. Acabei por encontrar na Wikipédia o seu nome e a localização na Freguesia de S. João da Foz. Referenciada pelo IHUR - Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana. Nem a Junta tem qualquer referencia a ela. Mas pelo menos está limpinha e num local agradável.Fonte das Oliveiras, numa foto de há 3 anos. Está junto a Mártires da Liberdade, encostada a um prédio revestido a azulejos e na altura encontrava-se muito degradada. A primitiva era de 1718, embora não neste local, mas próximo. Sofreu várias alterações ao longo dos anos sendo-lhe acrescentadas bicas e pormenores decorativos. Foi mudada para este local em 1881. Fonte do Largo da Maternidade

Fonte no Largo de Massarelos
Estas duas Fontes são apenas referidas na Wikipédia pelo tal IHUR.
Nada sobre a sua estória.
Mas vamos entrar no Palacete dos Smas e na sua Mata, onde encontraremos Fontes e Chafarizes que foram removidos dos seus locais por razões urbanísticas.
À entrada, esta Fonte com Lago é da autoria de Irene Vilar, de 1987 e chama-se Universo

Pormenor só da Fonte

Arca de Santo Izidro

Construída na Travessa de Santo Izidro
é de inspiração oriental
Arca do Anjo
Estava situada no antigo Mercado do Anjo
onde está hoje a vergonhosa Praça de Lisboa.
Construída em 1832

Decorada com azulejos, com um bica que debitava a água para um tanque,

que por sua vez tem 14 bicas deixando-a cair para um tanque maior

Pormenor do tecto

Num largo encontramos o Chafariz que esteve no Convento de São Bento de Avé Maria, uma relíquia de 1528
Não se sabe quando foi transladado para este local. Sei que já esteve activado e no seu lago criaram-se plantas aquáticas. Hoje está circundado por mata e desleixado.

Esta foto de finais do séc. XIX, anterior portanto à demolição do Convento, mostra o local onde se encontrava o Chafariz. Foto encontrada em vários espaços.

Fonte para animais. Com dedicatória aos humanos.
A sua origem foi na Praça de Carlos Alberto,
já passou pelo Parque da Pasteleira e agora encontra-se na mata.

Servia também de Candeeiro de iluminação pública.



Fonte da Rua Garrett onde é hoje a Padre António Vieira



Fonte da Feira dos Carneiros ou Chafariz de Camões - 1898
Esteve localizada na Trindade entre as Ruas de Alferes Malheiro e de Camões e talvez Liceiras.
Aí se realizava a Feira dos Carneiros

Fonte da Fontinha

Andou por vários lugares na zona da Fontinha.Um documento presume a sua construção em 1861.Mas em 1952 há outro que refere a sua mudança de próximo de Santa Catarina para as Carvalheiras. Inscrita tem a data de 1866.
Fonte de Cedofeita
Foi construída na Rua de Cedofeita em frente à Rua da Torrinha

Uma foto da época com o cenário que enquadrava a Fonte



Fonte do Campo Alegre

Localizada na Rua do mesmo nome, encostada a uma quinta. Deixou de ter utilidade quando a nascente secou e foi entulhada.
Foi removida do local em 1945 a pedido da dona da quinta que pediu para se vedarem os terrenos da fonte por causa das sem vergonhas ali praticadas.


Fonte do Ribeirinho ou dos Ablativos - 1790

Construída em Cedofeita, presumo que próximo da Rua dos Bragas. Posteriormente terá sido transladada mas não tenho referencias para onde.
É encimada por um medalhão com a imagem da principal Padroeira da Cidade do Porto, N. S. da Vândoma

Para terminar, um Chafariz que é Monumento Nacional. Da autoria de Nazoni, no séc. XVIII

Foi criado para embelezar os jardins da Quinta da Prelada, mas depois da compra da Quinta pela Câmara foi transferido para o Jardim do Passeio Alegre.