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terça-feira, 1 de março de 2011

63 - O Estádio do Lima e o Campo do Luso

Revisitando os meus antigos lugares de menino a partir do Marquês, o campo do Luso e o Estádio do Lima, pertenças do Académico Futebol Clube eram paradeiro habitual para ver, no primeiro, grandes jogos de andebol de onze e no outro tudo que viesse à rede era peixe. Basquetebol, Hóquei em Patins, Ciclismo, Atletismo, Futebol aos domingos à tarde e também dar uma espreitadela à elite que dava umas raquetadas nas Quadras de Ténis. Sim, porque o Académico era um clube de elite.Quem saía do Marquês descendo a rua da Constituição, no cruzamento com a Rua da Alegria, logo ali a uma centena metros, encontrava o Lima.
Onde estão hoje os arranha-céus, era o Luso. Normalmente era só Andebol que ali se jogava. Mas de vez enquando também umas partidas de hóquei em campo. Periòdicamente o Circo Mariano montava lá a sua tenda, não no terreno de jogo mas no amplo espaço que havia. A minha primeira unha encravada e logo no dedo grande do pé direito aconteceu aqui, numa peladinha de garotos.
Neste local, mais ou menos, ficava a entrada para o Estádio do Lima pela Rua da Constituição, antes de chegarmos à Rua da Alegria. Era uma espécie de hall, com o campo de basquetebol à direita e todos balneários à esquerda. Em frente, o túnel de acesso dos atletas ao Estádio.Desde há cerca de 40 anos, o estádio transformou-se em mais um terreno baldio, cheio de lixo. Creio que é pertença da Misericórdia do Porto. Curiosamente, não encontrei grandes referências sobre ele nem no site do Académico, o que deveria ser natural.
Resquícios de um dos peões. Por detrás um parque auto.
Mais ou menos por aqui estava uma bancada lateral. Ainda lá estão degraus. Foi daqui que o Pedro Moutinho fez o relato radiofónico do Porto x Sporting para o filme O Leão da Estrela.
Rua do Lima. Não sei se esta entrada para o parque auto era a mesma por onde entravam os ciclistas em direcção à pista. Mas se não é, a outra ficava próxima. Ao fundo, em Costa Cabral, o Cinema Júlio Deniz - grafia ainda lá bem visível - hoje salão de baile. Também ele foi uma referência para a sua época.
Aqui está mais uma perspectiva do velho Lima. Iniciou-se a sua construção em 1923 e o arrelvamento em 1937. Parece ser uma incógnita como veio parar o terreno às mãos do Académico. E de como delas saiu.
De Costa Cabral para o Marquês, o Palacete sede do Académico, clube que está a comemorar os 100 anos de existência e foi fundado em 15 de Setembro de 1911 por uma elite de estudantes do Liceu Alexandre Herculano. Bisbilhotando na net, só se encontram referências a jogos de futebol lá disputados pelo F.C. Porto contra adversários de Lisboa e especialmente o Benfica.
A estes quási de certeza não assisti. Mas assisti a outros já em meados da década de 50, em que intervinha a equipa da casa. Mas foi aqui que o F.C.Porto ganhou o maior troféu do mundo ao vencer o Arsenal de Londres. E se a memória não me falha, também o foi o jogo exibição com o San Lorenzo de Almagro. Assisti também a um Portugal x Suécia, equipa fabulosa, em andebol de 11.
Davam brado as grandes noites de ciclismo com ases internacionais: Coppi, Van Loi, Anquetil, Bahamontes, Koblet, Bobet, ao lado dos nossos grandes sprinters da época: Artur Coelho, Américo Raposo, Lima Fernandes. Claro, ao lado de Alves Barbosa e Ribeiro da Silva. Este, um menino ainda e que faleceu igualmente menino com 23 anos em 1958, depois de ter assinado por 200 contos, segundo creio, pelo Benfica mas que nunca chegou a envergar a camisola. Curioso ter assinado pelo Benfica porquanto as direcções alvi-negras eram tendencionalmente sportinguistas. Em meados dos anos 60 até os nossos roupões do andebol eram verdes...Não sei se por casualidade ou não.
Ribeiro da Silva homenageado no Lima depois de ganhar umas das duas Voltas a Portugal que conseguiu. Não sei se a de 1955 - a que foi roubada ao Alves Barbosa, agredido nos Carvalhos, presume-se por portistas do F.C.P mas quem saiu beneficiado foi o Ribeiro - ou a de 1957.
A pista de ciclismo também servia para provas automobilísticas.
Esta foto aérea é de meados dos anos 70.
A entrada por Costa Cabral
Possui o Académico desde há anos 2 pavilhões cobertos a par de outras pequenas instalações.
Este Pavilhão inicialmente era descoberto e o piso em cimento, sòmente utilizado para jogos de andebol de sete e hóquei em patins, modalidade querida do clube do Lima - agora chamado de Costa Cabral - chegando a ser Campeão Nacional.
Uma parte do edifício sede com o seu velho e característico jardim, onde as senhoras da elite, antigamente, se sentavam à espera dos maridos, atletas ou dirigentes.
A triste figura do velho Lima transformado em mais um terreno baldio desta nossa Cidade.
Valha-nos a Misericórdia da Santa Casa ?

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

62 - O Salgueiros e o Campo Engº Vidal Pinheiro

O meu Salgueiros fará 100 anos a 8 de Dezembro. Mas é do seu último campo de jogos, hoje transformado num terreno baldio, que quero recordar.
Depois da zaragata com meu pai - ver poste 61 - e relacionada com o Porto (clube) e o Campo da Constituição, passei a "frequentar" muito assiduamente o velho campo de Augusto Lessa, nome com que primeiramente foi baptizado o Vidal Pinheiro. Cuja estória remonta a 1930, quando o velhinho Salgueiros foi expropriado do Campo do Covêlo em 1929, por motivos gananciosos do famigerado sr. Paranhos.
Encontrei esta foto cuja legenda refere um jogo com o Futebol Clube do Porto, no Covêlo, esse lindo campo de futebol. Palavras de meu Pai.
Mas é de Vidal Pinheiro e do tempo que por lá passei a assistir (muito mais tarde a jogar) a jogos de andebol, voleibol, futebol de juniores, reservas (não me lembro das 2ªs e 3ªs categorias) e claro às grandes tardes dos seniores. Em pista improvisada, também lá treinavam as equipas de atletismo masculinas (de onde saiu Henrique Inglês, o nosso "Carlos Lopes" muito antes deste aparecer) mas principalmente as femininas, que ao nível nacional eram das melhores, a par da famosa equipa do Belenenses.
Mas adiante, que é de Vidal Pinheiro a recordação.
Haviam várias entradas para o Campo. Uma pela viela, assim chamada por causa do caminho estreito cujo piso em dias de chuva era um autêntico lago. Valiam as pedras que os moradores e o dono do tasco ali deitavam para se poder passar. Claro que os copos (antes, durante e depois dos jogos) eram importantes. Para todos.
Hoje estão todas as habitações em ruínas, tão lamentável como tudo à volta. Lá ao fundo, o velho portão de acesso ao campo.
As outras entradas faziam-se pela Rua Augusto Lessa, do qual o campo tomou o primitivo nome. Dizia-se que o Sr. Engº Vidal Pinheiro, dono destes terrenos, o alugava por um preço simbólico ao Salgueiros. Enquanto foi vivo e depois os seus herdeiros, permitiram toda a série de alterações que ao longo dos anos foram feitas no terreno. Daí ter tomado o nome porque era conhecido em sua homenagem. Mesmo depois de comprado, continuou com o mesmo nome.
Soeiro numa defesa que hoje se diria para a "fotografia". Ao fundo a primitiva bancada de madeira, que em 1957 foi remodelada, com camarotes na parte superior.
A Académica em apuros. Wilson aguarda expectante enquanto Ramin (tenho dúvidas se será ele mesmo) enfrenta Teixeira e o baixinho Lalo. Ao fundo, o peão que já havia sido remodelado.
O grande Alfredo Valadas, legenda do Benfica e da selecção nacional, alentejano de nascença, nos anos 50 treinando em Vidal Pinheiro. Creio que o fazia às equipes juniores e seniores. O varandim do peão era todo trabalhado
Um jogo contra o Vitória de Guimarães. Ao fundo, meio encoberto pelo braço do Mendes, o do pé canhão, o célebre sobreiro que existia na topo do peão, onde se reunia a "malta do bota abaixo".
Em meados da década de 70 um jogo com o União de Tomar.
Será o Conhé o guarda-redes do União ?
Nessa mesma década, com o impulso do treinador Joaquim Meirim (que quási levava o Salgueiros a subir ao primeiro escalão de futebol nacional) iniciaram-se obras no campo. Foi a época dos 25 tostões para as obras e o sorteio da bola do jogo entre os contribuintes. Foi o fim do sobreiro.
Obras posteriores foram as do arrelvamento, a luz eléctrica e a bancada. Não sei como foi permitida a sua utilização. Poucas vezes lá me sentei, pois além de ser uma passagem escorregadia, tinha medo da maneira como ela assentava em terreno pantanoso. Mas admirava imenso os operadores de câmara de TV, que subiam por uma escada de "trolha", talvez com uns 5 metros, para uma plataforma suspensa das vigas.
Já vi em reportagens da TV imensas bancadas caírem. Aquela numa localidade Brasileira e a do Algarve foram as mais recentes. Nunca percebi como a de Vidal Pinheiro nunca caiu.
O Estádio como se passou a chamar estava airoso na década de 80/90. O espaço em branco foi posteriormente coberto com relva sintética.
Por aqui passaram grandes nomes do futebol nacional e internacional. Vi o Zé Augusto, ainda no Barreirense, ficar sem calções, puxados pelo Gualdino, numa das suas famosas arrancadas, neste caso, pelo lado esquerdo. Vi num treino o Barrigana partir a perna ao Rosas. Deliciava ver os pés de veludo do Porcel, um dos rejeitados do Porto na era Yustrich; A fúria do estremo esquerdo Benje, saído incompatibilizado com o Guimarães; e a famosa linha avançada que levou o Salgueiros a Campeão da 2ª em 1957: Lalo, Lopez, Júlio Teixeira, Taí e Pintos.
Mas o jogo mais dramático que vi neste campo foi na era do menino Henrique Calisto, um dos bébés do Leixões, transformado em bébé treinador. Princípios dos anos 80 e o campo ainda era pelado. Último jogo da Ligilha de subida à primeira divisão. Salgueiros precisava de ganhar e estava a perder com a Académica 1 a 0. O Braga era o virtual campeão pois ganhava em casa. Se empatasse, subia a Académica. Faltavam 15 minutos para os jogos acabarem. O Braga sofre o empate. Sobe a Académica.
O Salgueiros vai buscar a Alma e em 15 minutos resolve o jogo a seu favor por 3 a 1 e ganha a subida.
Restos do velho campo, vendido ao Metro do Porto em finais dos anos 90.
O ex-peão de topo ainda guarda algumas relíquias dos velhos tempos.
Para ali está abandonado, com o elevador e duas caixas de concreto bem à mostra,
no meio da planície pantanosa
Um campo relvado é o que resta e onde os miúdos mostram as suas qualidades
Um dos bares de antigamente
Obras do Metro
A actualidade
Fica perpetuado na estação do Metro o nome do velho Salgueiros. É bem pouco para uma Instituição de Utilidade Pública, Comendador da Ordem do Infante e tantas outras coisas, que não servem para nada. Será que a Câmara Municipal e a Sociedade do Metro teriam (ou terão) direitos para utilizar o velho nome ?
Foto de autor desconhecido, recolhida na net.

Palavras para quê ? É um terreno baldio, como tantos outros espalhados pela cidade. Neste caso tem um dono bem conhecido. Sociedade Metro do Porto. Não sabem que fazer com ele e portanto para ali vai estando. Mais uma vergonha da Cidade. É o que resta do velho Estádio Vidal Pinheiro. Que foi do Sport Comércio e Salgueiros. Um clube Centenário