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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

207 - Comércios novos em velhos Comércios

Depois de deixarmos o Café Piolho que tantas recordações trouxe a amigos que me enviaram mensagens de saudade, continuamos na zona, concretamente no Carmo que faz parte da memória da Cidade do Porto há centenas de anos. Era uma área do Campo do Olival e que a partir de 1619 se começou a designar Carmo.
Lá estão as Igrejas dos Carmelitas e de Nossa Senhora do Carmo mais o seu Hospital, o quartel da GNR nas instalações do velho Convento do Carmo, o Hospital de Santo António e a Escola de Ciências Biomédicas em edifícios que são um marco da arquitectura centenária da Cidade.
Mais histórias existem do Carmo e Carmelitas sobretudo durante as invasões napoleónicas (1809)  onde as tropas invasoras se alojaram e saquearam o que era Carmelita e se trataram no Carmo.

Vamos visitar a Garrafeira do Carmo, no gaveto da Rua e Travessa do Carmo a qual se chamava em 1755 Viela dos Poços das Traseiras da Cordoaria e quatro anos mais tarde passou a Rua.
Em conversa agradável como o actual dono, o senhor Ramos, a dona a quem comprou o edifício, senhora na altura com mais de 80 anos, disse-lhe que já a bisavó morava aqui. Presume-se que a casa terá a sua origem no século XVIII.
 O alvará de comércio mais antigo que se lhe conhece data de 1904 e era de uma sapataria. Posteriormente foi latoaria (funileiro em Portuense) e depois uma charcutaria e mercearia fina, a Casa Ramos. A Garrafeira foi inaugurada em 1990.
Foram mantidas as estruturas iniciais embora se tivessem feito obras grandes, pois a casa precisava delas.
 Mobiliários bem adaptados, obras de arte, fotos, cartazes antigos, peças de utilidade doméstica e de comércios estão à disposição dos olhares de quem gosta apreciá-los.
O sortido de bebidas nacionais e estrangeiras para venda é grande. Destaque para os vinhos portugueses e especialmente para a enorme variedade dos Vinhos do Porto, onde encontramos relíquias com séculos.
Um prazer olhar à nossa volta, e sentir a gentileza como fui recebido. No intervalo, sempre se ouvem conversas com clientes. E posso confirmar que os preços comparados com os das grandes superfícies, da mesma marca, são bem inferiores.
Deixo a sugestão para compras aos amigos que nos visitam. Variedade, bons preços e gentileza. E fazem entregas ao domicílio.
Espreitem a página http://www.garrafeiracarmo.com/

A história do Carmo foi colhida nos escritos do Prof. Germano Silva.

Vamos para a baixa, mais concretamente à nossa Sala de Visitas.
Na Praça da Liberdade, o Café Imperial - que já não o é e não deveria ter sido permitido colocarem-se as letras da nova proprietária, pelo menos com este destaque - foi um símbolo da Cidade na Baixa.
Foi inaugurado na década de 30 do século passado, destacando-se de imediato a Águia Imperial da autoria do escultor Henrique Moreira (Avintes, 1890-1979) que tantas obras deixou espalhadas pela Cidade do Porto, incluindo os Meninos da Avenida.
A imponência da fachada do Imperial ainda nos anos 70/80 
(foto recolhida na página de Susana Faro - http://www.porto24.pt/memoria/viagem-ao-centro-porto/ )

No interior mantêm-se as decorações originais. Espelhos de Cristal e por cima um friso de baixos relevos em gesso representando motivos de dança, também da autoria de Henrique Moreira, mas mudaram-lhe as cores originais.
 Ao fundo por cima do enorme balcão e área de serviço, um vitral representando o ciclo do café, do Grão à Chávena, da autoria de Ricardo Leone, vitralista que recuperou a arte do vitral em Portugal, falecido em 1971.
(Ver  http://sigarra.up.pt/ffup/pt/web_gessi_docs.download_file?p_name=F-1152441855/O%20Vitral.pdf )
Hoje o extraordinário vitral encontra-se parcialmente escondido dos olhares. Comparar com o pormenor da foto, em baixo.
Foto recolhida em http://porto-desaparecido.blogspot.pt/2014/07/cafe-imperial.html 

 A iluminação está muito diferente, bem como o mobiliário. Sofás de couro estavam ao longo das paredes. Não sei se desde a origem mas sentei-me muitas vezes neles.
Ao fundo a entrada para os andares. 

Para irmos ao salão dos bilhares, tínhamos de passar pelos "engraxadores", uma fila de várias cadeiras,  já não me lembro de quantas,  que tinham sempre clientela para puxar o lustro aos sapatos.
Foto recolhida na página do amigo http://doportoenaoso.blogspot.pt/

Fui um frequentador assíduo deste café durante anos. Primeiro no salão de bilhares que existia, creio, no segundo andar e mais tarde na salão do café, principalmente após a saída do trabalho para o cimbalino do relaxe. Na altura do 25 de Abril era à porta que se compravam os jornais da tarde para saber as últimas. Saudades do Norte, conforme apregoavam os ardinas.
Aqui conheci Virgínia Moura.
No andar inferior, totalmente modificado agora, era um restaurante bem frequentado. Ali recebi uma festa-jantar de despedida ofertada por companheiros de trabalho nos anos 70. O prato foi Polvo à Bordalesa.

No passeio do outro lado, já na Avenida dos Aliados, encontra-se o Guarany. Conhecido como o Café dos Músicos, pois era aí que paravam esses profissionais antes e depois dos espectáculos diários que se ofereciam à noite na Cidade nas muitas e diversas casas.
Isto sou eu a contar pelas recordações que ouvi do meu Pai. Mas é verdade porque na página do Café lá está referido em destaque.
Inaugurado em 29 de Janeiro de 1933, foi obra do Arquitecto Rogério de Azevedo - já escrevi neste espaço sobre o homem e parte da obra dele. A decoração foi de Henrique Moreira.
O nome do Café relembra os índios da América Meridional e é uma alusão ao Brasil dos anos XX , o primeiro produtor mundial de Café.
O Café Guarany teve um período difícil a partir dos anos 80. Foi recuperado em 2003 , restaurados mobiliários, candeeiros, apliques, cobres. Quase voltou aos anos 30 do século anterior.
A pintora Graça Morais ( n.1948 em Vieiro - Vila Flor - Trás-os-Montes ) produz os painéis Os Senhores da Amazónia para a inauguração pós recuperação.

De destacar o ÍNDIO, relevo em mármore de Henrique Moreira.
Foto recolhida na página do Café Guarany.
http://www.cafeguarany.com/pt/Utilidades/Homepage.aspx

Outras fotos recolhidas na página do Café



Meus amigos, leitores e seguidores. Minhas amigas, leitoras e seguidoras.
É mais uma página de interiores e não só, de estabelecimentos comerciais da minha-nossa Cidade do Porto que podem apreciar. Boas visitas.

terça-feira, 1 de julho de 2014

188 - Ainda a Estátua do Porto

Já me referi anteriormente à Estátua do Porto e às suas andanças. Volto a ela, porque mudou de lugar. Mais uma vez. E ainda bem.
A história desta estátua começa por casualidade, creio que em 1818.
A Câmara Municipal adquiriu um palacete na então chamada Praça de D. Pedro (anteriormente já havia tido outros nomes) para instalar os seus serviços. Foi decidido que no cimo do frontão fosse instalada uma jarra de pedra. Por qualquer motivo desconhecido, acabou por se optar por uma estátua de grandes dimensões (Prof. Germano Silva). Há quem visse nesta opção, o propósito de reabilitar a figura do Porto, que Almeida Garrett refere no seu O Arco de Santana.
Esse Porto era uma pequena escultura em pedra, um achado arqueológico provàvelmente anterior à época romana, representando um guerreiro. Andou por uma casa nas Eiras - mais ou menos onde se encontra a actual Rua Chã - passou depois para os Açougues, próximo da Sé até que desapareceu sem deixar rasto.
Não nos interessa por agora o que aconteceu à Praça de D. Pedro-actualmente é a Praça da Liberdade -, mas quando se iniciaram as obras para a abertura da Avenida dos Aliados o edifício da Câmara foi demolido em 1915 e a estátua passou para o Largo da Sé.
Embora não seja muito referido, (li apenas e num espaço do qual não me lembro) mas lembro-me do meu Pai me mostrar o Porto no Largo do Actor Dias. Antigo Largo da Polícia. 
Posteriormente passou para os Jardins do Palácio de Cristal.
Escreve o Prof. Germano Silva que primeiramente para o início da Avenida das Tílias e depois próximo do Roseiral. Francamente tenho a ideia de a ter visto na Mata, próximo do Castelo. Para o caso não é grave.
Junto às ruínas preservadas da Casa dos 24 ou da Câmara, o arquitecto Fernando Távora, reconstituiu-a com uma Torre (a que chamamos o Mamarracho) colocando por trás a Estátua de castigo. Para que o Povo visse o Porto estátua e o Porto cidade. Ninguém via nada, porque raramente alguém entra na torre a não ser um ou outro turista. E eu para chatear as funcionárias cheias de sono.
Neste Posto de Turismo não podemos fotografar. Aquelas pedras devem ser verdadeiras relíquias cheiinhas de valor em euros que podem ser roubadas. É este o argumento em qualquer local público. Só A TV pode entrar.
Mas um verdadeiro artista sempre consegue algo, quando mais não seja registar os vidros imundos da fachada psicadélica
Diga-se de passagem, que sendo uma delegação de Turismo da Cidade, pouco ou nada temos lá a fazer. Oferecem uns mapas da Cidade e deixam pegar em toda a publicidade em folhetos de particulares que estão lá aos milhares. Se perguntarmos onde é o Beco dos Redemoinhos ali a dois passos, olham umas para as outras e encolhem os ombros.
Consegui uma única vez passar os cordões que fecham as escadas, para ver uma exposição fotográfica e a maqueta da cidade meia a desfazer-se.
Estas fotos é que são verdadeiras relíquias pois já tem mais de meia dúzia de anos. E feitas com a velha Olympus made in china em cima da barriga. Ninguém deu fé das fotos porque a máquina não fazia clique.
Mas como o arquitecto Fernando Távora disse que se viam os Portos (Estátua e Cidade) é sempre bom recordar as vistas que se avistavam de dentro da vistosa torre.
Foto recente após a transladação do velho Porto Estátua
Encontra-se agora bem perto do local onde primitivamente foi instalado(a) há quási 200 anos. É certo que estava ao centro da Praça, bem no alto. Agora está junto ao chão e a um canto. Não sei se um arquitecto (só poderá ser um profissional deste ramo) lhe arranjaria um lugar mais digno, por exemplo no enfiamento com  a Estátua do D. Pedro. E condizente com as outras estátuas da Avenida. Mas isso são leigos portuenses a pensar de que...
Pelo menos, o ex-Presidente Camarário D. Rui Rio fez algo de importante antes de deixar o poleiro. Tirou a Estátua do nobre guerreiro do castigo a que esteve votada cerca de 20 anitos.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

187 - Por Estradas e Encruzilhadas de algumas Fontes e Chafarizes do Porto

Por vezes vem-me à ideia que se todos estudássemos por um livro único as coisas eram mais simples. O saber era só um, o pensamento também e seríamos uma bando de carneiros alinhados.
Imaginemos o verso da medalha, mas também o seu reverso.
A cada cabeça a sua sentença, respeitemos a cabeça de cada um. É assim que deve ser.
E se não houvesse verso e reverso nunca andaríamos às voltas com a medalha.

Costumo dizer que a História é de quem a interpreta e muitas das vezes não tem nada a ver com a realidade que foi.
Para um leigo como eu, saber alguma coisa, obriga-me a bater as estradas. Aproveito as que tenho mais à mão. Isto é, à distância de um clique, como agora é uso dizer-se e fica bem. Porque verdadeiramente botar o pé nelas tem que se lhe diga.
Todo este intróito tem a ver com umas estradas que percorri (à distância de um clique) e que me levaram a encruzilhadas, onde fiquei cheio de dúvidas. Embora, qualquer que seja o percurso, o final é sempre o mesmo.

O primeiro bater de estrada tem a ver com uma fonte que existiu na Cidade do Porto, à qual o Povo chamava da Fonte do Olho do Cu. Na realidade era - foi - a Fonte do Laranjal.
O professor Germano Silva, no Jornal de Notícias de 27 de Abril último, escreve: Ao cimo da Avenida dos Aliados, nas imediações da desaparecida viela do Cirne, que ligava directamente com a Cancela Velha (actual Rua de Guilherme da Costa Carvalho) ou seja, sensivelmente no sítio onde agora está aquele tanque... havia uma fonte que tinha um nome, no mínimo pitoresco. Era a Fonte do Olho do C. A estranha denominação tinha a ver com a configuração da Fonte. Ficava a um nível bastante inferior da rua. Lá bem no fundo, havia uma bica que deitava água para uma pia. Para chegar à água era necessário descer alguns degraus em granito. 
(cortesia do meu amigo Fernando Conceição no blogue http://cadernosdalibania.blogspot.pt/)

Um pormenor do lugar "sacado" do Google Earth, desde o Tanque até à Praça da Trindade. 
E porque aparece este "espaço" na encruzilhada ? Então vamos caminhando.

Em 1803 edificava-se a Igreja da Trindade da Ordem que substituíra a de S. Domingos extinta em 1755 e nos alvores do séc. XIX veio a estabelecer-se no Laranjal. Numa planta de 1839 a Praça já se denomina da Trindade, mas em 1877 ainda era conhecida por Laranjal. Houve na Trindade várias Fontes e Chafarizes. (in Toponímia da Cidade, no site da Câmara Municipal do Porto).

Antes de mais um esclarecimento. Para nós, Tripeiros, a Trindade é um espaço grande que vai desde as Traseiras da Câmara até Camões. Com um jeitinho, até Gonçalo Cristóvão. O Laranjal dos tempos idos, também era um espaço muito grande, que começava cá em baixo, salvo erro, onde é o início (de baixo para cima) da Avenida dos Aliados até à Trindade e de larguras várias, desde Liceiras (ainda existe a Travessa) até ao Pinheiro/Mompilher. Mais ou menos. 
Lemos na Dissertação de Mestrado do Professor Diogo Teixeira sobre o Abastecimento da Água na Cidade do Porto nos séc. XVII e XVIII, citando o Padre Baltazar Guedes (1620-1693), ... a Fonte do Laranjal tem este nome devido à grande quantidade de laranjeiras que havia naquele local, que tinha o nome de sítio do Laranjal hoje conhecido como Praça da Trindade. A fonte estava localizada no campo, perto do muro da Quinta do Laranjal e tinha uma arca com vinte palmos de comprimento, cinco de largura e vinte e dois de altura. Era toda emparedada e tinha uma porta e uns degraus que davam acesso à arca. No exterior havia uma pia que vertia água da dita água para uso público.
Continuando a ler o Professor Diogo Teixeira ... sabe-se que devido à sua localização esta fonte era apelidada com uma designação jocosa e no início do séc. XIX havia sido demolida.

Quanto à Fonte, não parece haver dúvidas que é a mesma que os dois Professores referem. Mas quanto à localização ?
O Chafariz que actualmente se encontra na Praça da Trindade, cujo nome inicial era de S. Domingos foi desmontado em 1845 do Largo com o mesmo nome e para aqui trazido em meados da década de 50 do mesmo ano.
Li noutro documento, algures,... para que o povo perdesse o hábito de chamar a Fonte do Olho do C..., no Largo do Laranjal a Câmara mandou erigir um Chafariz com o material que restou da demolição do de S. Domingos a que foi dado o nome de Chafariz do Laranjal.
Não é grave sabermos ao certo a localização, mas eu gosto de saber. Surge outro caminho duvidoso.
A foto é do Alvão, sem dúvidas. Este viveu entre 1872 e 1946. Fico intrigado por não ver a Fonte ou Chafariz do Laranjal/S.Domingos na foto, pois ela deve ser de finais do século XIX princípios do séc. XX. O palacete de D. Antónia Ferreira, ao fundo já existia e a sua construção foi iniciada em 1840. O
Chafariz veio para aqui cerca de 20 anos depois. Mas veio mesmo ?
Porto - Egreja da Trindade I. Newton / A.«O Occidente», 9, 1886, p. 252 
«Segundo uma photographia de E. Biel».
Fotos recolhidas em http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/

O Chafariz está mais ou menos a uma dúzia de metros da escadaria da Igreja. Teria sido montado primitivamente noutro local ?
Ora bem, estamos na encruzilhada a coçar a cabeça.

Vi uma foto no espaço http://gisaweb.cm-porto.pt/ (Arquivo Municipal do Porto) impossível de mostrar por incapacidade minha de transformar o formato pdf em jpeg. Essa foto tem a legenda Largo do Laranjal e Cancela Velha. É do Editor Tabacaria Rodrigues, do Porto, de 1910.
Mas no blogue amigo http://portoarc.blogspot.pt/ encontrei uma foto muito parecida, acima publicada. O meu amigo Rui Cunha, no texto, começa por descrever a velha Fonte do Olho do C... tal qual já referi antes. Mas continua:  Em meados do séc. XIX, contudo, já não se lobrigavam vestígios desta Fonte.
O Chafariz do Laranjal esteve primeiramente no Largo de S. Domingos, foi modificado e colocado no Laranjal em  Fevereiro de 1854 e passou a receber água do Manancial de Camões. Foi desmontado em 1916 quando da abertura da Avenida dos Aliados. Em 1943 foi reconstruído nos Jardins dos SMAS (Águas do Porto, Nova Sintra). Está actualmente no Largo da Trindade. 

Assim sendo, parece-me que esta encruzilhada da Fonte/Chafariz S. Domingos/Laranjal já não me parece um bicho de sete cabeças.

Sigamos em frente por novo caminho aberto, mas também com encruzilhadas. Continua a não ser nada de grave , mas complicam-me a mioleira as encruzilhadas.

A Praça da Liberdade, entre outras toponímias, foi as Hortas do Bispo, Praça Nova, Praça da Constituição, voltou a Praça Nova, de D. Pedro, Praça da República (por 14 dias), e a partir de 27 de Outubro de 1910 ficou com a toponímia actual.

Não sei porque razão a minha avó lhe chamava Praça Nova. Presumo que gostava do nome antigo embora no tempo dela já se chamasse de D. Pedro. Pudera eu saber o que sei hoje e fazer-lhe muitas perguntas. Ela nasceu em meados/finais da década de 80 do séc. XIX. É a vida.
Mas adiante.

Nestas Hortas e/ou Praças, existiram Fontes. Um delas Chamada Fonte da Arca também conhecida por da Natividade. Encontrava-se encostada à Muralha Fernandina, entre a Porta de Carros (mais ou menos em frente da Igreja dos Congregados) e o Postigo de Santo Elói (mais ou menos onde está o Largo dos Lóios. Talvez junto onde é hoje o Palácio (Hotel) das Cardosas. A primeira parte foi inaugurada em 1608 com o frontispício brulesco.  Lo Primeiro mandò derrobar una torre de la Muralha que alli pendia sobre la fuente y espacio de las escaleras para Coger el Agoa. Y se dispuso de suerte la fachada que lo que antes eran tres fuentes se hiseron quatro, que escupen el agua por los Rostos de quatro Seluages com sus caños de Bronse... Fundada no anno de mil seiscentos e outenta e dous pello semnado da camera.
E no lugar mais supremo da dita fonte que hé de maravilhoza architectura e grandeza a coroa hua imagem da Senhora da Natividade.

Ora bem, a minha fonte (estrada) - de reconhecimentos -  continua a ser o Prof. Diogo Teixeira no seu Mestrado e por várias razões. Refere que não se sabe quando a Fonte foi demolida. mas que ainda exisitia em 1886. E que existem alguns elementos que estão no Jardim do Palácio de Cristal.

Presumo que este ano de 1886 deve ser erro de dactilografia. Camilo, nas suas Memórias do Cárcere, quando recebe o bilhete informando-o que a Polícia anda atrás dele para o prender, escreve,... Em uma risonha tarde de maio de 1860 chilreavam as aves o seu hymno crepuscular e de despedida ao formoso sol d'aquelle dia. Os coretos dos alados cantores eram as amoreiras e acacias floridas da praça de D. Pedro, as quaes vaporavam de suas urnas de branco e roza aromas suavissimos. Por entre o arvoredo se andavam passeando e deliciando os amantes da natureza; e ella, d'elles namorada, parecia guardar-lhes para a noite os seus enfeites de mais primor, como fina amante, que mais se poetisa e doura, e enternece ao pallido luzir das estrellas...  não referindo a Fonte, o que seria normal se ela existisse.
Arranjo com elementos decorativos da fonte da Arca (COUTINHO, Bernardo Xavier – Fontes e chafarizes do Porto
(Bernardo Xavier Coutinho - Sernancelhe, 12.Junho.1909-Porto, 3.Maio.1987, historiador Português, Membro da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Portuguesa de História)  

Vamos por agora referir-nos apenas ao frontão. A foto abaixo, no Jardins do Palácio de Cristal, mais concretamente no Roseiral, parece não deixar dúvidas de ser o mesmo reproduzido no desenho acima.
No entanto o Prof. Germano Silva diz que este elemento foi mandado construir para o frontispício da Câmara que funcionou desde 1819 na Praça de D.Pedro (na altura seria ainda Praça Nova) e custou 400 mil reis, pagos em 4 prestações ao pedreiro Manuel Luíz. - ver e ouvir o vídeo em http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=3597233
A foto é do século XX pois a Praça Nova já se chamava de D. Pedro. Vê-se perfeitamente o frontal, encimado pela Estátua do Porto.
Só por curiosidade, a Praça actualmente e chamada da Liberdade.

Agora outro tema, que tem a ver com o segundo desenho, o das Carrancas.
Desenho de Joaquim Villanova de 1833

Essa Fonte, mais conhecida como Chafariz da Praça Nova foi construída entre 1794 e 1797. O local não era o mesmo da Fonte da Arca, mas não andaria longe. Talvez onde está o Banco de Portugal. Creio que foi em 1834, D. Pedro IV mandou destruir a Fonte para que se alargasse a Praça.
Esse chafariz criou várias polémicas, mas na sua construção, lê-se que... .Este chafariz era constituído por um tanque de grandes dimensões, com as paredes côncavas, e um grande espaldar dividido por pilastras a formar cinco panos e arrematado por sete urnas. Cada um dos panos continha uma carranca com bicas de bronze que jorravam água para o tanque
A minha encruzilhada é, se as duas Fontes-Carrancas que estão nos Jardins do Palácio de Cristal (uma delas na foto acima), a qual das duas Fontes pertenceram. Segundo o professor Diogo Teixeira, são da Fonte da Arca. Se sim, uma maravilha com 350 anos. Se não, uma maravilha com 250. Mais ano, menos ano.
Como penso, não é nada de grave e nesta encruzilhada o importante é que estes elementos fazem parte do património da Cidade do Porto e compõem  num espaço cenográfico lindo. Mas que dá prazer ver e tocar-lhes, pensando na sua antiguidade, isso não nego.

Neste meu caminho das Fontes e Chafarizes, estou numa nova encruzilhada e esta parece-me mesmo grave. Já vos explico caros leitores e leitoras o problema da encruzilhada.

Comecemos pela foto do Monumento Nacional, o Chafariz do Passeio Alegre, em S. João da Foz, publicado assim mesmo no Diário do Governo nº 136 de 23.Junho.1910., página 2166. Não tem mais qualquer referência.
Segundo todas as narrativas histórias, o Chafariz que se encontra no Jardim do Passeio Alegre e que deve ter vindo para cá entre os anos 80 e 90 do séc. XIX, foi construído no claustro do Convento de S. Francisco, do qual apenas existe a Igreja, Monumento Nacional.
Agostinho Rebelo da Costa escreveu em 1788..."O convento... com um magnífico e extenso claustro em quadra, rodeado e elevados arcos de esquadria e no meio um grande chafariz que lança perenes jorros de água pública e patente a todos os que quizerem aproveitar-se dela" (in Clube UNESCO da Cidade do Porto).

As minhas dúvidas sobre este Chafariz já vêm de longe. Há quem o atribua a Nicolau Nasoni e a sua primitiva localização na Quinta da Prelada.

Uma tarde formatei-me e fui botar o pé numa outra estrada, o Arquivo Histórico da Cidade, na Casa do Infante, e consultar o que poderia haver sobre Nasoni e o Chafariz. Tive duas ajudas, a da senhora bibliotecária de serviço e do meu amigo Jorge Peixoto. Não encontrei nada. E despiolhamos o Robert C. Smith nas duas obras sobre Nasoni e alguns folhetos editados pela Câmara do Porto, aconselhados pela nossa gentil bibliotecária.
Num aparte, vendo vídeos recentes dos Professores Joel Cleto e Germano Silva em passeios recentes neste espaço da Foz e do Jardim, acho estranho que não mostrem nem falem sobre o Chafariz.

Parado na encruzilhada, leio as Notas sobre o enquadramento urbano do Jardim do Passeio Alegre de Manuel Marques de Aguiar (1978 ?) (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6526.pdf) o qual confirma... é de assinalar o Chafariz, originário do Convento de S. Francisco...

Então perante as dúvidas, que afinal parecem não haver que o Chafariz é de S. Francisco e não da Prelada; e não havendo qualquer referência sobre a sua autoria atribuída a Nasoni; fico admirado quando leio e transcrevo tal-qual em: http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70686/

Projectado pelo arquitecto que mais marcou o barroco portuense, Nicolau Nasoni, O Chafariz que actualmente decora um trecho do Passeio Alegre foi inicialmente concebido para os jardins da Quinta da Prelada, numa solução cenográfica que deveria integrar outros elementos decorativos a acompanhar o monumental chafariz.
No século XX, com a compra da Quinta pela Câmara Municipal do Porto, a obra de Nasoni acabou por ser desarticulada do conjunto onde se inseria, transitando em seguida para o Passeio Alegre, onde actualmente se encontra, seguindo o mesmo percurso dos dois obeliscos também projectados por Nasoni, que se encontram à entrada do passeio.       

Acompanham esta discrição a Bibliografia com o Title "O Grande Porto"; Local Lisboa; Date 1986; Autor: Hélder Pacheco; mais ainda: Title "Guia de Portugal, v.4, t l:Entre Douro e Minho, Douro Litoral"; Local:Lisboa; Date:1983; Autor: Raul Proença

Ai a encruzilhada que parece ter uma galinha preta e restos de cuecas. Primeiro, acho que a Quinta da Prelada nunca foi comprada pela Câmara do Porto. O seu último dono, em princípios do séc. XX, doou-a à Santa Casa da Misericórdia.
Segundo, nas Memórias Paroquiais de Ramalde, da autoria de Francisco Mateus Xavier de Carvalho, nas páginas 602 e 603 e sobre as Fontes e Tanques da Quinta de Dom António de Noronha de Mesquita e Mello, existentes no Lugar da Prelado (?), não se lê qualquer referência ao Chafariz. (pág.240 e seguintes inscritas na tese de Mestrado do Prof. Diogo Teixeira)    
Terceiro, só o Igespar - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, da Secretaria de Estado da Cultura, logo um organismo do Governo de Portugal - refere que o Chafariz é de Nasoni e que esteve na Prelada.
Não consegui encontrar na net o livro Guia de Portugal, de Raul Proença (Caldas da Raínha, 10.Maio.1884 - Porto, 20.Maio.1941), escritor, jornalista, e um dos membros fundadores da Seara Nova.

Pois aqui vos deixo, amigos, nas encruzilhadas das "minhas" Fontes e Chafarizes. Repito que não vem qualquer mal ao mundo. Mas gosto de saber e os organismos do Estado Português deveriam ser os primeiros a serem justos com a História. Ou serão todos os outros que estão enganados ?

Enquanto escrevia estas encruzilhadas a partir de apontamentos que fui guardando, caminhei por outras estradas que me esqueci de registar. Sem elas não teríamos versos e reversos da mesma medalha.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

179 - Crónica de uma tarde com saudades

Quatro finalidades quatro, levaram-me ontem ao centro do meu Porto.
1. Comprar medicamentos. 
2. Aproveitar e medir as tensões e pulsações. O que me deixou semi-alarmado.
3. Comprar remédio para o frio, que sempre é mais barato nas mercearias tradicionais do que nos hiperes à minha porta. Leia-se Bagaço.
4. Experimentar a máquina do Zé Catió.

Praça D. João I. Ao centro, o mercado de artesanato.
Enquanto esperava a vez de ser aviado na Farmácia, tinha 10 clientes à frente, fui caminhando por ali próximo e batendo umas chapas para ver como era. Bem mexo na máquina, mas é coisa que não é para a minha mão. Altas tecnologias, de peso muito leve, enfim, bem diz o Zé que também não sabe tocar naquilo.
Desde a Loja do Dragão para a Sé
Com zoom's ela abre a luz. Normal, é uma escuridão danada. O defeito deve ser meu. Mas depois de me aviar na Farmácia, dei umas voltas.
Como tinha de ir buscar o outro remédio em Fernandes Tomáz, lá fui subindo Sá da Bandeira e olhar as árvores douradas das quais já tinha saudades. Para ficarem assim douradinhas na foto, tive de lhes dar uma ajuda extra...

Voltei na direcção da entrada do Bolhão por Fernandes Tomáz e não podia deixar em falta a Castanheira
Claro que tinha de entrar no Bolhão mas com outra finalidade. Não é que me deram uns desejos de Leitão ? Então fui espreitar a loja para comer uma sande, mas ou porque o Leitão já tinha acabado estava fechada. Mais uma foto agora para ver o que dava o contraste da frutas. A barraca na sombra, mas muito pobre. A foto. Mas os dióspiros não enganam. São mesmo dos nossos. 
A sombra à barraca. Contra-luz.
Entre um telefonema ao Bioxene, que prometeu a sua presença no dia 11 no Bando do Café Progresso mas só depois das 20 h (atenção Bandalhos...) e outro ao Peixoto que estava a chegar ao Porto para umas comprinhas, lá fui olhando o Mercado e a pensar quando será remodelado.

Já que estava ali, quis aproveitar e ver como a máquina Samsung made in China - Zé, não tenhas dúvidas, descobri a etiqueta - se portava com os azulejos da Capela das Almas.
No caminho descobri o Emplastro, escondido no meio da multidão. Olhei em volta para ser a razão da sua presença por estas paragens e descobri um casal com aquelas máquinas tipo reportagem de TV. E ele pronto para a fisgadinha, fumando um cigarro à entrada do metro. Fiquei-me por ali à cuca. Ou a fisgadinha já tinha sido feita ou ele desistiu, o que não acredito. Acabou de fumar o cigarro e amandou-se pela escadas do metro.
Na lateral da Capela das Almas, fiz várias fotos em zoom de alguns pormenores dos azulejos. Como disse, para ver como resistiam as fotos. Nada mal, diga-se de passagem.
Entretanto fiquei a recordar a lição que o meu amigo Júlio, há dias de visita ao Norte do nosso Portugal, me deu sobre esta arte do azulejo. O estudo que o desenhador e pintor teve de fazer, para idealizar o formato perfeito para baterem certos os remates junto às paredes e janelas; as tonalidades que idealizou e saber a cor que elas tomariam depois da cozedura para formarem o painel perfeito. Enfim, coisas de mestre que temos obrigação de aprender. 
Santa Catarina para Norte, e o fumo do carvão e das castanhas a assar.
Finalmente ao encontro do Peixoto. De Sá da Bandeira, a Torre da Igreja da Trindade entre as luzes.
E uma olhadela aos Cavalos que vão mas não vão saltar a Rua desde o alto do Edifício do Comércio
O antigo edifício do Leão das Louças - não o conheço com outro nome - reflectindo nos vidros da horrorosa marquise um pormenor das traseiras do Palácio do Comércio.

Encontrado o Peixoto, fizemos as nossas compras e demonstrei-lhe o meu desejo pelo Leitão. A dúvida ficou entre a Confeitaria do Bolhão e o Pedro dos Frangos. Adoptamos por este último que por sinal não tinha Leitão.
Não tinha Leitão mas tinha Frango. E daí para aproveitar para mais umas fotos desgovernadas, com e sem flash. E colocar a conversa em dia.

Merenda desfeita, noite fechada, fiz companhia ao Peixoto até à Avenida e aproveitar para bater umas fotos mais. À falta de melhor, pousar a máquina num dos pilares do tanque e fazer pontaria a ver o que dava. Bem, a cor é horrível e nada tem a ver com a da amostra junta. Que foi ajudada para parecer mais bonitinha 
Acho que esta foi feita sem apoio. Já não me lembro.
E não é que a máquina se negou a bater mais fotos ? Sem bateria, zás. Esta foi a última. Da Avenida até à Praça.
A parte central continua um deserto. Vamos a ver se o novo Presidente da Câmara manda dar um arranjo a essa coisa.

Regressei ao Bolhão, enfiei-me num autocarro... e só acordei em Valongo. Na rua da Câmara. Nada a fazer se não voltar para trás.
Mas matei algumas saudades.

Se amanhã correr bem, vou visitar o meu amigo Álvaro. O das Gatas.