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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Guimarães - Parte III

Para terminar o pequeno percurso pelo Centro Histórico de Guimarães acompanhem-me da Oliveira até ao local da peregrinação na zona do Castelo.
O Zé Ferreira, com aquele ar de sonso e de quem não faz mal a uma formiga, pôs-me a caminhar indicando de longe e dedo apontado "olha" ou "é por ali".

A última imagem da postagem anterior (Guimarães - Parte II) mostrava umas arcadas que agora vamos ultrapassar e que são de ligação entre a Praça de S. Tiago e o Largo da Oliveira.

Os baixos da Casa da Câmara, edifício do séc. XVI-XVII ocupando o mesmo local de uns primitivos Paços construídos no séc.XIV no reinado de D. João I. Presumo que actualmente está instalado o Posto de Turismo.

Realçam-se as cinco janelas da sacada, o alpendre sustentado por cinco arcos góticos e uma estátua na fachada que representa Guimarães.
Olhemos em volta.
Estamos no Largo da Oliveira, destacando-se a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, o Padrão do Salado e a árvore Oliveira. Para além do casario envolvente.
A Igreja teve as suas origens num mosteiro fundado por Mumadona Dias cerca de 950 e dedicado à Virgem de Santa Maria e aos Santos Apóstolos. A construção primitiva terá sido iniciada em 1387 impulsionada por D. João I, fervoroso devoto da Senhora da Oliveira. O altar que levou para Aljubarrota é a ela dedicado e pode ser visto no Museu Alberto Sampaio.
Vários Reis e épocas ditaram os seus estilos ao longo dos séculos.
O Largo, antigamente chamado de Praça de Santa Maria, está ligado às géneses de Guimarães e foi um terreiro implantado defronte do mosteiro.

Diz a Tradição ou a Lenda, que existia uma velha Oliveira seca ao lado onde foi construído o Padrão do Salado. Três dias após a construção deste, a oliveira refloresceu considerando o povo que foi milagre.
A árvore subsistiu até a Câmara a mandar cortar em 1870. Terá sido a mesma ? acho que é muita idade para esta árvore. Aquando da recuperação do Largo há 25 anos, foi plantada a Oliveira que podemos ver hoje.

O Padrão do Salado (ou de Nossa Senhora da Vitória) de 1340 relembra a vitória de D. Afonso IV sobre os mouros em 30 de Outubro desse ano na Batalha do Salado, província de Cádis no sul da actual Espanha. Uma ajuda preciosa ao seu genro Afonso XI de Castela que não sabia o que fazer à vida perante a situação.
A Cruz gótica representa de um lado Cristo crucificado e do outro a Virgem Mãe. No plano inferior quatro esculturas representando S. Vicente Apóstolo, S. Filipe Mártir, S. Torcato e o Anjo da Guarda. Foi oferecida em 1342 pelo vimaranense Pedro Esteves. É Monumento Nacional desde 1949.

Em comemoração da Batalha de Aljubarrota, todos os anos a 14 de Agosto saíam em procissão Câmara e Cabido, rezando-se missa no Padrão, expondo-se a Pelote de D. João I. Era chamada a Missa da Pelote. Não sei se ainda há esta tradição.

Igreja de Nossa Senhora da Oliveira de arquitectura religiosa românica, gótica, manuelina, maneirista, neoclássica e revivalista, assim a considera o SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, que não sei se ainda existe com este nome. No entanto, nos restauros do séc.XX no interior o neoclássico foi praticamente retirado devolvendo o estilo gótico original.
O portal é encimado por um janelão que originalmente possuiria um caixilho pétreo com a forma da Árvore de Jessé. Agora tapado, ou cego como escreve o SIPA. É enquadrado por cinco arquivoltas decoradas e ritmadas por anjos coroados.

Quem entra na igreja pela direita, encontra esta máquina da qual não descobri a sua serventia. Talvez o Zé Ferreira ajude pois passou muito tempo à volta dela e tenha descoberto qualquer referência.

O interior da Igreja e altar-mor. Na altura realizava-se um serviço religioso.

 Altar do Santíssimo Sacramento

Orgão superiormente decorado, "feito em 1838 por Luis António de Carvalho Guimarães, desta Vila"

À esquerda, escuríssima, a Capela dos Pinheiros e as arcas tumulares de Pedro Esteves e esposa Isabel Pinheiro. À direita a arca tumular de Inês de Guimarães uma descente em 3º ou 4º grau de D. Pedro I e de D. Inês de Castro. Mais uma conjuntura minha.
Só uma nota para confundir. Ou este Pedro Esteves com Capela e Túmulos teve uma vida longuíssima ou não é o mesmo que ofereceu a cruz que se encontra no Padrão do Salado. Pormenores de datas e de "serviços" levam-me a essa conclusão, embora pelas leituras das páginas consultadas incluindo a Geneall.net/pt se depreenda que é o mesmo.

Museu de Alberto Sampaio, instalado nos edifícios anexos da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, formando o conjunto da antiga Colegiada de Guimarães posterior ao Mosteiro, do qual restam duas alas do Claustro e a Sala do Capítulo. Mas do Mosteiro do séc. X parece que nem vestígios existem.
Pela antiga Casa do Cabido faz-se o acesso ao Museu. Não o visitei, pelo que as fotos são meio-clandestinas. Isto é, pelo que consegui ver da entrada foquei e apontei para posterior visita.
Guarda no seu interior obras de mestres ourives, acervos históricos como o loudel usado por D. João I na Batalha de Aljubarrota, peças, tesouros de valor incalculável. É Monumento Nacional desde 1910.

 À saída do Museu uma das Capelas dos Passos, creio que são 5, que existem em Guimarães.

Uns passos caminhados e surge-nos uma imagem interessante a meia encosta da subida para o Monte de Penha. É a Igreja do Mosteiro de Santa Marinha da Costa. Segundo a tradição, o mosteiro (hoje é um Hotel) foi fundado em 1154 pela Rainha D. Mafalda, esposa do nosso primeiro, o D. Afonso Henriques e doado aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, cuja ordem foi substituída pela de S. Jerónimo em 1528.
Admite-se que tenha sido erguido sobre um pequeno templo de características únicas do séc. IX que por sua vez foi construído sobre um estabelecimento romano. Também se supõe que tenha sido este o local do Paços Condais Portucalenses e que a Igreja tenha sido a Capela Palatina.
Todo o conjunto foi alterado e ampliado ao longo dos séculos.

Depois de toda a caminhada anterior - não foi tão pequena como o conjunto das fotos parece demonstrar- o Zé Ferreira foi buscar o carro mandando-me subir uma rua íngreme e que nos encontraríamos no Castelo.
Lá fui subindo a desalmada, se não estou em erro é a Avenida Alberto Sampaio e reparei que ainda há um troço de Muralhas em Guimarães, coisa que não imaginava. Lá atrás, o Paço dos Duques de Bragança.

Pois agora também sei que o início da construção da muralha que circundou o primitivo povoado foi no reinado de D. Sancho I, o segundo de Portugal, nos séc. XII-XIII e só terminou no reinado de D. Dinis, antes de 1322. Era a parte alta.

Tem histórias de cercos: Em 1322 o Infante D. Afonso luta contra o pai D. Dinis;

Em 1369, Henrique II de Castela (que fundou a dinastia de Trânstamara e andou metido na Guerra dos Cem Anos - apoiado pelos franceses à sucessão do trono de Castela enquanto o irmão Pedro, sucessor legal era apoiado pelos ingleses e portugueses e que veio a morrer assassinado - cercou a vila depois de já ter tomado Braga. Talvez pelo apoio dado por Portugal ao meio-irmão, talvez por causa de uma história antiga de assassínio da mãe, amante do Rei Afonso XI de Castela, por ordem da Rainha Maria de Portugal sua esposa legítima. Isto são deduções minhas.

Por causa desses amores, a Rainha Maria regressou a Portugal separando-se do marido Castelhano e acolheu-se a Évora. Mas acabou por exercer muita influência junto do pai D. Afonso IV para ajudar o ex-marido  Afonso XI de Castela, perdido na luta contra os mouros.
Lembrem-se, queridos e queridas visitantes que têm a paciência de me ler, o que escrevi sobre o Padrão do Salado, atrás referido.

Novo cerco desta vez por D. João I em 1385 durante a crise iniciada em 1383 e que durou dois anos. O alcaide Aires Gomes da Silva mantinha o apoio a Castela e a Henrique II. Em 1389 D. João I unifica o lugar - a parte alta (Castelo) e a parte baixa (villa de Santa Maria) - ordenando que fossem ambos um só povo doravante Guimarães.

Na chamada agora Zona do Castelo iniciava-se a parte alta, quando no século X a Condessa Mumadona Dias, viúva do Conde Hermenegildo Gonçalves que governou os domínios de Portucale e cheio de posses, fundou um Mosteiro no sopé do Monte Largo.
Castelo de Guimarães
Local de peregrinação, sujeito às investidas pelo sul dos muçulmanos e dos normandos oriundos do mar do Norte através dos rios de boa navegabilidade, para defesa do núcleo monacal e para recolhimento das gentes necessitadas, a Condessa mandou construir um Castelo que é doado em 958 aos religiosos.
Acredita-se que a estrutura então erguida, sob a invocação a S. Mamede, fosse bastante simples, composta por uma torre envolvida por uma cerca.
Destaque para a monumental Torre de Menagem
Um século após, a povoação Vimaranes era dos domínios de Afonso VI de Leão e Castela que a doa em favor de Henrique de Borgonha, formando o Condado Portucalense, mas seu vassalo.
Casou este com Teresa, filha ilegítima do rei Afonso VI tomando o castelo por residência o qual foi sendo ampliado.
Do casamento nasceu talvez em 1109, talvez em 1111 como refere a cronologia dos Reis de Portugal, talvez no verão (não se sabe se em Viseu, Coimbra ou Guimarães) o que viria a ser o nosso primeiro rei, Afonso Henriques, D. Afonso I de Portugal, o Fundador, iniciando a Dinastia Afonsina ou de Bolonha.

Uma história simples de poder: Morreu o pai ao Afonso e a mãe amantizou-se com um galego, o Conde de Trava. O jovem talvez influenciado pelo arcebispo de Braga D. Paio Mendes, tão novinho que ele era, presumo que tinha três anos quando recebeu as primeiras influências, contrário à ligação e ao desejo do Trava de tomar a soberania do espaço galaico-portucalense, arranjou uns amigos fidalgos que armaram uns guerreiros que lutaram contra o exército da mãe derrotando-o na célebre Batalha - há quem lhe chame Torneio - de S. Mamede, um campo próximo do Castelo.
Claro que se andou nisto alguns anos, fugido com o arcebispo e com D. Egas Moniz - há quem escreva na história que talvez seja ele o pai do futuro rei - até receberem o perdão da mãe Teresa. Com umas traições pelo meio, mas são já outras histórias. Certo é que devido a esse primeiro passo acabou por nascer Portugal.

O Castelo também serviu de Cadeia no séc. XVI e palheiros do Rei no século seguinte. Esteve quase a ser destruído em 1836 pela Câmara para apagar a imagem de prisão dos fieis de D. Pedro IV durante as Lutas Liberais. Foi salvo por 1 voto.
É Monumento Nacional.

Próximo do Castelo a Igreja ou Capela de S. Miguel do Castelo. A lenda diz que D.Afonso Henriques, o nosso primeiro, foi nela baptizado o que é impossível visto o templo ter sido sagrado pelo Arcebispo de Braga em 1239 e a sua construção de indefinida data será das primeiras três décadas do séc. XIII.
O estudioso de arte românica Manuel Monteiro concluiu que se trata de uma construção um tanto ilegal devido à simplicidade da capela e outros pormenores que o levaram a essa conclusão.
Talvez por isso, houve oposição do Arcebispo de Braga (terá sido Silvestre Godinho ?) à Colegiada de Guimarães, os autores da construção, chegando a haver troca de armas.

Na parte inferior da colina no sentido do centro da Cidade, encontramos o Paço dos Duques de Bragança, imponente casa senhorial mandada construir no séc.XV por D. Afonso, futuro Duque de Bragança, filho ilegítimo do rei D. João I, que aqui viveu com a segunda mulher D. Constança de Noronha.
Foi progressivamente abandonado entrando numa quase ruína até ao séc. XX. Entre 1937 e 1959 realizou-se um ampla e complexa intervenção de reconstrução segundo um projecto do Arquitecto Rogério de Azevedo. Paralelamente foram adquiridas peças que compõem o recheio actual, datadas principalmente dos séc. XVII e XVIII.
Monumento Nacional desde 1910, integra um museu, uma ala destinada à Presidência da República e uma área destinada a eventos culturais.

Do outro lado da colina fica o antigo Convento de Santo António dos Capuchos edificado no séc. XVII. Foi comprado pela Misericórdia em 1842 para instalar o seu Hospital. Hoje é Museu e segundo me informaram também uma clínica privada.

Tudo o que escrevi nestas três postagens foi colhido em variadíssimas páginas. Também tentei cruzar dados e daí algumas dúvidas. Acabei por não perceber quantos Mosteiros a Senhora Mumadona Dias mandou construir.

Claro que a "corda dada aos meus pedantes" foi accionada pelo Zé Ferreira. Ele sabe muito mas raramente se abre.

Ainda houve luz para subirmos ao Monte da Pena. Mas isso é outra história e é já a seguir.

Fica um apelo, visitem Guimarães. Vale a pena.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

232 - Memórias de uma viagem - Sintra, Parte II

Continuando as memórias agora em segunda parte, (o tempo não me permitiu adiantar) descemos da Pena ao final de tarde com duas preocupações: conseguir alojamento para pernoitar e ver o jogo do Porto-Chelsea. Se pensam que é fácil arranjar alojamento em Sintra, desenganem-se. Não façam como eu que saí da "terrinha" e pela primeira vez na vida sem marcação para dormir.
Depois de muitas voltas e de entrar em hotéis e residenciais ao longo do caminho, arranjavam-se quartos num Hotel próximo da Estação a 100 euros ( sim, cem euros, não é engano).
Uma informação de um taxista levou-nos a uma residencial acolhedora por 50 euros a dormida, sem pequeno almoço, também próximo da Estação.
Assunto resolvido, foi largar as malas e avançar para um restaurante tentando ver o resto do jogo pois meia parte já tinha sido. Pouco abaixo da residencial dois restaurantes: Um, cheio de curiosos do jogo, com uma ementa pobre e cara. Logo a seguir outro com a mesma ementa e preços, vazio de clientes.
Desconfiados, fomos caminhando no sentido do centro da Vila pelo lado esquerdo da linha ferroviária, próximo da Estação. Dois "pubs" vazios não nos atraíram e chegados à Estação, contornámo-la e fizemos 180º. Restaurantes fechados, esplanadas de cafés com poucos clientes, até que resolvemos arriscar no único restaurante aberto (para além de um chinês) que anunciava grelhados a preços convidativos. Embora sem um único cliente, com aspecto de quem vai fechar a tasca, fomos recebidos gentilmente e serviram-nos costeletas de borrego e de boi grelhadas ao alho que estavam de muito bom paladar.
Conseguimos ver quase toda a segunda parte do jogo.
Curiosamente, com os cafés serviram uma bagaceira que foi famosa na Região do Porto há muitos, muitos anos: A Morgadinha das Caves Campêlo, do Concelho de Barcelos, de cujo dono fui amigo. Nem sabia que ainda se comercializava. Mas já não houve segundo café pois a máquina tinha sido desligada e o empregado varria o chão e encastelava as cadeiras. Contas feitas de que não nos podemos queixar tanto pela qualidade como pela quantidade do repasto e fizemo-nos à vida, seguindo para o centro da Vila.

Passamos pela Câmara Municipal, um belo Palácio edificado entre 1903-1906, pela Fonte Mourisca e pela exposição das Estátuas. Soube posteriormente que esta artéria chama-se Alameda da Volta do Duche.
A Fonte Mourisca, obra de 1922, desmontada nos anos 60 e restaurada a uma vintena de metros do local primitivo, nos anos 80, foi construída para substituir um antigo chafariz.
Exposição de Estátuas na Alameda da Volta do Duche
assim denominada porque existiram banhos públicos neste local.

Chegados ao centro, ficamos com uma sensação esquisita. Pouca iluminação, pouca gente nas ruas, os cafés e pastelarias fechadas. Pouco passava das 10 horas e a noite ainda era uma criança. Descobrimos um bar num canto de uma ruela com escadas onde entramos apenas para tomar um café.
Sentei-me ao balcão, pedi um café e a primeira coisa que o barman fez foi colocar um pequeno copo à minha frente. Servido o café, perguntei-lhe para que era o copo. Resposta: não vai querer um cheirinho ? e serviu-me uma aguardente com toques de velha em cascos de carvalho. Sem rótulo na garrafa. Uma delícia. Há pessoal que parece bruxo...
Arrancamos para ir até ao Palácio da Vila tentar fazer umas fotos e apaziguar a digestão e relaxar dos nervos acumulados pelo jogo. Infelizmente não era a minha noite e não consegui nem uma foto decente para mostrar.
Valeu-me o amigo Fernando Súcio para ficar com uma recordação.

Palácio da Vila também denominado Palácio Nacional de Sintra
Remonta a um primitivo palácio doado por D. João I ao Conde de Seia em 1383. 
A sua reconstrução teve início no séc. XV com projecto de autor desconhecido, apresentando características de arquitectura medieval, manuelina, gótica, renascentista e romântica. Ao longo dos séculos foram acrescentadas alas e decorações no interior. Destaque para as enormes chaminés.
Não houve tempo para uma visita.

Demos mais umas voltas e Sintra parecia um terra deserta. Um ou outro casal de namorados, um ou outro jovem com cão pela trela e nada mais. Será que os turistas têm medo de sair à noite ? e onde estão os habitantes ?
Chateados e sem nada para ver, voltamos ao mesmo boteco mas agora sentámo-nos a uma mesa. Uma jovem muito gentil e eficiente (exactamente as mesmas notas para os dois barmans) tomou conta do pedido e serviu-nos elegantemente cervejas Super-Bock. Com e sem alcoól.
Passe a publicidade que os árabes não precisam dela nem o
 fanfarrão do ex-ministro do comércio.
Devo dizer que os preços foram mais baratos do que os praticados em qualquer barzinho de meia tigela da nossa Ribeira.

Passada a noite é novo dia e saída a caminho da Quinta e Palácio da Regaleira, afinal o ponto principal desta descida até Sintra, não sem antes de um bom pequeno almoço num café próximo da Estação ferroviária, do tipo à moda antiga com senhoras muito gentis a servirem, clientes a ler o jornal e preços nada turísticos. Ainda há gente boa na nossa terra.
A tempo de ver as charretes a caminho do Palácio da Vila à procura de turistas.
Prosseguimos para a Regaleira e os problemas de estacionamento surgiram. Infelizmente fui induzido em erro ao ler o site da Quinta que indica estacionamento fácil.

Em frente ou quase, no Palácio de Seteais, construído no séc. XVIII, existe um grande estacionamento com meia dúzia de carros. Perguntei se podíamos estacionar. Que sim desde que fosse por pouco tempo. Uma gorjeta teria resolvido o assunto, acho eu, mas até ignorava que agora é um hotel.

Fomos estacionar no único lugar disponível e com muita sorte já no caminho do Castelo dos Mouros, a mais de dois quilómetros. Os truca-truca e os autocarros continuam a ser os donos dos espaços possíveis, mas na realidade é que não há estacionamentos.


Sobre a Quinta, francamente fiquei fascinado. Tinha-me informado minimamente sobre ela, mas sabemos que é preciso dar um desconto ao que se lê para turista convencer. Vivi muitos anos nesse mundo para saber como é.
Deixêmo-nos encantar pelas edificações com os seus simbolismos esotéricos e religiosos. Mas é a natureza, ali no meio da outra natureza da Serra de Sintra, controlada desde o início da projecção do espaço e lindamente disposta que está ao nosso alcance perfeitamente viva.

Uma pequena parte do espaço tem referências desde finais do séc. XVII. Em 1830 toma o nome actual. Em 1840 é adquirida pela filha de Allen, negociante de Vinhos do Porto e a quem os negócios acabaram por não correr bem. Em 1892 é comprada por António Carvalho Monteiro, nascido no Brasil mas a viver em Portugal há muito anos, formado em Coimbra e dono de uma considerável fortuna. Por isso lhe chamaram o Monteiro Milhões.
Comprou mais terrenos e a maior parte da construção actual durou de 1904 até 1910.
Patamar dos Deuses, composto por 9 estátuas dos Deuses Greco-Romanos. A mitologia clássica foi uma das inspirações para os Jardins da Quinta da Regaleira.

O Bosque ou Mata não está disposta ao acaso, mas reflete a crença do primitivismo.
A Água como Fonte de Vida encontra-se em lagos, cascatas, fontes espalhadas ao longo do espaço.
A Mata foi ordenada mais cuidada na parte de baixo sendo progressivamente mais selvagem até ao topo.
Por entre a mata, vemos uma parte do Palácio da Vila, a Capela da Santíssima Trindade, e no alto da Serra de Sintra o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros.

Belíssimos locais de repouso com simbolismos e Fonte da Regaleira

Poço Iniciático
Com entrada "escondida" nas rochas, encontramos uma galeria subterrânea construída em espiral sustentada por colunas esculpidas, descendo por uma escadaria constituída por 9 patamares separados por 15 degraus até ao fundo do Poço, esculpido em mármore representando a Rosa dos Ventos sobre uma Cruz Templária e simultâneamente indicativo da Ordem Rosa-Cruz.
O Poço está ligado por várias galerias a outros pontos da Quinta: a Entrada dos Guardiães, ao Lago da Cascata e ao Poço Imperfeito.

Gruta da Leda e a Portal dos Guardiães

Torre de Ziguarte

A Torre da Regaleira
Foi construída para dar a quem sobe a ilusão de se encontrar no eixo do Mundo.

Terraço dos Mundos Celestes e Torre de Ziguarte que cobrem a Cisterna.

Capela da Santíssima Trindade
Magnífica fachada em revivalismo gótico e manuelino. Estão representadas esculturas de Santa Teresa de Ávila e Santo António. No meio a encimar a entrada está representado o mistério da Anunciação.
No interior no altar-mor vê-se Jesus depois da ressuscitação a coroar uma mulher. Pode ser Maria ou Madalena. No chão estão representadas a Esfera Armilar ou Globo Celeste e a Cruz da Ordem de Cristo rodeadas de pentagramas.  

O edifício do Palácio tem um não sei quê que me provocou uma espécie de negação. Talvez a cor da pedra e os traços pretos que a dividem.
O Palácio é marcado por uma torre octogonal de exuberante decoração.
Tentei "meter" o edifício sempre que pude no meio da vegetação que o rodeia. Os imensos pormenores são como uma renda trabalhada mas só quem as projectou sabe os porquês. Hipóteses há muitas, mas descrições originais parece não existirem de forma a nos elucidarem.

Painel superior da Porta de entrada do Palácio, Aposentos e Sala dos Reis. 

Sala de Caça
Belíssima decoração e a extraordinária lareira em mármore.
São as salas visitáveis para além das escadas de acesso. São excepção as salas com a exposição permanente homenageando o arquitecto italiano Luigi Manini autor do traço da Quinta.
Dos terraços superiores podemos maravilharmo-nos com a paisagem e as esculturas cheias de simbolismo. Num dos pilares a imagem de Camões ou não fosse Monteiro um grande Camoniano.

Um lanche no bar, no terraço da sede da Fundação que tem a seu cargo a Quinta da Regaleira, custa um "balúrdio" para português-turista.
O terraço é relaxante, tem uma fonte lindíssima sem água e vários acessos para a Mata. O Palácio ao fundo.

Uma sande de queijo e fiambre com assomo de legumes pelo meio e môlhos gourmets, mais uma mão-cheia de batatas de pacote, uma cerveja e um café, não ficam por menos de 12 euros.
A entrada na Quinta custa 8 euros para a melhor idade.

Passamos cerca de 5 horas dentro do espaço e depois é que foi o diabo até chegar ao local onde o Fernando deixou o carro.
Mas foi bom para carregar energias.

Alguns Amigos já me escreveram sobre a Parte I e também sobre os PPS que fiz e distribui sobre a Pena e esta Quinta. Uns recomendando casas para comer as queijadas, outros que Sintra não é só isto, e ainda recebi lamentos de ex-camaradas que tiveram pena da minha passagem pela terra deles e não os ter avisado para tomarmos uns copos.
Só posso agradecer a todos e lembrar que foi uma visita a correr à Bela Sintra, onde tantos escritores portugueses e estrangeiros e não só escritores se inspiraram.