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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

150 - Caminhos, Caminhadas e Curiosidades do Porto, a minha Cidade

Nos Caminhos da Cidade encontramos coisas a que normalmente não ligamos mas se olharmos bem descobrimos Curiosidades interessantes.

É o caso da escultura de José Rodrigues "O Sonho da Humanidade", evocação do escritor Ferreira de Castro. A obra está localizada na Foz do Douro desde Outubro de 1988, pesa três toneladas e mede 6 metros.
Em Março de 2009 alguém reparou que a escultura tinha desaparecido e a edilidade Camarária desconhecia o seu paradeiro. Averiguando, veio a descobrir-se que foi retirada pelo Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos por causa da localização dos estaleiros das obras dos Molhes da Barra do Douro. A recolocação foi adiada pela falta de uma base de betão, responsabilidade do empreiteiro, mas veio a acontecer em Abril do ano seguinte.
Um desprezo pela Cidade e o seu Património.

Na Barra do Douro existe o Marégrafo. Bem pintado, no seu interior viam-se espalhados no chão alguns aparelhos, muitos papeis e sujidade. Não sei a data da construção deste edifício nem quando foi desactivado e a quem pertence mas presumo ser da responsabilidade dos Portos do Douro e Leixões. A Junta de Freguesia também não nos dá nenhuma referência embora esteja registado no seu património.
Resta-nos a memória de algo que deve ter sido muito útil e a pequena torre com uma escala (?) de marés.

O cinema Batalha tem andado em bolandas. Fechado em 2.000, reabriu em Maio de 2006 depois de um investimento de 1,2 milhões de euros, parte dos 5 milhões que o Grupo Amorim entregou como compensação no âmbito do Plano de Pormenor das Antas. Para gerir foi criado o Gabinete de Comércio Vivo, uma parceria entre a Câmara Municipal e a Associação dos Comerciantes como apoio ao Comércio. O dinheiro foi-se e diz o actual Presidente da Associação que quási todo foi gasto no Batalha. O certo é que há processos judiciais a correr, investigações, etc. E o apoio ao Comércio como foi ?
Conclusão, o Batalha fechou as portas em 31 de Dezembro e os seus proprietários - Neves e Pascaud - nada podem fazer.
E onde estarão as obras - painéis, estatuária, etc - que estavam no seu interior ? Li algures que haviam desaparecido. Será que regressaram ?
Mas veio esta história sobre o Batalha por uma razão. Há tempos, vendo um programa do Prof. Joel Cleto, entre outros foi destacado o baixo relevo na frente do edifício da autoria de Américo Braga (Matosinhos, 21 Janeiro 1909 - Oaxaca, México, 26 Julho 1991). Este painel exibia um martelo na mão do Homem que se encontra na parte superior. E uma foice na mão da Mulher, em baixo.A censura mandou retirar o martelo mas deixou a foice. De notar também as correntes na figura inferior central, também esquecidas ou não conotadas politicamente. Burros os Pides da altura.
Acabei de ler que um outro painel da autoria de Júlio Pomar foi destruído. Políticas idem.
O cinema foi inaugurado em 1947 e é uma obra do Arquitecto Artur Andrade (Porto, 14 de Maio 1913 - Matosinhos, 9 de Novembro 2005). O edifício foi considerado como Monumento de Interesse Público. Vamos ver o que lhe irá acontecer.
    
Publiquei esta foto no espaço do Bando do Café Progresso, feita durante umas caminhadas da rapaziada, porque achei curioso tentar-se uma foto de grupo com um sol/sombra. Por outro lado reparei na farda dos "maiorzinhos" que nunca tive visto.
Recebi de um amigo o esclarecimento que essas fardas são usadas por uma seita que se diz religiosa, descendente de um famigerado grupo muito ligado à época da ditadura Brasileira. O grupo intitula-se Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima que começou em S. Paulo e já se estende pelo Brasil.
Pesquisando encontrei dois sites, um deles da Paróquia da Piedade da Diocese de Jales, que acusa esta Associação de enganar o povo em nome da religião e cobrar os seus dízimos em nome da imagem da Senhora de Fátima. E outras coisas mais. São vários parágrafos. Para os interessados aqui fica o link:
O outro link dá esclarecimentos sobre as origens desta seita:
Faz o amigo votos para que esta rapaziada não se esteja a preparar para sujar a nossa Cidade e o nosso País.
Pelo que li naqueles espaços, também assim o espero.

Estamos nos Clérigos e finalmente abriu o "Jardim das Oliveiras". Não sei se é assim que se chama, mas sei que está fechado. O local é o antigo Mercado do Anjo, há meio século chamado de Praça de Lisboa. A obra de reconversão do espaço demorou mais de 5 anos e a sua abertura anunciada por trimestres e anos, desde 2009, aí está.
A estátua de D. António Ferreira Gomes voltou a mudar de sítio, embora isso seja um pormenor insignificante.  
O espaço tem dois níveis: O superior, como referi é um "Jardim" fechado, que parece ser um campo de cultura da azeitona. Olival lhe chamamos. Trasmontano ou Alentejano, eis a questão. O inferior é uma rua-galeria, com dois ou três cafés e um tasco com preços exorbitantes. Aos possíveis clientes, leiam bem as listas para não saírem chamuscados. Pelo menos 6 milhões bem derrapados foram aqui gastos. Quem se deve estar a rir é a Câmara Municipal que não teve nada a ver com isto. Embora o Rui Rio tenha pensado tirar lucros para a autarquia, na crise em que estamos nem daqui a 40 anos, quando acaba o contrato de exploração. E será que as restantes lojas vão um dia abrir ?

Nossa Senhora da Silva é a padroeira dos Ferreiros e Caldeireiros que criaram uma confraria no séc. XV. Construíram uma Albergaria e Capela na muito antiga Rua dos Caldeireiros. No primeiro piso voltado para a rua encontra-se um oratório do séc. XVIII. Um conjunto lindíssimo. No interior do edifício ainda existe a Capela.
Diz a lenda que a Senhora ficou com o nome de Silva, após ter sido achada uma imagem no meio das silvas pelos pedreiros que trabalhavam na construção das fundações da futura Sé do Porto, na qual está entronizada uma imagem de Nossa Senhora da Silva do séc.XV-XVI, do lado direito do transepto.

No cais da meia laranja na Foz do Douro, local que já foi de boas pescarias à linha, está recordada a memória do Comandante John W. Cowie, veterano da Barra, que serviu desde oficial praticante a capitão em grande parte da frota de um armador de Glasgow e que escalava os portos portugueses com regularidade.
Legou as suas cinzas à Barra do Douro, onde foram lançadas em 19 de Julho de 1958 de bordo do navio-motor inglês Seamew, o seu último navio comandado.
Tudo isto aprendi com o meu amigo Rui Amaro e através do seu extraordinário blogue: http://opilotopraticododouroeleixoes.blogspot.pt/.

Vale a pena um passeio até este local, repousar olhando o rio e o que nos rodeia. Logo atrás temos o Jardim do Passeio Alegre com os seus monumentos, lagos e os bonitos urinóis, também o Chalet Suísso; à direita a nova Barra do Douro, à esquerda os Pilotos, o cais do Marégrafo e o Capela-Farol de S. Miguel o Anjo, provàvelmente o mais antigo da Europa, e na continuação a Cantareira.

Quem passa na Avenida Gustave Eiffel, na marginal do Rio Douro, quási por baixo da Ponte de S. João (a nova do comboio), não pode deixar de notar duas belas peças de arqueologia industrial. São os Fornos, o que resta da antiga Fábrica de Louças de Massarelos. Fundada em Massarelos, na Restauração, em 1766, sofreu um grande incêndio em 1920 passando a Fábrica para as Faldas do Monte do Seminário, mais ou menos no local onde se encontram os Fornos. 
Bons tempos que não são tão longos assim, quando a Cidade guardava as suas memórias. 

O Grande Hotel do Porto, edificado na Rua de Santa Catarina num local que foi propriedade de D. Antónia Ferreira (a Ferreirinha dos Vinhos do Porto), foi inaugurado em 27 de Março de 1880. Obra do arquitecto Silva Sardinha (Pedroso, V. N. de Gaia, 13.Fev.1845 - 28.Nov.1906 ) e mandado construir por Daniel Martins de Moura Guimarães, um Gondomarense natural de Santa Eulália, Fânzeres, homem retornado do Brasil, culto, viajante, que para lá voltou e lá morreu.
De entre as muitas figuras ilustres hóspedes do Hotel, destacam-se os ex-Imperadores do Brasil D. Pedro II  e D. Thereza Christina que aqui faleceu em 28 de Dezembro de 1889.
Nada disto é novo, mas por casualidade tive de passar na rua lateral do hotel que se chamava na altura Viela das Pombas, rebaptizada posteriormente para Travessa do Grande Hotel e agora é a Rua de António Pedro, (Cidade da Praia - Cabo Verde, 9 Dez.1909 - Moledo, Minho, 17 Agosto 1966), uma homenagem ao grande vulto da cultura, e alma grande do Teatro Experimental do Porto que aqui bem próximo teve a sua sala. Para os curioso do Teatro e não só, aqui vai a página do TEP: http://www.cct-tep.com/
Reparei nos vidros de uma janela e no Brasão da Cidade do Porto. A imagem está invertida.
O desenho deste Brasão foi da autoria de Almeida Garrett cujas armas são alteradas por decreto da Rainha D. Maria II promulgado por Passos Manuel em 14 de Janeiro de 1837, após o Cerco do Porto e a Morte de D. Pedro IV. Mas o brasão mudou em 1940, ano da glorificação do regime ditatorial de Salazar e companhia que mandou redesenhar as armas e brasões de todos os concelhos e freguesias do País.
Mas para sempre ficou a inscrição de Antiga Mui Nobre Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. O Brasão mudou mas não este no Grande Hotel do Porto. Bem como o que se encontra na estátua de D. Pedro IV na Praça da Liberdade, mas ao qual falta a cabeça do Dragão há anos.  

Olhando para a Alfândega Nova em Miragaia desde Gaia, vê-se uma escultura sobre a qual não encontrei  qualquer referência. Já pedi a informação no Facebook do agora Museu e aguardo. 
A Alfândega, para além de mostrar o seu arquivo, peças, aparelhos, enfim, tudo que dizia respeito à sua missão, é um local de exposições permanentes de grande qualidade e interesse, bem como de  temporárias. 
E não esquecendo que aqui também está exposto o painel-estudo que deu origem ao Painel Cerâmico Ribeira Negra, colocado próximo do Túnel da Ribeira, da autoria de Júlio Resende, infelizmente desaparecido para a vida há pouco tempo.
Fica para a próxima uma "visita"  a este extraordinário trabalho.

Com o mural Ribeira Negra em fundo, uma singela homenagem ao grande Duque da Ribeira, Deocleciano Monteiro de seu nome. (Porto, 24 Março 1902 - 9 Novembro 1996). Uma pequena lápide da autoria de José Rodrigues, na Praça que tem o seu nome junto à Ponte D. Luíz, recordará para sempre o Homem.
Barqueiro e figura carismática da Cidade, nascido e criado na Ribeira, aos onze anos salvava o primeiro humano de morrer afogado nas águas do Douro. Não sei se têm conta os inúmeros salvamentos e corpos resgatados ao Rio.
Há relativamente pouco tempo, entrevistado um outro barqueiro que já tem muitos salvamentos à sua conta (infelizmente não me recordo do seu nome) dizia, quando lhe pediram uma comparação com o Duque: Não há nem nunca haverá qualquer tipo de comparação. O Duque conhecia o Rio como ninguém.
No seu livro de autógrafos, para além dos dois primeiros Presidentes da República eleitos pós 25 de Abril, Eanes e Soares, constam os da Rainha Isabel II de Inglaterra, de Samora Machel ex-Presidente de Moçambique e de muita gente importante que visitava a Cidade.
Presumo que recebeu a mais alta condecoração do País. Mas não tenho a certeza.

Já várias vezes me referi ao Altar de Sant'Ana, na Rua do mesmo nome, próximo da Sé e da Igreja dos Grilos, portanto uma das Ruas do Porto Medieval. Mas há sempre mais uma história que nos aparece quando pesquisamos. 
Tudo começa quando esta Rua se chamava das Aldas, (só mudou de nome em meados do séc. XVI) bem mais extensa do que a actual e ligava o velho burgo à zona Ribeirinha, através da Rua da Bainharia e depois da dos Mercadores. Como ainda hoje acontece.
Havia um "Portal", uma das quatro portas que existiam na Primitiva Muralha Românica e que passou a designar-se de Porta do Arco de Sant'Ana a partir de 1542 por provàvelmente já existir uma imagem da evocação da Santa desde 1524. 
Almeida Garrett imortalizou-o na sua obra O Arco de Santana, descrevendo-o como de arquitectura moderna e levantado quási ao meio da rua que se sobe para chegar ao Largo do Colégio de S. Lourenço (os portuenses conhecem-no melhor como dos Grilos)... e sobre ele havia um oratório que tinha uma janela com vidraça voltada para o lado superior ou do referido Mosteiro dos Grilos...e continha uma imagem da Santa da sua invocação e sobre ele o escudete de pedra com a seguinte legenda: S. Anna Succure Miseris.
O Arco foi demolido em Junho de 1821, requerido por um particular para ali construir umas casas. A Câmara autorizou a troco dinheiro, chamou-lhe indemnizações e lá se foi mais uma obra de grande valor da Cidade.
Voltando ao Altar actual, presumo que foi construído logo após a demolição, na parede granítica do lado esquerdo de quem sobe, portanto do outro lado da muralha. 
A primitiva imagem do séc. XV-XVI foi recolhida na Capela de S. Crispim que se localizava próximo do Convento de S. Domingos demolida para a abertura da Rua Mouzinho da Silveira em  1876. Está actualmente no Museu Sacro do Convento de S. Lourenço (ou dos Grilos). Mais uma visita que aconselho ao renovado espaço do Museu incluindo a Igreja e a parte museológica de Arqueologia. 
Como lamento que os visitantes da Sé não sejam aconselhados a descer 100 metros não só para visitar este conjunto como apreciar no novo miradouro o que nos rodeia.

Caminhadas também são motivo para fazer e guardar imagens e é bom para depois comparar com velhas relíquias. Pelo menos 100 anos separam esta duas e foi pura coincidência a escolha do local.

A história e a vida também se contam em fotos antigas, como estas de Cheias do Rio Douro na Ribeira, expostas na Casa da Dona. Ermelinda, onde comer uma Isca da Ribeira de confecção única aquece primeiro o céu da boca e depois corpo em dias frios.


Para finalizar, uma amostra dos muitos trabalhos em ferro que existem pela Cidade.

Muito a propósito aqui deixo uma bela mensagem da minha amiga Gaúcha-Portuguesa de todos os costados, Dona Alda Paulina:


CAMINHOS

Andei terras
descobri valores
de cada hora.
Sepultei a ausência
revelando amores
tragédia diária.
Idas e retornos
nesta rodoviária.
E o riso louco
de insana carência
mergulhou em flores.
E os dias poucos
do mais que eu fui
já são vivências.
Minha sombra ficou
no exíguo espaço
onde a vida (ainda) flui,
na restante máscara
das aparências.

Alda Paulina Borges



terça-feira, 6 de março de 2012

117 - À procura do Lugar da Ervilha

O meu passeio anterior e referente à Rua da Vilarinha, terminou no Lugar da Fonte da Moura. Escreveu-me um amigo conterrâneo a fazer pela vida no estrangeiro, interrogando o porquê de Fonte da Moura. Pois bem, segundo a lenda, andavam por ali cavaleiros comandados por D. Afonso Henriques (para quem não conhece a História de Portugal, foi o nosso primeiro Rei) quando encontraram uma Moura. Perguntaram-lhe onde poderiam matar a sede numa Fonte. A Moura respondeu-lhes que era muito longe, mas se o Deus dos cristãos era tão poderoso, que fizesse nascer ali uma e ela se reconverteria ao cristianismo. Dito e feito, a fonte nasceu e e a lenda também. E eu encontrei a história da lenda na Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora.
Estava acompanhado pelo meu amigo Peixoto, velho companheiro nas minhas andanças e foi aqui que achamos um simpático restaurante para almoçar.
Por sorte, fazia parte da ementa um prato de Sável, muito apreciado pelo amigo Peixoto que não hesitou na escolha. Para mim um lombo de boi assado, bem fatiado mesmo ao meu gosto. O tinto não estava mal mas o bagaço a acompanhar o café era de 10 estrelas. Via-se mesmo que é o do que o patrão bebe. O preço também esteve em conta, olhando à carestia da vida e ao petisco de rico que o Peixoto escolheu. Esqueci o nome do restaurante, mas fica a uma trintena de metros do início da Avenida Antunes Guimarães do lado esquerdo e de quem vem da Avenida da Boavista. É o El qualquer coisa. Nome espanholito.

Tinha-me proposto ir procurar o Lugar ou Monte da Ervilha, que sem querer descobrira por ter lido algo sobre um Espaldão Militar. Não fazia ideia nenhuma onde ficava. Mas de busca em busca lá encontrei algumas referências.

De mapa e apontamentos na mão - um dos meus poucos passeios mais ou menos orientados - atravessamos a Avenida da Boavista, (uma das grandes obras da Cidade do Porto e a maior Avenida de Portugal em extensão, que liga o Mar desde o Castelo do Queijo ao Centro) e toca de percorrer ruas nunca antes conhecidas.
A poucos metros encontramos a Estátua de Garcia de Orta, que dispensava bem o acessório que lhe colocaram aos pés. Não custa nada referir, até porque me dá muito prazer, que Garcia de Orta foi um cientista nascido em 1500 em Castelo de Vide, no Alto-Alentejo, de pais judeus refugiados em Portugal expulsos pelos Reis Católicos Espanhóis. Foi médico do rei D. João III e pioneiro no Estudo da Botânica, Farmacologia, Medicina Tropical e Antropologia. Encontrou Camões em Goa de quem foi amigo segundo reza a sua bibiografia. Morreu em 1568, em Goa, na Índia para onde tinha partido em Março de 1534 e por lá ficou. Embora a Inquisição também actuasse na Índia, durante a sua vida não foi molestado, bem como a família. No entanto, após a sua morte, todos os membros foram perseguidos e a irmã queimada na Fogueira da Santa Inquisição. Anos mais tarde o seu corpo seria exumado e igualmente queimado.
Embora exercendo a medicina foi também comerciante.
A obra que perpetuou o nome de Garcia de Orta foi o livro Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, editado em Goa em 1563 e só anos mais tarde publicado na Europa.
Levava como referência uma Paróquia, Igreja e Convento de que nunca ouvira falar.
Toda esta região era rural, de agricultura e floresta, que se veio transformando desde há umas dezenas de anos em zona habitacional. Terrenos não faltavam.
A Igreja de Cristo Rei e o Convento dos Padres Dominicanos tiveram a sua inauguração em 23 de Maio de 1954, em cerimónia presidida por D. António Ferreira Gomes, o saudoso e querido Bispo do Porto.
Toda a edificação está em 7.000 metros quadrados de terrenos cedidos pela Câmara do Porto em 1950, na altura presidida pelo Prof. Dr. Luíz de Pina, como compensação dos terrenos do antigo Convento de S. Domingos confiscados pela Fazenda após a extinção das Ordens Religiosas.
Mesmo ao lado encontramos o Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, que se dedica ao ensino e divulgação de várias actividades artísticas. Foi inaugurado em 1997.
D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto de 1952 a 1982, esteve exilado entre 1959 e 1969 por ordem da ditadura do Estado Novo e do seu cérebro António de Oliveira Salazar.
Grande intelectual, foi sem dúvida o Bispo mais querido e ainda hoje lembrado pelos Portuenses. Faleceu em 13 de Abril de 1989.

Entre as novas edificações encontram-se ainda vestígios dos tempos rurais. E eis-nos chegados ao Lugar da Ervilha. Meio perdido entre ruas sem saída e caminhos de pé posto, dando voltas sem destino, lá nos aproximamos do fim proposto.
A Rua do Crasto. Comprida, muito arborizada, liga este lugar ao Mar. Desconheço a razão da sua toponímia, mas presumo ser um derivado de Castro, povoação castreja pré-romana que se supõe ter existido não havendo no entanto elementos científicos que o comprovem. Mas descobriram-se utensílios líticos da época Pré-Histórica não deixando dúvidas que foi habitada na Idade do Ferro. 

Por entre os novos e altos edifícios, há que escolher um caminho de pé-posto
para tentar chegar ao centro do Monte.

Entre os altos arbustos que nos tapam a vista abrem-se novos caminhos e sem o supor deparamo-nos com cultivo agrícola em pequenas hortas espalhadas por um relativamente vasto território. Uma pequena conversa com um hortelão para orientação e saber coisas do lugar foi indispensável.
Indicou-nos o senhor hortelão as instalações do Futebol Clube da Foz, clube fundado em 1 de Maio de 1934. Cujo campo de jogos tem o nome de baptismo de Campo da Ervilha. Claro que conhecia o clube. Jogou algumas vezes com (ou contra) o meu Salgueiros. E de repente fez-se luz na minha cabeça. Afinal já andara por aqui.
Uma história simples: Teria os meus 7 ou 8 anos, não sei ao certo, e o meu irmão que já era árbitro de futebol levou-me com ele ao Foz onde foi arbitrar. Não sei como fomos lá ter, mas recordo vagamente que passamos por um caminho. Era dia de chuva e regressamos a casa de eléctrico. Imagino que devemos ter tomado o 4 na Fonte da Moura vindo de Pereiró, saído na Rotunda da Boavista e aí apanhado o 20 ou 21 para o Marquês.
Entre uma rua terminada e um novo caminho lá prosseguimos à conquista do Monte.

Caminhamos entre novas hortas espalhadas pelo Monte, ladeadas por altos edifícios.
Encontrei um arbusto com um fruto que não conheci. Um hortelão disse-me que era de um pé que veio do Brasil. Não sabia o nome e chama-lhe Tangeronas. Mas quem tem amigos pelo mundo há que saber de entre eles quem conheça o fruto. A resposta veio breve. O seu nome é tamarillo ou em português tamarilho. Oriundo dos Andes da América do Sul, é também cultivado no Brasil, onde toma o nome de Tomates (Japoneses, Ingleses, Arbóreo, ou ainda, conforme a região Brasileira, de Tomatão, Tomate Francês e Tomate de Árvore). Descobri que também se cultiva em Portugal, principalmente na Madeira com o nome de Tomate Brasileiro. Que bom é saber coisas novas.
Um bonito Faval já em flor.

Um dos hortelãos - esqueci de perguntar o nome - com quem conversei disse-me que toda aquela zona habitacional pertenceu a um Dr. Fontes. O que resta dos terrenos do Monte os herdeiros cederam aos hortelãos. A única paga e já não deve ser pouca é que os terrenos foram e estão limpos.
Mas também vinha à procura do Espaldão Militar de que tomara conhecimento existir aqui. No meio de alguns terrenos não cultivados vêm-se pequenos montes com uma altura talvez de 3 a 4 metros, totalmente cobertos de vegetação alta.
Vamos à História segundo o IGESPAR. Na sua página recolhi a informação de que no Monte ou Lugar da Ervilha foram feitos estudos arqueológicos numa área de 156 metros quadrados devido a um processo de loteamento do local. Acho que esta medição está errada pois é uma superfície bem pequena em relação ao  edificado e aos terrenos que se vêm, mas para o caso não interessa nada. Pelo seu fraco interesse arqueológico os estudos foram abandonados em 1995.
Aqui existiu um espaldão militar, conhecido como do Porto, da Ervilha ou Forte da Ervilha, utilizado na Guerra Civil de 1828-1834 (mais conhecida como Lutas Liberais) para albergar a artilharia das Tropas de D. Miguel. Este espaldão construído com muros de pedra e valas era considerado inexpugnável. Durante os estudos arqueológicos foram descobertos espólios diversos bem como uma plataforma em pedra onde terá assentado uma peça de artilharia. Embora degradado é um dos poucos vestígios arquitectónicos do Cerco do Porto. O Espaldão foi tomado pela Tropas Liberais em 24 de Janeiro de 1833.

Deixamos para trás a Ervilha e encontramos uma rua que nos guia até ao Mar.

É a Rua do Ribeirinho, julgo ser assim chamada porque bem próximo,
embora mal se distinguindo, passa um fio de água.
Quem sabe, talvez tenha sido já um ribeirinho à séria
Embora de há 1 ano e meio atrás, esta é a imagem mais ou menos actual do
Lugar da Ervilha.
E fomos à mais apetecida lourinha que há muito nos esperava na esplanada
 em frente ao Mar. A tarde foi longa e a sede apertava.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

83 - Farois do Porto - Farol da Luz

Navegar pela net tem destas coisas. Descobrir o desconhecido. E só por casualidade encontrei uma referencia a este farol, pelo qual já tinha passado algumas vezes bem perto. É também conhecido pelo Farol da Nossa Senhora da Luz e Farol do Monte da Luz. Para os interessados na sua descoberta aqui ficam as coordenadas. Fica bem próximo da Praça de Liège. Do lado nascente, desce-se no sentido do mar uma pequena distância. Ultrapasse-se a Rua de Sá de Albergaria e logo entroncamos nas Rua do Farol e Rua Monte da Luz. É só voltar à direita. Devo dizer que três habitantes do lugar não conheciam o espaço.

Vamos à história. O Farol já existiria em finais do séc. XVII mantido pela confraria da Senhora da Luz. Em 1 de Fevereiro de 1758 por alvará do Marquês de Pombal, é ordenada a construção de um farol devido às dificuldades da entrada da Barra do Douro. Em 1761 estava já construído e dotado de estruturas para ser considerado Farol. Escreve-se que foi o primeiro Farol da Costa Portuguesa. Aqui começam as minhas dúvidas, pois também leio que o Farol de S. Miguel o Anjo, nos Pilotos, foi construído no séc. XV.

O local escolhido foi este Monte e era constituído por uma pequena torre hexagonal no cimo de um torreão quadrangular no lado Oeste de um edifício de dois andares, encimado por uma lanterna verde, hoje já retirada e substituída por um telhado.

No local existia a Ermida da Senhora da Luz, destruída, não sei se para a construção do Farol. Recentemente foram descobertas gravuras rupestres no afloramento granítico. Sofreu várias alterações, logo a primeira em 1814, pois foi destruído por um raio. Em 1865 foi substituído o sistema de luzes. Em finais de 1913 é iniciada nova reforma, passando a emitir sinais de luz de 5 em 5 segundos, com um alcance de 38 milhas. Foi desactivado segundo a Marinha, em 1926; ou em 1927, referido por J. Teixeira de Aguilar. Em ambos os casos por ter entrado em actividade o Farol de Leça. Segundo a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, foi mesmo este o ano que entrou em funcionamento este Farol. Já o IPPAR e o IHRU indicam o ano de 1945 como o ano da sua desactivação, devido às obras de modernização do Farolim de Felgueiras. O que está na Barra do Douro. E esta hem ...!!!

Ao lado existe uma torre octogonal de cerca de 5 m, com dois pisos.


A subida embora íngreme, não custa nada fazê-la... O pior é andar lá em cima. Os pés quási não cabem no passeio e o parapeito em ferro não chega à barriga.

Em http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/71051/ lê-se que o farol é esta torre. Uma senhora com quem conversei, moradora na casa anexa, disse que está errado. Esta é uma torre de vigia. Curiosamente nas fotos da página, as legendas estão certas. Vá-se lá entender este Igespar. É mais um instituto e está tudo dito.

Embora tenha rogado umas pragas ao construtor, e à inoportunidade de uma chamada exterior que me fez tremer e berrar, aliada a uma aragem de certo respeito, vale a pena espreitar lá de cima. À direita o Porto de Leixões.

Navegação ao largo. Disse-se na altura da construção, que se via até Espinho. Por mar e a direito não sei quantas milhas são. Por terra estão marcados 20 km.

Sem dúvida que é muito mar para ver. Um prazer sem fim.

À esquerda a Barra do Douro e as Praias de Gaia

No interior da torre, alguém deve desfrutar de um bom descanso.

Só queria saber como seria a vista lá de dentro, mas visto por fora. A porta não abriu. Também não forcei.

O terreiro tem mato pronto a arder. É só chegar um fósforo.

Pormenores com o mar sempre em fundo.

O portão da entrada parece que está fechado, mas não. É só empurrar. Por ali não há ninguém. E também não vale a pena assustar com o mato.

Uma última espreitadela. Essa rua é a do Monte da Luz.