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quinta-feira, 29 de março de 2012

123 - Rua dos Mártires da Liberdade

Em 7 de Maio de 1829, doze homens Liberais fieis a D. Pedro IV, foram enforcados e decapitados por ordem do tribunal Miguelista, na Praça Nova, actual Praça da Liberdade. Os frades do Convento de S. Francisco Nery ( Onde hoje está uma das dependências da Caixa Geral de Depósitos e que já foi o Banco Nacional Ultramarino, adoçado à Igreja dos Congregados) vendo o espectáculo das suas celas  festejaram-no com Vinho do Porto e Pão de Ló, brindando a D. Miguel e à santa religião... (Texto respigado de um escrito de Germano Silva no Jornal de Notícias de 8 de Maio de 2000)
A Cidade do Porto homenageou estes Mártires, não só guardando os restos mortais num Mausoléu no Cemitério do Prado Repouso mas também em duas toponímias. Uma delas é a Rua dos Mártires da Liberdade.
Que começa no entroncamento da Rua da Conceição e Travessa de Cedofeita e no final da Rua das Oliveiras. Vinda da Praça de Carlos Alberto, iniciava-se aqui a Estrada de Braga, que continuava pela Lapa (Lugar de Germalde), Paranhos (Lugar do Sério) e Amial até aos limites da Cidade, encostada aos terrenos e Palácio dos Viscondes de Balsemão - que já foi dos Serviços de Águas e Saneamentos do Porto (lembra-se a malta do Porto quando os nossos "velhos" diziam que iam pagar a água a Carlos Alberto ?) e também Hospedaria, a do Peixe, e onde viveu algum tempo, pouco, o Rei Carlos Alberto da Sardenha, aquando do seu exílio em Portugal.
Vamos seguir a Rua desde aqui até à Praça da República, onde termina a pouco mais de 300 metros de distância.

Antes da toponímia actual foi no séc. XVII a Estrada de Santo Ovídio, depois Rua Direita de Santo Ovídio, retiraram-lhe a Direita e em 28 de Maio de 1835 a Câmara mudou o nome para 16 de Maio, em homenagem aos Liberais que neste dia em 1828 tentaram restaurar a Carta Liberal. Só em 1860 tomou o nome porque é conhecida. Mas há um pormenor de que me lembro bem. A minha avó só lhe chamava a Rua da Sovela. E não há erro porque a Junta de Freguesia de Santo Ildefonso a refere em 1822. http://www.jf-stildefonso.pt/
  
Logo à entrada de quem vem de Carlos Alberto, à direita, encontramos a lendária Livraria Académica, fundada em 1912 na Rua das Oliveiras e para aqui transferida em 1913, por Joaquim Guedes da Silva. Teve no Sr. Nuno Canavez, seu ex-empregado desde muito jovem, um continuador de mérito. É ponto de encontro da intelectualidade portuense e não só.
Especialmente dedicado aos maluquinhos dos livros e a quem interessar, tomem nota deste link: http://www.livraria-academica.com/


Foto de autor que desconheço
Natural de Mirandela, com uma obra de grande mérito publicada sobre Trás-os-Montes aliada aos grandes catálogos que publica, (presumo ser o único Livreiro-Alfarrabista que o faz, em Portugal), foi Nuno Canavez reconhecido por Mário Soares, creio que posteriormente por Jorge Sampaio também, como Presidentes da República, ao conferirem-lhe comendas honoríficas. Este bem as merece.
Por falar em Trás-os-Montes e Mirandela, permitam-me uma história de vida. Nos tempos em que "desbravava" aquelas terras em trabalho, nos anos 80 do século passado, a Biblioteca Municipal (cujo patrono é o velho General Sarmento Pimentel) tinha sido inaugurada há poucos anos. Passava por lá, conversava com um "rapaz" novo, acabado de licenciar-se - cujo nome esqueci - e que presumo ter sido o Director na altura. Falava-me dos muitos projectos da Cidade, precisava da minha colaboração, mas não havia dinheiro. Aguardava melhores dias. Eu adorava a minha viagem transmontana que normalmente constava do itinerário Chaves, Valpaços, Bragança, Macedo, Mirandela, Régua. Uma vez ou outra também Miranda do Douro, Moncorvo, Vale do Tua. "Batia" tudo que eram Câmaras Municipais, Cooperativas de Produção, Hotéis. Também nessa altura pouco mais havia com quem negociar dentro do meu campo profissional. Muitas recordações de comesainas que me eram oferecidas, grandes amigos por lá fiz e também alguns negócios. 
Já não lembro o ano, mas foi logo na primeira segunda-feira de Janeiro, abalei bem cedo do Porto para Trás-os-Montes. Falava a meteorologia de um temporal que por ali deveria passar. De terra em terra, fui andando à frente dele. Aquela gente chamava-me maluco. Até que em Mirandela, ao meio da tarde, depois de breve troca de cumprimentos com o Doutor antes referido, abalei a caminho de Murça tentando fugir ao temporal. Logo no princípio das famosas curvas fui apanhado por um nevão. Tentei romper, mas numa das curvas para a esquerda, o carro fugiu todo para a berma. Era sempre a descer morro abaixo desse lado. Por sorte ou lá o que fosse, o carro embicou para a direita e bateu num muro, imobilisando-se. Novamente a sorte bateu à porta e um camião que descia a serra, rebocou o velho Golf de regresso a Mirandela. Onde um "endireita" esticou o guarda-lamas e lá regressei ao Porto no dia seguinte. Gente boa, que nem me quis dinheiro pelo trabalho. Por essas e por muitas outras, nunca esquecerei os Transmontanos. 
Essa Biblioteca, tem hoje mais de 30.000 volumes e uma grande contribuição do Senhor Nuno Canavez.   

No largo que aqui se forma, homenageando o grande Alberto Pimentel, cuja história ficará para outra altura, encontramos a Fonte das Oliveiras, assim chamada por primitivamente ter estado naqueles terrenos e construída em 1718. Foi remontada para este local em 1823 e ficou adoçada a um edifício da mesma época, com a fachada recoberta a azulejos. É uma obra barroca muito simples, cujo elemento decorativo é uma concha que envolve um golfinho. Foi restaurada em meados do séc. XX

Encontramos velhos prédios, alguns em bom estado de conservação, outros nem tanto. Nesta rua funcionavam pequenas oficinas de carpintaria, serralharia e também adelos, alfarrabistas, comércios de mobiliário. E umas tasquinhas onde imperavam, além dos "négos" (copo pequeno para servir vinho, muito comum na Cidade do Porto da altura) brancos ou tintos, sempre uns petiscos para acompanhar. É assim que me recordo da rua, pois por ela andei imensas vezes na minha pós-meninice e juventude.

À esquerda encontramos a Rua de S. Carlos, que vai dar ao antigo Largo do Mirante, agora Praça Coronel Pacheco. Outras histórias.

Quási em frente o edifício onde foi instalada em 1912 a Renascença Portuguesa saída da Implantação da República em 1910. Um movimento nacional, com sede no Porto e núcleos em Coimbra e Lisboa, tendo como mentores Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Álvaro Pinto.
Manteve como seu órgão principal A Águia, propriedade do grupo entre 1912 e 1932, ano em que a sua publicação cessou. A esta publicação juntou-se, durante alguns anos, o quinzenário A Vida Portuguesa e uma intensa actividade editorial que, em 1918 contava já com 120 volumes publicados, cobrindo temas de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social. Entre os autores editados contam-se Carlos Parreira, o Visconde de Vila-Moura, Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, António Sérgio, Ezequiel de Campos. A partir de 1928 a revista Portucale prosseguiu o espírito de A Águia.

No periódico A Águia, transformado no órgão central do movimento, colaboraram, para além dos fundadores, Mário Beirão, António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, tendo estes dois saído para fundar o movimento Orpheu. Outros se seguiram para fundar a Seara Nova.
Textos pesquisados em http://purl.pt/12152

Edifícios que outrora seriam belos, agora mal conservados


Uma bonita fachada em madeira, de uma loja antiga agora transformado em Bar.

Pormenor de uma linda fachada

Logo a seguir à esquina da Rua dos Bragas, em homenagem aos antigos donos dos terrenos, fica a casa onde nasceu o Doutor Ricardo Jorge.

Médico, Professor Universitário e Escritor, Ricardo Jorge (1858/1939) frequentou com brilhantismo a Escola Médico-Cirúrgica do Porto de 1874 a 1879, tendo concluído, aos 21 anos de idade, a licenciatura em Medicina com a "dissertação inaugural" Um Ensaio sobre o Nervosismo. Após umas viagens de estudo ao estrangeiro, regressou a Portugal e deu início a um curso de Anatomia dos Centros Nervosos e criou o pioneiro laboratório de microscopia e fisiologia do Porto. Dedicou-se à Saúde Pública e também à Hidroterapia, tendo publicado vários estudos e especialmente sobre as Caldas do Gerês.
A convite da Câmara Municipal do Porto, em 1892, com quem já tinha colaborado sobre questões de Higiene Pública, dirigiu os Serviços Municipais de Saúde e Higiene da Cidade do Porto e chefiou o Laboratório Municipal de Bacteriologia. No âmbito destas actividades publicou a série do respectivo Anuário e um Boletim Mensal de Estatística Sanitária do Porto, que fizeram dele o introdutor da moderna estatística demográfica em Portugal.
Abandonou a Cidade do Porto em 1899, aquando da Peste Bubónica, descontente com a população, violenta e instigada por forças políticas contra a sua orientação pelas medidas profiláticas que tentou implementar.
Em Lisboa desenvolveu intensa actividade criando organismos de estudo, presidindo a instituições e representando Portugal em conferencias no estrangeiro. Fundou o que hoje se chama o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.
Estudou figuras célebres, nacionais e estrangeiras, foi amigo de Camilo Castelo Branco e diz-se ter sido o responsável nos anos 20 da proibição da Coca-Cola em Portugal  que só 50 anos depois foi levantada, tendo alegadamente ordenado a sua apreensão e destruição depois de tomar conhecimento do slogan publicitário da bebida criado por Fernando Pessoa "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". A história foi contada por Luís Pedro Moutinho de Almeida, filho do então representante da Coca-Cola em Portugal, no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa, 16 de Março de 1982).
Textos recolhidos na Wikipédia, numa das suas Biografias publicadas e em
Quási no final da Rua, encontra-se a sede da então denominada Associação dos Albergues Nocturnos do Porto, instituição criada por iniciativa do Rei D. Luíz I em 1881.
Desde então é uma porta aberta, todos os dias do ano, ao serviço dos sem-abrigo, daqueles que por uma razão ou por outra se aninharam na faixa da marginalidade e dormem embrulhados na solidão.
É um espaço físico polivalente onde se procura despertar nos utentes o interesse pelo trabalho, desenvolvendo a sua criatividade ou apenas as suas técnicas manuais ou corporais.
Mais do que isso procura-se através de várias actividades como a pintura, a escultura, a escrita, a leitura, a dança ou a música, fazer ressurgir atitudes, valores e capacidades laborais que levem a uma futura e consistente integração na sociedade, na família e no meio profissional.
Os Albergues possuem outras instalações em Campanhã, na Rua de Miraflor.
Aqui em Mártires da Liberdade funciona um loja onde vendem a baixos preços artigos ofertados. Mas necessitam de outras dádivas, especialmente artigos de higiene e alguns bens alimentares, especialmente conservas.
Ver o site http://www.alberguesporto.com/

E chegamos à Praça da República e ao Jardim de João Chagas sobre o qual já escrevinhei umas notas anteriormente...
É o lugar de Germalde, ou da Lapa como hoje é conhecido. Permitam-me os meus amigos, visitantes e leitores, recordar-lhes que comecei pelo meio da famosa Estrada de Braga (Paranhos e Amial, Antero de Quental e Monte de Germalde) e  agora no seu quási princípio. Pois falta-me do Amial até à Circunvalação, o seu términus. E a Rua das Oliveirinhas e Praça de Carlos Alberto, o seu começo. Talvez fiquem para Histórias (ou Estórias, como diria o saudoso Carlos Pinhão ?) futuras, embora a Praça de Carlos Alberto já tenha sido referida por mim muitas vezes. 

domingo, 18 de março de 2012

120 - Do Monte Cativo às Águas Férreas

Este escrito é dedicado principalmente aos meus amigos e conterrâneos tripeiros e especialmente aos que desta zona têm mais recordações e me vão escrevendo. Alguns deles, por esse mundo fora têm a sua vida.
O perímetro Marquês, Antero de Quental, Serpa Pinto pela Constituição, quer enfiando para Sul entre S. Brás e Monte Cativo, está todo alterado de há uns anos a esta parte com novas ruas e zonas habitacionais.
Então para esses meus amigos um passeio para recordar os nossos tempos, desde o Monte Cativo até às Águas Férreas. Numa desordem de dias e caminhos.
Para começo uma pequena orientação a partir do Google Earth, recente, desde o alto do Monte Cativo até à Lapa e Boavista. Ponto de referência as Águas Férreas e a Tutoria.

Enfiamos pela Rua Damião de Góis (a nova ligação que une as Ruas de João Pedro Ribeiro e Egas Moniz) e à esquerda entramos na Rua Alves Redol.

Um olhar sobre a Cidade do Porto, onde o mar à direita se avista.

O alto das novas zonas residenciais

Sem qualquer referência sobre este casarão, mas que presumo ser o da antiga sede do Clube de Caçadores do Porto, está agora o Clube (como se tratasse de um antigo e tradicional clube inglês, na minha opinião, claro...) do Prof. Hernâni Gonçalves, o Bitaites, que alberga um campo para actividades desportivas e seus complementos médicos, educacionais, etc. e tal. Incluindo restaurante, salão para festas e recepções. Para nós, os da zona, já estamos no velho Monte Cativo.

Monte Cativo que é topónimo muito antigo. Era um dos limites do couto do Porto, mencionados na carta da rainha D. Teresa, de 1120; «...até ao monte que chamam Pé de Mula, assim pelo Monte Cativis, assim como divide Cedofeita com Germinade...». Pelo menos até ao século XVII manteve esta forma alatinada de Monte Cativis com que figura nos registos paroquiais, designadamente num assento de 1682. Assim refere Eugénio Andreas de Cunha e Freitas (Nasceu em Lisboa em 1912. Morreu em Vila do Conde em 2000) que parece ter sido o único historiador da Cidade, pois todos a ele vão beber os seus escritos. Eu só copio o que os historiadores de agora escrevem baseado no que ele escreveu. Logo, eu acredito.

Segundo a Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora, Germinade vem do latim Germinati e tem a variante Germalde. Se se compreende bem, Germalde é hoje o Monte da Lapa, à nossa esquerda.
Agora Pé de Mula, não consegui encontrar. Também não fui ao Arquivo Histórico da Cidade vasculhar.

Ali próximo entroncamos com a Rua do Monte Cativo que ainda vem da Rua da Constituição mas é pelas Escadas do Monte que nos deslocamos. Com uma vista por sobre a antiga Tutoria até à Rua da Boavista.
No final das Escadas do Monte Cativo o velho Fontanário

No final das Escadas encontramos a velha "Tituria" para onde os nossos Pais nos ameaçavam mandar se nos portássemos mal. Infelizmente não encontrei uma única referência ao edifício nem ao belo chafariz que está no largo interior. E muito menos quanto à instituição primitiva. Presumo que agora funciona um organismo ligado à Câmara Municipal mas ao certo não sei. Sei que passei ali algum tempo, fui ao seu interior onde encontrei portas abertas, mas não vi viva alma. Não adiantou chamar, assobiar, fazer barulho. Ninguém. Tenho testemunhas da minha presença.

As Tutorias da Infância foram criadas em 1911 por Alberto de Sousa Costa, bacharel da Universidade de Coimbra mas é o padre António Oliveira que a convite de Afonso Costa ( o mata-frades, Deputado eleito pelo Porto em 1900, na altura chamado um dos Deputados da Peste, e ele próprio um Exposto da Roda na Santa Casa da Misericórdia de Seia, sua terra Natal - retirado da sua biografia - )  elabora a lei publicada por Decreto de 27 de Maio de 1911.
No entanto já em 1902 existia uma Casa da Correcção do Porto, mas no Convento de Santa Clara em Vila do Conde.
Presumo que a ex-Tutoria está nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas. Na foto um pormenor da antiga quinta com o edifício da Tutoria à direita, já antes mostrada aquando do meu escrito sobre o Monte de Germalde, mais recentemente conhecido como Monte da Lapa.

Esta Quinta foi pertença de José de Sousa e Melo, assim chamada por ter lá existido uma fonte de água medicinal que deu uma origem a umas termas. Ocupava uma vasta área muita embelezada, desde a Igreja da Lapa (nas nossas costas, mais ou menos, quando obtive a fotografia) até à Carvalhosa. Este senhor foi o terceiro Visconde de Veiros - localidade para os lados de Leiria, salvo erro - e que para além de tesoureiro-geral da Alfândega do Porto, Vice-provedor da Companhia Geral de Agricultura e Vinhas do Alto Douro, Administrador dos Correios do Porto, Inspector das Obras do Edifício da Academia da Marinha e Comércio, Vereador da Câmara Municipal do Porto, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, foi oficial coronel do Exército de D. Pedro IV aquando das Lutas Liberais, tendo morrido durante uma batalha contra as tropas de D. Miguel.
Se estou a escrever errado, que me perdoem. Toda esta mistura da biografia do homem apanhei-a em sítios tão dispares como os da Cronologia dos Viscondes de Portugal, na Biografia de José de Sousa e Melo, leitura inscrita na placa de toponímia no local da Rua com o nome de Melo (que não corresponde em nada à toponímia descrita no site da Câmara), e um escrito de Germano Silva. E ainda n'As Quintas mais importantes de Cedofeita em que esta vem em segundo lugar. O resumo, achando-o credível, baseei-o nas datas de nascença e morte.

Vindo da Lapa e entrando nos terrenos da antiga Quinta, à direita, um Infantário fechado. Mas em bom estado. Presumo que foi o primeiro aqui construído pela Junta de Freguesia de Cedofeita, mas talvez por se tornar pequeno foi construído um novo, que está logo a seguir e incluído num núcleo residencial.

Numa das paredes, uma homenagem obituária a um amigo desaparecido na flor da idade. Não sei a razão da sua morte, nem interessa. Mas a homenagem lembra aos vivos que a vida é curta e devemos aproveitá-la como um bem que não se repete.

Nos terrenos da antiga Quinta, um olhar para o Monte da Lapa, com a sua Igreja construída de forma que fosse visível de qualquer local da Cidade.

Atravessada a linha do Metro, encontramos o Conjunto Habitacional da Bouça. Chamou-se este local de Quinta de Santo Ovídio e depois da Boavista. Lá estou eu a tirar deduções, porque a Quinta dos Viscondes de Beire em 1865 ocupava uma vastíssima área que ia desde a Praça da República (antigo Campo de Santo Ovídio) até à Rua de Cedofeita. Pertenceu ao desembargador João Carneiro de Morais que nela mandou construir uma capela dedicada a S. Bento e Santo Ovídio. Templo há muito desaparecido. Os herdeiros venderam a Quinta, na segunda metade do século XVIII, a Manuel de Figueirôa, contador da Fazenda Real e mais umas tantas coisas (A Travessa da Figueiroa, logo ali partindo da Rua da Boavista até Cedofeita, existe provàvelmente em memória deste fidalgo. Mas porquê da Figueiroa e não do Figueiroa ?).
A Quinta passou do Figueiroa para o visconde de Beire e pelo casamento de Maria Balbina Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto Figueiredo com o quarto conde de Resende, António Benedito de Castro, entrou na posse desta família.
Meus amigos, fiquei confuso com o escrito atrás, da autoria do nosso querido Germano Silva. Não é que seja importante, mas o sr. Figueiroa era - ou foi - o 1º Visconde de Beire. E a D. Balbina, sua filha. Que realmente casou com o António Benedito. Um erro de tipografia é normal.
Os condes de Resende foram os sogros de Eça de Queiroz. O escritor casou no dia 10 de Fevereiro de 1886 na capela da Quinta com D. Emília de Castro Pamplona (in Cedofeita por Germano Silva).
Não vale a pena reproduzir tudo o que o insigne historiador e jornalista escreveu sobre que D. Emília era filha dos condes, etc e tal. Está-se mesmo a ver que se foram sogros do Eça, logo a D. Emília com quem casou não poderia ser filha de outras gentes. Mas os historiadores são assim mesmo, têm de contar tudinho e direitinho, não vá a gentinha não os entender à primeira.).

Este Bairro - que li situar-se na Quinta de Santo António...- começou a ser projectado logo a seguir à revolução de Abril mas só foi completado 30 anos depois. As primeiras casas foram entregues em 1976, mas muitos problemas foram surgindo com os antigos residentes desta zona (moradores em ilhas e barracas, queriam novas casas mas de borla) e a integração de novos residentes vindos de outros locais da cidade e não só, tiveram ao longo do processo a orientação correcta do ex.presidente da Câmara do Porto Nuno Cardoso para a solução dos problemas. Em 2006 foi finalmente dado como concluído. A obra é de Siza Vieira e toda a classe de arquitectos e não só, lhe tece enormes louvores. E tantas são as loas que até me perdi.
Independentemente da obra em si, que não tenho nem um pouquinho de capacidade para analisar, acho este conjunto habitacional mais parecido com uma cadeia, tal a exiguidade das portas e janelas, a divisão de entradas com barras de ferro, os caminhos estreitos, os pátios entre os quatro edifícios. Quanto aos espaços verdes tão propagandeados, resumem-se a um pouco de relva (?) e a meia dúzia de pequenas (até ver, pelo menos) árvores. Estas fotos têm menos de 15 dias. 
Em frente ao Bairro, na agora pequena Rua das Águas Férreas, encontramos a Casa da Pedra, propriedade particular, onde residiu o escritor Oliveira Martins enquanto dirigiu a construção do Caminho de Ferro da Póvoa e Famalicão.  Fez parte da Geração de 70, mais tarde "Os Vencidos da Vida". A Questão Coimbrã foi o tema. Aqui se reunia o Grupo dos 5: Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins e Antero de Quental. Este tinha na casa um quarto onde pernoitava muitas vezes e onde tentou o suicídio pela primeira vez tendo sido impedido pelo inquilino da casa. É o que está na história. Agora não sei se o Ramalho e o Antero, que andaram à espadeirada na Arca D'Água por discordarem entre si das ideias do Castilho, se encontraram por ali muitas vezes. Mas para o caso não interessa nada.

Na esquina da casa encontra-se ainda um antigo marco toponímico.
Agora uma pequena descrição para os meus amigos conterrâneos: A Rua das Águas Férreas vai dar à nova Rua do Melo, que por sua vez encontra-se com a Rua de Burgães, toponímia antiquíssima. Seria um lugar ao Pé do Monte ( Monte de Germalde-Lapa ? Monte Cativo ?) já referido em 1715 pela Colegiada de Cedofeita.

Entronca também na ainda existente Rua de Salgueiros, que é hoje uma pequena parte do que foi outrora e cuja continuação é a nova Rua de Cervantes. Que um dos meus amigos comentou, ser para ele sempre a Rua de Salgueiros. E eu concordo. Não entendo porque se mudam o nome às ruas ou a parte delas só para dar novos nomes. Neste caso, embora nada esteja escrito na toponímia da Cidade, será para dar graxa a Espanha colocando o nome do pai do D. Quixote e do Sancho Pança numa artéria ? E mai'nada.
Pensando ainda nos meus amigos conterrâneos,
uma nova imagem do Google vista agora no sentido contrário.
Aquele campo de sintético a Norte, entre o Monte Cativo e a Rua de Salgueiros
é o campo de Jogos da Escola do Hernâni Gonçalves, O Bitaites.

domingo, 11 de março de 2012

118 - O Monte de Germalde ou da Lapa

Um acaso, mais um, levou-me a conhecer um espaço e mais história da minha Cidade que ignorava.
Tudo começa quando acaba a viagem que deu origem ao meu escrito da postagem 114 sobre Paranhos.
No final dessa viagem, com o camarada e amigo Peixoto, viajante como eu do nosso Porto, tomamos um autocarro na Rua Antero de Quental para nos levar à Baixa. Ainda estavamos em Paranhos. Por aqui e redondezas foi o nosso "território" da juventude.
Antes de chegarmos à Lapa, já pertencente a Cedofeita, vi uma Capela da qual não me lembrava. Como estou a organizar uma história (pobrezinho de mim...) sobre as Capelas do Porto, logo combinei com o Peixoto uma visita ao local. Disse-me ele, isto vai dar ao Monte onde trabalhei quando era miúdo de 12 anos. São lindas as vistas lá de cima. E foi assim que tudo começou, com um encontro na esquina da Constituição com Antero de Quental.
A Rua Antero de Quental foi na sua antiguidade a Estrada de Braga, seguindo para o Amial por Vale Formoso ali a 100 metros. Já referi a história dessa Estrada que começava no lado direito da Praça de Carlos Alberto - antiga dos Ferradores -, mas hei-de falar, quer dizer, escrever, mais vezes sobre ela.
Chamou-se Rua da Rainha, mas muito antes era o Lugar do Sério e a sua primeira toponímia foi Travessa do Campo Lindo. Não sei se toda ela era o Lugar do Sério, pois o Campo Lindo fica no fim e a Lapa, a umas centenas de metros é o seu início. Lapa que foi Germalde. Lá iremos.
No cruzamento com a Rua da Constituição olhamos para o final da Rua e a tal saudade dos tempos idos de umas dezenas de anos. À esquerda era o antigo Café Oriental com sala de jogos no primeiro andar. A seguir, o Clube Portuense de Desporto, velha colectividade dos anos 30, onde um grupo de carolas regressados da Guerra do Ultramar, todos desta zona chamada do Marquês/Constituição criou uma secção de andebol em 1970 para pôr a malta a mexer. Os jogos desse primitivo período eram realizados bem próximo, no Parque de Jogos da Fábrica de Salgueiros, uma têxtil oitocentista de grande importância económica e social não só para a zona como para a Cidade, mas julgo que já estava desactivada nessa altura.

Embora o principal motivo fosse a descoberta da Capela ao meio da Rua Antero de Quental, não podêmos passar sem olhar o local onde estiveram as primitivas instalações desportivas do Futebol Clube do Porto. Sempre chamei a esse local o Horto de Antero de Quental, provàvelmente por ouvir dizer. No entanto tem a sua verdade e a história é a seguinte que casualmente encontrei no
José Marques Loureiro, nascido em 13 de Dezembro de 1830 na freguesia de Besteiros, concelho de Amares, instalou-se na cidade do Porto em  1844 onde arrendou a Quinta das Virtudes, criando o Horto das Virtudes, pelo qual se tornou famoso, dada a grande criatividade, conhecimento e beleza das suas produções. Criou em 1849 a Companhia Hortícola-Agrícola Portuense, tendo também arrendado um campo de cultivo na Rua da Rainha, actual  Rua de Antero de Quental, em terrenos onde foi construído o Campo da Rua da Rainha, primeiro palco desportivo do F:C.P. Criador de várias espécias de camélias, entre as quais a «Bela portuense» e «Picturata Plena Portuensis». Faleceu no Porto em 14 de Junho de 1898.
Um pormenor do Velho Campo da Rainha. Os amigos interessados podem consultar o meu escrito nº 61 sobre parte da vida do F. C. do Porto.

A toponímia actual da Rua homenageia Antero de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) o escritor, poeta, filósofo, político, operário tipógrafo (por pouquíssimo tempo em Lisboa e Paris) que teve grande influência na Geração de 70. Recomendo a quem interessar http://ge70.com.sapo.pt/index.htm para além de outros sites que nos falam desta fase histórica da Literatura e dos Homens de meados e fins de Oitocentos.
Mudou-se para o Porto em 1879. Entre 1881 e 1891 por motivos de saúde viveu em Vila do Conde embora tenha passado períodos entre Lisboa e os Açores.
Fundador do Partido Socialista Português, também fundou o Jornal A República em 1869 com Oliveira Martins. Não tem nada a ver com o Jornal que tomou o mesmo título fundado em 15 de Janeiro de 1911, por António José de Almeida e foi até aos tempos de Raul Rego, saneado pela esquerdisse em moda nos tempos pós 25 de Abril e que acabou por encerrar o Jornal.
Uma biografia a ler em http://www.vidaslusofonas.pt/antero_de_quental.htm

Existem alguns edifícios solarengos do séc.XIX ao longo da rua, mas a grande maioria são da nossa época e alguns muito degradados. No começo da Rua, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa.

À direita encontramos então a Capela que vim a descobrir dedicada ao Senhor do Socorro, por um escrito de Germano Silva. Segundo ele, no seu interior possui um cruzeiro de 1622 provàvelmente um dos muitos marcos que se assinalavam os Caminhos de Santiago.
Ainda pela sua escrita lê-se "A capela é também conhecida pela denominação do «Olho Vivo». A origem deste nome, dizem, deve-se ao facto de o lugar, em tempos idos, ser procurado pelos ladrões que assaltavam os viandantes desprevenidos. Daí que a estes fosse feito o aviso de que ao passar junto da capela deviam ir de «olho vivo». Ao mesmo sítio também se chamou o lugar do Sério. Mas o que aquilo foi, de facto, foi o Monte de Germalde".Tal como eu, coloca dúvidas que aqui também fosse o Lugar do Sério.

Na parede lateral da Capela, um painel em azulejo fabricado na e já extinta Fábrica do Carvalhinho, que começou na Calçada da Corticeira em 1840 e depois se transferiu para Gaia em 1923. Foi nesta unidade  que se fabricou o painel pois está lá escrito.

O primitivo nome de Monte de Germalde foi mais tarde chamado da Lapa, presumo que relacionado com a construção da primitiva Capela dedicada à Senhora da Lapa que deu posteriormente lugar à Igreja. Os amigos e visitantes interessados poderão ler pormenores e ver imagens no meu local nº 76.
A subida ao Monte é feito por duas Ruas. Entramos pela primeira, a Rua do Monte da Lapa.

Deparamo-nos com pequenos becos onde estão construídas habitações formando um típico bairro operário do séc. XIX. Segundo o ex-vereador da Câmara do Porto, Rui Sá, a maioria da população, idosa, já aqui nasceu. Fiquei a saber por uma acta da sessão da Câmara de 20 de Janeiro de 2009, não ter sido aprovada pela actual maioria do presidente Rui Rio, um levantamento do local para se conhecerem as condições de habitabilidade dos moradores. Será que é "perigoso" conhecer a Cidade, as suas gentes, os seus locais ?

No alto do Monte deparasse-nos uma edificação curiosa. Em conversa com os moradores, estes chamam-lhe o Mirante. Por baixo ainda vivem pessoas que infelizmente na altura não estavam em casa, pois queria autorização para entrar e subir as escadas até ao alto.


No tal escrito de Germano Silva antes referido, li ter sido um antigo Moinho de Vento, conservando ainda a Mó. Foi utilizado também como estação telegráfica ainda em 1859.
Uma das residentes com quem falamos, mas já do outro lado do Monte, uma senhora com certa idade, referiu que era qualquer coisa muito antiga da tropa. E a senhora tem mesmo certa razão, pois ainda segundo Germano Silva, D. Pedro IV veio muitas vezes a este local olhar as suas linhas de defesa no Cerco do Porto, durante as Lutas Liberais.

Num pequeno terreno próximo do caminho que vai até ao velho Moínho (ou Mirante), olhamos a Cidade a nossos pés e em frente vêm-se meio difusos os Montes de Gondomar e Valongo.


Novas construções onde seriam os espaços antigos do Clube de Caçadores e da Fábrica de Salgueiros.

Ao fundo por entres os fios, Destaca-se no Marquês a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
Bem destacados o Castelo de Santa Catarina, agora unidade hoteleira, o Depósito das Águas e o edifício da Cooperativa dos Pedreiros, na Rua da Alegria.

Descemos a Rua do Monte e voltamos a subir, agora pela Rua da Senhora do Monte, não tão alta e menos íngreme. No final encontra-se a Rua da Glória que essa sim vai acabar num dos novos arruamentos que atravessam Antero de Quetal.
Li na página da Camara Municipal que tem a sua história ligada ao Cerco do Porto e copiei estes textos:
Na acção de 9 de Setembro de 1832, foi o fogo cruzado das baterias do Monte Pedral e da Glória que impediu uma esmagadora derrota das tropas constitucionais naquele reduto da «Montanha». ( Refere-se à bateria das Medalhas situada na «montanha» a poente da Estrada de Braga, entre o Monte Pedral e a actual Rua de Monsanto - nota também lida no mesmo local) . O mesmo aconteceu no dia 16, data em que há a lamentar o incêndio ateado pelos Liberais, que destruiu a bela casa e capela da Quinta do Covelo. No dia 5 de Julho de 1833 foram ainda as baterias da Glória, do Covelo e de D. Pedro IV que protegeram uma pequena força de 20 homens de infantaria 9, sob o comando do alferes Neto, e depois permitiram a reconquista do Monte Pedral, que estes tinham sido obrigados a abandonar. Escusado será dizer que a urbanização do local onde estava o forte da Glória, só muito mais tarde se processou, nascendo então a serventia de que traçamos brevemente a história. ( Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas )
Um olhar para sul e em baixo o que devem ter sido os terrenos da antiga
Quinta das Águas Férreas

Voltamos para trás, lá teve de ser, pela Rua Senhora do Monte e encontramos o final da Rua Antero de Quental.

No Largo, as traseiras do Quartel General, no Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República. Chamamos-lhe ainda Q.G mas já não o é há anos. Foi de tudo um pouco. A História diz que o Quartel de Santo Ovídio foi construído por Aviso Régio de 20 de Fevereiro de 1790 da Rainha D. Maria I para albergar o 2º Regimento de Infantaria do Porto, que fora criado em 1762 e instalado nos celeiros da Cordoaria. O autor do projecto do Quartel foi o Tenente-Coronel Engenheiro do Reino, Reinaldo Oudinot. As obras arrastaram-se até 1805-1806.
Apesar de ter sido construído de raiz como quartel para um regimento de infantaria, foi ocupado ao longo dos anos para outro tipo de tropas. Assim coexistiram, em diferentes épocas, tropas de infantaria com artilharia, cavalaria e engenharia, ou inclusive milícias durante o cerco do Porto – Batalhão de Milícias de Santo Ovídio-. Serviu em 1809 de aquartelamento temporário e posteriormente de prisão às tropas francesas, do General Soult, durante a 2ª invasão francesa.
Depois de muitas organizações e desorganizações, desde Setembro de 2006 é o Comando de Pessoal do Exército. Elementos colhidos na página do Exército.


Encostado à Rua Senhora do Monte está o Hospital da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Não encontrei, mas não quer dizer que não os hajam, elementos sobre a história do edifício.
No Largo da Lapa, onde começa a Rua de Antero de Quental, voltamos à direita para olharmos o Monte de Germalde de baixo para cima. Aí existe a nova Rua de Cervantes que sem qualquer referência específica no site da Camara e mesmo na net., presumo ser uma homenagem ao autor de D. Quixote. Ainda aqui está a velha Fonte da Lapa.

O Monte visto desde os antigos terrenos que presumo terem pertencido à Quinta das Águas Férreas.