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terça-feira, 14 de julho de 2015

222 - Penafiel em passeio rápido

Conviver é uma arte. Li algures há muito esta frase e concordo. Com amigos de longa data convivo sempre que a ocasião se proporciona, mas também temos os nossos dias mensais para o efeito.
Neste mês, aceitamos o passeio, almoço e pequena viagem cultural em Penafiel, proporcionados pelos camaradas Zé Cancela e Quim Peixoto.
Aqui ficam as minhas impressões.
 O percurso entre o Porto e Penafiel e depois a volta, foi feito de comboio. À chegada fiz a comparação das vistas e do parque de estacionamento entre Janeiro de 2012 (um convite dos mesmos amigos Cancela e Peixoto) e actualmente.
As árvores escondem agora a paisagem, há carros estacionados e as ervas-mato cresceram.

 Os convívios devem ter momentos reunidos à volta de uma mesa. Fomos levados até um pequeno restaurante no lugar de Rande - Milhundos.
Casa cheia em duas salas e mesa reservada para nós com muitas e boas surpresas culinárias que não couberam todas nas fotos.
Das entradas aos finalmentes que incluíram frutas e doces, passando por vinhos, cafés e digestivos, o serviço foi de tal maneira eficiente e rápido sem atafulhar a mesa, que gostaria de ver igual em todos os restaurantes. O "pessoal" da casa é composto por cozinheira, que infelizmente não conheci, e por um casal jovem. O preço foi de 11€ por amigo e só lamentamos o excesso de comida. 
Parabéns ao Regula.
Regressámos ao centro da Cidade de Penafiel para uma visita rápida que terminou no Museu.
O edifício setecentista pertencente ao Barão das Lages situado na Rua do Paço, recuperado e adaptado a Museu de Penafiel pelo arquitecto Fernando Távora - falecido em 2005 - e terminado pelo seu filho Bernardo, foi escola desde 1881 até 1968, data da fundação do Liceu de Penafiel.
Por aqui passaram entre outros os alunos Américo Monteiro de Aguiar mais conhecido como Padre Américo, o Homem da grande Obra da Casa do Gaiato; Abílio Miranda, farmaceutico, arqueólogo, etnógrafo, historiador; Leonardo Coimbra, professor, filósofo, político, grande combatente do analfabetismo. Quando ministro, fundou a Faculdade de Letras do Porto. Foi um dos maiores impulsionadores do Espiritismo em Portugal. 
Inaugurado em Março de 2009, foi considerado em 2010 o melhor Museu de Portugal. O seu site em 2012 foi considerado o melhor pela Associação Portuguesa de Museologia.
Ver www.museudepenafiel.com 
Pagamos pela visita 1€ , cada um, claro. Ciceroneada a preceito, embora na confusão de 14 amigos muitos com máquinas fotográficas, demora a visita cerca de 2 horas. 
Nas cinco salas temáticas podemos apreciar o acervo constituído por colecções de arqueologia, etnografia e história local que foram sendo reunidas desde finais do século XIX.
Na arqueologia um grande destaque para a exposição de peças descobertas no Castro do Monte Mozinho, o maior e mais importante da Península Ibérica.
Prometo nova visita mais calma.
Pelo correr da rua, casas de aspecto senhorial com os seus brasões.
O edifício do Museu visto de outro ângulo.
Penafiel não é pródigo em páginas oficiais na internet. Os sites que encontramos são pobres, incluindo o da Câmara Municipal. Bastante melhores os que referenciam o Concelho. 
Sobre este edifício, encontrei uma nota por casualidade. Li que é o antigo Paço Episcopal.
A Diocese de Penafiel é uma coisa mais ou menos fantasma, pois parece que nunca existiu. Isto é, existiu mas não existiu. Foi mais uma das "cenas" do Marquês de Pombal desta vez contra o Bispo do Porto. Mandou elevar a vila de Arrifana de Sousa a Cidade com o nome de Penafiel e criou a Diocese por bula do Papa Clemente XIV em 1 de Junho 1770.

Foi nomeado para prover o cargo episcopal, o Inquisidor-geral Português D. Frei Inácio de São Caetano, confessor da Princesa D. Maria. Quando esta subiu ao trono em 1777, conseguiu a renúncia do Frei e a abolição da diocese integrando-a novamente na do Porto.
Morreu em 1778 e, mais uma presunção minha, nunca chegou a Penafiel.
Sobre o edifício não há referências nem sequer sabemos se chegou a ser utilizado e com que fins. Mas parece que agora é uma escola de enfermagem retirada a Paredes há meia dúzia de anos. Encontrei este apontamento num jornal por casualidade. 

Percorrendo o quarteirão, encontramos o Largo da Misericórdia e a Praça do Município à direita. Em destaque um complexo a que chamam Igreja da Misericórdia.
A igreja é a parte mais importante do complexo. É um templo seiscentista criado para acomodar as exigências de uma irmandade em crescimento com a concessão de privilégios que o alvará régio de 1614 aprovou, tornando a instituição um potentado. Isto é o que depreendo lendo a página da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel. Ainda o lugar se chamava Arrifana de Sousa.
Sofreu várias alterações ao longo dos séculos.

A sua história esteve ligada à diocese durante os 7 ou 8 anos que existiu, pois foi a escolhida para funcionar como Sé do novo bispado, sob a invocação de São José e Santa Maria.
Cadeiral Barroco
Ladeando a Igreja, voltada para a Câmara Municipal, encontramos uma frontaria inacabada em estilo rocaille, com obras iniciadas em 1764 e interrompidas em 1769 que  foram pagas pelas esmolas a Nossa Senhora da Lapa cujo culto chegou a ter uma expressão significativa. 
Abriga o Museu de Arte Sacra. 
Tendo esmorecido o culto à Senhora da Lapa, encontraram a solução de construir uma capela a ela dedicada junto da fachada inacabada, mas agora dedicada a S. Cristóvão.
Em frente, a Câmara Municipal instalada num edifício do séc. XVIII, julgo que construído para este fim. Não tendo a certeza do que li mas presumo: foi pensada em 1741 mas construída em 1770 após a criação da Cidade de Penafiel.Teve a Cadeia no andar inferior.
Na frontaria os brasões com as armas de Portugal e o da Cidade. Por cima da porta uma dedicatória à Rainha D. Maria I que mandou fazer a obra e tem a data de 1782.

Repito que presumo estar correcto ao encaixar este texto no edifício. O que lêmos nem sempre é explícito.


Nas traseiras do complexo da Misericórdia, encontra-se uma das três Capelas que ainda existem recordando os Passos de Jesus. Esta parece que representa Simão Cirineu ajudando Cristo a carregar a cruz.

Um outro edifício brasonado
Curioso adossado entre edifícios, com passagem pedonal
Regressando ao Largo da Misericórdia.
A Quinta da Aveleda vista em boa velocidade.
Deixo aqui o agradecimentos aos camaradas e amigos que me proporcionaram a visita.
Sobre o Museu de Penafiel irei fazer um pps (espécie de vídeo) o mais informativo de que for capaz.
Alguns blogues ajudam a conhecer Penafiel. Um obrigado aos autores por me ajudarem.

domingo, 28 de junho de 2015

220 - Uma visita a Braga que foi uma lição

Após o passeio no verão passado que fiz com os meus queridos ex-camaradas e amigos do Bando do Café Progresso a Braga, concretamente ao Bom Jesus e ao Sameiro, foi-me oferecida uma viagem por Braga. A altura proporcionou-se e lá fui eu de abalada até à Cidade dos Arcebispos no Urbano que apanhei em São Bento. Viagem barata, ida e volta 3 euros e pouco.
Não faço ideia das vezes que fui a Braga. Tanto profissionalmente (saudades do Arminho e do "maluco" do Ermelando Sequeira e das suas subidas à Falperra pela esquerda no Golfe prego a fundo e em derrapagem, para me oferecer o almoço. Nunca fiquei "cagado" como ele me perguntava, mas não andaria longe...) como em passeios nas excursões de domingo de verão com grupos dos 20 amigos.
Mas agora foi diferente, embora o passeio fosse em tempo reduzido. Vamos indo e vamos escrevendo as minhas sensações.

Digamos que o passeio começou no Bom Jesus com um pic-nic excelente. Lembrei-me do Neca Rafael e do seu Fado Bom Jesus dedicado à sogra: E no Bom Jesus, maluco me pus ao vê-la comer. etc e tal.
Descendo para Braga uma placa chamou-me a atenção. Anotei o Castelo apenas por curiosidade
e fui fotografando o que vi.

Existe mesmo um edifício com nome de Castelo do Bom Jesus. É uma construção do séc. XVIII (?) atribuída a Ernesto Korrodi, arquitecto Suíço nascido em 1870 que veio para Portugal e se naturalizou. Chegou a ser professor em Braga onde deixou algumas obras. Mas esta não pode ter sido dele, pois não está referida na sua biografia. E se é do séc. XVIII  muito menos ainda.
Ainda bem que vou tendo alguma memória para ter dúvidas e confirmar factos.
Confusões, mas adiante.
O edifício e o parque anexo (que é lindíssimo visto no Google Eart) é actualmente um estabelecimento hoteleiro. A foto mostra o portão da entrada, agora fechado.
Vamos para a Cidade e ao Centro Histórico.
O Jardim de Santa Bárbara, um dos ex-libris deixa-me recordações. Junto ao Chafariz que se encontra ao centro (não posso publicar todas as fotos) fotografei os meus compadres Russel e Fernanda há cerca de 50 anos. Muito depois disso já por aqui andei e tinha uma ideia belíssima do Jardim.
Francamente fiquei desiludido ao vê-lo actualmente. Sem cor, sem flores com excepção de algumas roseiras. É certo que andavam a plantar flores, que florescerão daqui a 15-20 dias. Mas a arte de jardinagem não me pareceu nada com a que tinha na memória e vi em muitas fotos. Mas posso estar errado.
Ao fundo a Ala Medieval do Paço no Palácio dos Arcebispos construída nos séc. XIV e XV, com a aparência de uma fortificação.
Antes de prosseguir e para não me repetir, o aspecto da patine temporal de muitas das edificações religiosas, deixa-nos o aspecto de sujidade que só vi igual em edifícios em Milão à volta do Scala. Se nesta cidade se pode concluir (?) que será o efeito da poluição automóvel - a sujidade vai em degradê de baixo para cima - , não me parece que seja a mesma razão do Centro Histórico de Braga.
Sei que o granito se suja muito, mas será que a Cidade Rica do Clero anda a perder valores ?
Adiante.
 Chamo-lhe anexo ao Jardim de Santa Bárbara ao largo com edifícios de arquitectura impróprios (na minha opinião, claro) para um Centro Histórico. Num lago com repuxos admiro a coragem de terem colocado um Dragão de Azul  mais ou menos em tom Carolina numa Cidade vermelha por todos os lados.

Formando o Largo do Paço, duas Alas do Paço Bracarense que foram construídas ao longo dos séculos. Aqui fiquei irritado. A luz estava péssima para fotografar e os fios que atravessam o espaço não deixam escolher o melhor ângulo.
Inadvertidamente e por causa dos fios, soltei uma bacorada no momento em que passavam dois eclesiásticos. Olhei para a cara deles e pedi desculpa baixinho...
Na realidade e para quem gosta destas coisas, o conjunto é lindíssimo e cheio de pormenores, cada um com a sua história como vim a descobrir.

Mas porque será que não enterram os fios ? Custava muito ? Sei que é uma coisa muito comum os fios aéreos, mas que diabo, pensem nas imagens que ficam gravadas nas câmaras dos turistas. Em Braga como em todos os lugares de Portugal.
Nestes edifícios está a Reitoria da Universidade do Minho.

Uma confusão, para mim, de edifícios estão anexos à Sé de Braga. Claro que fui bem ciceroneado porque senão não entendia nada. Depois a pesquisa levou-me à conclusão que cada Arcebispo e o Cabido quiseram deixar a sua marca ao longo dos séculos resultando que da original Sé pouco existirá.
São Capelas e Igrejas edificadas, claustros extintos e claustros novos, arqueologia e muitas pedras à solta.
Se nos lembrarmos que aqui estiveram os Romanos que expulsaram os  Brácaros no ano 16 antes de Cristo, e depois capital política e intelectual do Reino dos Suevos, nem imagino as relíquias - não só de santos, que parece serem muitas e espalhadas pelas Igrejas e Capelas -, arqueológicas que devem existir e muito mais credíveis dando-nos a conhecer as civilizações que fizeram a história de Braga.
Mas não houve tempo para ver tudo que já foi descoberto.

 Presume-se (ai o IPPAR) que é uma absidíola do projecto inicial da Sé. A abóbada é coberta por uma pintura do séc. XV. Só a descobri por casualidade e não sei se é uma preciosidade mas sei que está em muito mau estado de conservação.
 Este conjunto mostra um personagem parecido com um macaco a colocar a Mitra a um dignitário da Igreja. Como em tudo o que se vê espalhado pelos pátios da Sé, não existe qualquer referência. Sejam de Capelas, das Pedras, do Pelourinho de Braga, da Absidíola etc. E são imensas peças de arqueologia. Pode não interessar para nada, mas eu gostava de ler e pronto. Umas coisas encontrei em pesquisas que por sorte me apareceram. Sobre este conjunto não encontrei nada.
Se algum visitante deste espaço souber o que representa, agradeço a informação.
Pelourinho de Braga. Segundo li no Igespar deverá ser do séc. XV. Foi colocado em vários locais da cidade até que chegou aqui o que resta dele.

 Casa dos Paivas . Edifício construído no séc. XVI com materiais de edificações anteriores. No final do séc. XIX a Câmara aluga-o para instalar o Hospício dos Expostos ou Casa da Roda.
Já foi sede de Junta de Freguesia, que pelos vistos está a vagar aos poucos.

 Um bonito edifício em S. João do Souto

Um pormenor da Casa dos Coimbras. 
Antes de mais uma divagação. Há coisas que não se entende porque ficam guardadas dentro de nós. Como já referi algumas vezes, trabalhei desde os 13 anos numa grande empresa gráfica não só do Porto como de Portugal. Uma das suas especialidades era a reprodução de postais ilustrados para muitos e vários fotógrafos editores de Portugal (Continental e Ilhas). Recordo-me de tantos, alguns conheci pessoalmente e talvez venha deles o meu bichinho pela fotografia.
Nos anos 60 do século passado, um dos editores era a Livraria Cruz, de Braga. Uma das séries de postais incluía a Capela e Casa dos Coimbras, imagem que nunca esqueci. Ao passar agora por elas bastou um relance para reconhecer as edificações.
Mas a história conheci-a agora também.
Presume o Ippar (ai o Ippar ou Igespar como lhe queiram chamar...) que a Casa é uma edificação do séc. XV tendo sido adquirida em 1505 por D. João de Coimbra, Provisor da Mitra de Braga. Tem uma Capela anexa evocando Nossa Senhora da Conceição que foi construída em 1525.
Por causa da urbanização do local, demoliram em 1906 o palacete, guardaram os elementos arquitectónicos Manuelinos e reconstruíram-no junto à Capela do outro lado da Rua, chamemos-lhe assim, cujas obras terminaram em 1931.
O conjunto é Monumento Nacional.

A Casa anterior à demolição.

O Conjunto edificado. À esquerda é a Igreja de S. João do Souto, construída no séc. XVIII

Igreja do Hospital ou Igreja de S. Marcos. Construída no séc. XVIII sob risco do arquitecto Carlos Amarante (Braga, 30.10.1748 - Porto, 22.Janeiro.1815).
Reparem no edifício do lado esquerdo.

Vizinha, a Igreja de Santa Cruz
Templo construído no século XVII, mas a demora nas obras  arruinaram-no prematuramente. Foi demolido com excepção da Fachada. As obras foram concluídas em 1739.

Gostando Braga de se classificar como a Capital do Barroco como podem ter permitido nesta Praça do lado esquerdo, edifícios de aspecto horrível de fachadas em cimento branco e vidro. Fotografei-os mas a luz forte incidindo nos brancos e espelhos deu uma borrada.
Mas quem sou eu...com a minha mania de gostar de calhaus.


Uma recordação para os amigos da minha idade.
Desde 1948, o Cardoso da Saudade era um especialista em confecção de samarras, se bem me lembro.
Na fábrica antiga, não sei se existe uma nova, foram encontrados importantes elementos arqueológicos.

Em época de S. João, Braga ornamenta-se como terrinha de província no largo do Município. Desculpem amigos Bracarenses, mas é a minha opinião para as Bandeirinhas nesta bela Praça.

Lá vamos nós a caminho do antigo Campo da Vinha. Aquele enorme espaço onde paravam as camionetas das excursões domingueiras e que foi lugar de feira semanal.
Chama-nos a atenção uma escultura redonda que parece ser em alumínio. Voltada para a Praça Conde Agrolongo - Campo da Vinha - a imagem de Salgado Zenha.
Em pesquisa posterior li que se chama Silo da Memória do escultor bracarense Alberto Vieira e é uma homenagem evocativa dos 40 anos do 25 de Abril e simultâneamente a Salgado Zenha.
Se gosto ou não do "zigurate sumério" é coisa que não interessa aos bracarenses.
A foto inferior direita mostra-nos mais uma arquitectura esquisita no centro de uma zona ajardinada e pedonal que é o antigo Campo da Vinha; à esquerda o Convento do Salvador do séc. XVII e o novo edifício de inícios do século passado que abrigou o Asilo de Mendicidade e hoje é um Lar que tem o nome do seu fundador, o Conde de Agrolongo.

Campo da Vinha em Dia de Feira
O ângulo desta foto é quase coincidente com a minha.

Igreja e Convento do Pópulo, construído desde os finais do séc. XVI até ao XIX.  A partir de 1841 as instalações do Convento acolhem o Regimento de Infantaria 8; e Estátua do Marechal Gomes da Costa.
 Deste local partiram as forças comandadas por Gomes da Costa em 28 Maio de 1926  a caminho de Lisboa tomando o Governo. Acontece que o Carmona achou que ele era um fraco, exilou-o nos Açores e chamou-lhe Marechal. A partir daqui, o Salazar em 1928 regressa ao Ministério das Finanças até 1932, ele que tinha sido deposto pelo Gomes da Costa em 1926. Até ao Estado Novo foi sempre a andar. O resto da história é bem conhecida.
Foi o local onde se principiaram a dar os primeiros pontapés na bola em Braga e também usado para outros desportos. 

Neste pobre escrito quis apenas deixar a minha opinião sobre o que fui vendo e associando a algumas recordações antigas. Na realidade não conhecia Braga, nem conheço, mas já foi uma grande ajuda de S. Meneses a quem reconhecidamente estou muito grato.

Mais detalhado é um trabalho em pps, onde mostro alguns monumentos e um pouco de história, naturalmente pesquisada em vários sites.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

195 - Aveiro

Há pouco tempo, na companhia de bons amigos, antigos camaradas de armas, tive o prazer de revisitar a bela Cidade de Aveiro.
A primeira vez que a visitei muito ao de leve, foi nos princípios dos anos 60 do século passado, num Primeiro de Maio, durante uma confraternização de trabalhadores (como agora se diz) da empresa Artistas Reunidos. O almoço foi no Restaurante Galo d'Ouro. Não sei se ainda existe. Coisas que nunca esquecemos.
Quem chega actualmente a Aveiro por comboio desembarca numa estação nova. Mas tem de reparar forçosamente na velha estação.
Poucos portugueses - e quem sabe, estrangeiros - repararam na revista norte-americana Travel &Leisure uma publicação elegendo a Estação de S. Bento, no Porto, uma das mais bonitas do mundo ferroviário. Creio que a 12ª mais bonita.
Para mim, existem no meu-nosso Portugal estações de caminho de ferro belíssimas. Conheço algumas para falar de "cátedra".

Aveiro possui uma dessas belas estações portuguesas, com cerca de 150 anos. A sua arquitectura é característica das casas portuguesas, revestida de azulejos e grande número de painéis reproduzindo motivos regionais: Paisagens da Ria, Vindimas na Bairrada, o Hotel Palace do Buçaco, trechos da Linha do Vouga, retratos de Pescadores e Tricanas. A maioria são da Fábrica da Fonte Nova de 1916, Fábrica esta que presumo ter sido fundada em 1882 e encerrada em 1937 destruída por um violento incêndio. Mas já há anos que não laborava.

Deixo aqui um apelo à CP, REFER, CÂMARA MUNICIPAL. Ou a quem manda nisto tudo. Não gostei do aspecto desleixado e meio ruinoso da Estação. Não merece este desleixo.

Saindo da Estação e logo no início da actual Avenida Dr. Lourenço Peixinho, deparamos com um belo edifício, que tinha de ser estragado no seu aspecto visual pelo mamarracho que lhe implantaram ao lado.
Belos edifícios não faltam em Aveiro. Mas não vou publicar todos os que fotografei, pois quero que os meus amigos os vejam por si quando visitarem esta linda cidade. Basta estar atento ao que nos rodeia.

O edifício de uma antiga Escola que já foi também a Capitania de Aveiro, as águas do Canal Central passam-lhe por baixo e ao lado. A partir daqui é o Canal do Côjo.

Por muito que bisbilhotemos na net - infelizmente Aveiro está pobremente referenciada e descrita - não posso confirmar se as minhas imagens se referem ao mesmo edifício da foto antiga. Sou um maluquinho por fotos antigas e tento imaginar aquelas épocas comparando-as com a actualidade. Erro ou não, vale a pena olhar o actual Hotel e passar pelas arcadas e ver os seus comércios, olhar os edifícios e o chão. É a calçada chamada portuguesa em toda a sua beleza e que Aveiro nos deixa pisar.

É um saltinho até ao Mercado do Peixe construído em 1938 junto ao Cais dos Botirões. A foto antiga, no canto direito superior, li que é da época anterior à construção do Mercado. No entanto podemos ver a parte superior do Chafariz, cuja data da sua construção desconheço.
Nunca percam, meus amigos, a visita ao Mercado e à  zona envolvente.

Vamos para os canais de Aveiro. Este é o Central. Na minha opinião atravessa a Cidade. Mas tem três toponímias.  Aos poucos lá iremos.
Mas têm de entrar também no Moliceiro para os percorrer. Um custo de 7 € bem empregues.

Eu e os amigos tomamos o Moliceiro no Jardim do Rocio. Local que já não é da Feira de Março. Não visitamos o lado esquerdo, mas do lado direito são dignos de visita os edifícios Arte Nova. Num está instalado o Museu da Cidade e noutro os Serviços de Turismo. Que não tem Guias de informação turística em Português.
Para o caso não interessa nada.

Vou falar (escrever) mais ou menos de memória e nas informações que recebemos do nosso cicerone. Ao fundo do Canal Central, que se chama Canal das Pirâmides, salvo erro, (vai do Jardim do Rocio até à Comporta-Pirâmides) e antigamente ligava directamente à Ria, existem umas comportas. Foram construídas não sei quando para nivelar a água dos Canais, evitando assim uma possível inundação como uma que aconteceu que quási arrasou a cidade baixa.
Na foto direita superior pode-se ver uma das duas pirâmides e um montinho de sal.
Nesta foto, cuja data desconheço, podemos ver o Canal a que chamam das Pirâmides ainda ligado à Ria. Os montinhos brancos são de sal. As Pirâmides presumo que seriam como uma espécie de limite. Não consegui encontrar qualquer referência a elas. Mas li que  o Canal das Pirâmides foi construído no séc. XIX. Apenas isto é o que posso informar.
Se os meus queridos leitores e visualizadores deste espaço, que muito prezo,  repararem, à direita na foto, ao longo do muro, aparece uma espécie de triângulo pintado a branco. É a entrada do Canal de S. Roque. Lá iremos.

Salinas com a cidade em fundo. Que foto excepcional.

Agora vamos entrar no Canal de S. Roque e o nosso Cicerone assinala a passagem com toque num búzio. É como uma espécie de sinal de trânsito. Se é para turista ver e ouvir, não interessa nada.

O Canal de S. Roque teve ao longo das suas margens, salinas, cais de descarga de sal, armazéns, casas de Pescadores e Marenotos e de gentes ligadas ao trabalho na Ria.
Não devemos esquecer que o moliço era uma das riquezas para adubo das terras. E esta gente foi lavradora também. E o moliço era apanhado na Ria e transportado pelos moliceiros.
 Hoje já não há salinas aqui, mas um parque municipal. Ainda há alguns armazéns, as casas foram requalificadas e há restaurantes.
O canal também foi requalificado e é essencialmente uma via turística.
A Ponte dos Namorados, chamada também de Carcavelos , foi uma estrutura em madeira que caiu em 9 de Setembro de 1942 quando estava apinhada de gente para ver uma corrida de bateiras integrada nas Festas de Nossa Senhora das Febres.
Foi reconstruída em betão.

A partir do edifício da antiga Capitania de Aveiro, entramos no Canal do Côjo. Chamou-se antigamente Ribeira das Azenhas devido à quantidade destes engenhos que aqui existiam. 
A indústria Cerâmica na Região é muito antiga. Presume-se iniciada no séc. X antes de Cristo. Depois foram os Celtas-Lusitanos que a continuaram até que vieram os Romanos e a desenvolveram.
No Canal do Côjo existiu uma fábrica cerâmica fundada em 1775, a qual tomou o nome do Canal. Muitas voltas deu a vida e várias fábricas foram fundadas. No final do Canal, apareceu em 1896 a fábrica Jerónimo Pereira Campos e dois filhos. Também um ramal da linha férrea passava por aqui.
As pontes foram alteradas e levantadas para os barcos moliceiros de turismo puderem passar pelo Canal, que também foi alargado para o mesmo efeito.
As margens foram requalificadas e há um novo parque urbano.

 Aveiro viu nascer muitos artistas. Muitos outros estiveram e estão a ela ligados. Vou destacar o Zé Penicheiro que conheci pessoalmente há muitos, muitos anos. Embora nascido em Tábua, a meninice passou-a na Figueira da Foz. Em Aveiro fundou o Círculo de Artes Plásticas O Aveiro/ Arte. Os dois postais-caricaturas são dele. Vejam a sua biografia em http://anexosjopf.blogspot.pt/2012/04/ze-penicheiro.html
Quanto às Tricanas, elas existem (ou exisitiram) nas terras da orla marítima do norte. Senhoras elegantes, com seu xaile negro e porte esbelto. Muitas até seriam de origem humilde, filhas de pescadores e de lavradores que pela sua beleza inflamavam os corações dos homens. Uma ou outra chegou a ser apresentada no Paço Real. Mas que sei eu sobre a Tricana, pois não consegui saber a origem verdadeira ? Quanto muito a tricana seria o vestuário da mulher do litoral que foi evoluindo a partir de 1870.

Algumas recordações tenho de Aveiro, mais pelos seus petiscos. A Sopa do Mar no Centenário era um regalo. E os Ovos Moles humm...
Mas não sendo rigorosamente de Aveiro são da sua região e da Ria que tenho as melhores recordações ligadas sobretudo às pescarias. Uma vezes no Triângulo, que para lá chegar tínhamos de tomar o bote do Mestre Tempestade (ou seria Ventania ? Desde essa altura nunca acertei com o apelido do senhor, que já tinha perto de oitenta anos)  , cuja travessia, ida e vinda custava 10 tostões (1 escudo); e onde apanhávamos os maiores mexilhões que já vi; ora em S. Jacinto, ora na Torreira.

No entanto, as mais célebres eram realizadas a bordo de um moliceiro que alugávamos. Sempre no dia 10 de Junho. A primeira foi feita em 1969 ainda eu não fazia parte deste grupo. Estava longe, noutras terras alagadiças. Em 1970 tive o primeiro convite. O patrão do moliceiro dias depois emigrava para a América. Mas deixou um descente, o Sr. António, que durante uns 4 ou 5 anos foi o nosso mestre. Numa das fotos aparece o filho, uma boa companhia e já um pequeno mestre.

O farnel era imenso, composto de sardinhas e fêveras de porco. As primeiras eram compradas no mercado da Murtosa, logo pela manhã bem cedo. Salgadas no barco, ficavam de estalo. As segundas, iam preparadas de casa pelo mestre Germano Silva. Tudo grelhado no carvão, a bordo. Os garrafões de vinho e as caixas de cervejas eram amarradas ao barco e lançadas na água da ria para refrescar. Não faltava o café feito em cafeteira e coado naqueles sacos que muitos de nós-vós ainda se devem lembrar. E claro o Bagacinho, normalmente ofertado pelo Zé Brito (que a terra lhe seja leve) fabricado nas suas propriedades de Santa Marta de Portuzelo. E ía logo pela goela abaixo de manhãzinha para esquentar. Sim, porque o frio e a humidade da Ria são de arrepiar.
Para o final da tarde estavam reservados uns chouriços assados no dito bagaço, num dos pinhais já a chegar a Espinho.

Embarcávamos no bico da Murtosa. E quando desembarcávamos logo fazíamos a distribuição do pescado. Sarguetas, douradas, enguias, pequenos robalos, um ou outro safio. Caranguejos que apanhávamos com uma rede circular engodado com cabeças de sardinhas eram em quantidades industriais. Só escolhíamos os maiores, o resto voltava para a ria. 
Quando a maré não dava, (para a pescaria) fazíamos passeios pela ria de vela erguida, cujo vento produzia uma velocidade impressionante. Então dava para atracar ao cais da Pousada da Torreira para tomar um café ou uma loirinha.

Vi umas fotos recentes na página da Murtosa do Bico e como aquilo está lindo. 

Gostava de ter o dom de exprimir sucintamente o que é Aveiro e a Ria. Mas isso não é para todos, muito menos para mim. Vejam este pequeno vídeo cujo link vai a seguir

http://videos.sapo.pt/7J7RVS3TtUBkNFdF5ZAj