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terça-feira, 1 de setembro de 2015

225 - A Rua das Flores

Já muito divulguei a Rua das Flores neste meu espaço. Aos queridos visitantes interessados é só procurar no navegador do blogue Rua das Flores. A sua história está na postagem 19.
Passaram-se cinco anos e a rua, turisticamente falando, está irreconhecível. Não sei se se deve ao anterior Presidente da Câmara, Rui Rio, se se deve ao actual, Rui Moreira, que embora por pouco tempo no anterior "reinado" do Rio, andou a mexer no Porto Vivo.
Esta viagem que aconselho, foi feita na companhia do meu sobrinho, também Portuense de Gema, que por razões diversas não tem passeado pelo nosso Porto.

Desde a Praça Almeida Garrett onde a Rua acaba (zona da Estação Ferroviária de S. Bento) o comércio que era tradicional, principalmente de têxteis e ourivesarias, foi sendo substituído por bares e barzinhos onde os turistas comem saladas de atum, hamburgueres, bacalhau e outros pratos ligeiros no meio de uma confusão danada.

A ex-famosa Ourivesaria Aliança não fugiu às mudanças. O rés-do-chão está transformado num salão de chá, requintado, glamoroso, charmoso, aconchegante, luxuoso, etc. e tal. Utilizem, caros leitores os adjectivos que lhes derem mais jeito mas só depois de espreitaram a casa.  Os pisos superiores, segundo leio, são galerias com exposições de desenhadores de arte e butiques (deverá ler e escrever-se boutiques em português ?) de moda.
Por altura do Ano Novo, na companhia do meu querido amigo Peixoto, espreitamos e estivemos na eminência de entrar. Mas era hora de Tripas e não as haviam na ementa. Quem ficou a ganhar foi o Viseu na Rua da Madeira.

Passei nesta rua há menos de dois anos com o meu amigo Júlio, esposa e filho (Paulistas de gema) já não me lembro porque razão, mas o destino era a Ribeira. A rua ainda estava em obras e ele admirava-se da profundidade e do tamanho dos alicerces em pedra das casas, que estavam bem visíveis. Ela, a D. Paula, resolveu gastar uns troquinhos em produtos aurifícios made in Porto.
Ao correr do teclado informo que a casa por ela escolhida está incluída nos meus roteiros das Casas Comerciais do Porto.

Continuando a andança, nota-se que a rua ficou liberta de esplanadas, que não de bares e restaurantes. Mas muitos prédios continuam em ruínas, as suas fachadas impróprias nesta nova Rua IN da Cidade.

A aproximação ao Largo de S. Domingos foi também remodelado. E as obras dos edifícios que o compõem parecem terminados. Pelo menos exteriormente.

Estávamos em Junho 2010

No Largo pròpriamente dito, a Papelaria Araújo & Sobrinho é um novo Hotel. Com esplanada de apoio a um bar com um nome interessante que esqueci.

 Olhando para trás. Hoje
Não entendo porque sendo uma zona pedonal existem carros por aqui. Gente incivilizada.

Junho de 2010

A Santa Casa da Misericórdia tem anexo um Museu à Igreja aberto ao público. Como era segunda-feira estavam ambos fechados. Alguns turistas mostravam uma cara de enfado. Mas os Museus também têm de descansar e escolheram o dia de segunda-feira para o efeito.
Uma das coisas boas para a construção cívil é que a Santa Casa tem sempre os seus edifícios em obras.

Junho 2010
Não faço ideia como foi feita a promoção da Rua, mas que funciona não há dúvidas. Pena o comércio - afora o dos copos - estar parado ou quase.
Com uma ou outra excepção de um fotógrafo, as varandas em ferro tão tradiccionais na Cidade,  os azulejos das fachadas, as pedras e elementos nelas esculpidos, passam ao lado dos turistas.

 O novo Hotel nas antigas instalações da Papelaria.
Há 5 anos atrás
Nunca é demais mostrar esta antiquíssima foto que nos diz como eram as frontarias da antiga Papelaria. Nela se vêm a primitiva fonte, já há uns anos colocada nos Jardins do Palacete de Nova Sintra onde estão instalados os Serviços Municipais de Águas, 
bem como a imagem de Santa Catarina que estava guardada na Papelaria. Ai deles, os do Hotel, se a esconderam.

Depois do Largo de S. Domingos - podem ler a sua história no poste 20 - é só seguir para o Infante, a caminho da Ribeira. Neste caso pela Rua do Dr. Sousa Viterbo, que por ser pedonal tem candeeiros na rua.

É um passeio pedonal interessante desde S. Bento até ao Infante. Sem problemas de carros. Espero que o desfrutem numa próxima visita.

domingo, 28 de dezembro de 2014

202 - As mentiras dos jornais

De dentes afiados, esfregando as mãos e o resto cheio de frio, levantou-se um senhor de madrugada pensando que iria ter um dia feliz e contente. Eu.

Tinha sido anunciado na véspera do Dia de Natal no que já foi um grande jornal da Cidade, o J.N, que o Palácio da Bolsa, pertença da Senhora Dona Associação Comercial do Porto, abriria magnanimamente a sua residência para a população a puder visitar livremente na data do seu aniversário. Hoje, dia 27.12.2014.

Já esquecido do último anúncio flop também através de um Jornal , creio que no Público, da subida à Torre dos Clérigos por elevador construído para esse fim - que afinal não funciona, nem a Torre ainda está livre de obras interiores - acreditou este vosso amigo mais uma vez num jornal . E levou atrás o camarada Jorge Peixoto.

Pensamos que seria hoje o dia de uma visita à borla ao templo sagrado do associativismo do comércio e afins da mui nobre, invicta e sempre leal Cidade do Porto.

Programada a visita para a hora da refeição do meio-dia, pensando na possível menor afluência do Povo, quando para nossa espanto ficamos a saber pelo portas que as visitas teriam de ser marcadas com antecedência. Há muito que estavam esgotadas.

Eram precisamente 12h40m. Encontramos duas pessoas na bilheteira, mais duas ou três que deveriam estar com a mesma cara de burrinhos-crentes como nós que acreditam em tudo que lêem. Digo-escrevo que deveriam estar porque não consegui ver a minha, embora imaginando-a.

Vimos através do vidro, atrás do cordão divisória e do portas, um grupo talvez de 10 visitantes em ordem unida no Pátio das Nações seguindo o ou a cicerone. Como as visitas contínuas, segundo o dito jornal, terminavam às 17 horas, estranhamos tanta-pouca gente por ali. Mas quem sabe, o horário contínuo tenha diferentes interpretações, ou que cada circuito demore (demorasse, demoraria) umas 4 horas. Ou talvez mais tarde chegassem outros inscritos. Sabe-se lá. Isto de gente fina a visitar palácios é outra coisa...

Ficamos a rogar ao Infante que não aponte apenas mas mande deitar ao mar quem escrevinha artigos nos jornais sem os complementar com informações precisas. Posto isto, lá demos às de vila-diogo.

E fomos procurar onde comer.

Se o dia estava mau, piorou. Conta-se breve. Porque estávamos a uns 300 metros a subir, combinamos ir ao Olho, porque ao sábado também há tripas. Olho, fechado. Passamos pela Mercearia das Flores, fechada. Pensamos na Adega do Marco, mas como era mais a subir, optamos para ir ao Quim. Fechado. Pelo caminho olhamos o Serrano, fechado. Finalmente, o Viseu estava aberto.
Boas Tripas, má vitela - diria vaca das antigas - assada. A pomada da casa de S. João da Pesqueira - seria ? - bebeu-se.
Despedidas, infelizmente por más notícias para o Peixoto e lá fui eu fazendo umas fotos para tentar ganhar o dia.

Um pouco de paciência não faz mal a ninguém, mesmo com uma multidão na baixa. Incluindo imensidões de turistas.
Para a posteridade um dos cavalos da Praça de D. João I. Mais o másculo e a gaivota

 A Rua de Santa Catarina e os seus artistas...
 ...e a multidão para a Batalha...
...e para o Marquês.

Caros amigos, costumamos dizer não há duas sem três. Não sei bem o que isso quer dizer, mas fui enganado nestes últimos 15 dias duas vezes por causa dos jornais. Não acreditem em tudo o que neles se escreve. Devem ser estagiários a quem entregam um gravador, depois transcrevem o que ficou registado . A seguir falta o chefe, o editor, um amigo, que lhes ensine como dever, antes de mandarem para a redacção um artigo, terem de o confirmar para bem informar.
Esta era a escola dos velhos tempos. Mas os jornalistas estão em fase de extinção. Hoje, pouco se importam se o público lê jornais seja em papel seja na internete; as pequenas ou as grandes notícias. Desde que tenham um rótulo a negro em destaque, mesmo que o título não corresponda à notícia verdadeira. Se é que ainda há notícias verdadeiras.

Para o caso não interessa nada. Nem a mim que não vou cair na terceira esparrela jornalística. Penso eu de que...


quinta-feira, 3 de abril de 2014

185 - A Cidade do Porto e o Carro Eléctrico

Na saga dos meus passeios por Massarelos, lembrei-me do Carro Eléctrico. Já em tempos fiz um trabalho que distribui pelos amigos e correspondentes, mas sabe-me bem voltar a  recordar tempos antigos e da utilização deste transporte. E juntando as coisas, entre recordações e história, resolvi dedicar umas linhas ao "Bicho".
Há uns 6 anos e tal, fui visitar o Museu do Eléctrico em Massarelos. Ainda não tinha entrado na "melhor idade" mas já me fazia passar por ela. Vícios antigos. Então a entrada era grátis para os jovens-velhos. Nem me pediram a identificação. A coisa piou mais fino, quando poucos anos depois, convidei o amigo Jorge Peixoto para uma visita e ambos tínhamos alcançado a dita cuja melhor idade. Já não havia descontos e o custo do bilhete de entrada eram 4 euros. Ora, para ver os eléctricos vejo-os na rua e é de borla, disse o Peixoto zangado. Eu também, claro.
Como uma aparição, chegou junto aos dois "vampiros" que nos queriam sugar os euros, uma senhora que além de permitir a entrada, nos acompanhou na visita, durante algum tempo.
Esta história dá para começar com a dos transportes que hão-de ser "eléctricos", mas primeiro tivemos o carroção, puxado por uma junta de bois. E o nosso querido Camilo lá mandou uma farpa à Eça.

Entre politiquice e concessões, em 15 de Maio de 1872 a Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos inaugura um serviço de Transportes e Passageiros. Com serviços de Socorro, que presumo seriam de manutenção. Francamente, não imagino se os serviços de socorro incluíam levar a palha aos burros. Desculpem a brincadeira, meus amigos e amigas, mas quási a século e meio de distância não consigo imaginar o socorro com uma "máquina" destas. Mas naquele tempo parece que tudo se previa.
Adiante e vamos ao carro de socorro, que se escrevia SOCCORO... Se me explicarem porquê, agradeço.
E com um cartolinha no alto. Ver a imagem abaixo.

Em 27 de Maio de 1873, a Câmara atribui a concessão de se estabelecer o caminho de ferro pelo Sistema Americano pelas ruas da cidade. Surgiu uma segunda empresa com o nome Companhia Carris de Ferro do Porto
Em 27 de Junho de 1878, a Câmara autoriza provisoriamente a tracção a vapor às duas companhias. A companhia do Carril Americano, ficou a ser conhecida pela Companhia de Baixo com central no Ouro.
O percurso passou a ser desde Miragaia (da Porta Nobre ou Nova) até à Foz, prolongada até Matosinhos. A foto superior direita mostra-nos uma locomotiva a vapor, provavelmente entre 1878 e 1880.
A Remise da Boavista, demolida na década de 90 do século passado 
e em cujos terrenos se edificou a Casa da Música.
A Companhia Carris de Ferro, conhecida com a Companhia de Cima, tinha as suas instalações na Boavista. A primeira linha foi entre a Praça de Carlos Alberto até Cadouços, próximo da Foz do Douro, embora a linha tenha sido aumentada
Na Rua de Cadouços, creio que ainda existe um pequeno edifício onde esteve instalada a estação terminal. 
Ambas as fotos, tanto em Massarelos como na Boavista não têm nada a ver com esse período histórico. Mas são como uma espécie de orientação para os meus queridos leitores e leitoras desde aquela época até aos nossos dias.
Em 1893 as duas companhias fundiram-se

O edifício das antigas instalações de Massarelos-Ouro inauguradas em 1915. Para aqui vinha o carvão das Minas de S. Pedro da Cova para a produção da energia termo-eléctrica. Actualmente no edifício da esquerda está o Museu do Carro Eléctrico. No da direita é a recolha.

A primeira linha de tracção eléctrica da Península Ibérica surgiu no Porto em 1895. Fazia a ligação de Massarelos ao Carmo pela Rua da Restauração. Nas fotos a mesma linha actualmente.

Por muitas razões que não vêm ao caso, a Câmara do Porto toma conta da Carris, criando os Serviços de Transportes Colectivos do Porto e que desde 1994 passaram a Sociedade em vez de Serviços. Deu no que deu.
A rede tem a sua maior expansão no ano de 1958 e servia, para além do Porto, alguns lugares dos concelhos de Gondomar, Valongo, Gaia, Matosinhos, Maia, num total de 83.897 quilómetros.
Possuíam os Serviços 192 carros motores, 20 carros atrelados e 31 zorras motoras.

Início-términus da Linha 1 - Infante-Passeio Alegre.
O Eléctrico e a Igreja do Convento de S. Francisco. 
Foto obtida ainda com a minha máquina de rolo
Progressivamente o eléctrico foi sendo substituído por autocarros, posteriormente também por trólei-carros (levantou-se nesse período o problema de que a rede de Gaia dos carros eléctricos estaria a causar efeitos negativos na Ponte D. Luíz) de um e dois pisos mas pouco tempo, relativamente, duraram, regressando os autocarros às linhas que serviam tanto os eléctricos como os posteriores autocarros.
Espero que percebam bem as substituições: Eléctricos, autocarros, trólei-carros, autocarros.Até aos dias de hoje. 
As últimas linhas de eléctricos a desaparecer foram três: 1, Infante-Matosinhos; 18, Boavista-Carmo via marginal; 19, Boavista-Matosinhos. Aconteceu na última metade da década de 80.

Por altura da preparação do Porto, Capital Europeia da Cultura 2001, foram projectadas reaberturas de algumas linhas, até para reduzir o transito automóvel no Centro da Cidade. Essencialmente a parte turística era tida em conta. Tudo corria bem, o Porto pensava e a obra fêz-se, até Rui Rio se tornar Presidente da Câmara.
Abriram-se apenas duas linhas: Infante-Passeio Alegre e Carmo-Massarelos. Por muita pressão, Rui Rio concedeu a abrir uma nova linha: Carmo-Batalha, o que aconteceu em Setembro de 2007, se a memória não me falha. Encheu-se de vaidade pelo feito. E a pensar no Metro a passar pela sua porta. Até hoje é tudo 00000.

A antiga e a actual Alameda de Massarelos, hoje Alameda Basílio Teles. Muito antes teve a topónimo de Alameda dos Banhos de Massarelos.

O Eléctrico e a Cidade, actualmente
A linha Carmo-Batalha subindo a Rua 31 de Janeiro. A foto superior esquerda é do dia da inauguração.

 Miragaia Hoje e há uns 60 anos.
Actual Linha Infante-Passeio Alegre

Centro da Cidade. Linha Carmo-Batalha. Os dois extremos nas fotos superiores. Em baixo passagens pela Praça D. João I e Avenida dos Aliados.


Linha Infante-Passeio Alegre, junto à Cantareira. Pela marginal, uma viagem espectacular a não perder.

 Entre a Cantareira e o Jardim do Cálem nas fotos superiores; A inferior esquerda é junto à Ponte da  Arrábida. A inferior direita é a passagem pela Rua de Santa Catarina.

A Praça da Batalha. Ao fundo o Teatro Nacional de S. João, na altura da foto inferior, anunciando um filme de Orson Weles, creio que o Estrangeiro. Em cena uma peça d'Os Comediantes de Lisboa, empresa dos irmãos António Lopes Ribeiro-Francisco Ribeiro (o Ribeirinho) que durou de 1944 a 1950.

Os Gunas. Nome que damos no Porto aos penduras dos eléctricos. Nunca fui guna. Tinha muito medo, principalmente de uma possível tareia em casa se se soubesse. Mas admirava-os, especialmente os de Serpa Pinto que apanhavam o 20 ou o 21 por alturas do Quartel até à Ramada Alta. Antes de entrarem no largo, os que faziam o percurso no estribo da direita, encolhiam-se de tal forma para não baterem com o corpo nas casas que de tão rentes à linha, eram um perigo.
Os cobradores (ou picas, assim chamados no nosso calão) tinham comportamentos diferentes. Uns ficavam na plataforma traseira a enxotar a rapaziada. Outros iam para o meio do eléctrico a fingir que não viam. Nos carros onde o seu lugar era sentado, abriam a portinhola ou batiam com ela para assustar. Mas nunca vi nenhum a agredir qualquer guna. E havia muitos...até já meios homens.
A foto da direita é na Rua José Falcão. A da esquerda está exposta no Museu do Carro Eléctrico e foi tirada, com certeza, em pose. O local será à saída de Entreparedes para a Batalha. Era o 20 ou o 21. Lembro-me daquelas grades junto ao Teatro.

A chamada Foz, para nós portuenses, vai da Foz do Douro (a famosa e perigosa Barra do Douro) até ao Castelo do Queijo e que liga a Matosinhos. São duas as Avenidas que unem este espaço. A do Brasil (foto superior) e a de Montevideu. Na foto inferior o local chamar-se-ia Estrada de Carreiros.Ou já Rua do Castelo do Queijo, actual Avenida de Montevideu,
Uma das praias é a do Molhe que frequentei desde miúdo. Ia com o pai ao sábado à tarde, ou passar um domingo juntamente com a mãe. Apanhávamos o 20 ou 21 até à Boavista e depois, se não erro era o 18 daqui até ao Molhe. Ou também o 2, mas não me lembro de alguma vez ter viajado no "Pipi".

As casualidades acontecem. Nas pesquisas que vou fazendo, encontro imagens magníficas de outros tempos. 60 anos depois, com os companheiros Peixoto e Quintino, no morro da Santa Catarina em Lordelo, faço um boneco parecido em NOV2011, mostrando o actual Largo e Jardim do Calem, que já foi Largo do Ouro. Na velha imagem aparece-nos o inconfundível Pipi. Na nova, lá vai o 1 a caminho do Passeio Alegre. E da Cantareira celebrada pelo Xico Fininho, mais a barra do Douro.

Imagens feitas de dentro do eléctrico da Linha 1-Infante-Passeio Alegre. É a marginal do Douro. A inferior direita já tinha saído no Infante mas foi feita por causa dos restos da neblina.
As fotos não estão colocadas por ordem de passagem.

Quanto estudei na Gomes e no Infante, na Praça da Galiza apanhar o 500 para o Marquês (ou vice-versa) era um luxo. Desenhado e construído nas oficinas dos STCP entre 1951 e 52 foi um protótipo apenas. Raramente saía para circular. Cheio de inovações técnicas e comodidade para passageiros e guarda-freio, nunca foi levado a sério.
O 2 e o 2 com /, (esta pequena diferença do / - traço - indicava o percurso) é o famoso Pipi. Construíram-se uma série não sei de quantos veículos desenhados e construídos também nas oficinas dos Serviços.
Para a rapaziada do meu tempo, o apelido Pipi derivava de transportar o pessoal da Foz, gente de elite. Os Pipis. Mas o nome Pipi original foi dado pelos Serviços.
Pipi é o mesmo que vaidoso, peneirento, brilhantina, dá para tudo. Lembro que havia um jogador do Benfica dos anos 40-50, o Rogério, cognominado Pipi, porque era um vaidoso "penteadinho. Um dia, na Constituição, o Barrigana estragou-lhe o penteado. E a bunda, rabo, cu, enfim, como queiram chamar à parte traseira do corpo humano, abaixo das costas.
O 2 passava também na Praça da Galiza e era recebido com assobios.

Museu do Carro Eléctrico
Em exposição velhas relíquias. 
O Museu foi fundado em 1992 com o objectivo de preservar e divulgar uma vasta colecção de carros eléctricos, atrelados e veículos de mercadorias de inegável valor patrimonial.
Vou reproduzir a história de alguns deles exactamente como está escrito no site do Museu.
100 -  Este carro é uma réplica de um veículo construído na primeira década deste século que ardeu num grande incêndio que deflagrou na estação da Boavista em Fevereiro de 1928. A reconstrução deste carro de acordo com o original realizou-se em 1995.
22 - Adquirido pela Companhia Carris de Ferro do Porto em 1905 à casa Starbuck Car and Wagon Company of Birkenhead, este veículo era inicialmente um carro atrelado. Com o surgimento da tracção eléctrica em 1895, este carro é motorizado e passa a circular como carro eléctrico. Restaurado de acordo com a sua traça original em 1992.
66 - Zorra - Este carro eléctrico com plataformas abertas, vocacionado principalmente para o transporte de carvão, mercadorias e materiais para obras na via foi construído nas oficinas da Companhia Carris de Ferro do Porto em 1915. Por ter as plataformas abertas, em dias de chuva, o guarda-freio tinha que utilizar um grande capote, chapéu de abas largas, botas de borracha e luvas isolantes que o protegessem da água e do contacto com a electricidade.
80 -  Este veículo atrelado destinado ao transporte de peixe foi construído nas oficinas da Companhia Carris de Ferro do Porto no ano de 1932. Este tipo de veículo era utilizado no percurso entre a lota de Matosinhos e os mercados da cidade do Porto, sendo rebocados por carros eléctricos que transportavam as peixeiras.
Carro Torre Hansa-Lloyd (verde) Este veículo automóvel destinado à reparação da linha aérea foi adquirido na Alemanha, em 1929, pela Companhia Carris de Ferro do Porto. Este automóvel permitia uma maior flexibilidade na reparação das vias aéreas proporcionando uma alternativa aos carros eléctricos também utilizados neste tipo de reparações.
Carro Torre Vagão nº49 Este carro eléctrico de reparação da linha aérea foi construído pela Companhia Carris de Ferro do Porto em 1932. Equipado com uma plataforma elevatória manual e com uma pequena oficina destinava-se a efectuar pequenas reparações nas linhas aéreas e nos carros eléctricos que estavam ao serviço na rua.la


Pormenores da zona de "condução" e de dois veículos.
Há cerca de dois anos, a STCP ofertou à Cidade de Santos, do Brasil, dois eléctricos. Presumo que os modelos são os da foto da série 300-315 e foram fabricados nas oficinas da Carris de Ferro entre os anos 1929 e 30. É o Fumista. Nos meses quentes circulava sem janelas e era permitido fumar no seu interior.

Caros amigos, sempre gostei do eléctrico para além das viagens. Muitas histórias tenho passadas neles e com eles.
Foi num eléctrico - da linha 10 - que conversei com o meu irmão sobre o rebentamento das "escaramuças" em Angola. Estávamos a ler a notícia um jornal da tarde e disse-me ele, isso acaba em pouco tempo. Como estava enganado. 
A primeira vez que fui a S. Pedro da Cova e tomar banho a Belói e comer um rojões numa tasca de quem ninguém se lembra (no Ferreira) foi de eléctrico.
O prazer que dava quando o guarda-freio nos permitia ir na plataforma e deixava-nos mudar a agulha.
O salto dos ardinas em andamento era um espectáculo, principalmente o que fazia a Rotunda da Boavista. Ficou famoso o seu salto "para trás".
Foi a saltar em movimento que caí e rasguei no joelho direito as calças do meu fato da comunhão. 
E possuir o passe escolar, era uma vaidade.
Hoje em dia, o eléctrico é mais para turista ver e usar mas é um roubo o custo dos bilhetes. Assim como o da entrada para o Museu. 
 Mas ponham mais linhas a funcionar. Oxalá o novo Presidente da Câmara, Rui Moreira, dê um empurrãozito

sexta-feira, 24 de maio de 2013

158 - O Infante

Como muitas vezes acontece, circulamos pela cidade e nem nos apercebemos do que nos rodeia.
Quero apresentar-vos, caros leitores e amigos, a Praça e a Rua do Infante D. Henrique, ou simplesmente o Infante, local de uma grandeza ímpar, tanto arquitectónica como histórica do Porto.
Homenageia a figura talvez a mais emblemática da Cidade, que segundo a lenda nasceu aqui, na Casa do Infante, antiga Alfândega Régia, onde hoje está guardado o Arquivo Histórico Municipal e é também um Museu de Arqueologia, do Comércio e não só.
Que só por si tem assunto para outras Vidas em Fotos.
Uma panorâmica do Google e vamos começar pela Praça
Mas antes uma reprodução de uma planta do mesmo local de 1839
Elaborada por Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864)
O nº 24 era o Convento de S. Francisco e a Rua dos Ingleses é actual Rua do Infante D. Henrique.

O terreno que constitui a Praça é de grande declive e foi construído em parte das cercas dos antigos Conventos de S. Domingos, a Norte e S. Francisco a Oeste. Mas não foi pacífica a vida entre os Frades das duas Ordens, o Clero e os Reis. Adiante e vamos ver o que a rodeia.

Do Convento da Ordem de S. Domingos apenas existe pouco mais do que a fachada, voltada para o Largo que tomou o mesmo nome da Ordem.
O estabelecimento dos Frades Dominicanos no Porto, seguidores de S. Domingos de Gusmão (Burgos, 1170 - Bolonha, 1221) e que estavam em Portugal desde 1217, deve-se a uma luta entre o Bispo e os Frades Franciscanos.
Para tentar sanar os problemas entre as duas ordens, o Rei S. Sancho II (1209-1248) declarou-se fundador e padroeiro do Convento em 1239.
É, ou foi, melhor dizendo, o Mosteiro mais antigo do Porto e o terceiro de Portugal, fundado em 1238 (que podia ter sido em 1239 ou 1240, depende dos historiadores ou da forma como nos é apresentado) mas em 1245 já estava concluído embora seguissem obras. Recebeu o nome de Convento de Nossa Senhora dos Fieis de Deus do Porto. Mas tudo se deve, inicialmente ao Bispo do Porto D. Pedro Salvadores, que lhes deu igreja, casas e terras. Foi um local privilegiado por causa das Ruas novas que à sua volta se foram construindo mas especialmente pelas que já existiam desde o séc. XV, como a Rua das Flores, nome actual e que começou por se chamar Santa Catarina das Flores. Teve o largo uma intensa actividade económica e nos claustros do Convento chegaram a reunir a Câmara Municipal bem como o Tribunal. Centro, portanto, de grandes decisões para a Cidade.
A Igreja de 3 naves foi destruída por um incêndio em 1777. Em 1832 um novo incêndio danificou o conjunto conventual, já incorporado na Fazenda Nacional derivado à lei da expulsão das Ordens Religiosas.
Há muita mais história sobre a Congregação, mas o que nos interessa é o que resta do Convento. Foi filial do que viria a chamar-se anos mais tarde Banco de Portugal, sede da Companhia de Seguros Douro, hoje agregada a outras e agora, depois de recuperado de uma enorme ruína, é uma espécie de local onde expositores de variadíssimas formas de arte aos sábados comparecem a encher as salas. No interior, para além das recuperações, podemos ver uma enorme porta blindada de um cofre. Outras histórias. Chama-se Casa das Artes.

Uma das Ruas novas é a de Ferreira Borges (1786/1838) uma homenagem ao liberal convicto que exerceu variadíssimas actividades políticas e jurídicas, mas é provavelmente o Código Comercial Português, aprovado por Decreto de 18 de Setembro de 1833, a sua obra maior. Parcialmente ainda em vigor, foi a causa de uma zanga, no meu tempo de estudante, com o famoso Professor Restivo.
Concretamente não sei em que ano a rua foi aberta, mas já existia em projectos de 1835. Vem do Largo de S. Domingos até à Praça do Infante. Ou vice-versa.
O Hotel da Bolsa é uma magnífico edifício, no cimo da Rua, inicialmente pertença da Companhia de Seguros Garantia. Inaugurado em 1907, tem influencias beaux-arts e um bar simpático com preços bem acessíveis. Pelo menos eram, há uns anos.
Mas é talvez o edifício onde está instalado o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto que mais nos chama atenção. Foi construído em estilo neoclássico em 1843 para a instalação do Banco Comercial do Porto e adquirido em 1933 pelo então chamado Instituto do Vinho do Porto. É um espaço de promoção dos vinhos, com loja de vendas, sala de provas e um circuito de visita destinado a dar a conhecer o processo de certificação dos Vinhos do Porto e Douro.

No topo da Praça está o Mercado Ferreira Borges, construído entre 1885-88 é uma jóia da arquitectura do ferro. Destinado a substituir o Mercado da Ribeira, nunca o foi por recusa dos comerciantes em abandonar o local.
Entre 1939 e 1978 foi mercado abastecedor de frutas e entrou em ruína. Teve várias propostas para a sua destruição. Recuperado há pouco mais de 2 ou 3 anos, é um centro de lazer.

Continuando pelo lado esquerdo de costas para o Rio, encontramos o chamado Palácio da Bolsa, pertença da Associação Comercial do Porto.A sua construção foi iniciada em 1842 em estilo neoclássico. Ao longo de três gerações, muitos mestres mestres e artífices trabalharam para a edificação desta jóia arquitectónica do séc.XIX, classificada como Monumento Nacional.

O Palácio da Bolsa, visto do miradouro dos Grilos.
E também parte da Igreja de S. Francisco, à esquerda.
Grandes nomes da arquitectura, da escultura, da pintura, do mobiliário, das artes decorativas contribuíram para este espólio e património únicos. É um dos ex-libris da Cidade.

Autentica sala de visitas, aqui se realizam a maioria das recepções oficiais do Estado no Norte de Portugal. A sua memória remonta ao Cerco do Porto e especialmente à noite de 24 de Julho de 1832 (ou será de 1834 mas também pode ter sido em 1833, datas que podem ser lidas no folheto editado pela Câmara do Porto e referente ao Património de S. Nicolau...) quando um enorme incêndio destrói o Convento de S. Francisco, tragédia a que apenas sobrevive a Igreja. É nas ruínas que se vai erguer este edifício, beneficiando também da expulsão da Ordem pelo tal decreto antes referido.  

O famoso Salão Árabe e o imponente Pátio das Nações.
Custo das visitas: 7€
Estudante e Seniores: 4€
Crianças até aos 12 anos, grátis. 

Pegado, fica a Igreja do Convento de S. Francisco, cujo edifício primitivo começou a ser construído em  1233 sofrendo muitas alterações ao longo dos séculos. O conjunto conventual seria terminado em 1410. A pedido de alguns devotos, chegaram ao Porto São Zacarias e outros Frades Menores da Ordem de São Francisco em 1233 no meio de uma guerra entre o Rei e o Bispo pela posse da Cidade. Que só terminaria lá para o séc. XIV. Os Franciscanos chegaram a levar no "pêlo" por ordem do Bispo D. Martinho Rodrigues. O seu sucessor D. Pedro Salvadores, o tal que chamou os Dominicanos, seguiu-lhe o caminho. Mas continuaram a vida com o apoio dos vários Reis. E do Papa.
É o único templo gótico da Cidade, embora incorpore outros estilos que lhe foram sendo adicionados.
Daqui saiu a notícia do casamento do Rei D. João I com D. Filipa de Lencastre em 1385.
Aquando das invasões francesas, em 1809, o mosteiro foi vandalizado e roubados uma parte dos seus bens. A igreja serviu de cavalariça e nas colunas foram deixadas as marcas e argolas das amarras dos cavalos. Para memória futura.
Não me admira que no Louvre e em outros museus franceses ou até mesmo em casas particulares estejam expostas obras roubadas em Portugal.
Uma foto da Igreja, chamada Museu, do arquivo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco. Monumento Nacional desde 1910, é de uma riqueza ímpar sobressaindo o revestimento a talha  trabalhada desde o séc. XVII até meados do séc. XVIII.
Junto à Igreja do Convento, existe a Igreja da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, construída entre 1794 e 1805, que substituiu um Templo de 1676, dos Terceiros Franciscanos instituídos em 1633.  
Faz parte do Museu, a Casa do Despacho da Ordem de S. Francisco. Da autoria de Nicolau Nazoni, começou a ser construída em 1726. O seu interior é composto por Sala de Sessões, Sala do Tesouro, Sala Exposição e Cemitério Catacumbal.
Não sei o preço actual do custo das visitas: Há cerca de 6 anos eram de 3€. Para visita geral ao Museu.

Vamos atravessar a Rua do Infante D. Henrique, que aqui termina, mais ou menos centímetros e ver o que ela nos proporciona.

A história desta Rua começa nos finais do séc. XIV, mandada abrir por ordem de D. João I. o Pai do Infante D. Henrique, (11.Abril.1357 - 14.Agosto.1433). Demorou cerca de 100 anos a sua abertura.
De uma largueza invulgar mesmo no contexto europeu, foi Centro Cívico durante séculos, palco de vaidades e até terreiro de touradas, actividade que veio a ser repudiada pelo costume portuense.
Outra curiosidade verdadeiramente invulgar para a época era que todas as casas deveriam obedecer a uma ordem de arquitectura previamente definida. Claro que ao longo dos séculos muitas alterações aconteceram.

Começou a ser chamada de Rua Nova, roubando a toponímia à actual Rua Escura; em 1406 é Fermosa (ou Formosa) nome dado pelo Rei D. João I; Nova de S. Nicolau em 1418; Nova dos Inglezes em 1794, ou simplesmente dos Inglezes em 1891. Não sei desde quando tomou o nome actual mas deve ter sido ou em finais do séc. XIX ou em princípios do séc. XX.

Imagens obtidas em alguns sites e também no Porto Turismo - Património da Humanidade. 
Presumo que a foto superior direita estará invertida.
Esta Rua terá sido construída como uma provocação do Rei D. João I aos senhores feudais do Clero, cujas divergências entre Reis e Bispos já vinham desde o séc. XIII. Terão acabado com uma negociação, pela "posse da Cidade" a troco de dinheiro, em 1405 (em Montemor-Novo, próximo de Évora) entre o Rei e o Bispo do Porto de então, D. Gil Alma.
Junto à Rua estavam e estão com outras serventias, a Alfandega (Velha) Régia, a Casa da Moeda, e a primitiva Bolsa. O Rei teve um empenho pessoal nesta rua dotando o burgo, que florescia, com um eixo regulador. Muitos estrangeiros aqui pernoitavam e a burguesia mercantil ganhava crescente prestígio.
Mas quem a pagou foram as gentes do Porto e do seu termo (circunscrição alargada) que talvez nunca soube sequer onde ficava a rua.
Foi criado um imposto, chamado ou apelidado de Fintas, criado pelo Rei ou/e pela vereação Camarária. Li uma frase que se lhe deveria aplicar perfeitamente: Impostos ad-hoc. Conclusão, o património do Rei aumentou sem lhe custar nada e ajudou a retirar das mãos do Bispo o senhorio da Cidade. Que para os grandes mercadores foi um benefício, pois as "burocracias" terminaram e os custos baixaram.  


Mesmo em frente à Praça do Infante, quási no princípio da Rua, situa-se a Igreja de S. Nicolau. No séc. XIII a freguesia da Sé, a única do burgo, foi dividida em quatro e de entre elas criou-se a de S. Nicolau.
Os serviços religiosos eram feitos numa ermida que foi demolida em 1671 para dar lugar a uma nova Igreja, que sofreu um incêndio em 1758. A sua reconstrução foi concluída em 1762 num estilo misto neoclássico-barroco. Em 1832 foi acrescentado um adro gradeado para protecção das sepulturas. A frontaria foi guarnecida de azulejos em 1861
Um pormenor do casario do lado direito da Rua, em frente à Praça.
Sabemos que o célebre Tratado de Aliança Luso-Britânico (mais conhecido como Aliança Inglesa) em vigor desde 1373 e confirmado em Windsor em 1386, embora a "coisa" já viesse desde 1294, foi reforçado com o casamento do Rei D. João I e a D. Filipa de Vilhena em 1387. Muita história pelo meio, guerras, sucessões, dinheiros, enfim, coisas que não interessam por agora.
Para o caso interessa que os Ingleses paulatinamente foram "tomando" conta do Porto. Os vinhos, o comércio, a arquitectura, os clubes. Muitas coisas que hoje ainda perduram.
Uma curiosidade que quero partilhar. Por causa deste Rua, comprei o livro Uma Família Inglesa, da autoria de Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho, Porto, 14 de Novembro de 1839 / 12 de Setembro de 1871, médico e escritor). Já o tinha lido há muitos anos e fiquei com a recordação de histórias passadas nesta Rua àquele tempo. Um pormenor da introdução: Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente inglezes, do que Mr. Richard Whitestone. O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praça—nome que entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de transacções do alto commercio portuense—festejavam-o benevolentes sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante amabilidade e affectuosos shake-hands, segundo o mais ou menos adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.
Os amigos interessados em ler o original na net podem fazê-lo:


Vamos atravessar a Rua da Alfandega e deixar a Casa do Infante para outra altura, e deter- mo-nos sobre a Casa da Moeda e a antiga Bolsa de Valores. É o edifício central na foto.
O primeiro documento de que há conhecimento sobre a cada da Moeda é uma carta régia de D. Fernando datada de 1370, em que concede privilégios aos Oficiais. Em 1391 é confirmada por D. João I. Estava directamente ligada à Alfândega para que os metais preciosos não levassem desvios. 
Os funcionários eram considerados pessoas de grande valor, zelosos e tinham um estatuto próprio. O popularmente chamado de Pedro Vaz de Caminha, que afinal era Pero, ou em Galaico- Português Pero Uaaz de Camjnha, (Porto, 1450 - Calecute, Índia, 15(ou 16 ou 17) de Dezembro 1500), sucedeu ao pai em 1476 de quem herdou o cargo de mestre da balança. Uma espécie de escrivão e tesoureiro.
Este escritor notabilizou-se nas funções de escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral e foi ele que redigiu a Carta do Achamento do Brasil ao Rei D. Manuel I. Segundo as crónicas, morreu em combate em Calecute. 

Podemos visitar o local das antigas instalações da Casa da Moeda onde se processava a cunhagem e existiam os vários departamentos, com a entrada pela Casa do Infante. Claro que não se pode perder a parte museológica e não só desse período.
Uma informação adicional: Inicialmente, o edifício era apenas da Bolsa de Valores onde ainda se podem ver as armas medievais da Casa de Aviz. Foi reconstruído no reinado de D. Afonso V (1432-1481), passando também a servir de entrada para a Casa da Moeda, da qual se conserva a porta seiscentista. Ora bem, coisa de leigo, se a casa foi reconstruída no séc. XV e conserva a porta, escrever seiscentista é correto ?
Com o andar dos anos a capital do reino, Lisboa, tomava mais força. Afinal a culpa primeira terá sido de D. Afonso Henriques, que em vez de ir tomá-la aos mouros e incorporá-la no reino, melhor seria ter-se interessado pelo Norte, aqui tão perto. D. João I também fez o mesmo erro, (desinteressar-se do Norte da Península Ibérica), mas enfim seguiu a linha da dinastia anterior.
Pagamos, o Porto e o Norte, ainda hoje as favas dessas conquistas mouriscas primitivas. A Casa da Moeda passou para Lisboa em 1721, no reinado de D. João V (1689-1754), Cavaleiro da Ordem de Cristo, o Magnânimo ou Rei-Sol português, ou ainda o Freirático (o safadinho gostava de freiras de quem teve filhos, os célebres Meninos da Palhavã) que à custa das riquezas das colónias principalmente do Brasil - lembram-se, amigos, dos célebres Quintos ? -  e da escravidão do povo, esbanjava tudo o que tinha em luxos.
É certo que tentou matar a sede a Lisboa, iniciando a construção dos Aquedutos das Águas Livres e deu em doido com o Convento de Mafra.
Por causa dele as revoltas no Brasil foram-se sucedendo iniciadas pela famosa Inconfidência Mineira. Dizem historiadores que foi o pior Rei de Portugal. Dele escreveu Saramago: Megalómano, infantil, devasso, libertino e ignorante. Escreve Veríssimo Serrão que era senhor de uma vasta cultura bebida com os Padres da Companhia de Jesus. Sabia línguas, conhecia os autores clássicos, tinha boa cultura científica e amava música. Coisa de Historiadores. Para mim, leigo ignorante me confesso, apenas um exemplo das nossas desgraças e maldições. Mas também teve coisas boas. Tudo para Lisboa, pois claro. Vão ler a Biografia do Homem em http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_V_de_Portugal
Seguindo.

Em outras alturas já me referi ao imóvel de interesse público, edifício do séc. XVIII, que foi do Restaurante Commercial, inaugurado em 1894 - informação camarária - (no Igespar lê-se que foi em 1833) pelo espanhol Manuel Recarey Antello, famoso pela sua cozinha e pelo Bife à Inglesa. Nome dado por causa da numerosa colónia britânica e à rua do mesmo nome, que na altura ainda era a dos Ingleses. Foi transformado em Casa de Chá e Pastelaria em finais da década de 60 do século passado, comprado posteriormente para agência bancária. Hoje está a arruinar-se fechado. Parece que é (ou era) uma jóia art-nouveau, sofreu modificações em 1982. Mas isso não interessa nada, porque datas e nomes e alterações e arquitectos surgem em tantas páginas e tão desencontradas que o melhor é ficar apenas com a ideia de uma restaurante e de um edifício que foi marcante na época. Na minha memória de infância ainda retenho algo dele, mas não sei o quê. Uma certeza, a de me ter sido apontado pelo meu pai.  
Quási em frente da Casa da Moeda-Bolsa de Valores e do ex- Restaurante Comercial, situa-se a Feitoria Inglesa. Não sei a quem pertence actualmente o edifício construído entre 1785 e 1790, sob risco do cônsul inglês John Withehead (Lencashire-Inglaterra, 1726 - Porto, 16.Dezembro.1802), senhor de muitos ofícios e de vários projectos, ou acompanhamento deles. 
Construiu o Cemitério Protestante, mais conhecido pelo Cemitério dos Ingleses próximo da Maternidade Júlio Dinis, onde está sepultado.
É a única das muitas Factory House que se espalharam pelo mundo que sobrevive. É formosa a sua escadaria interior e a clarabóia bem como os estuques e são fabulosas a Sala de Baile e a Cozinha monumental conservando todo o equipamento original e baixelas. Destaque para a vasta biblioteca e um espólio notável de mobiliário, faianças e porcelanas. Segundo li.
Presumo que só abre para festas e recepções particulares.

Chegamos ao fim da Rua, que agora não está emparedada como antigamente. Abre-se para o Túnel da Ribeira. Antes, à esquerda, com uma parte visível na foto antiga -e em outras fotos acima postadas-, um edifício do séc. XVI que ainda ostenta o brasão de armas dos Ferrazes e Madureiras.
Túnel da Ribeira que começou a ser escavado em 1947 (foto superior esquerda, vista da Ponte Luís I,) e inaugurado em 1950. Na minha memória e ainda há dias conversando com amigos sobre ele, estava convicto que a sua inauguração foi a 28 de Maio de 1952, o mesmo dia da inauguração do Estádio das Antas. Sei que nesse dia de manhã aqui passou o General Craveiro Lopes em cortejo e eu estava lá a ver  com a minha avó. Que depois me levou a comer um arroz de morcela a uma tasca de Gaia que nunca mais esqueci. Confusão de datas, talvez. Da inauguração do Estádio não, pois os meus pais foram ver a festa a partir do Monte Aventino. Por isso o passeio com a minha avó.
Sobre este Túnel não há uma história pequena que seja, publicada na net, -pelo menos não consegui encontrar- a não ser o pequeno apontamento acima e que a Câmara Municipal aceitou usar a toponímia de Túnel da Ribeira apenas em Outubro de 2011.
Os meus queridos amigos e amigas e visitantes do blogue já se devem ter apercebido que nós, Portuenses, chamamos às artérias e/ou locais da Cidade nomes simples de identificação, muitos deles vindos de séculos atrás. Não tem nada que enganar.
Propositadamente deixei para o fim desta enorme blogagem o regresso ao Infante, ao seu centro, a Praça e à Estátua. De cuja história não fazia a mais pequena ideia até há uns dias atrás. Porque é bastante interessante, deixo um resumo. 
Tudo começou com a ideia do cidadão alemão Eduard von Hafe radicado no Porto ( Presumo que terá sido Jacob Edward de Hafe, nascido em Hamburgo em 18.05.1829, falecido no Porto em 16.07.1908,   continuador do antigo Colégio Alemão na Rua da Torrinha e fundador da Casa Von Hafe que teve as instalações na Rua 31 de Janeiro ou Santo António, como se queira) em lembrar o quinto centenário do nascimento do Infante D. Henrique com uma homenagem. E não o da morte, como também li, pois o Infante nasceu aqui, no Porto, em 4 de Março de 1394. E morreu em 1460 em Sagres. 
E precisamente em 4 de Março de 1894 foi colocada a pedra fundamental, trazida das escarpas de Sagres e que desde a barra do Douro até ao Cais da Praça da Ribeira foi transportada por uma réplica simbólica de uma caravela construída nos estaleiros de Gaia. Ao acto estiveram presentes o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia e a cidade viveu festejos e competições desportivas nos dias 3 e 4. 
Igualmente os esposos reais estiveram presentes na inauguração do monumento em 20 de Outubro de 1900, aproveitando a estadia para lançar a primeira pedra da futura Estação de S. Bento. Não pude confirmar. A página da Fundação Marques da Silva-Estação de S. Bento nada refere sobre este pormenor, mas também não é importante. 
Ora bem, voltemos atrás um pouco e sobre a ideia da homenagear o Infante. As comissões para estudar e desenvolver o projecto, escolhê-lo, enfim essas coisas burocráticas, foram seis desde o início, que presumo terá sido em 1892. Lisboa revoltou-se pois queria a homenagem lá, junto aos Jerónimos. O historiador portuense Joaquim Vasconcelos (1849-1936) em carta ao Diário de Notícias datada de 9 de Maio de 1892, explicou tim-por-tim porque Lisboa não tinha direito a tal coisa. Sempre Lisboa a meter-se na vida dos humanos nortenhos.  Na pior das hipóteses, explicou o historiador, seria Sagres a ter esse direito. Sabemos que muitos anos depois Lisboa ficou com aquele Monumento aos Descobrimentos e Sagres com uma singela homenagem ao Infante, tendo os escultores portuenses sido preteridos. Coisas da Vida.
Entretanto e retomando o tema da estátua, cujo concurso público foi editado em 24 de Agosto de 1893, não sei bem porque foi escolhido o projecto de Tomás Costa. Parece que era o pior de todos, segundo me apercebi durante as minhas investigações. E excluídos os projectos de Miguel Ventura Terra, José Marques da Silva, António Teixeira Lopes (que apresentou 3) José Joaquim Teixeira Lopes, Adães Bermudas e um anónimo Utile Dulce. 
O projecto inicial propunha que a estátua ficasse voltada para a Bolsa. O que provocou alterações, pois resolveu-se que teria de ficar voltada para Sul. E daí, o braço direito indica as rotas africanas e o Globo Terrestre em vez do céu. O baixo relevo deveria ser alusivo à Escola de Sagres mas foi substituído pela alusão da conquista de Ceuta. Manteve-se o que aludia à passagem do Cabo Bojador, mas quási desapareceram as proas dos barcos que lateralmente ornamentavam o torreão.
Entretanto os Ingleses fizeram-nos o Ultimato em 1890 sobre as colónias de África, especialmente relacionado com o célebre Mapa cor de Rosa, em que Portugal fez a ligação de costa-a-costa, ligando o Atlântico ao Indico. No Porto teve grande repercussão, os Republicanos saltaram em cima do rei D. Carlos por se ter humilhado perante os Ingleses, caiu o Governo, e vai daí nasce  a origem do nosso Hino Nacional, a Portuguesa (Heróis do Mar. Nobre Povo...Contra os Canhões marchar, marchar...) com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil como símbolo patriótico. 

  Não será muito fora do contexto colocar aqui a versão da musica e a letra. Sou Português do Hino

Mas o que isso tem a ver com a Estátua ? Pois, foi rejeitada a oferta do cidadão britânico Tait do mármore das suas ilhas...para a sua construção.
Não sei se repararam, caros leitores, amigos e amigas, que estas deambulações pela "minha" história, há Ingleses e Alemães.
E prontos, assim acabo o que já não era sem tempo. Só um parênteses. Acontecimentos e muitas datas que encontrei eram desencontradas com os factos. Adaptei o melhor que pude mas não quer dizer que estejam correctas, mas foi o que presumi de melhor. 
Alguns link's que me ajudaram a saber a história desta zona da Cidade: O Infante:
http://doportoenaoso.blospot.pt
http://www.portoantigo.org/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ultimato
http://www.portoturismo.pt

No meio de tanta leitura, esqueci de registar algumas fontes. Mas se é que vozes de burro chegam aos céus, queria fazer chegar aos editores da Câmara Municipal do Porto dos folhetos sobre o Património das Freguesias do Centro Histórico do Porto, Património Mundial da Humanidade, o pedido de os corrigirem. Ler tantas inexactidões até dói. Pelo menos a este Tripeiro.