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domingo, 18 de outubro de 2015

228 - Eu, cicerone na minha Cidade - Parte II

Depois de umas chuvadas, o ambiente fica mais limpo e daí o que nos rodeia mostra-se com outras cores mesmo estando o céu encoberto.
Prosseguindo o meu ciceronear por algumas lugares do meu-nosso Porto retorno às Fontaínhas do S. João, o santo da nossa alegria pelo menos uma vez por ano. Lugar onde se encontravam ribeiros vindos de várias nascentes da Cidade .
A velha Fonte que no S. João é transformada em Cascata onde o Baptista baptisma Cristo. Imagem por demais conhecida dos Tripeiros e não só.
A água de um desses ribeiros seguia pelo aqueduto - do qual ainda podemos ver uma parte no Arco das Verdades - para o Convento de Santa Clara e depois para o Colégio de S. Lourenço (mais tarde convento dos Frades Agostinhos, mais conhecido como dos Grilos). Hoje é o Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, anexo à Igreja.

As árvores da Alameda ainda não mostram vestígios do Outono.

A longo do Percurso da Alameda e do Passeio das Fontaínhas, a paisagem sobre o Douro e Gaia é fascinante.
Voltando a imaginar as Carqueijeiras subindo a Calçada com aqueles fardos enormes com que se acendiam os fornos da Cidade.
Zona muito habitada ao longo da escarpa, com sérios riscos de desabamento e de deslocamento de pedras.
Vale a pena percorrer o Passeio até aos Guindais superiores.

 Cenas do cotidiano. Figuras, câmaras ao ombro e mapas na mão, estão por todo o lado na Cidade.

A histórica Rua de Cimo de Vila foi percorrida desde a Praça da Batalha até à não menos histórica Rua Chã. Na postagem nº 28 descrevo o que aprendi sobre todo este espaço que vem desde Vandôma e existia no interior das Muralhas Fernandinas.
A foto é só para relembrar o que julgo ter sido a entrada do Paço da Marquesa, casa com recordações desde o séc. XIV.
 No Largo da Rua Chã, entre as Ruas de Cimo de Vila e do Cativo a velha fonte que terá substituído uma primitiva que não se encontrava neste local, mas a poucos metros de distância.
Do lado direito vê-se o Teatro Nacional de São João. E à esquerda a Igreja da Ordem de Nossa Senhora do Terço.
Entre a referida postagem nº 28 e esta, estão cinco anos pelo meio. Se os meus queridos amigos Portuenses e não só se derem ao trabalho de comparar as diferenças dos textos e das duas fotos notarão que algo já não existe: o urinol.

Atravessada a Avenida da Ponte - monstro para uns, inútil para outros, que não ata nem desata com o que quer que seja, mesmo depois de uma quantidade de projectos -  entramos no Morro de Penaventosa pela Vandoma.
Os turistas apreciam a paisagem do casario, provàvelmente desconhecendo o que foi este lugar primitivo, com presença humana desde há 2.500 anos. Depois vão até à Catedral, descerão à Ribeira pelas ruelas que ligam ao bairro da Sé, ou, ou, ou. Não interessa para o caso.
Os Guias humanos não têm a preocupação de lhes mostrar a belíssima galilé de Nasoni que está à frente dos olhos, nem os folhetos turísticos lhe dão grande relevo.
Ora, e muito menos lhes mostram o que resta visível da primitiva muralha, definitivamente reconhecida como romana, não querendo dizer com isto que outras muralhas não existam no sub-solo do Morro e que os arqueólogos tratam de desvendar.
E o que está por trás dela, a Casa de D. Hugo, primeiro bispo do Porto a quem D. Teresa entregou o Burgo e o Couto em 1120 do ainda então Condado Portucalense.
Nesta casa está à mostra a sequência da vida humana que nos leva ao séc. IV antes de Cristo.
Tudo isto já referi nestas páginas (que vaidoso sou, até parece que estudei ) anteriormente e por isso é só uma lembrança.

Sempre que há uma oportunidade temos de a aproveitar. Em S. Sebastião, enquanto falava de outras coisas e por contágio da Casa da Mariquinhas, apanhei uma abertura da porta para pedir autorização e entrar, tentando matar saudades de tempos idos. Era a hora da limpeza mas mesmo assim fiquei com a imagem. Conversa vai e vem e com o jovem senhor que nos autorizou a entrar troquei palavras sobre velhos amigos e do espectáculo que tinha acontecido dias antes no Coliseu, recordando a Amália, ao qual tive o prazer de assistir convidado.
 
Do Miradouro de S. Sebastião não se vê se a porta da Igreja dos Grilos (S. Lourenço verdadeiro nome) está aberta. Um grito a perguntar para um senhor que passava no Largo do Colégio, foi-nos confirmado que sim. Não sei como fiz chegar lá a baixo a minha pergunta, mas sei que foi respondida.
É sempre impressionante olhar a fachada da Igreja seja de onde for. Descemos as velhas Escadas do Colégio e entramos.
Andavam por lá dois casais de turistas talvez ainda não tenham chegado à melhor idade; mas só se riam. Entendi que falavam francês mas não sei o motivo do riso neste templo extraordinário.
Continuam a não ser bem identificadas as várias secções - chamemos-lhe assim -  nem o belo Museu de Arte Sacra. O senhor que por lá se encontra, provàvelmente um extraordinário conhecedor ligado à Igreja, também não está muito interessado em dar uma ajuda ficando sentado na sua secretária de canto.
Gosto de visitar esta Igreja e o Museu e as secções. Esteve em tempos provàvelmente um seminarista, com uma mesinha na entrada, que nos recebia simpaticamente e tratava logo de nos dar informações e encaminhar.

Por casualidade, uma luz extraordinária deixava-nos ver e perceber toda a beleza do retábulo em talha dourada da Capela de Nossa Senhora da Purificação, irmandade criada em 1886.
Passamos à  Sacristia Nova
 Pormenor num dos painéis
 Pormenores em paramentos expostos em vitrinas

 Pormenor do relógio cuja origem continuo a desconhecer.
Escrevi vários textos (ai de mim...) sobre esta Igreja dos Grilos ou S. Lourenço, aqui neste espaço. A primeira vez que a visitei foi com o meu falecido irmão há cerca de oito anos. Fiz alguns trabalhos sobre ela, porque realmente é uma igreja que me fascina bem como o Museu de Arte Sacra.

Depois é só descer um pouco até ao miradouro e apreciar o que a vista alcança.

 Descanso para tomar uma loirinha no Fado Menor e olhar Vila Nova de Gaia ao final da tarde.

Impressiona sempre olhar o casario desde cá de baixo, apoiado ma pedreira, que não parece mas é enorme.

Foi mais um passeio, que embora com algumas repetições nos trás coisas novas.


domingo, 8 de julho de 2012

135 - Rua da Restauração

Provàvelmente quem passa por esta Rua, não se apercebe o que ela possuiu - e ainda possui alguma coisa -  em tempos não muito longos.
Dividida entre as Freguesias de Miragaia e Massarelos, começou a ser construída por iniciativa da Misericórdia do Porto em 1816. Em 1825 ainda não tinha nome. Em 1839 não rompera ainda a pedreira da Torre da Marca (parte dos Jardins do Palácio de Cristal assentam nesta pedreira, mas não sei se deve o seu nome à Torre da Marca que assinalava desde 1542 o tráfego do Rio Douro precisamente no que viriam a ser os Jardins do Palácio, ou à Torre da Marca mais conhecida como de Pedro Sem que se encontra na Boa Hora, junto ao Palacete de Terenas antigo Paço Episcopal durante um período após as Lutas Liberais.
Numa planta de 1844 vê-se que já está ligada ao Rio na Alameda de Massarelos.

Começa junto ao Hospital de Santo António - fica para outra vez a sua história - ligada à Cordoaria e o seu primeiro nome foi de Rua do Hospital, depois de D. Miguel (o Absolutista) até 1832 e ainda Rua da Bandeirinha. Esta agora é apenas a que parte do Largo do Viriato, já ali em baixo a uma centena de metros até às traseiras do Palácio das Sereias e à Torre da Bandeirinha da Saúde. Presume Andrea de Cunha e Freitas, na sua Toponímia Portuense, que o nome actual se referirá à Restauração do Governo Constituicional e não à Restauração da Independência em 1640. (Lembram-se dos governos espanhóis Filipinos de 1580-1640 ?). Não sei desde quando ficou com o nome actual.

Esta parte da Rua - da Cordoaria até ao cruzamento do Largo do Viriato à esquerda e da Rua de Alberto Aires de Gouveia à direita -, assenta em estacaria derivado às águas que por aqui passavam e acabando no Monumento Nacional que é a Fonte do Rio Frio, lá no fundão das Virtudes. O Hospital de Santo António - ala Oeste do edifício e as traseiras da sua ampliação recente - ocupa o lado direito. Do lado esquerdo um gradeamento em ferro, encimado por lanças, foi colocado para prevenir eventuais quedas de uma altura superior a 30 metros. Vista de baixo, é uma muralha com um aspecto impressionante.

A paisagem que daqui se avista é deslumbrante. Ao fundo, o Rio Douro e Vila Nova de Gaia. Em baixo, parte do antigo Horto Real das Virtudes, hoje Jardim das Virtudes, que presumo já estar aberto de novo ao público.

Fazendo esquina com o Largo do Viriato a casa do Dr. Fernando Valente, provàvelmente o maior coleccionador Filuminista de Portugal. Segundo li no site da Junta de Freguesia de Miragaia, possui um Museu que a pedido poderá ser visitado.

Do outro lado da Rua, existiu o Palacete de John Francis Allen (1785-1848) um negociante de Vinho do Porto, que foi coleccionando obras de arte, história natural e epigrafia ao longo da vida tendo oferecido à Cidade do Porto a considerada maior colecção particular de Portugal. O seu Museu, aberto ao público aos domingos, cresceu de tal forma que teve necessidade de aumentar o edifício.

João Allen foi um dos fundadores do Banco Comercial do Porto e da Associação Comercial. A sua história e a da sua descendência ainda estão bem vincadas na Cidade. Um abraço especial ao meu amigo Xico Allen. Do outro lado da história da vida, recomendo uma visita à Quinta de Vilar de Allen e ao seu património incluindo as célebres Camélias. Fica quási em frente ao Palácio do Freixo, na Estrada Marginal para Gondomar.
Voltando à Restauração, o Palacete foi destruído e um novo edifício alberga numa parte, os Jogos da Santa Casa da Misericórdia. Curioso um triângulo que aparece mesmo na esquina do edifício e para o qual o meu amigo Bernardino Sardinha me chamou a atenção. Esquisitices de Arquitecturas.

Começamos a descer a Rua para o Rio. Do lado direito as instalações do Bloco Gráfico da Porto Editora, para além de umas garagens. Do lado esquerdo é tudo diferente.

Devido à minha amizade com o Senhor Eduardo Alberto Aguiar de Sousa, actualmente a viver no Rio de Janeiro, descobri o edifício onde esteve instalada a primeira clínica privada da Cidade pertença do avô, o Professor Alberto Pereira Pinto de Aguiar tendo também aí a sua residência.

O edifício foi sendo aumentado e ainda mostra, gravada na pedra, a legenda Laboratório Médico. Hoje, numa parte alberga escritórios de advogados, mas presumo que ainda mantém o recheio pertença da família.
Alberto de Aguiar nasceu no Porto a 22 de Setembro de 1868 e faleceu a 27 de Abril de 1948. Em 1893 licenciou-se pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto e três anos depois editaria a sua tese de doutoramento referente à urologia. Leccionou várias cadeiras na Escola Médica e mais tarde na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto entre 1896 e 1935, ano da sua jubilação. Durante 5 anos dirigiu o Laboratório Nobre resultante de um acordo entre a Escola Médico-Cirúrgica e o Hospital de Santo António. Problemas foram surgindo e acabou afastado dessa instituição bem como do concurso para a direcção do Laboratório de Análises da Misericórdia. Não sei as razões destas discórdias, mas olhando para os dias de hoje "Quem não está comigo, está contra mim. Portanto despeça-se"

Fundou o seu laboratório que ràpidamente alcançou grande fama nacional e tornou-se um prestigiado centro científico de investigação. Produziu teses inaugurais de concursos e 6 Volumes da Revista de Semiótica Laboratorial, criada e dirigida por Alberto de Aguiar.

Interviu civicamente, tendo presidido à Junta Patriótica do Norte, organismo constituído na cidade do Porto em 1916 com os fins de propaganda patriótica e de assistência às vítimas da Guerra, com fundos provenientes de cotizações de voluntários e de verbas dos seus membros.
Em 1917 a 25 de Maio é inaugurada a Casa dos Filhos dos Soldados num edifício na Rua de Cedofeita que um mês depois já albergava 42 órfãos.
Esta instituição deu lugar anos mais tarde, em 1921, à actual  Liga dos Combatentes da Grande Guerra, sediada no Porto na Quinta Amarela, ao Carvalhido, onde ainda se encontra. Aos interessados, mesmo aos de hoje ex-combatentes do Ultramar, aqui fica o link que pode ajudar a saber o que é a Liga e a sua antecessora  Casa dos Filhos dos Soldados: http://www.primeirarepublica.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&catid=17%3Ainstituicoes&id=187%3Alcgg-liga-dos-combatentes-da-grande-guerra-&Itemid=13
Gostava de saber (à atenção do Carlos Vinhal, por favor não esqueças o meu pedido) se o espólio desta Casa está guardado ou integrado na Liga.
Alberto Pinto de Aguiar foi agraciado com a Comenda da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e por ser considerado o precursor do estudo e investigação em Bioquímica foi apelidado o Patriarca da Bioquímica Portuguesa. Está sepultado no Cemitério de Agramonte.
Textos compilados em

Ao meu amigo Eduardo agradeço as fotos que me ofertou, parte delas aqui reproduzidas com a devida autorização.

Continuemos pela Restauração e vamos encontrar alguns belos edifícios. Este não conheço a sua origem nem a propriedade.

Mas este onde está instalado um organismo dos Vinhos Verdes, foi considerado em meados do séc. XIX "a casa mais luxuosa do Porto". Pertenceu a António da Silva Monteiro - o Conde da Silva Monteiro - nascido em Lordelo do Ouro em 16 de Agosto de 1822 e falecido em 15 de Janeiro de 1885. Filho de pais comerciantes, embarcou jovem para o Brasil e no Rio de Janeiro tornou-se comerciante e próspero capitalista. Os seus negócios continuaram no Brasil para além da sua morte. Regressado a Portugal, contribuiu para a criação das Escolas Primárias de Lordelo e Miragaia e na ajuda aos Soldados que entraram no conflito da Guerra Franco-Prussiana. Igualmente foi importante na ajuda às vítimas da enchente de 1877.  Presidente dos Bombeiros Voluntários, da Sociedade Palácio de Cristal e da Associação Comercial, Vice-Presidente da Câmara do Porto, esteve ligado aos incentivos dos projectos do Porto de Leixões e ao Caminho de Ferro para Salamanca. Criou várias empresas e empreendimentos destacando-se o dos Caminhos de Ferro da Póvoa. Foi um apaixonado pela horticultura e jardinagem que desenvolveu na sua Quinta da Lavandeira em Oliveira do Douro, Gaia.
Vista do ar, a propriedade deve ter uns jardins magníficos.

Uma linda casa com fachada em azulejo fecha esta parte da rua, seguindo-se um autentico miradouro sobre o Douro.

Infelizmente destacam-se as ruínas do antigo Convento de Monchique, presumimdo-se ter sido edificado sobre a Sinagoga Judaica de Miragaia pelos Portocarreros, os mesmos do Palácio das Sereias, também em Miragaia.

Do lado direito fica a muralha da pedreira da Torre da Marca e lá no alto o Palácio de Cristal, nome que sempre daremos aos seus Jardins, pois o Palácio foi destruído impunemente em princípios dos anos 50 do séc. XX. Quem vem do Palácio - Jardins - pode seguir por um dos itinerários dos Caminhos do Romântico - Entre Quintas, Macieirinha, por exemplo - e vem dar à Restauração. É um dos muitos e belos itinerários do Porto antigo de Massarelos. À chegada podemos apreciar alguns edifícios reconstruídos no local onde existiu a antiga Fábrica de Cerâmica de Massarelos.

Pormenores da Rua da Restauração.

Local onde mais ou menos esteve a Fábrica de Cerâmica de Massarelos. Foto antiga da Fábrica e actual local, vistos de Gaia.  As novas casas, escritórios e armazéns vistos da ponte-desvio que entra no Rio, e do lado da Restauração. Fundada em 1766 por Manuel Duarte Silva, viveu vários períodos de fabrico. Entre 1819 e 1845 esteve arrendada à Fábrica de Miragaia, de Rocha Soares, cujas famílias se uniram por laços familiares. Em 1912 a gestão passa para a empresa Chambers & Wall. Em 1920 é destruída derivado a um incêndio de enormes proporções. A produção continuou na Quinta de Roriz, junto à Ponte D. Maria do lado de Gaia. Hoje temos a recordação desta Fábrica devido a dois grande fornos recuperados e instalados na Avenida Gustavo Eifell, na marginal do Douro e relativamente próximo do Freixo.

O início ou fim da Rua, como queiram, junto ao Rio na Alameda de Massarelos.
 Hoje chama-se Alameda de Basílio Teles.

Alguns elementos para ajudar ao texto foram descobertos na net: Junta de Freguesia de Miragaia, Porto XXI, Toponímea da Câmara Municipl do Porto, Wikipédia (John Allen, António da Silva Monteiro).
Recomendo uma visita à Rua, descendo-a e subindo-a de Eléctrico.

sábado, 18 de setembro de 2010

42 - A Vitória e a Judiaria do Olival

Pesquisar na net é como o provérbio das palavras e das cerejas. De sítio em sítio, fui dar à estória da Judiaria no Porto.
Mesmo antes do Condado Portucalense, já existiam Judeus na região, naturalmente, porque estavam espalhados pelo que é hoje a Península Ibérica. Ajudaram os "Mouros" na Conquista da Península, tendo-se depois aliado aos "Cristãos" para os expulsar. Séculos de boa história.
No Porto, vivam dentro ou próximo da Cerca Velha (primitiva muralha em Pena Ventosa, o Morro à volta da actual Sé) mas eram autorizados para utilizar as ruas que davam para o Rio (Douro, claro) onde tinham as suas oficinas e comércios. Séculos depois espalharam-se pela cidade e construíram a maior Judiaria em Miragaia. Onde estão as ruínas do Convento de Monchique seria o local da sua Sinagoga. E o cemitério Judeu não ficava longe. Mas é a Judiaria do Olival e a Vitória que quero dar a conhecer. Pelo menos um pouco, na medida em que sou um ignorante profundo de tudo que diz respeito ao tema. Mas adiante.

A actual Rua de S. Bento da Vitória, de quem entra pelos Clérigos.

Em finais do século XIV, D. João I decretou que os Judeus fossem viver para o Olival (local onde hoje se encontra o Jardim da Cordoaria, Clérigos e por aí fora), mas dentro das Muralhas. As Fernandinas. Que não terá sido do seu agrado. Entretanto foram recebidas famílias oriundas de Espanha, expulsas pelo rei não sei quantos e aqui alojadas. O seu espaço terá sido compreendido entre o que é hoje a Rua de S. Bento da Vitória, Rua de S. Miguel, Rua das Taipas até Belmonte. Sempre por dentro das Muralhas.

Há quem escreva que no local onde se encontra a Igreja e Convento de S. Bento foi onde existiu a Sinagoga do Olival. Terá sido encontrada um pedra com escritos Hebraicos lendo-se, mais ou menos, pois transcrevo de cor, Antes de existir a Igreja de Deus dos Monges Negros existiu a Igreja de Israel.
Quando o Rei D. Manuel assinou a ordem da expulsão dos Judeus, em finais do séc. XV,o povo do Porto não a aceitou. Não denunciou os que se esconderam e acolheu os que passaram a ser os Cristãos Novos. Na parede do Convento de S. Bento, está colocada uma placa em Memória dos Judeus expulsos ou que foram obrigados a reconverterem-se.
As actuais ruas de S. Bento da Vitória e S. Miguel (foto) era uma única e chamava-se Rua da Judiaria Nova. Após o decreto da expulsão dos Judeus, passaram a viver aqui juntamente não só a população que quis, talvez até para confundir os decretores de leis, como magistrados e funcionários do Tribunal da Relação. Que estava ali a dois passos.
No prédio nº 9, adquirido há meia dúzia de anos pela paróquia da Vitória para albergar um Lar de Idosos, durante a sua restauração foi encontrada uma parede falsa e nela um nicho ( ekhal, a reentrância onde eram guardados os rolos da Torá, a parte mais sagrada da sinagoga, também conhecida simplesmente como Arca). O arqueólogo Mário Jorge Barroca concluiu que a casa foi uma Sinagoga clandestina, no séc. XVI/XVII. A sua descoberta nesta localização, segundo afirma a historiadora Elvira Mea, enquadra-se nos relatos do rabino Immanuel Aboab – que nasceu e foi criado no Porto – inscritos no seu livro Nomologia o Discursos Legales, publicado em Amsterdão em 1629. (http://ruadajudiaria.com/)
Início da Rua de S. Miguel. À esquerda o prédio nº4 com a frontaria coberta de azulejos do séc. XVII que saíram do Convento de S. Bento. À direita a casa que albergou a Sinagoga Clandestina. Em frente, a Igreja de Nossa Senhora da Maria da Vitória, onde, segundo outros historiadores, poderá ter existido a principal Sinagoga do Olival.
A Rua de S. Bento da Vitória, vista no sentido S/N, do largo encostado à Igreja de Nossa Senhora. Um miradouro por excelência, totalmente degradado.
No largo, dois prédios em ruínas e a sujidade (embora menos que há uns 4 meses atrás) devem ser a razão porque o espaço não é mencionado nos roteiros turísticos. Para não termos vergonha do que possam pensar. Adiante. Aqui existia uma tipografia e encadernação. No dia 14 de Maio passado, ainda ouvia as máquinas a trabalhar e o cheiro das tintas. Hoje (17 de Setembro) já não as ouvi.
Neste outro prédio, reparo no pormenor da arquitectura. Mas leigo como sou destas coisas, passo em frente e sigo a rota da Judiaria do Olival.
De cima do chamado antigamente Morro do Olival, o olhar abrange o velho casario do Porto Histórico. Em frente Gaia e o Douro, mas isso fica para outros escritos.
Em baixo, encontramos a Rua da Vitória - antiga S. Roque ou Viela da Esnoga - que une as Ruas dos Caldeireiros às Taipas, logo ali nas Virtudes, já na freguesia de Miragaia.
Para lá chegarmos, precisamos de calcorrear uma vintena de metros pela Bataria da Vitória, toponímico homenageando a bataria (artilheira, pois claro) que aqui esteve colocada aquando das Lutas Liberais. Salvé D. Pedro IV. O Primeiro do Brasil, o do Grito do Ipiranga. O do coração cá (no Porto, pois onde havia de ser) e do corpo (os restos mortais) lá. No Brasil. Adiante.
Umas escadas, cujo nome desconheço, que nos levam até meio das Escadas da Vitória, antiga Escadas da Esnoga. Nem sei se fazem parte do mesmo toponímico. Vão dar a Belmonte, (já é parte da freguesia de S. Nicolau) onde a Judiaria tinha um ramo importante.
Nem imagino o que é vir de Belmonte, subindo esta escadaria.
Li, num dos vários artigos sobre a Sinagoga Clandestina, que haveria uma entrada também ela clandestina, por uma das casas da Rua da Vitória. Vamos olhando e medindo as alturas.
Um pormenor das Escadas da Vitória, antiga Escadas da Esnoga.
As Escadas entroncando na Rua da Vitória.
Visto desde a Rua da Vitória, o tal prédio de arquitectura curiosa (para mim) cuja fachada está no largo junto à Igreja de Nossa Senhora. Lá em cima. Lembram-se ?
Só mesmo passando no local se pode ter uma ideia da construção destes muros e destas casas.
Pormenor de uma fachada sobressaindo de entre os muros. Não é muito visível. Está localizada a meio da Rua, sensìvelmente entre as Escadas e as Taipas.
Depois da descoberta da Sinagoga Clandestina e do esforço da Historiadora Elvira Mea para que a Câmara do Porto, IPAR, Governo Civil e uns tantos outros organismos, conseguissem desbravar mais sobre esta descoberta e apenas o Pároco esteve pronto a colaborar, não sei como tudo ficou. Já lá vão 5 anos e nada mais li sobre o assunto.

Não sei qual a língua da palavra Esnoga. Até pode ser em português antigo. Sei que quer dizer Sinagoga pois está escrito pela Câmara.

A freguesia da Vitória, nesta zona do chamado antigo Olival é muito rica não só em história como monumental. Aliás, toda ela é rica. Mas infelizmente os cardápios turísticos só referenciam a Torre dos Clérigos. São achas para uma fogueira quando vierem dias mais frios.

Parece não haver grandes escritos legados pelos judeus que nos podessem a dar a conhecer mais história. Nem sequer plantas das suas Sinagogas. Ninguém faz ideia de como eram.

Para quem gostar de saber alguma coisa sobre alguma História do Judaísmo em Portugal recomendo este site:

http://repositorio-aberto.up.pt/.../gcdiaspresencajudeus1000082238.pdf