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quarta-feira, 7 de maio de 2014

187 - Por Estradas e Encruzilhadas de algumas Fontes e Chafarizes do Porto

Por vezes vem-me à ideia que se todos estudássemos por um livro único as coisas eram mais simples. O saber era só um, o pensamento também e seríamos uma bando de carneiros alinhados.
Imaginemos o verso da medalha, mas também o seu reverso.
A cada cabeça a sua sentença, respeitemos a cabeça de cada um. É assim que deve ser.
E se não houvesse verso e reverso nunca andaríamos às voltas com a medalha.

Costumo dizer que a História é de quem a interpreta e muitas das vezes não tem nada a ver com a realidade que foi.
Para um leigo como eu, saber alguma coisa, obriga-me a bater as estradas. Aproveito as que tenho mais à mão. Isto é, à distância de um clique, como agora é uso dizer-se e fica bem. Porque verdadeiramente botar o pé nelas tem que se lhe diga.
Todo este intróito tem a ver com umas estradas que percorri (à distância de um clique) e que me levaram a encruzilhadas, onde fiquei cheio de dúvidas. Embora, qualquer que seja o percurso, o final é sempre o mesmo.

O primeiro bater de estrada tem a ver com uma fonte que existiu na Cidade do Porto, à qual o Povo chamava da Fonte do Olho do Cu. Na realidade era - foi - a Fonte do Laranjal.
O professor Germano Silva, no Jornal de Notícias de 27 de Abril último, escreve: Ao cimo da Avenida dos Aliados, nas imediações da desaparecida viela do Cirne, que ligava directamente com a Cancela Velha (actual Rua de Guilherme da Costa Carvalho) ou seja, sensivelmente no sítio onde agora está aquele tanque... havia uma fonte que tinha um nome, no mínimo pitoresco. Era a Fonte do Olho do C. A estranha denominação tinha a ver com a configuração da Fonte. Ficava a um nível bastante inferior da rua. Lá bem no fundo, havia uma bica que deitava água para uma pia. Para chegar à água era necessário descer alguns degraus em granito. 
(cortesia do meu amigo Fernando Conceição no blogue http://cadernosdalibania.blogspot.pt/)

Um pormenor do lugar "sacado" do Google Earth, desde o Tanque até à Praça da Trindade. 
E porque aparece este "espaço" na encruzilhada ? Então vamos caminhando.

Em 1803 edificava-se a Igreja da Trindade da Ordem que substituíra a de S. Domingos extinta em 1755 e nos alvores do séc. XIX veio a estabelecer-se no Laranjal. Numa planta de 1839 a Praça já se denomina da Trindade, mas em 1877 ainda era conhecida por Laranjal. Houve na Trindade várias Fontes e Chafarizes. (in Toponímia da Cidade, no site da Câmara Municipal do Porto).

Antes de mais um esclarecimento. Para nós, Tripeiros, a Trindade é um espaço grande que vai desde as Traseiras da Câmara até Camões. Com um jeitinho, até Gonçalo Cristóvão. O Laranjal dos tempos idos, também era um espaço muito grande, que começava cá em baixo, salvo erro, onde é o início (de baixo para cima) da Avenida dos Aliados até à Trindade e de larguras várias, desde Liceiras (ainda existe a Travessa) até ao Pinheiro/Mompilher. Mais ou menos. 
Lemos na Dissertação de Mestrado do Professor Diogo Teixeira sobre o Abastecimento da Água na Cidade do Porto nos séc. XVII e XVIII, citando o Padre Baltazar Guedes (1620-1693), ... a Fonte do Laranjal tem este nome devido à grande quantidade de laranjeiras que havia naquele local, que tinha o nome de sítio do Laranjal hoje conhecido como Praça da Trindade. A fonte estava localizada no campo, perto do muro da Quinta do Laranjal e tinha uma arca com vinte palmos de comprimento, cinco de largura e vinte e dois de altura. Era toda emparedada e tinha uma porta e uns degraus que davam acesso à arca. No exterior havia uma pia que vertia água da dita água para uso público.
Continuando a ler o Professor Diogo Teixeira ... sabe-se que devido à sua localização esta fonte era apelidada com uma designação jocosa e no início do séc. XIX havia sido demolida.

Quanto à Fonte, não parece haver dúvidas que é a mesma que os dois Professores referem. Mas quanto à localização ?
O Chafariz que actualmente se encontra na Praça da Trindade, cujo nome inicial era de S. Domingos foi desmontado em 1845 do Largo com o mesmo nome e para aqui trazido em meados da década de 50 do mesmo ano.
Li noutro documento, algures,... para que o povo perdesse o hábito de chamar a Fonte do Olho do C..., no Largo do Laranjal a Câmara mandou erigir um Chafariz com o material que restou da demolição do de S. Domingos a que foi dado o nome de Chafariz do Laranjal.
Não é grave sabermos ao certo a localização, mas eu gosto de saber. Surge outro caminho duvidoso.
A foto é do Alvão, sem dúvidas. Este viveu entre 1872 e 1946. Fico intrigado por não ver a Fonte ou Chafariz do Laranjal/S.Domingos na foto, pois ela deve ser de finais do século XIX princípios do séc. XX. O palacete de D. Antónia Ferreira, ao fundo já existia e a sua construção foi iniciada em 1840. O
Chafariz veio para aqui cerca de 20 anos depois. Mas veio mesmo ?
Porto - Egreja da Trindade I. Newton / A.«O Occidente», 9, 1886, p. 252 
«Segundo uma photographia de E. Biel».
Fotos recolhidas em http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/

O Chafariz está mais ou menos a uma dúzia de metros da escadaria da Igreja. Teria sido montado primitivamente noutro local ?
Ora bem, estamos na encruzilhada a coçar a cabeça.

Vi uma foto no espaço http://gisaweb.cm-porto.pt/ (Arquivo Municipal do Porto) impossível de mostrar por incapacidade minha de transformar o formato pdf em jpeg. Essa foto tem a legenda Largo do Laranjal e Cancela Velha. É do Editor Tabacaria Rodrigues, do Porto, de 1910.
Mas no blogue amigo http://portoarc.blogspot.pt/ encontrei uma foto muito parecida, acima publicada. O meu amigo Rui Cunha, no texto, começa por descrever a velha Fonte do Olho do C... tal qual já referi antes. Mas continua:  Em meados do séc. XIX, contudo, já não se lobrigavam vestígios desta Fonte.
O Chafariz do Laranjal esteve primeiramente no Largo de S. Domingos, foi modificado e colocado no Laranjal em  Fevereiro de 1854 e passou a receber água do Manancial de Camões. Foi desmontado em 1916 quando da abertura da Avenida dos Aliados. Em 1943 foi reconstruído nos Jardins dos SMAS (Águas do Porto, Nova Sintra). Está actualmente no Largo da Trindade. 

Assim sendo, parece-me que esta encruzilhada da Fonte/Chafariz S. Domingos/Laranjal já não me parece um bicho de sete cabeças.

Sigamos em frente por novo caminho aberto, mas também com encruzilhadas. Continua a não ser nada de grave , mas complicam-me a mioleira as encruzilhadas.

A Praça da Liberdade, entre outras toponímias, foi as Hortas do Bispo, Praça Nova, Praça da Constituição, voltou a Praça Nova, de D. Pedro, Praça da República (por 14 dias), e a partir de 27 de Outubro de 1910 ficou com a toponímia actual.

Não sei porque razão a minha avó lhe chamava Praça Nova. Presumo que gostava do nome antigo embora no tempo dela já se chamasse de D. Pedro. Pudera eu saber o que sei hoje e fazer-lhe muitas perguntas. Ela nasceu em meados/finais da década de 80 do séc. XIX. É a vida.
Mas adiante.

Nestas Hortas e/ou Praças, existiram Fontes. Um delas Chamada Fonte da Arca também conhecida por da Natividade. Encontrava-se encostada à Muralha Fernandina, entre a Porta de Carros (mais ou menos em frente da Igreja dos Congregados) e o Postigo de Santo Elói (mais ou menos onde está o Largo dos Lóios. Talvez junto onde é hoje o Palácio (Hotel) das Cardosas. A primeira parte foi inaugurada em 1608 com o frontispício brulesco.  Lo Primeiro mandò derrobar una torre de la Muralha que alli pendia sobre la fuente y espacio de las escaleras para Coger el Agoa. Y se dispuso de suerte la fachada que lo que antes eran tres fuentes se hiseron quatro, que escupen el agua por los Rostos de quatro Seluages com sus caños de Bronse... Fundada no anno de mil seiscentos e outenta e dous pello semnado da camera.
E no lugar mais supremo da dita fonte que hé de maravilhoza architectura e grandeza a coroa hua imagem da Senhora da Natividade.

Ora bem, a minha fonte (estrada) - de reconhecimentos -  continua a ser o Prof. Diogo Teixeira no seu Mestrado e por várias razões. Refere que não se sabe quando a Fonte foi demolida. mas que ainda exisitia em 1886. E que existem alguns elementos que estão no Jardim do Palácio de Cristal.

Presumo que este ano de 1886 deve ser erro de dactilografia. Camilo, nas suas Memórias do Cárcere, quando recebe o bilhete informando-o que a Polícia anda atrás dele para o prender, escreve,... Em uma risonha tarde de maio de 1860 chilreavam as aves o seu hymno crepuscular e de despedida ao formoso sol d'aquelle dia. Os coretos dos alados cantores eram as amoreiras e acacias floridas da praça de D. Pedro, as quaes vaporavam de suas urnas de branco e roza aromas suavissimos. Por entre o arvoredo se andavam passeando e deliciando os amantes da natureza; e ella, d'elles namorada, parecia guardar-lhes para a noite os seus enfeites de mais primor, como fina amante, que mais se poetisa e doura, e enternece ao pallido luzir das estrellas...  não referindo a Fonte, o que seria normal se ela existisse.
Arranjo com elementos decorativos da fonte da Arca (COUTINHO, Bernardo Xavier – Fontes e chafarizes do Porto
(Bernardo Xavier Coutinho - Sernancelhe, 12.Junho.1909-Porto, 3.Maio.1987, historiador Português, Membro da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Portuguesa de História)  

Vamos por agora referir-nos apenas ao frontão. A foto abaixo, no Jardins do Palácio de Cristal, mais concretamente no Roseiral, parece não deixar dúvidas de ser o mesmo reproduzido no desenho acima.
No entanto o Prof. Germano Silva diz que este elemento foi mandado construir para o frontispício da Câmara que funcionou desde 1819 na Praça de D.Pedro (na altura seria ainda Praça Nova) e custou 400 mil reis, pagos em 4 prestações ao pedreiro Manuel Luíz. - ver e ouvir o vídeo em http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=3597233
A foto é do século XX pois a Praça Nova já se chamava de D. Pedro. Vê-se perfeitamente o frontal, encimado pela Estátua do Porto.
Só por curiosidade, a Praça actualmente e chamada da Liberdade.

Agora outro tema, que tem a ver com o segundo desenho, o das Carrancas.
Desenho de Joaquim Villanova de 1833

Essa Fonte, mais conhecida como Chafariz da Praça Nova foi construída entre 1794 e 1797. O local não era o mesmo da Fonte da Arca, mas não andaria longe. Talvez onde está o Banco de Portugal. Creio que foi em 1834, D. Pedro IV mandou destruir a Fonte para que se alargasse a Praça.
Esse chafariz criou várias polémicas, mas na sua construção, lê-se que... .Este chafariz era constituído por um tanque de grandes dimensões, com as paredes côncavas, e um grande espaldar dividido por pilastras a formar cinco panos e arrematado por sete urnas. Cada um dos panos continha uma carranca com bicas de bronze que jorravam água para o tanque
A minha encruzilhada é, se as duas Fontes-Carrancas que estão nos Jardins do Palácio de Cristal (uma delas na foto acima), a qual das duas Fontes pertenceram. Segundo o professor Diogo Teixeira, são da Fonte da Arca. Se sim, uma maravilha com 350 anos. Se não, uma maravilha com 250. Mais ano, menos ano.
Como penso, não é nada de grave e nesta encruzilhada o importante é que estes elementos fazem parte do património da Cidade do Porto e compõem  num espaço cenográfico lindo. Mas que dá prazer ver e tocar-lhes, pensando na sua antiguidade, isso não nego.

Neste meu caminho das Fontes e Chafarizes, estou numa nova encruzilhada e esta parece-me mesmo grave. Já vos explico caros leitores e leitoras o problema da encruzilhada.

Comecemos pela foto do Monumento Nacional, o Chafariz do Passeio Alegre, em S. João da Foz, publicado assim mesmo no Diário do Governo nº 136 de 23.Junho.1910., página 2166. Não tem mais qualquer referência.
Segundo todas as narrativas histórias, o Chafariz que se encontra no Jardim do Passeio Alegre e que deve ter vindo para cá entre os anos 80 e 90 do séc. XIX, foi construído no claustro do Convento de S. Francisco, do qual apenas existe a Igreja, Monumento Nacional.
Agostinho Rebelo da Costa escreveu em 1788..."O convento... com um magnífico e extenso claustro em quadra, rodeado e elevados arcos de esquadria e no meio um grande chafariz que lança perenes jorros de água pública e patente a todos os que quizerem aproveitar-se dela" (in Clube UNESCO da Cidade do Porto).

As minhas dúvidas sobre este Chafariz já vêm de longe. Há quem o atribua a Nicolau Nasoni e a sua primitiva localização na Quinta da Prelada.

Uma tarde formatei-me e fui botar o pé numa outra estrada, o Arquivo Histórico da Cidade, na Casa do Infante, e consultar o que poderia haver sobre Nasoni e o Chafariz. Tive duas ajudas, a da senhora bibliotecária de serviço e do meu amigo Jorge Peixoto. Não encontrei nada. E despiolhamos o Robert C. Smith nas duas obras sobre Nasoni e alguns folhetos editados pela Câmara do Porto, aconselhados pela nossa gentil bibliotecária.
Num aparte, vendo vídeos recentes dos Professores Joel Cleto e Germano Silva em passeios recentes neste espaço da Foz e do Jardim, acho estranho que não mostrem nem falem sobre o Chafariz.

Parado na encruzilhada, leio as Notas sobre o enquadramento urbano do Jardim do Passeio Alegre de Manuel Marques de Aguiar (1978 ?) (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6526.pdf) o qual confirma... é de assinalar o Chafariz, originário do Convento de S. Francisco...

Então perante as dúvidas, que afinal parecem não haver que o Chafariz é de S. Francisco e não da Prelada; e não havendo qualquer referência sobre a sua autoria atribuída a Nasoni; fico admirado quando leio e transcrevo tal-qual em: http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70686/

Projectado pelo arquitecto que mais marcou o barroco portuense, Nicolau Nasoni, O Chafariz que actualmente decora um trecho do Passeio Alegre foi inicialmente concebido para os jardins da Quinta da Prelada, numa solução cenográfica que deveria integrar outros elementos decorativos a acompanhar o monumental chafariz.
No século XX, com a compra da Quinta pela Câmara Municipal do Porto, a obra de Nasoni acabou por ser desarticulada do conjunto onde se inseria, transitando em seguida para o Passeio Alegre, onde actualmente se encontra, seguindo o mesmo percurso dos dois obeliscos também projectados por Nasoni, que se encontram à entrada do passeio.       

Acompanham esta discrição a Bibliografia com o Title "O Grande Porto"; Local Lisboa; Date 1986; Autor: Hélder Pacheco; mais ainda: Title "Guia de Portugal, v.4, t l:Entre Douro e Minho, Douro Litoral"; Local:Lisboa; Date:1983; Autor: Raul Proença

Ai a encruzilhada que parece ter uma galinha preta e restos de cuecas. Primeiro, acho que a Quinta da Prelada nunca foi comprada pela Câmara do Porto. O seu último dono, em princípios do séc. XX, doou-a à Santa Casa da Misericórdia.
Segundo, nas Memórias Paroquiais de Ramalde, da autoria de Francisco Mateus Xavier de Carvalho, nas páginas 602 e 603 e sobre as Fontes e Tanques da Quinta de Dom António de Noronha de Mesquita e Mello, existentes no Lugar da Prelado (?), não se lê qualquer referência ao Chafariz. (pág.240 e seguintes inscritas na tese de Mestrado do Prof. Diogo Teixeira)    
Terceiro, só o Igespar - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, da Secretaria de Estado da Cultura, logo um organismo do Governo de Portugal - refere que o Chafariz é de Nasoni e que esteve na Prelada.
Não consegui encontrar na net o livro Guia de Portugal, de Raul Proença (Caldas da Raínha, 10.Maio.1884 - Porto, 20.Maio.1941), escritor, jornalista, e um dos membros fundadores da Seara Nova.

Pois aqui vos deixo, amigos, nas encruzilhadas das "minhas" Fontes e Chafarizes. Repito que não vem qualquer mal ao mundo. Mas gosto de saber e os organismos do Estado Português deveriam ser os primeiros a serem justos com a História. Ou serão todos os outros que estão enganados ?

Enquanto escrevia estas encruzilhadas a partir de apontamentos que fui guardando, caminhei por outras estradas que me esqueci de registar. Sem elas não teríamos versos e reversos da mesma medalha.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

185 - A Cidade do Porto e o Carro Eléctrico

Na saga dos meus passeios por Massarelos, lembrei-me do Carro Eléctrico. Já em tempos fiz um trabalho que distribui pelos amigos e correspondentes, mas sabe-me bem voltar a  recordar tempos antigos e da utilização deste transporte. E juntando as coisas, entre recordações e história, resolvi dedicar umas linhas ao "Bicho".
Há uns 6 anos e tal, fui visitar o Museu do Eléctrico em Massarelos. Ainda não tinha entrado na "melhor idade" mas já me fazia passar por ela. Vícios antigos. Então a entrada era grátis para os jovens-velhos. Nem me pediram a identificação. A coisa piou mais fino, quando poucos anos depois, convidei o amigo Jorge Peixoto para uma visita e ambos tínhamos alcançado a dita cuja melhor idade. Já não havia descontos e o custo do bilhete de entrada eram 4 euros. Ora, para ver os eléctricos vejo-os na rua e é de borla, disse o Peixoto zangado. Eu também, claro.
Como uma aparição, chegou junto aos dois "vampiros" que nos queriam sugar os euros, uma senhora que além de permitir a entrada, nos acompanhou na visita, durante algum tempo.
Esta história dá para começar com a dos transportes que hão-de ser "eléctricos", mas primeiro tivemos o carroção, puxado por uma junta de bois. E o nosso querido Camilo lá mandou uma farpa à Eça.

Entre politiquice e concessões, em 15 de Maio de 1872 a Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos inaugura um serviço de Transportes e Passageiros. Com serviços de Socorro, que presumo seriam de manutenção. Francamente, não imagino se os serviços de socorro incluíam levar a palha aos burros. Desculpem a brincadeira, meus amigos e amigas, mas quási a século e meio de distância não consigo imaginar o socorro com uma "máquina" destas. Mas naquele tempo parece que tudo se previa.
Adiante e vamos ao carro de socorro, que se escrevia SOCCORO... Se me explicarem porquê, agradeço.
E com um cartolinha no alto. Ver a imagem abaixo.

Em 27 de Maio de 1873, a Câmara atribui a concessão de se estabelecer o caminho de ferro pelo Sistema Americano pelas ruas da cidade. Surgiu uma segunda empresa com o nome Companhia Carris de Ferro do Porto
Em 27 de Junho de 1878, a Câmara autoriza provisoriamente a tracção a vapor às duas companhias. A companhia do Carril Americano, ficou a ser conhecida pela Companhia de Baixo com central no Ouro.
O percurso passou a ser desde Miragaia (da Porta Nobre ou Nova) até à Foz, prolongada até Matosinhos. A foto superior direita mostra-nos uma locomotiva a vapor, provavelmente entre 1878 e 1880.
A Remise da Boavista, demolida na década de 90 do século passado 
e em cujos terrenos se edificou a Casa da Música.
A Companhia Carris de Ferro, conhecida com a Companhia de Cima, tinha as suas instalações na Boavista. A primeira linha foi entre a Praça de Carlos Alberto até Cadouços, próximo da Foz do Douro, embora a linha tenha sido aumentada
Na Rua de Cadouços, creio que ainda existe um pequeno edifício onde esteve instalada a estação terminal. 
Ambas as fotos, tanto em Massarelos como na Boavista não têm nada a ver com esse período histórico. Mas são como uma espécie de orientação para os meus queridos leitores e leitoras desde aquela época até aos nossos dias.
Em 1893 as duas companhias fundiram-se

O edifício das antigas instalações de Massarelos-Ouro inauguradas em 1915. Para aqui vinha o carvão das Minas de S. Pedro da Cova para a produção da energia termo-eléctrica. Actualmente no edifício da esquerda está o Museu do Carro Eléctrico. No da direita é a recolha.

A primeira linha de tracção eléctrica da Península Ibérica surgiu no Porto em 1895. Fazia a ligação de Massarelos ao Carmo pela Rua da Restauração. Nas fotos a mesma linha actualmente.

Por muitas razões que não vêm ao caso, a Câmara do Porto toma conta da Carris, criando os Serviços de Transportes Colectivos do Porto e que desde 1994 passaram a Sociedade em vez de Serviços. Deu no que deu.
A rede tem a sua maior expansão no ano de 1958 e servia, para além do Porto, alguns lugares dos concelhos de Gondomar, Valongo, Gaia, Matosinhos, Maia, num total de 83.897 quilómetros.
Possuíam os Serviços 192 carros motores, 20 carros atrelados e 31 zorras motoras.

Início-términus da Linha 1 - Infante-Passeio Alegre.
O Eléctrico e a Igreja do Convento de S. Francisco. 
Foto obtida ainda com a minha máquina de rolo
Progressivamente o eléctrico foi sendo substituído por autocarros, posteriormente também por trólei-carros (levantou-se nesse período o problema de que a rede de Gaia dos carros eléctricos estaria a causar efeitos negativos na Ponte D. Luíz) de um e dois pisos mas pouco tempo, relativamente, duraram, regressando os autocarros às linhas que serviam tanto os eléctricos como os posteriores autocarros.
Espero que percebam bem as substituições: Eléctricos, autocarros, trólei-carros, autocarros.Até aos dias de hoje. 
As últimas linhas de eléctricos a desaparecer foram três: 1, Infante-Matosinhos; 18, Boavista-Carmo via marginal; 19, Boavista-Matosinhos. Aconteceu na última metade da década de 80.

Por altura da preparação do Porto, Capital Europeia da Cultura 2001, foram projectadas reaberturas de algumas linhas, até para reduzir o transito automóvel no Centro da Cidade. Essencialmente a parte turística era tida em conta. Tudo corria bem, o Porto pensava e a obra fêz-se, até Rui Rio se tornar Presidente da Câmara.
Abriram-se apenas duas linhas: Infante-Passeio Alegre e Carmo-Massarelos. Por muita pressão, Rui Rio concedeu a abrir uma nova linha: Carmo-Batalha, o que aconteceu em Setembro de 2007, se a memória não me falha. Encheu-se de vaidade pelo feito. E a pensar no Metro a passar pela sua porta. Até hoje é tudo 00000.

A antiga e a actual Alameda de Massarelos, hoje Alameda Basílio Teles. Muito antes teve a topónimo de Alameda dos Banhos de Massarelos.

O Eléctrico e a Cidade, actualmente
A linha Carmo-Batalha subindo a Rua 31 de Janeiro. A foto superior esquerda é do dia da inauguração.

 Miragaia Hoje e há uns 60 anos.
Actual Linha Infante-Passeio Alegre

Centro da Cidade. Linha Carmo-Batalha. Os dois extremos nas fotos superiores. Em baixo passagens pela Praça D. João I e Avenida dos Aliados.


Linha Infante-Passeio Alegre, junto à Cantareira. Pela marginal, uma viagem espectacular a não perder.

 Entre a Cantareira e o Jardim do Cálem nas fotos superiores; A inferior esquerda é junto à Ponte da  Arrábida. A inferior direita é a passagem pela Rua de Santa Catarina.

A Praça da Batalha. Ao fundo o Teatro Nacional de S. João, na altura da foto inferior, anunciando um filme de Orson Weles, creio que o Estrangeiro. Em cena uma peça d'Os Comediantes de Lisboa, empresa dos irmãos António Lopes Ribeiro-Francisco Ribeiro (o Ribeirinho) que durou de 1944 a 1950.

Os Gunas. Nome que damos no Porto aos penduras dos eléctricos. Nunca fui guna. Tinha muito medo, principalmente de uma possível tareia em casa se se soubesse. Mas admirava-os, especialmente os de Serpa Pinto que apanhavam o 20 ou o 21 por alturas do Quartel até à Ramada Alta. Antes de entrarem no largo, os que faziam o percurso no estribo da direita, encolhiam-se de tal forma para não baterem com o corpo nas casas que de tão rentes à linha, eram um perigo.
Os cobradores (ou picas, assim chamados no nosso calão) tinham comportamentos diferentes. Uns ficavam na plataforma traseira a enxotar a rapaziada. Outros iam para o meio do eléctrico a fingir que não viam. Nos carros onde o seu lugar era sentado, abriam a portinhola ou batiam com ela para assustar. Mas nunca vi nenhum a agredir qualquer guna. E havia muitos...até já meios homens.
A foto da direita é na Rua José Falcão. A da esquerda está exposta no Museu do Carro Eléctrico e foi tirada, com certeza, em pose. O local será à saída de Entreparedes para a Batalha. Era o 20 ou o 21. Lembro-me daquelas grades junto ao Teatro.

A chamada Foz, para nós portuenses, vai da Foz do Douro (a famosa e perigosa Barra do Douro) até ao Castelo do Queijo e que liga a Matosinhos. São duas as Avenidas que unem este espaço. A do Brasil (foto superior) e a de Montevideu. Na foto inferior o local chamar-se-ia Estrada de Carreiros.Ou já Rua do Castelo do Queijo, actual Avenida de Montevideu,
Uma das praias é a do Molhe que frequentei desde miúdo. Ia com o pai ao sábado à tarde, ou passar um domingo juntamente com a mãe. Apanhávamos o 20 ou 21 até à Boavista e depois, se não erro era o 18 daqui até ao Molhe. Ou também o 2, mas não me lembro de alguma vez ter viajado no "Pipi".

As casualidades acontecem. Nas pesquisas que vou fazendo, encontro imagens magníficas de outros tempos. 60 anos depois, com os companheiros Peixoto e Quintino, no morro da Santa Catarina em Lordelo, faço um boneco parecido em NOV2011, mostrando o actual Largo e Jardim do Calem, que já foi Largo do Ouro. Na velha imagem aparece-nos o inconfundível Pipi. Na nova, lá vai o 1 a caminho do Passeio Alegre. E da Cantareira celebrada pelo Xico Fininho, mais a barra do Douro.

Imagens feitas de dentro do eléctrico da Linha 1-Infante-Passeio Alegre. É a marginal do Douro. A inferior direita já tinha saído no Infante mas foi feita por causa dos restos da neblina.
As fotos não estão colocadas por ordem de passagem.

Quanto estudei na Gomes e no Infante, na Praça da Galiza apanhar o 500 para o Marquês (ou vice-versa) era um luxo. Desenhado e construído nas oficinas dos STCP entre 1951 e 52 foi um protótipo apenas. Raramente saía para circular. Cheio de inovações técnicas e comodidade para passageiros e guarda-freio, nunca foi levado a sério.
O 2 e o 2 com /, (esta pequena diferença do / - traço - indicava o percurso) é o famoso Pipi. Construíram-se uma série não sei de quantos veículos desenhados e construídos também nas oficinas dos Serviços.
Para a rapaziada do meu tempo, o apelido Pipi derivava de transportar o pessoal da Foz, gente de elite. Os Pipis. Mas o nome Pipi original foi dado pelos Serviços.
Pipi é o mesmo que vaidoso, peneirento, brilhantina, dá para tudo. Lembro que havia um jogador do Benfica dos anos 40-50, o Rogério, cognominado Pipi, porque era um vaidoso "penteadinho. Um dia, na Constituição, o Barrigana estragou-lhe o penteado. E a bunda, rabo, cu, enfim, como queiram chamar à parte traseira do corpo humano, abaixo das costas.
O 2 passava também na Praça da Galiza e era recebido com assobios.

Museu do Carro Eléctrico
Em exposição velhas relíquias. 
O Museu foi fundado em 1992 com o objectivo de preservar e divulgar uma vasta colecção de carros eléctricos, atrelados e veículos de mercadorias de inegável valor patrimonial.
Vou reproduzir a história de alguns deles exactamente como está escrito no site do Museu.
100 -  Este carro é uma réplica de um veículo construído na primeira década deste século que ardeu num grande incêndio que deflagrou na estação da Boavista em Fevereiro de 1928. A reconstrução deste carro de acordo com o original realizou-se em 1995.
22 - Adquirido pela Companhia Carris de Ferro do Porto em 1905 à casa Starbuck Car and Wagon Company of Birkenhead, este veículo era inicialmente um carro atrelado. Com o surgimento da tracção eléctrica em 1895, este carro é motorizado e passa a circular como carro eléctrico. Restaurado de acordo com a sua traça original em 1992.
66 - Zorra - Este carro eléctrico com plataformas abertas, vocacionado principalmente para o transporte de carvão, mercadorias e materiais para obras na via foi construído nas oficinas da Companhia Carris de Ferro do Porto em 1915. Por ter as plataformas abertas, em dias de chuva, o guarda-freio tinha que utilizar um grande capote, chapéu de abas largas, botas de borracha e luvas isolantes que o protegessem da água e do contacto com a electricidade.
80 -  Este veículo atrelado destinado ao transporte de peixe foi construído nas oficinas da Companhia Carris de Ferro do Porto no ano de 1932. Este tipo de veículo era utilizado no percurso entre a lota de Matosinhos e os mercados da cidade do Porto, sendo rebocados por carros eléctricos que transportavam as peixeiras.
Carro Torre Hansa-Lloyd (verde) Este veículo automóvel destinado à reparação da linha aérea foi adquirido na Alemanha, em 1929, pela Companhia Carris de Ferro do Porto. Este automóvel permitia uma maior flexibilidade na reparação das vias aéreas proporcionando uma alternativa aos carros eléctricos também utilizados neste tipo de reparações.
Carro Torre Vagão nº49 Este carro eléctrico de reparação da linha aérea foi construído pela Companhia Carris de Ferro do Porto em 1932. Equipado com uma plataforma elevatória manual e com uma pequena oficina destinava-se a efectuar pequenas reparações nas linhas aéreas e nos carros eléctricos que estavam ao serviço na rua.la


Pormenores da zona de "condução" e de dois veículos.
Há cerca de dois anos, a STCP ofertou à Cidade de Santos, do Brasil, dois eléctricos. Presumo que os modelos são os da foto da série 300-315 e foram fabricados nas oficinas da Carris de Ferro entre os anos 1929 e 30. É o Fumista. Nos meses quentes circulava sem janelas e era permitido fumar no seu interior.

Caros amigos, sempre gostei do eléctrico para além das viagens. Muitas histórias tenho passadas neles e com eles.
Foi num eléctrico - da linha 10 - que conversei com o meu irmão sobre o rebentamento das "escaramuças" em Angola. Estávamos a ler a notícia um jornal da tarde e disse-me ele, isso acaba em pouco tempo. Como estava enganado. 
A primeira vez que fui a S. Pedro da Cova e tomar banho a Belói e comer um rojões numa tasca de quem ninguém se lembra (no Ferreira) foi de eléctrico.
O prazer que dava quando o guarda-freio nos permitia ir na plataforma e deixava-nos mudar a agulha.
O salto dos ardinas em andamento era um espectáculo, principalmente o que fazia a Rotunda da Boavista. Ficou famoso o seu salto "para trás".
Foi a saltar em movimento que caí e rasguei no joelho direito as calças do meu fato da comunhão. 
E possuir o passe escolar, era uma vaidade.
Hoje em dia, o eléctrico é mais para turista ver e usar mas é um roubo o custo dos bilhetes. Assim como o da entrada para o Museu. 
 Mas ponham mais linhas a funcionar. Oxalá o novo Presidente da Câmara, Rui Moreira, dê um empurrãozito