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domingo, 17 de outubro de 2010

47 - Miragaia, os Arménios e S. Pantaleão

Voltamos a Miragaia para tentar ilustrar a história dos Arménios e a Lenda de S. Pantaleão. Mas é preciso muito cuidado, pois há coisas recentes, escritas por quem sabe. E eu só sei de caminhos e andanças. Melhor mesmo, para quem estiver interessado nestas vidas, é ler teses apaixonantes, cujos caminhos indicarei na altura devida.
Mas vamos começar por um lado e "ós pois" logo se verá.
Miragaia tinha nos seus remotos tempos e até ao séc. XIX, uma praia no rio Douro, provavelmente com um bom porto, onde já os Romanos ancoravam. Mas como toda a margem direita tinha bons ancoradouros, antes talvez os Celtas, Iberos, Fenícios, Gregos, Cartagineses também por aqui tenham poisado e comercialisado. À esquerda na foto, a Alfandega Nova que comeu a praia. Claro que a Rua (Nova da Alfandega) também, ao mesmo tempo que cortava e interrompia a Velha Rua de Miragaia, que vinha lá de Monchique.
Uma foto de há 100 anos de Arnaldo Soares (ou de Alberto Ferreira) mostra-nos praticamente esta parte de Miragaia, tal como é hoje. As casas sobre as arcadas eram residências pertença de uma certa burguesia. Que a partir dos anos 60/70 do século passado foi sendo desalojada para a instalação de escritórios e armazéns dos agentes comerciais ligados ao transito alfandegário.
Isto vem ao caso para lembrar que a Cidade do Porto teve desde "antiquissimamente" (palavrão que o portuense gosta de ter na sua gíria) um forte relacionamento marítimo-comercial com a Europa do Norte e depois com o mundo oriental.
Por alguma razão os Descobrimentos Portugueses tiveram nesta cidade o seu impulso. Dos estaleiros portuenses saíram muitos dos Barquitos que andaram à séria por esse mundo fora a partir do séc. XIV. Mas muito antes já frotas tinham seguido por rios e mares, que para além do comércio, aproveitavam para dar cabo da cabeça a mouros e a simpáticos piratas que lhes apareciam pela proa.
Ora sendo assim, conhecendo a fama da Cidade, um grupo de comerciantes Arménios (e também Gregos, segundo uns), fugidos das perseguições de Constantinopla, aportaram em Miragaia em 1453, onde se refugiaram. Nota à parte: Sabemos que desde a antiguidade os Arménios foram sempre perseguidos. Na primeira vintena do séc. passado, mais de um milhão foi massacrado e tantos outros refugiaram-se pelo mundo. Argentina e Brasil terão as maiores colónias de emigrantes Arménios. Portugal teve a sorte de acolher Calouste Gulbenkian; a França, Charles Aznavour e a família de Alan Prost, e por aí fora. Relativamente recente, temos a separação da Arménia da antiga URSS. Finalmente País Livre ?.
Em algumas ruas da freguesia ficaram registadas na sua toponímia a paragem dessas gentes.
Rua da Atafona é uma recordação Arménia. Mas também se mistura com Hebreu. Na primeira língua quer dizer Engenho de moer grão em seco; na segunda quer dizer Mó. Mas como a região foi local das duas culturas - e não esqueçamos que não muito longe ainda existe a Rua e Travessa do Forno Velho, logo uma ligação Judaica não será de desprezar. Mas hoje interessa-nos percorrer estas ruas de empedrados e altos muros que nos fazem sentir pequeninos.
Voltemos à direita pela Rua da Ancira que vai dar à Igreja de S. Pedro de Miragaia. Em Português arcaico quer dizer, gancho, âncora.
Mas Ancira escrevia-se Ancyra no tempo dos romanos e correspondia a Angorá (belíssima lã extraída do pêlo de uma ovelha muito comum nesta região) ou Ancára actual, no Centro da Anatólia e hoje Capital da Turquia. A opinião da maior parte dos meus investigados crêem que é mesmo uma homenagem (e saudade ?...) dos Arménios à região de onde terão partido.
Não esqueci S. Pantaleão. Mas antes e porque também é passeio e recordação, é bom percorrer a Rua Arménia.
É uma rua um pouco sinuosa, comprida, que parte das traseiras, ou ao lado, como se queira, da Igreja de S. Pedro de Miragaia e vai dar ao largo que tem o nome de um Miragaiense famoso, Artur Arcos. O largo tem a Fonte de Hulsenhos e o Restaurante Francesinhas na Pedra. Mas isso fica para outras viagens.
O pormenor desta Travessa é lindíssimo. Embora cortado na fotografia, pois estava em obras, abre-se uma janela para a rua, que mais não é do que uma serventia entre as duas paredes, de uma casa. Aliás como algumas outras que há por esta zona.
Nesta velha foto temos o pormenor completo. Diz o Postal que é a Travessa da Rua Arménia. Francamente na toponímia actual não encontrei este nome. Será a Viela da Baleia ? Atenção amigos Miragaienses e não só, fico à espera da vossa informação, porque esqueço-me sempre de tomar notas.
Vamos então a um tema riquíssimo. S. Pantaleão. Foi um médico que teve apenas 23 anos de vida, convertido ao cristianismo e por causa disso, foi torturado e decapitado em 303 em Nicomédia, na Ásia Menor.
Diz a Lenda - ou não o será - que os Arménios transportaram as suas relíquias e quando chegaram a Miragaia (em 1453) foram depositá-las na Igreja de S. Pedro. Continuando pela história, as relíquias foram guardadas num cofre de prata, oferecido pelo Rei D. Manuel I, cumprindo a promessa de D. João II. Estas relíquias foram trasladadas para a Sé do Porto em 1499 por ordem do Bispo D. Diogo de Sousa, ficando sepultadas na capela do Altar Mor. Aquando das Lutas Liberais, as relíquias desapareceram. No diz-se-disse, alguém disse que sabia quem as tinha. Pronto. Acabou. (ver História no sítio http://www.jf-miragaia.net/ )
S. Pantaleão acabou por ser durante 5 séculos Padroeiro da Cidade.
Mas entretanto, na Igreja de Miragaia, está uma parte da relíquia, a mão direita do Santo, transformada em peça de ourivesaria.
Mas para confundir mais as coisas, no Museu Nacional Soares do Reis, encontra-se a cabeça igualmente transformada em peça de ourivesaria.
O museu abriu a cabeça em 1999 e foram realizados estudos incluindo coisitas que se encontravam lá dentro: Têxteis, fragmentos de osso e dentes, papeis. Publicou um livro sobre o tema, que custa €25.
http://mnsr.imc-ip.pt/pt-PT/loja/Loja_Publicacoes/ContentDetail.aspx?id=529 para os interessados lerem a introdução.
Mas há quem diga que foi tudo uma grande golpada. S. Pantaleão e as suas relíquias, parece que passearam por Venesa e Roma e por muitos outros locais. E aparecem no Porto sem mais nem menos 1.000 anos após a sua morte.
O Porto precisava de uma "imagem" como a de São Tiago, na Galiza e São Vicente em Lisboa. Só para falar nas proximidades. Então há que criar um caso. Para maior reconhecimento e benefício desta cidade já muito divulgada no mundo ?
Entretenham-se a ler
SÃO PANTALEÃO «DO PORTO»: UM PARADIGMA DE INVENÇÃO DE RELÍQUIAS EM
FINAIS DA IDADE MÉDIA.
E pronto. É assim Miragaia. Mas haverá mais se tudo correr bem.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

47 - Miragaia e a Judiaria

Tem esta bela freguesia da nossa Cidade do Porto, muitas estórias e lendas. Talvez a mais antiga seja a que envolve o Rei Ramiro, o Castelo de Gaia, o Mouro e a Bela Princesa de nome Mira e por aí fora. Mas a história é história e é baseada nos vários escritos dela que proponho este passeio. Miragaia (de Baixo) foi um pequeno aglomerado populacional que nasceu a partir do rio, já referido documentalmente no séc. X, como sendo um local onde atracavam os romanos vindos do Norte antes de seguirem viagem para sul. Quando as gentes da Cidade se voltaram para ocidente fazendo-a crescer fora das muralhas Suevas ou Primitivas, Miragaia cresceu também, subindo o morro. Para os lados de Monchique. Referencio estas muralhas que existiram em torno de Sé, enquanto os arqueólogos não se pronunciarem sobre outras possíveis muralhas que parece terem havido antes desta. Porque as Muralhas, todas elas, tiveram um papel preponderante na vida e expansão da cidade. E Miragaia continuou a crescer mesmo fora das posteriores Muralhas Fernandinas do séc. XIV. Mas o nosso passeio de hoje tem dois começos e um fim comum. Os Judeus de Miragaia.
Comecemos então por um lado tendo como referência a Rua da Restauração, nas traseiras do Palácio de Cristal que fica bem lá no alto de um imenso morro, que muitas vezes escalei quando "chavalo" para entrar de borla, e olhamos para Monchique e para as ruínas do seu extinto Convento, construído no séc. XVI. Ah, a bela-triste história dos amores de Simão e Teresa e da pobre Mariana, enredo apaixonante de Camilo Castelo Branco no seu best-seller Amor da Perdição, escrito em 1862 no Aljube (Cadeia da Relação) e do qual faz parte o velho Convento.
Ora este Convento foi erigido no local onde existiu uma Sinagoga até pelo menos 1386 e que terá sido a terceira da Cidade. Posteriormente, os terrenos foram doados em 1410 por D. João I aos Coutinhos, cujas origens nobiliásticas eram muito antigas. Nestes terrenos foi construída uma casa para residência, mas as leis do Porto não permitiam presenças fidalgas na Cidade para além de um pequeno período por ano. Acabou por ser construída na clandestinidade e para a legalizar demorou dezenas de anos, que nem as "cunhas" do Rei tiveram força para dar contorno à lei. Outros tempos...
Para já continuemos a fixar-nos no Convento. Descendo a Rua de Sobre o Douro podem visitar-se as ruínas pois a proprietária actual (Sociedade Clemente Meneres) permite-nos esse prazer. Que é relativo, claro, na minha opinião. Diz-se que será um novo hotel em breve. Para já não se percebe nada que o indique. Mas sigamos. Já no reinado de D. Manuel I e os judeus expulsos da região para a Vitória, e logo a seguir de Portugal, os tais Coutinhos, descendentes dos outros, conseguiram que a casa fosse legalizada, mas não autorizados a viver nela, e destinaram-na a um Convento. Pelo menos, uma parte. O que conseguiram, com cunhas do Bispo.
Sobre a Sinagoga, não há registos. E dos poucos achados arqueológicos, relativamente recentes, um foi preservado. É uma inscrição em hebraico numa pedra, mantida na Capela/Igreja do Convento e transladada para o Museu de Arqueologia (?) no Convento do Carmo, em Lisboa.
Depois da extinção das ordens religiosas, no século XIX, pouco sobrou. Sabe-se que a Capela ou Igreja, construída em 1535, era uma preciosidade em talha dourada, equiparada à das Igrejas dos Conventos de Santa Clara e de S. Francisco. Desmantelada, foi um altar para a Igreja de S. Mamede de Infesta, outro para a Igreja de Massarelos e outro para a de S. Pedro de Miragaia. Do resto nada se sabe. Coisas à moda do Porto.
Passemos agora a outro percurso para iniciar o segundo começo, pois a história faz-se de caminhos. Saindo do Largo do Viriato, toponímia que passou a vigorar apenas em meados do séc. XIX, entramos na Rua da Bandeirinha, antes conhecida pela Bandeirinha da Saúde. Desde o séc. XVII. Já lá iremos.
Passando por várias casas que foram habitadas ou berço de ilustres individualidades da cidade, encontra-se o Palácio das Sereias, ou da Bandeirinha ou dos Portocarrero, nome dos penúltimos proprietários, por eles adquirido aos Cunhas e Vilhenas. (A senhora Vilhena foi quem mandou construir o Convento de Monchique) . Hoje pertença de uma irmandade religiosa. Construído no séc. XVI, vamos deixar a sua história para outra altura.
Pela esquerda continua a Rua da Bandeirinha, que nos vai levar à história original dos Judeus em Miragaia. Até ao século XIII viviam os Judeus dentro da Cividade (a zona junto à Sé - Morro de Pena Ventosa - demarcada pelas muralhas primitivas) ou a ela chegada, mas a partir dessa altura foi proibido alugar ou vender-lhes propriedades. Isso levou-os a partir para Miragaia.
Ao fundo da Rua um largo onde se encontra a Torre da Saúde, construída no séc. XVII, que sinalizava a entrada dos barcos no Douro e também para efeitos de controle sanitário.
À direita temos a frontaria do Palácio, com grande destaque para as Mamudas (As Sereias) que ornamentam lateralmente a porta de entrada. Velhas estórias sobre elas e quem as sabe contar é o Hélder Pacheco.
Uma foto de há mais de 100 anos, da autoria de Arnaldo Soares ou de Alberto Ferreira.
Dito por uns, este foi o local onde existiu o Cemitério Judeu. Mas outros crêem que terá sido no final da Calçada das Virtudes, próximo da Igreja de S. Pedro de Miragaia. É muito para lá, a oriente. Quer dizer que a história faz-se depois, relacionada em palpites e não em documentos precisos. Porque os não há. E a arqueologia nem sempre é presente. E cada historiador tem direito ao seu parecer. Adiante.
Certo é que os Judeus ocuparam este Monte, a Escarpa da Bandeirinha (na altura, não sei como lhe chamavam), hoje há as Escadas das Sereias, subindo desde a "Praia" (onde está a Alfândega Nova) e estendendo-se até Monchique para ocidente. A confirmá-lo há os documentos do Cabido de 1380 referentes à cobrança por terrenos a algumas famílias judaicas. Reproduzo conforme li. Porque não a todas as famílias ? Será que o Cabido não era dono de todos os terrenos? Adiante.
O único legado, eu diria lembrança, da Judiaria de Miragaia que aqui existiu até à sua mudança obrigatória para a Vitória em 1386 por ordem de D. João I, é a toponímia. São ruas, travessas e escadas estreitinhas. Aliás o que era normal na idade média. Francamente, lendo aqui e acolá e percorrendo as várias vias de hoje, parece que o espaço da Judiaria seria enorme, e não tão só Monchique e Bandeirinha.
A Rua do Monte dos Judeus começa a uma dezena de metros da Bandeirinha. O tal local onde existiria o cemitério Judaico. Segundo uns.
E prolonga-se para Oriente. Até aos Cidrais.
Um documento de 1410 refere que foi dada autorização a Gil Vaz da Cunha para construir umas moradas no pequeno monte em que tinham habitado os Judeus e onde existia uma Sinagoga abandonada. Ora isto era em Monchique que fica um pedaço de caminho para ocidente.
Mas também é verdade que as demarcações urbanísticas de há 600 anos são muito diferentes das de hoje. E o que vale agora é a divulgação destes "novos" caminhos, sentir a sua vivência antiga - eu sinto e por isso os percorro - e olhar o que nos rodeia. Esta foto é do início (ou o fim, conforme as percorramos) das Escadas do Monte dos Judeus.
Logo a seguir estamos nos Cidrais. Nome que deriva de Pomar de Árvores Cidreiras, de cujo fruto se extraía uma bebida que substituía o vinho, por quanto - e no enquanto - as vinhas não eram (foram) muito vulgares nos tempos dos romanos e da Alta Idade Média. Vale a pena deter-mo-nos e olhar à volta.
O entroncamento e cruzamento de ruas. Casas características dos séculos XIV a XVIII, guardando ainda resquícios desses tempos, mas que durante a sua recuperação não terão sido salvaguardados.
Descendo as Escadas, logo à esquerda encontramos um largo. Nele está uma fonte do séc. XIX, trasladada do antigo Mercado do Peixe, onde é hoje o Palácio da Justiça. No sítio da Junta diz que está em restauro. Refiro não saber se o restauro já está completo. Desde há 3 anos que vejo a Fonte mais ou menos como está. É verdade que agora escorre uma gota de água por um buraco na parede. Mas não sou bom nestas coisas. E a Junta é quem sabe.
O largo é lindo, com a fonte, árvores, bancos e roupas estendidas com bom cheiro a lavado. Mas num cantinho há lixo. Restos de persianas, latas de tintas, pedras e tijolos partidos, etc. - que raio de povo este sempre pronto a emporcalhar o que não deve -. E também se vêm pedras dispersas a fazer lembrar coisas antigas. Penso eu. Na dúvida e tentando matar a curiosidade, escrevi à Junta de Freguesia, enviando esta foto pedindo uma informação. Ora isso foi em meados de Maio e até hoje...
Convido a uma paragem, sentar num dos bancos, puxar de um cigarro e deixar o olhar percorrer Miragaia. É um prazer. Que para ser completo, mesmo, mesmo, era ter a companhia de uma cervejinha.
Na saída aberta no muro à direita, por cima, a pedra que une as ombreiras tem uma inscrição. Não sei em que língua. Infelizmente a foto em que a tentei gravar "pirou". Mas creio ser uma inscrição hebraica.
É a hora de voltar a percorrer as ruas e escadas, por entre muros e séculos de história.
Aqui chegados vindos pelas Escadas dos Judeus, estamos próximos do Centro de Miragaia. Viríamos cá ter na mesma, mais metro menos metro, se optássemos descer por Monchique ou pelas Escadas das Sereias.
Mas isso são outras viagens que prometo para breve. E já agora fica uma recomendação para os viandantes: Miragaia não se conhece num dia e as caminhadas façam-nas de cima para baixo. A não ser que gostem de desportos radicais. Mas para esses, recomendo a subida anual dos 250 degraus dos Guindais.
Nota final: São muitos os sítios percorridos para coligir estórias da história. Como sou muito despistado, raramente me lembro de registar onde li ou vi algo de interessante. Por vezes aparecem-me várias opiniões sobre o mesmo tema. Aí quero, ou pelo menos tento, confirmar in loco. Para conhecer e ser o mais fiel possível. Por essas andanças descobre-se sempre uma coisa nova. Por isso as fotos publicadas podem diferir entre si meses.
E há sempre os amigos, tanto ou mais apaixonados do que eu pela nossa Cidade, que deixam mais uma informação preciosa. Afinal, a Cidade do Porto é uma Paixão.

domingo, 3 de outubro de 2010

45 - O Quarteirão das Carmelitas-Santa Teresa

Esta é a chamada Volta ao Quarteirão, assim designado um passeio pequeno entre amigos para passar o tempo e dar umas de palheta. Quer dizer, conversar de tudo e de nada. Antigamente também era para evitar ouvidos indiscretos ou mostrar a fatiota nova.
Este quarteirão de hoje tem séculos de história - nesta minha cidade o tempo e o espaço é contado e medido em séculos -. Imaginem um quadrado mais ou menos com 200 metros de lado e acompanhem-me começando pelo lado esquerdo.Depois de subir a Rua dos Clérigos (tema para futuros passeios) encostámo-nos às escadas da Igreja e preparamos nova subida, agora pela Rua das Carmelitas. Confusão na minha cabeça: porque se chama "das" quando o Convento (hoje Quartel das motorizadas da GNR) ali a 300 m é "dos" (Carmelitas). Simples. Quem não sabe é como quem não vê.
Mas antes da explicação, uma foto comparativa com mais de 120 anos, presumo, do que foi a Rua das Carmelitas. Reparem naquelas pequenas torres no "passeio" da Igreja dos Clérigos. Como houve várias alterações às escadas, provàvelmente acrescentaram-lhes mais alguma coisita. Ou será defeito do (s) fotógrafo (s).
Rua das Carmelitas e à direita Rua de Cândido dos Reis
Pois mais ou menos por aqui existiu um convento das Carmelitas, com a denominação (será a palavra correcta ?) de S. José e Santa Teresa de (das ?) Carmelitas Descalças. Construído entre 1702 e 1732 e extinto em 1833, com a fuga das monjas - apoiantes de D. Miguel - aquando da vitória de D. Pedro IV e do Porto, nas lutas liberais. O edifício foi aproveitado para vários fins: Escola Normal, Obras Públicas, Correios, Cavalariças da Mala Posta e até de um barracão para teatro.
Não há qualquer registo escrito significativo, nem desenhos, fotos (?) sobre este Convento. Demoliu-se e pronto. Coisas à moda do Porto. Outro pormenor da Rua das Carmelitas. Por vezes torna-se um pouco confuso olhar as fotos de uma rua antiga. Comparada com a anterior, nada se parece com ela. Talvez fotografada com anos de diferença. Mas tudo tem a sua explicação. Sabe-se, pela leitura de um relatório camarário, que a Câmara do Porto solicitara, no ano de 1838, autorização à rainha D. Maria I para proceder ao seu alinhamento. Isto significa que a artéria sofreu algumas alterações.
À época em que foi solicitado o referido alinhamento, a rua era bastante mais estreita do que é actualmente, subia em curva por entre duas altas paredes, uma das quais delimitava a cerca do Convento. Anteriormente talvez se tenha chamado do Calvário Velho, nome deste local e onde foi construído o Convento. Mas em 1839, chamou-se Rua do Anjo, mas voltou a Carmelitas, não sei quando.
Do "passeio" da Igreja dos Clérigos, olhamos para a esquerda e temos a "falecida" Praça de Lisboa. Ao fundo o edifício da Reitoria da Universidade do Porto. Por ordem de datas, da frente para trás, já foi Clérigos Shoping de má memória, parque de estacionamento de camionetas - olá pessoal dos velhos tempos, lembram-se? era aqui onde descíamos e subíamos das ditas camionetas que nos traziam e levavam, de e para os Quartéis do sul ? -, Mercado (do Anjo, mas lá chegaremos), Casa de Recolhimento de Senhoras e órfãs. E até já teve Capela. Também lá iremos. Porque estou a propor uma Volta ao Quarteirão, lembram-se ?
No início da subida da Rua das Carmelitas, à direita, está a estreita Rua do Conde de Vizela. Que foi em tempos idos a Rua do Correio. Ligada ao 1º Conde de Vizela (o 2º foi o da Casa e Jardins de Serralves), que mandou construir todo o quarteirão abrangendo as Ruas de Cândido dos Reis nas traseiras, frentes para a de Santa Teresa a Norte e Carmelitas a Sul. São edifícios de finais do séc. XIX princípios do séc. XX. O lado direito da Rua não têm história. Pelo menos não a descobri.

Subindo as Carmelitas encontramos a Rua de Cândido dos Reis. Toponímica em homenagem ao Almirante Republicano que se suicidou faz precisamente 100 anos por ter pensado que a revolução de 5 de Outubro tinha falhado. A fachada do prédio da direita terá sido o Palácio do Conde de Vizela ? Bom, parece que o limite da cerca do tal Convento das Carmelitas começaria mais ou menos no edifício da A Pompadour (Armazém das Carmelitas). Foi conhecida pelo Largo dos Correios e Rua da Rainha D. Amélia
Aqui realizava-se uma espécie de Feira da Ladra, conhecida como Mercado dos Ferros Velhos. Presume-se que a sua origem vem do séc. XVII, pois há referencias a Ladra num documento da época. Quer dizer recepção e venda, velharias, etc. e tal. Como hoje.
A demolição do Convento e do Mercado deu origem nos inícios do séc. XX à construção do Bairro das Carmelitas, com edifícios de arquitecturas da época. Entre eles, encontramos este com características Arte Nova.
Estratègicamente colocada uma bandeirola de publicidade. Nesta nossa cidade, todos os espaços se vendem e alugam. Não interessa se destoam ou ofendem a vista. Mas quem quer saber, para além do fotógrafo ocasional que não consegue separar o reclame do original, por muitas manobras que faça.
Continuando a subir, logo encontramos a Rua da Galeria de Paris. Foi projectada para ser coberta em vidro, mas a ideia foi abandonada. Faz parte do mesmo quarteirão onde existiu o Convento. Também encontramos um edifício com características Arte Nova, construído em 1906. Creio que é propriedade da Santa Casa da Misericórdia.
Como a maioria dos edifícios deste quarteirão, encontra-se fechado e os grafitis são a nova "referência" artística da rua.
Olhando para os edifícios, vêm-se obras de arte a par de aberrações. Numa das ruas mais in da cidade actual, onde os grafitis imperam, (serão os novos utentes os artistas ?) descobre-se uma pintura de meia fachada em branco. A parte superior continua em creme sujo (íssimo). Esquisito por ser branco em prédio granítico, esquisito por ser só meia pintura. Problemas de condomínio ? As varandas em ferro são lindíssimas.
Já no alto das Carmelitas, de costas para os Leões e para a fachada leste da Universidade, (os pontos cardeais nestas coisas são sempre de mais ou menos, conforme está o sol ou apenas a claridade cinzenta da cidade), à direita está o espaço que a Câmara vai renovar do antigo mercado dos Anjos e à esquerda sobressai o edifício da mundialmente conhecida Livraria Lello (antiga Chardron). Mas cada coisa a seu tempo.
Numa foto histórica, mais ou menos do local onde a minha pobre reprodução actual foi feita, já a Lello existia. À direita está (esteve) o tão célebre Mercado do Anjo.
Mas vale a pena, divulgar a história do local onde ele existiu, que vejam lá, remota ao séc. XII. Diz a lenda...
... que, em certa ocasião, passando D. Mafalda e D. Afonso Henriques, por aqui, a caminho de Guimarães, a esposa do monarca sofreu grave acidente. Em hora de aflição, o nosso primeiro rei terá prometido mandar construir uma capela em honra de S. Miguel-o-Anjo se a rainha saísse ilesa do trágico acontecimento. A prece foi escutada e a promessa cumprida. Na ermida havia uma imagem de Sebastião e na seta que trespassava o coração do santo protector contra a peste estava pendurada uma chave - a da porta da cidade que se abria ali perto na muralha fernandina.
Fora ali colocada para que o padroeiro protegesse a cidade dos surtos da peste tão frequentes e mortíferos durante toda a Idade Média. (Germano Silva, no JN)
Apontamento meu: Quem lá colocou a chave e quando ?, pois é sabido que as muralhas só lá esteviram a partir de séc. XIV. Mas para o caso não interessa nada.
Ao redor da capela de S. Miguel-o-Anjo instituiu-se, em 1672, o Recolhimento do Anjo destinado a acolher viúvas e meninas órfãs filhas de pais nobres. A sua actividade durou até à extinção das ordens religiosas. O edifício foi demolido em 1837 para dar lugar ao Mercado, que acabou também por tomar o nome do padroeiro da capela original.
Mas voltemos à Lello e por muito que se tenha escrito e fotografado, nunca é demais lembrar que é um edifício inaugurado em 1906 da autoria de Francisco Xavier Esteves, com fachada em Arte Nova e resquícios de neogótico. Destaque no interior para os gessos imitando madeira, a escada, uma das primeiras construções em cimento armado da cidade, e o vitral do tecto. Recomendo uma visita - e já agora apreciem bem o que por lá existe para além de livros - e conheçam a divisa da Casa: Aqui nada é proibido. Considerada por uns a mais bonita Livraria do Mundo, ou pelo menos, como na opinião do The Guardian, a terceira mais bela.
O mercado do Anjo foi construído por volta de 1830/40 e demolido em 1952. Há quem recorde um belo chafariz que lá existia e o qual deve ter sido pura e simplesmente desfeito, pois não há qualquer registo dele. Atenção, caros passeantes. Não confundir com o Chafariz de S. Miguel (o Anjo), de Nazoni, que está junto à Sé.
No entanto existe esta bela fonte que foi reconstruída nos jardins dos Serviços de Águas do Porto -SMAS- no mesmo ano da demoliação do Mercado
O local onde existiu o Mercado está agora fechado para reconstrução de qualquer coisa. A ver vamos o que vai sair da manga mágica da nossa Câmara Municipal.
Parece que existiu uma escultura até há bem poucos anos, que esta placa recorda. Francamente, não me lembro de a ter visto. E quanto ao mercado, lembro que minha avó e minha mãe se referiam muito a ele. Para elas, aqui sempre foi o Anjo.
Continuando a nossa volta, do mesmo local olhamos para a esquerda e vamos encontrar a antiga Praça de Santa Teresa. Curiosamente, ainda hoje lhe chamamos assim (ou Praça do Bombeiro), embora desde 1915 se chame de Praça Guilherme Gomes Fernandes em homenagem a um antigo Comandante dos Voluntários do Porto
Imagem de um pormenor actualmente
Outra, com mais de um século. O ponto de referencia é o Palácio do Visconde de Balsemão.
Outro pormenor da antiga Praça
Logo à direita encontramos a Rua de Santa Teresa, que tomou o nome do local, isto é, do Convento que esteve por todo este quarteirão.
Iniciamos a descida e este é o terceiro lado do quadrado. Olhando para a direita, encontramos novamente as ...
... Rua da Galeria de Paris...
... a seguir a Rua Cândido dos Reis...
E mais um pormenor do Mercado dos Ferros Velhos
E no extremo deste quadrado ilusório, na esquina da Rua da Fábrica (antiga Rua da Fábrica do Tabaco, porque lá uma existiu) com a Conde de Vizela, um velho edifício que albergou por muitos anos, no rêz-do-chão, os escritórios da Fábrica de Moagem da Granja, de Campanhã. Presumo que os azulejos ainda são desse tempo.
Fechando o tal quadrado, do tal quarteirão, a Rua do Conde de Vizela vista de Norte para Sul. Muitos dos antigos edifícios, embora conservados, estão fechados. Armazens, escritórios e residencias, faziam desta rua uma das mais movimentadas da zona. Curiosamente, ainda lá vi aberta uma velha oficina de carpintaria, escura como sempre foram essas pequeninas indústrias.

Até ao próximo passeio.