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quinta-feira, 10 de julho de 2014

189 - Novos espaços públicos. 1

A Praça das Cardosas é um novo espaço público da Cidade do Porto situada na antiga cerca do extinto Convento dos Lóios.
Foi um obra que acompanhei com alguma assiduidade durante os anos da sua execução. Mas não foi só a feitura da Praça. Todo o triângulo formado pelo Palácio das Cardosas, Largo dos Lóios, parte final da Rua das Flores e Praça de Almeida Garrett foi totalmente reconstruído e/ou restaurado.
Mas irei por partes, começando por referenciar o "triângulo" ainda mal definido a partir de uma maqueta do Porto do séc. XIV. Depois uma planta que presumo ser de meados do séc. XVIII. Uma vista aérea com a Praça identificada e uma imagem do Google de há sete anos, precisamente.
1. Actual Praça da Liberdade. 2. Cerca do Convento dos Lóios e posteriores edificações. 3. Estação de S. Bento. Na maqueta, 4. Sé Episcopal. 5. Praça da Ribeira. Nela vêm-se a cerca romana (?) envolvendo o Morro de Pena Ventosa junto à Sé (só existe um torreão e um pouco de muralha) e a cerca exterior, a medieval, a que chamamos Muralha Fernandina. Da qual existem uns panos e uns torreões nas freguesias da Sé e de Miragaia e algumas pedras que servem de paredes a casas.  Aos muros da Ribeira, não sei que lhes hei-de chamar. Isto apenas são pequenos apontamentos ao correr do teclado.
A. Rua dos Clérigos. B. Rua do Almada. Do lado esquerdo é o Largo dos Lóios e a ligação à Rua das Flores pela pequena Rua de Trindade Coelho, relativamente recente. Do lado Direito é a actual Praça de Almeida Garrett.
O topo norte é fechado pelo Palácio das Cardosas, que alberga o Hotel Intercontinental.
Mas o quarteirão-triângulo, para além da reabilitação urbana, tem muita história. Não sei se a conseguirei descrever muito bem, mas se houver erros, os meus amigos leitores vão-me rectificar.

Estamos em 1490 quando a viúva Violante Afonso doou uma propriedade adjacente à Muralha com horta, laranjal, fontes e casas e ainda um oratório com a invocação de Nossa Senhora da Consolação aos cónegos seculares de S. João Evangelista para edificarem a sua Igreja no referido oratório.
O Bispo do Porto D. João Azevedo (31º Bispo do Porto, episcopado de 1465 a 1496, apresentado pelo rei D. Afonso V para ocupar a Sé que se encontrava vacante) foi quem meteu a "cunha", aliás coisa a que deveria estar habituado tantas são as lembranças que a sua biografia comporta. Ou não fosse ele natural de Lisboa. Para o caso não interessa nada.
Presumo que o autor desta gravura é o Pintor Alberto Aires de Gouveia (1867-1941) que terá adoptado o apelido Gouvêa Portuense. Bem pesquisei mas não obtive respostas.
O muro é o da Muralha Fernandina, onde hoje se encontra o Palácio das Cardosas. Já não existia na altura da Reconstituição desta gravura. Se o autor é quem julgo ter sido.

A primeira pedra para a construção da Igreja nova do Convento de Santo Elói dedicada a Nossa Senhora da Consolação e do Convento dos Lóios, no lugar da Fonte da Arca, foi lançada pelo Bispo em 6 de Novembro de 1491 iniciando-se de imediato as obras com o apoio do Rei e da Rainha, do Bispo, da viúva Violante, de outros conventos dos Lóios e mais pessoas.
Um século depois já era tudo muito pequeno e resolveram demolir os edifícios e construir nova igreja, dormitórios e oficinas, tendo as obras começado em 1592. As obras pararam em 1611 para que os fundos a elas destinados fossem desviados para o Colégio de S. João Evangelista de Coimbra.
As obras só terão continuado talvez por volta de 1650, havendo um requerimento para a construção de um passadiço do Convento para a Muralha. Existiam duas portas de entrada na Cidade: A de Carros ligando a S. Bento e a de Santo Elói ligando às Hortas (Ruas dos Clérigos/Almada/Praça da Liberdade).
Num aparte, li, não sei onde, pois tenho bastantes obras sobre e do Camilo Castelo Branco, uma sua afirmação (?) na fase anti-clerical que este passadiço servia para os Frades Lóios visitarem as Noviças e Freiras do Convento de S. Bento de Avé-Maria. De cabeça recito o pormenor do texto lido já há tempos - anos -  que será mais ou menos assim: Aproveitando o caminho que liga os dois conventos através da Porta de Carros, lá vão eles (os Lóios) etc. 
Os anos foram passando e as doações, compras e expropriações continuaram durante os séculos, tornando a Congregação dona de uma vasta área no interior da cidade muralhada.
A cerca do Convento estava limitada a norte pelo passadiço entre a Muralha e a Cerca que ligava as duas Portas (Postigo de Santo Elói e Porta de Carros); A sul e nascente pela Rua das Flores e a Feira de S. Bento (actual Praça de Almeida Garrett) e a poente pelo futuro Largos dos Lóios, principal porta de entrada do Convento.
A Praça de Almeida Garrett foi chamada de Feira de S. Bento
Embora a Estação tenha entrado ao serviço em 7 de Novembro de 1896,
só 20 anos mais tarde foi inaugurada oficialmente.

O Palácio, não sei se desde o tempo em que foi comprado e concluído pela família Cardoso, albergava lojas de vários comércios. Ainda no meu tempo de juventude, pela porta principal e que levava a um pátio existia um armazém creio que da Farmácia Vitália, entre outros e a famosa Adega da Cerca, bons vinhos e petiscos. Nesse tempo ainda não havia a "febre das loirinhas". Já dizia Salazar, beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.
Na esquina era o Café Astória (hoje fazendo para do Hotel mantém o nome), local de paragem obrigatória por quem chegava e partia de comboio. Em 1972 foi substituído por uma agência bancária.
No lado direito, quási a chegar ao Largo dos Lóios, a Vitália foi um espanto para a época, segundo as crónicas. A fachada com incrustação em ferro e vidro estilo arte-deco, obra dos arquitectos Amoroso Lopes e Manuel Marques, ambos companheiros desde os tempos de estudante em Paris após a primeira guerra mundial, foi inaugurada em Março de 1933.
Ao centro, a porta de entrada para o pátio, atrás referida. Hoje é a entrada do Hotel.
O denominado Passeio das Cardosas, ponto de referência dos Portuenses, apelidou-se Passeio dos Pasmados, pois nele faziam sala, junto aos estabelecimentos, os janotas para verem passar as meninas.

Aproveitando o novo plano de urbanização da Praça hoje da Liberdade e a demolição das Muralhas começada em 1788, o convento de Santo Elói conseguiu aprovar um plano para a construção iniciada em 1798 de um grandioso conjunto monumental voltado para a nova Praça, que nunca chegou a terminar derivado à vitória dos Liberais de D. Pedro IV e a aprovação da lei de Maio de 1834 que extingue de vez as ordens religiosas.
Gravura de Joaquim Villanova.
O Convento em Construção
Todos os edifícios passaram para a coroa ou para os municípios. Foi o caso deste, que foi adquirido em hasta pública pelo valor de 80 contos por Manuel Cardoso dos Santos, com a obrigação de concluir a obra segundo o risco inicial. Após a sua morte, a herança passa para a esposa e filhas, transformando o Povo o Cardoso em Cardosas e assim ficou conhecido o Palácio.
Depois de várias utilizações comerciais, incluindo bancárias, foi vendido para albergar um Hotel.

Como escrevi antes, acompanhei e registei alguma evolução das obras durante mais ou menos sete anos.
Parte desses registos foram sendo aqui publicados (ver no índice Cardosas). Para além dum resumo das fotos antigas, publico fotos não só dos edifícios que foram recuperados como do interior da Praça.
 Pormenores das obras interiores, onde a futura Praça das Cardosas irá surgir.
 Obras do lado da Rua Trindade Coelho

Rua das Flores e Praça de Almeida Garrett. Os vários andamentos das obras.
Praça de Almeida Garrett. Exteriormente parece tudo em ordem. O edifício com a carranca do Leão albergou a Rádio Marconi

A Praça em várias fases, mas já com ordem para circular. Ao fundo são as traseiras do Hotel Intercontinental.

 O interior da Praça alguns edifícios pontos a comercializar. Não sei se alguém os vais habitar.

Exteriormente, o lado do Largo dos Lóios. Foi aqui que estiveram instalados os edifícios e a Igreja voltados para o Largo.
Não sei se esta porta simboliza a entrada do antigo Convento.
As novas edificações até ao encontro da Rua das Flores, na foto à direita em baixo.

O actual Largo dos Lóios, onde se encontrava a Porta primitiva com a ligação aos Clérigos/Natividade (rua transversal) e Rua do Almada/Hortas em frente.

Muitas pesquisas efectuei para este "trabalho". Algumas esqueci de registar, o que já é normal em mim. Mas há os amigos habituais http://doportoenaoso.blogspot.pt/ ; http://portoarc.blogspot.pt/ http://www.portoantigo.org/ ;
Mas foi especialmente neste que descobri a história do Convento dos Loios:
https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/20796/1/O%20Convento%20dos%20L%C3%B3ios%20no%20Porto,%201789-1798%20-%20Jo%C3%A3o%20Briosa.pdf
Há também a registar o SIPA em http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=21240.

Não podia acabar esta apresentação sobre a nova Praça das Cardosas, sem incluir uma pequena-grande história que me foi referida pelo amigo e conterrâneo Egberto, desde Barcelona. E que tem a ver com a Igreja de Nossa Senhora da Consolação edificada no convento:
Um eremita que viveu no séc. IX nascido na cidade do Porto e ficou a ser conhecido por S. João do Porto (não confundir com o outro S. João, o rapioqueiro), tinha o cognome de Terzon, Teizon ou Izon.
A sua vida eremítica foi passada junto da Cidade de Tui, na Galiza. Em 1282 os Dominicanos construíram um convento, já desaparecido, sobre o lugar de uma igreja paroquial onde João estava sepultado. Embora levantando-se muitas dúvidas de uma Cabeça Santa sem referência definida, o certo é que essa relíquia foi levada para a Igreja de Nossa Senhora da Gandra mandada edificar por Dona Mafalda, a esposa do nosso primeiro rei. Dessa relíquia foi retirado um osso que se venerava na Capela da Cabeça Santa na Igreja do Convento dos Lóios.
Os amigos interessados podem ler a história completa em http://www.cm-porto.pt/gen.pl?sid=cmp.sections/570&letra=S&fokey=cmp.toponimia/1743

Temos na Cidade a Rua de São João do Porto desde Junho de 2003, em Lordelo do Ouro, nome proposto pela Associação Cultural Amigos do Porto.

Devo esclarecer que a Igreja e couto da Gandra foram doados pelo nosso primeiro D. Afonso Henriques à Sé de Tui e ao seu Bispo D. Afonso. Não li qualquer referência à relíquia no site da Junta de Freguesia -que pertence a Valença do Minho- nem pormenores da Igreja. Mas presumo que é esta a igreja referida por Fernando Moreira da Silva num escrito do Jornal O Tripeiro e publicado no site acima.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

188 A - Ainda a Estátua do Porto

O amigo Óscar fez-me chegar fresquinhas imagens antigas da Estátua do Porto. Um gesto que reconhecidamente agradeço. Assim fica mais completa a "reportagem" ontem publicada.
 A Estátua a ser apeada aquando da demolição da Câmara, na Praça de D. Pedro
A sua instalação no Terreiro da Sé, junto ao Paço Episcopal.
No mesmo local depois do lugar arranjado
Nos Jardins do Palácio de Cristal, anos 60.

terça-feira, 1 de julho de 2014

188 - Ainda a Estátua do Porto

Já me referi anteriormente à Estátua do Porto e às suas andanças. Volto a ela, porque mudou de lugar. Mais uma vez. E ainda bem.
A história desta estátua começa por casualidade, creio que em 1818.
A Câmara Municipal adquiriu um palacete na então chamada Praça de D. Pedro (anteriormente já havia tido outros nomes) para instalar os seus serviços. Foi decidido que no cimo do frontão fosse instalada uma jarra de pedra. Por qualquer motivo desconhecido, acabou por se optar por uma estátua de grandes dimensões (Prof. Germano Silva). Há quem visse nesta opção, o propósito de reabilitar a figura do Porto, que Almeida Garrett refere no seu O Arco de Santana.
Esse Porto era uma pequena escultura em pedra, um achado arqueológico provàvelmente anterior à época romana, representando um guerreiro. Andou por uma casa nas Eiras - mais ou menos onde se encontra a actual Rua Chã - passou depois para os Açougues, próximo da Sé até que desapareceu sem deixar rasto.
Não nos interessa por agora o que aconteceu à Praça de D. Pedro-actualmente é a Praça da Liberdade -, mas quando se iniciaram as obras para a abertura da Avenida dos Aliados o edifício da Câmara foi demolido em 1915 e a estátua passou para o Largo da Sé.
Embora não seja muito referido, (li apenas e num espaço do qual não me lembro) mas lembro-me do meu Pai me mostrar o Porto no Largo do Actor Dias. Antigo Largo da Polícia. 
Posteriormente passou para os Jardins do Palácio de Cristal.
Escreve o Prof. Germano Silva que primeiramente para o início da Avenida das Tílias e depois próximo do Roseiral. Francamente tenho a ideia de a ter visto na Mata, próximo do Castelo. Para o caso não é grave.
Junto às ruínas preservadas da Casa dos 24 ou da Câmara, o arquitecto Fernando Távora, reconstituiu-a com uma Torre (a que chamamos o Mamarracho) colocando por trás a Estátua de castigo. Para que o Povo visse o Porto estátua e o Porto cidade. Ninguém via nada, porque raramente alguém entra na torre a não ser um ou outro turista. E eu para chatear as funcionárias cheias de sono.
Neste Posto de Turismo não podemos fotografar. Aquelas pedras devem ser verdadeiras relíquias cheiinhas de valor em euros que podem ser roubadas. É este o argumento em qualquer local público. Só A TV pode entrar.
Mas um verdadeiro artista sempre consegue algo, quando mais não seja registar os vidros imundos da fachada psicadélica
Diga-se de passagem, que sendo uma delegação de Turismo da Cidade, pouco ou nada temos lá a fazer. Oferecem uns mapas da Cidade e deixam pegar em toda a publicidade em folhetos de particulares que estão lá aos milhares. Se perguntarmos onde é o Beco dos Redemoinhos ali a dois passos, olham umas para as outras e encolhem os ombros.
Consegui uma única vez passar os cordões que fecham as escadas, para ver uma exposição fotográfica e a maqueta da cidade meia a desfazer-se.
Estas fotos é que são verdadeiras relíquias pois já tem mais de meia dúzia de anos. E feitas com a velha Olympus made in china em cima da barriga. Ninguém deu fé das fotos porque a máquina não fazia clique.
Mas como o arquitecto Fernando Távora disse que se viam os Portos (Estátua e Cidade) é sempre bom recordar as vistas que se avistavam de dentro da vistosa torre.
Foto recente após a transladação do velho Porto Estátua
Encontra-se agora bem perto do local onde primitivamente foi instalado(a) há quási 200 anos. É certo que estava ao centro da Praça, bem no alto. Agora está junto ao chão e a um canto. Não sei se um arquitecto (só poderá ser um profissional deste ramo) lhe arranjaria um lugar mais digno, por exemplo no enfiamento com  a Estátua do D. Pedro. E condizente com as outras estátuas da Avenida. Mas isso são leigos portuenses a pensar de que...
Pelo menos, o ex-Presidente Camarário D. Rui Rio fez algo de importante antes de deixar o poleiro. Tirou a Estátua do nobre guerreiro do castigo a que esteve votada cerca de 20 anitos.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

187 - Por Estradas e Encruzilhadas de algumas Fontes e Chafarizes do Porto

Por vezes vem-me à ideia que se todos estudássemos por um livro único as coisas eram mais simples. O saber era só um, o pensamento também e seríamos uma bando de carneiros alinhados.
Imaginemos o verso da medalha, mas também o seu reverso.
A cada cabeça a sua sentença, respeitemos a cabeça de cada um. É assim que deve ser.
E se não houvesse verso e reverso nunca andaríamos às voltas com a medalha.

Costumo dizer que a História é de quem a interpreta e muitas das vezes não tem nada a ver com a realidade que foi.
Para um leigo como eu, saber alguma coisa, obriga-me a bater as estradas. Aproveito as que tenho mais à mão. Isto é, à distância de um clique, como agora é uso dizer-se e fica bem. Porque verdadeiramente botar o pé nelas tem que se lhe diga.
Todo este intróito tem a ver com umas estradas que percorri (à distância de um clique) e que me levaram a encruzilhadas, onde fiquei cheio de dúvidas. Embora, qualquer que seja o percurso, o final é sempre o mesmo.

O primeiro bater de estrada tem a ver com uma fonte que existiu na Cidade do Porto, à qual o Povo chamava da Fonte do Olho do Cu. Na realidade era - foi - a Fonte do Laranjal.
O professor Germano Silva, no Jornal de Notícias de 27 de Abril último, escreve: Ao cimo da Avenida dos Aliados, nas imediações da desaparecida viela do Cirne, que ligava directamente com a Cancela Velha (actual Rua de Guilherme da Costa Carvalho) ou seja, sensivelmente no sítio onde agora está aquele tanque... havia uma fonte que tinha um nome, no mínimo pitoresco. Era a Fonte do Olho do C. A estranha denominação tinha a ver com a configuração da Fonte. Ficava a um nível bastante inferior da rua. Lá bem no fundo, havia uma bica que deitava água para uma pia. Para chegar à água era necessário descer alguns degraus em granito. 
(cortesia do meu amigo Fernando Conceição no blogue http://cadernosdalibania.blogspot.pt/)

Um pormenor do lugar "sacado" do Google Earth, desde o Tanque até à Praça da Trindade. 
E porque aparece este "espaço" na encruzilhada ? Então vamos caminhando.

Em 1803 edificava-se a Igreja da Trindade da Ordem que substituíra a de S. Domingos extinta em 1755 e nos alvores do séc. XIX veio a estabelecer-se no Laranjal. Numa planta de 1839 a Praça já se denomina da Trindade, mas em 1877 ainda era conhecida por Laranjal. Houve na Trindade várias Fontes e Chafarizes. (in Toponímia da Cidade, no site da Câmara Municipal do Porto).

Antes de mais um esclarecimento. Para nós, Tripeiros, a Trindade é um espaço grande que vai desde as Traseiras da Câmara até Camões. Com um jeitinho, até Gonçalo Cristóvão. O Laranjal dos tempos idos, também era um espaço muito grande, que começava cá em baixo, salvo erro, onde é o início (de baixo para cima) da Avenida dos Aliados até à Trindade e de larguras várias, desde Liceiras (ainda existe a Travessa) até ao Pinheiro/Mompilher. Mais ou menos. 
Lemos na Dissertação de Mestrado do Professor Diogo Teixeira sobre o Abastecimento da Água na Cidade do Porto nos séc. XVII e XVIII, citando o Padre Baltazar Guedes (1620-1693), ... a Fonte do Laranjal tem este nome devido à grande quantidade de laranjeiras que havia naquele local, que tinha o nome de sítio do Laranjal hoje conhecido como Praça da Trindade. A fonte estava localizada no campo, perto do muro da Quinta do Laranjal e tinha uma arca com vinte palmos de comprimento, cinco de largura e vinte e dois de altura. Era toda emparedada e tinha uma porta e uns degraus que davam acesso à arca. No exterior havia uma pia que vertia água da dita água para uso público.
Continuando a ler o Professor Diogo Teixeira ... sabe-se que devido à sua localização esta fonte era apelidada com uma designação jocosa e no início do séc. XIX havia sido demolida.

Quanto à Fonte, não parece haver dúvidas que é a mesma que os dois Professores referem. Mas quanto à localização ?
O Chafariz que actualmente se encontra na Praça da Trindade, cujo nome inicial era de S. Domingos foi desmontado em 1845 do Largo com o mesmo nome e para aqui trazido em meados da década de 50 do mesmo ano.
Li noutro documento, algures,... para que o povo perdesse o hábito de chamar a Fonte do Olho do C..., no Largo do Laranjal a Câmara mandou erigir um Chafariz com o material que restou da demolição do de S. Domingos a que foi dado o nome de Chafariz do Laranjal.
Não é grave sabermos ao certo a localização, mas eu gosto de saber. Surge outro caminho duvidoso.
A foto é do Alvão, sem dúvidas. Este viveu entre 1872 e 1946. Fico intrigado por não ver a Fonte ou Chafariz do Laranjal/S.Domingos na foto, pois ela deve ser de finais do século XIX princípios do séc. XX. O palacete de D. Antónia Ferreira, ao fundo já existia e a sua construção foi iniciada em 1840. O
Chafariz veio para aqui cerca de 20 anos depois. Mas veio mesmo ?
Porto - Egreja da Trindade I. Newton / A.«O Occidente», 9, 1886, p. 252 
«Segundo uma photographia de E. Biel».
Fotos recolhidas em http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/

O Chafariz está mais ou menos a uma dúzia de metros da escadaria da Igreja. Teria sido montado primitivamente noutro local ?
Ora bem, estamos na encruzilhada a coçar a cabeça.

Vi uma foto no espaço http://gisaweb.cm-porto.pt/ (Arquivo Municipal do Porto) impossível de mostrar por incapacidade minha de transformar o formato pdf em jpeg. Essa foto tem a legenda Largo do Laranjal e Cancela Velha. É do Editor Tabacaria Rodrigues, do Porto, de 1910.
Mas no blogue amigo http://portoarc.blogspot.pt/ encontrei uma foto muito parecida, acima publicada. O meu amigo Rui Cunha, no texto, começa por descrever a velha Fonte do Olho do C... tal qual já referi antes. Mas continua:  Em meados do séc. XIX, contudo, já não se lobrigavam vestígios desta Fonte.
O Chafariz do Laranjal esteve primeiramente no Largo de S. Domingos, foi modificado e colocado no Laranjal em  Fevereiro de 1854 e passou a receber água do Manancial de Camões. Foi desmontado em 1916 quando da abertura da Avenida dos Aliados. Em 1943 foi reconstruído nos Jardins dos SMAS (Águas do Porto, Nova Sintra). Está actualmente no Largo da Trindade. 

Assim sendo, parece-me que esta encruzilhada da Fonte/Chafariz S. Domingos/Laranjal já não me parece um bicho de sete cabeças.

Sigamos em frente por novo caminho aberto, mas também com encruzilhadas. Continua a não ser nada de grave , mas complicam-me a mioleira as encruzilhadas.

A Praça da Liberdade, entre outras toponímias, foi as Hortas do Bispo, Praça Nova, Praça da Constituição, voltou a Praça Nova, de D. Pedro, Praça da República (por 14 dias), e a partir de 27 de Outubro de 1910 ficou com a toponímia actual.

Não sei porque razão a minha avó lhe chamava Praça Nova. Presumo que gostava do nome antigo embora no tempo dela já se chamasse de D. Pedro. Pudera eu saber o que sei hoje e fazer-lhe muitas perguntas. Ela nasceu em meados/finais da década de 80 do séc. XIX. É a vida.
Mas adiante.

Nestas Hortas e/ou Praças, existiram Fontes. Um delas Chamada Fonte da Arca também conhecida por da Natividade. Encontrava-se encostada à Muralha Fernandina, entre a Porta de Carros (mais ou menos em frente da Igreja dos Congregados) e o Postigo de Santo Elói (mais ou menos onde está o Largo dos Lóios. Talvez junto onde é hoje o Palácio (Hotel) das Cardosas. A primeira parte foi inaugurada em 1608 com o frontispício brulesco.  Lo Primeiro mandò derrobar una torre de la Muralha que alli pendia sobre la fuente y espacio de las escaleras para Coger el Agoa. Y se dispuso de suerte la fachada que lo que antes eran tres fuentes se hiseron quatro, que escupen el agua por los Rostos de quatro Seluages com sus caños de Bronse... Fundada no anno de mil seiscentos e outenta e dous pello semnado da camera.
E no lugar mais supremo da dita fonte que hé de maravilhoza architectura e grandeza a coroa hua imagem da Senhora da Natividade.

Ora bem, a minha fonte (estrada) - de reconhecimentos -  continua a ser o Prof. Diogo Teixeira no seu Mestrado e por várias razões. Refere que não se sabe quando a Fonte foi demolida. mas que ainda exisitia em 1886. E que existem alguns elementos que estão no Jardim do Palácio de Cristal.

Presumo que este ano de 1886 deve ser erro de dactilografia. Camilo, nas suas Memórias do Cárcere, quando recebe o bilhete informando-o que a Polícia anda atrás dele para o prender, escreve,... Em uma risonha tarde de maio de 1860 chilreavam as aves o seu hymno crepuscular e de despedida ao formoso sol d'aquelle dia. Os coretos dos alados cantores eram as amoreiras e acacias floridas da praça de D. Pedro, as quaes vaporavam de suas urnas de branco e roza aromas suavissimos. Por entre o arvoredo se andavam passeando e deliciando os amantes da natureza; e ella, d'elles namorada, parecia guardar-lhes para a noite os seus enfeites de mais primor, como fina amante, que mais se poetisa e doura, e enternece ao pallido luzir das estrellas...  não referindo a Fonte, o que seria normal se ela existisse.
Arranjo com elementos decorativos da fonte da Arca (COUTINHO, Bernardo Xavier – Fontes e chafarizes do Porto
(Bernardo Xavier Coutinho - Sernancelhe, 12.Junho.1909-Porto, 3.Maio.1987, historiador Português, Membro da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Portuguesa de História)  

Vamos por agora referir-nos apenas ao frontão. A foto abaixo, no Jardins do Palácio de Cristal, mais concretamente no Roseiral, parece não deixar dúvidas de ser o mesmo reproduzido no desenho acima.
No entanto o Prof. Germano Silva diz que este elemento foi mandado construir para o frontispício da Câmara que funcionou desde 1819 na Praça de D.Pedro (na altura seria ainda Praça Nova) e custou 400 mil reis, pagos em 4 prestações ao pedreiro Manuel Luíz. - ver e ouvir o vídeo em http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=3597233
A foto é do século XX pois a Praça Nova já se chamava de D. Pedro. Vê-se perfeitamente o frontal, encimado pela Estátua do Porto.
Só por curiosidade, a Praça actualmente e chamada da Liberdade.

Agora outro tema, que tem a ver com o segundo desenho, o das Carrancas.
Desenho de Joaquim Villanova de 1833

Essa Fonte, mais conhecida como Chafariz da Praça Nova foi construída entre 1794 e 1797. O local não era o mesmo da Fonte da Arca, mas não andaria longe. Talvez onde está o Banco de Portugal. Creio que foi em 1834, D. Pedro IV mandou destruir a Fonte para que se alargasse a Praça.
Esse chafariz criou várias polémicas, mas na sua construção, lê-se que... .Este chafariz era constituído por um tanque de grandes dimensões, com as paredes côncavas, e um grande espaldar dividido por pilastras a formar cinco panos e arrematado por sete urnas. Cada um dos panos continha uma carranca com bicas de bronze que jorravam água para o tanque
A minha encruzilhada é, se as duas Fontes-Carrancas que estão nos Jardins do Palácio de Cristal (uma delas na foto acima), a qual das duas Fontes pertenceram. Segundo o professor Diogo Teixeira, são da Fonte da Arca. Se sim, uma maravilha com 350 anos. Se não, uma maravilha com 250. Mais ano, menos ano.
Como penso, não é nada de grave e nesta encruzilhada o importante é que estes elementos fazem parte do património da Cidade do Porto e compõem  num espaço cenográfico lindo. Mas que dá prazer ver e tocar-lhes, pensando na sua antiguidade, isso não nego.

Neste meu caminho das Fontes e Chafarizes, estou numa nova encruzilhada e esta parece-me mesmo grave. Já vos explico caros leitores e leitoras o problema da encruzilhada.

Comecemos pela foto do Monumento Nacional, o Chafariz do Passeio Alegre, em S. João da Foz, publicado assim mesmo no Diário do Governo nº 136 de 23.Junho.1910., página 2166. Não tem mais qualquer referência.
Segundo todas as narrativas histórias, o Chafariz que se encontra no Jardim do Passeio Alegre e que deve ter vindo para cá entre os anos 80 e 90 do séc. XIX, foi construído no claustro do Convento de S. Francisco, do qual apenas existe a Igreja, Monumento Nacional.
Agostinho Rebelo da Costa escreveu em 1788..."O convento... com um magnífico e extenso claustro em quadra, rodeado e elevados arcos de esquadria e no meio um grande chafariz que lança perenes jorros de água pública e patente a todos os que quizerem aproveitar-se dela" (in Clube UNESCO da Cidade do Porto).

As minhas dúvidas sobre este Chafariz já vêm de longe. Há quem o atribua a Nicolau Nasoni e a sua primitiva localização na Quinta da Prelada.

Uma tarde formatei-me e fui botar o pé numa outra estrada, o Arquivo Histórico da Cidade, na Casa do Infante, e consultar o que poderia haver sobre Nasoni e o Chafariz. Tive duas ajudas, a da senhora bibliotecária de serviço e do meu amigo Jorge Peixoto. Não encontrei nada. E despiolhamos o Robert C. Smith nas duas obras sobre Nasoni e alguns folhetos editados pela Câmara do Porto, aconselhados pela nossa gentil bibliotecária.
Num aparte, vendo vídeos recentes dos Professores Joel Cleto e Germano Silva em passeios recentes neste espaço da Foz e do Jardim, acho estranho que não mostrem nem falem sobre o Chafariz.

Parado na encruzilhada, leio as Notas sobre o enquadramento urbano do Jardim do Passeio Alegre de Manuel Marques de Aguiar (1978 ?) (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6526.pdf) o qual confirma... é de assinalar o Chafariz, originário do Convento de S. Francisco...

Então perante as dúvidas, que afinal parecem não haver que o Chafariz é de S. Francisco e não da Prelada; e não havendo qualquer referência sobre a sua autoria atribuída a Nasoni; fico admirado quando leio e transcrevo tal-qual em: http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70686/

Projectado pelo arquitecto que mais marcou o barroco portuense, Nicolau Nasoni, O Chafariz que actualmente decora um trecho do Passeio Alegre foi inicialmente concebido para os jardins da Quinta da Prelada, numa solução cenográfica que deveria integrar outros elementos decorativos a acompanhar o monumental chafariz.
No século XX, com a compra da Quinta pela Câmara Municipal do Porto, a obra de Nasoni acabou por ser desarticulada do conjunto onde se inseria, transitando em seguida para o Passeio Alegre, onde actualmente se encontra, seguindo o mesmo percurso dos dois obeliscos também projectados por Nasoni, que se encontram à entrada do passeio.       

Acompanham esta discrição a Bibliografia com o Title "O Grande Porto"; Local Lisboa; Date 1986; Autor: Hélder Pacheco; mais ainda: Title "Guia de Portugal, v.4, t l:Entre Douro e Minho, Douro Litoral"; Local:Lisboa; Date:1983; Autor: Raul Proença

Ai a encruzilhada que parece ter uma galinha preta e restos de cuecas. Primeiro, acho que a Quinta da Prelada nunca foi comprada pela Câmara do Porto. O seu último dono, em princípios do séc. XX, doou-a à Santa Casa da Misericórdia.
Segundo, nas Memórias Paroquiais de Ramalde, da autoria de Francisco Mateus Xavier de Carvalho, nas páginas 602 e 603 e sobre as Fontes e Tanques da Quinta de Dom António de Noronha de Mesquita e Mello, existentes no Lugar da Prelado (?), não se lê qualquer referência ao Chafariz. (pág.240 e seguintes inscritas na tese de Mestrado do Prof. Diogo Teixeira)    
Terceiro, só o Igespar - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, da Secretaria de Estado da Cultura, logo um organismo do Governo de Portugal - refere que o Chafariz é de Nasoni e que esteve na Prelada.
Não consegui encontrar na net o livro Guia de Portugal, de Raul Proença (Caldas da Raínha, 10.Maio.1884 - Porto, 20.Maio.1941), escritor, jornalista, e um dos membros fundadores da Seara Nova.

Pois aqui vos deixo, amigos, nas encruzilhadas das "minhas" Fontes e Chafarizes. Repito que não vem qualquer mal ao mundo. Mas gosto de saber e os organismos do Estado Português deveriam ser os primeiros a serem justos com a História. Ou serão todos os outros que estão enganados ?

Enquanto escrevia estas encruzilhadas a partir de apontamentos que fui guardando, caminhei por outras estradas que me esqueci de registar. Sem elas não teríamos versos e reversos da mesma medalha.