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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

137 - As Belas Terras do Norte de Trás-os Montes e Alto Douro.

Longe vão as minhas memórias de viagens que fiz por estas terras, embora os caminhos, com algumas excepções, não fossem estes que acabei de atravessar.
Trás-os Montes e Alto Douro são terras de excelência, que começaram por ser criadas regionalmente (como em todo o Portugal) no séc. XV,  adaptaram-se e desenvolveram-se durante séculos, confirmaram a sua regionalização na Constituição de 1933, até que os inteligentes inventores da Constituição de 1976 destruíram tudo, criando organismos e serviços administrativos que se multiplicam e repetem funções, sem funções nenhumas, apenas para dar tachos aos amigos e complicar a vida aos portugueses.
Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro - eu continuo a chamar-lhe assim e "prontos" - é fácil e difícil. Percorri durante alguns anos as (péssimas) estradas que ligavam as Cidades principais da Província, com duas raras excepções em passeio, as restantes sempre a trabalho. Uma vez ou outra tinha tempo para visitar algumas aldeias - será que hoje se chamarão assim ? - e fazer algumas fotos que devem estar no arquivo do Instituto Português de Fotografia do Porto. 
Tantas e belas recordações me marcaram para sempre, mas isso são outras histórias.   

Em pleno coração do Douro Vinhateiro, algumas terras foram e continuam a ser preparadas para novas formas de plantio das vinhas. Terão também influência depois para a forma como as vindimas serão processadas.
E a paisagem muda a cada curva do caminho.

Embora o Douro seja um Miradouro constante, uma das visitas obrigatórias é ao Monte de São Leonardo (de Galafura). Situado a 566 m. de altitude, conforme refere a Câmara Municipal da Régua no seu site, ou a 630 a 640 conforme se lê na placa que está no caminho que leva ao Monte - para o caso não nos aquenta nem arrefenta -, é formado de sílex e quartzo. Aqui existiu um castro romano do qual foi governador Galafre, que etimologicamente deu o nome a Galafura, localidade criada pelos Mouros a Oeste do Monte, mas que derivado a um ataque de formigas foi deslocada 5 km. do local primitivo.
Gosto de saber datas quanto mais não seja para situar as coisas no tempo, mas isso a Câmara não nos informa. Assim como gostaria de saber o porquê de S. Leonardo. A capela no cimo do Monte deve ser a ele dedicado, mas em Portugal apenas há um templo dedicado a este Santo, para os lados de Peniche, em Atouguia da Baleia. E por dedução presumo que seja S. Leonardo de Noblac - ou Noblat - nascido no séc. V, patrono dos presos e das parturientes.

Ficam-nos as belezas que do seu alto podemos desfrutar. É "O Doiro sublimado"...

...como escreveu Miguel Torga: "O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à forma de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza..."

Bem próximo temos o acesso à IP4 que nos leva a Vila Real, enquadrada nas "Escarpas do Corgo".

Uma relíquia recordando a chegada do primeiro comboio a Vila Real vindo da Régua em 1906. É uma locomotiva de via estreita mod. 409, construída em 1908. Para quem gosta de comboios (olá Júlio, olá Mary,) uma visita a este blogue é obrigatória: http://luis363.blogspot.pt/

Vila Real tem as serras do Marão e Alvão ali à mão. A sua idade é velhíssima, vem do paleolítico e  terá nascido e crescido a partir de Panoias de quem recebeu o nome primitivo (Vila Real de Panoias). Neste lugar existe um santuário romano construído entre os séc. II e III.
Saibam os hoquistas de todo o mundo, que o hoje denominado vulgarmente stick e profissionalmente aléu, nasceu aqui com a choca, jogo que se praticava jogando-se uma pedra com um pau ao qual os naturais chamavam aleo. Conta a lenda que passando D. João I (1357/1433) por estes sítios, mostrou-se zangado com os rapazes que praticavam o jogo por "estarem distraídos das lutas guerreiras". Responderam os rapazes "o pau que bate na pedra também bate nos inimigos".

Seguimos para o Parque do Alvão e o olhar vai descobrindo relíquias. Uma pequena ermida num alto e na encosta, aglomeradas velhas casas.

Um batatal e à conversa com as pessoas, ficamos a saber o porquê de uma em cima e outras em baixo. Estão a regá-lo. A água vai passando e os regos vão sendo abertos e fechados para que percorra o batatal de cima abaixo. A missão de cada um é orientar o caminho da água com a sachola.

Velha Aldeia, casas de xisto e granito. Os telhados de colmo foram sendo substituídos.

Novas casas foram-se espalhando pelos lugares, alterando o aspecto habitacional que não o paisagístico.

Placas de informação bem rústicas, mas muito úteis.

O Parque Natural do Alvão é toda a Serra com o mesmo nome, paredes meias com a do Marão. Foi classificado em 1983 derivado à sua abundante avifauna, riqueza e variedade da flora e interesse da arquitectura local.

É uma área de formações xistosas de silúrico de grande interesse paisagístico e geológico, cujo fulcro é a queda de água do rio Olo. Este forma as Fisgas do Ermelo, passando muitas vezes incógnito por baixo das formações rochosas, mas que no seu todo é uma das maiores cascatas da Europa com 200 metros de extensão. Deve ser um sonho percorrer desde a nascente do Rio Olo até ao lago final. Mas acho que é só para alpinistas e águias, salvo alguns locais dos quais já vi maravilhas fotográficas.

Pelos meandros da Serra do Alvão vamos avistando o Monte Farinha em terras de Basto.

Vários caminhos, tanto pedestres como automobilísticos vão dar ao Monte.

Numa encruzilhada de vários caminhos que se juntam para chegar ao alto, assinala-se um ramal antigo do Caminho de Santiago. No alto de um enorme pedregulho granítico, encontra-se esculpida uma imagem do Santo. Em Julho realiza-se uma Romaria em honra do Santinho, como lhe chamam e  dizem ser das mais populares da região de Basto.

O Monte situa-se a cerca de 1000 metros de altitude  e nele encontra-se o Santuário de Nossa Senhora da Graça. É a terceira ou quarta ermida no mesmo local e esta foi construída entre 1748 e 1758 em granito da região. Já era ocultada em 1566.
O Monte antes de ser conhecido por Farinha ou Senhora da Graça, chamava-se de São Veríssimo e de Santo Apolinário.
Mas existe uma lenda sobre o porquê do Monte chamar-se Farinha e se venerar a Senhora da Graça. A grosso modo a coisa passou-se assim: Um moleiro andava de terra em terra com um pequeno moinho montado na sua carroça puxada por um velho jumento, moendo os cereais da população. Um dia deu "boleia" a uma jovem mas foram atacados pelos mouros. Na precipitação da fuga, o jumento ficou entalado nas penedias, a jovem emparedou-se numa das pedras que se abriu e fechou. O moleiro foi morto mas o moinho trabalhou como um danado fazendo farinha em quantidades tais que os mouros acabaram por fugir assustados. O Monte ficou com o seu nome e a Senhora embora nunca mais tenha sido vista e dizem que ainda hoje lá está na Pedra Branca, por causa do milagre e as Graças recebidas pela Farinha, erigiram-lhe um ermida em sua memória.
Claro que as datas históricas não batem certo, mas quem sou eu para não gostar de uma boa lenda?

Mas certos são os panoramas deslumbrantes em 360º que do alto se avistam. Na região existiram vários Castros anteriores à ocupação romana.
Outros indícios arqueológicos levam a presumir que seria um local de culto.

Três capelas seguem por um caminho que irá dar a Mondim. Foram construídas em 1886, 1889 e 1933. Mas todo o Monte mais parece uma enorme pedreira de onde se extraí granito amarelo, dizem que muito apreciado na Europa.

O meu querido amigo Fernando Súcio, a quem devo este passeio, bem enquadrado na paisagem.
E está na hora de seguir para novas paragens.
A partir da sua terra, a freguesia da Campeã, um belíssimo vale em plena serra do Marão, bem próximo da do Alvão.


O mais antigo documento conhecido que lhe faz referência data de 1091 («in terrotoris Pannoniarum… subtus mons Campelana»). Em 1134 foi-lhe concedida por D. Afonso Henriques carta de couto à chamada à Albergaria do Marão, aí situada. 
Em 1530 a freguesia é denominada de Santo André, mas em 1721 já surge com o seu nome actual. 

A Igreja matriz é um tempo do séc. XVIII, dedicada a Santo André. Tem quatro confrarias, a do Santíssimo Sacramento, a de Nossa Senhora do Rosário, a de Santo Nome de Jesus e a de S. Sebastião, todas sustentadas com esmolas e devotos dos fregueses.
Realizam-se anualmente festas importantes em honra do padroeiro Santo André, de S. Sebastião e de Santa Ana.
Para um leigo como eu, gostaria de saber mais coisas sobre o Templo. Ficam os registos de pormenores do tecto lindamente pintado e do Altar-Mor, uma relíquia em talha dourada. Realmente é uma Igreja belíssima, com muitos pormenores que a estudiosos deveriam interessar.
Estava em obras na altura da visita, preparando-se para as suas festas.
A Campeã foi uma zona mineira, principalmente de ferro. Desde há uma meia dúzia de anos que a sua exploração foi abandonada. Ficaram as recordações da Capela e das habitações dos mineiros. Hoje transformadas em Bairro Social.
Nos caminhos e suportes murais foram aproveitados os resíduos da exploração.

Um outro Bairro e uma exploração turística estão bem enquadrados na paisagem da região.
Subindo ao Marão, "deste lado", notam-se rasgadas "no outro lado" a velhinha Estrada Nacional nº 15 que faz a sua curva impressionante junto à Estalagem do Marão e o novo IP4/A4, que dará um dia, quem sabe, ligação à futura auto-estrada Transmontana.
As encostas dos montes precipitam-se por desníveis impressionantes. E para os amigos que fazem perguntas "esquisitas" sobre Túneis, desníveis, viadutos, etc. deixo-lhe uma amostra do que é viajar nesta montanha. Já Camilo Castelo Branco no séc. XIX se referia às velhas estradas, saindo do Porto. Escreveu ao seu amigo Alberto Pimental quando esteve encarcerado na Relação (na Cordoaria), uma lembrança que transcrevo de cor mas que será mais ou menos esta: Da minha cela vejo a Igreja do Bonfim e as saudades aparecem ao recordar quando ali apanhava a estrada real que me levava a Vila Real.
Lembro-me bem das dificuldades da N15, principalmente a partir de Amarante. Mas nunca imaginei verdadeiramente como era o Marão visto de outros montes.
Fez questão o meu amigo Fernando de me levar até ao ponto mais alto da Serra. Antenas de Rádio, não sei se de TV, o Vértice Geodésico e Observatório Astronómico estão a 1416 m de altitude.
O Miradouro chama-se da Senhora da Serra e pertence ao Concelho de Santa Marta de Penaguião mas na divisória com o de Baião. Dizem que em dias claros, daqui até o Atlântico se avista.
As "ventoínhas" da energia eólica são um presença constante na serra e esta assiste à nossa partida. Portugal o ano passado, era o 10º. produtor Mundial.  Mesmo assim andamos a morrer aos poucos... E há quem diga que interferem com o voo das aves, a paisagem é poluída sonora e visualmente e muitas precauções devem ser tomadas. Para o caso presente isso não nos interessa, porque vamos passar aos finalmentes.

Os finalmentes, claro, são as comidas e os vinhos. Tudo simples, como a feijoada à transmontana, os enchidos/fumeiro, mas até umas lulas grelhadas estavam no ponto, servidas no Chaxoila em Vila Real debaixo de uma ramada onde o calor não penetrava. Uma surpresa para aperitivar, Tripas(sim, das nossas, tripeiros)recheadas com presunto.Uma receita do tempo da velha tasca que já vem desde 1947. É só espreitar em  http://chaxoila.com/
Para terminar a refeição, um doce/gelado onde os fios de ovos são reis. Não há etiquetas nem papariquices e o vinho é da região. Mas há muita simpatia.

A minha querida Amiga Alda Paulino, Gaúcha-Portuguesa de todos os costados, tal como Torga ao seu/nosso Douro, sublimou o nosso Vinho com este belo poema de alma.

PORTO E VINHO
Cidade – vinho – rio,
caudal de águas
revoltas ou silenciosas,
rio Douro amante,
reflexos do casario
na água errante.
Vêm de longe
ao serpentear serrano,
lágrimas e suores
de brava gente.
Descem sinuantes,
mesclando serranias.
Labor constante
ao sonhar das noites,
e realizar aos dias.
E a parra agreste,
donzela enamorada,
espera a boda ansiosa.
Ao revolver
adubos e gestos,
vai brotando
o cacho macho.
De amor constante,
vindima e suor
promissor de castas.
E brota o sangue parido
entre esperança e gemido:
néctar rubro reverberado ao sol.

E até Outubro se faz discreto
recluso em tonéis e sombras
até o mistério se fazer completo.
Então, irrompe ao mundo
em brinde e farra,
filho dileto do Douro e terra.
Espanto único de prazer secreto
que cada gota, uma a uma encerra.
E por ser o melhor entre uso e fim
diga comigo degustando a essência:

TIM! TIM!
Um último adeus ao Sol que aquece e também separa as
Terras Quentes e Frias de Trás-os-Montes e Alto Douro
Um mundo infelizmente muito esquecido

sábado, 4 de agosto de 2012

136 - As belas Terras do Norte - 1ª Parte

Andei uns dias pelo Douro e Trás-os-Montes, com temperaturas de torrar e de quási gelar. Mas em terras onde não falta água, nem loirinhas, nem bom vinho, nem bom bagaço, nada é de temer, a não ser uma coisa tipo é e não é, talvez  se chame gripe, que custa a ir-se de vez. Mas está quási, não se preocupem os amigos.
Esta primeira parte não é para dizer bem nem mal, antes pelo contrário, do que fui encontrando pelo caminho.
E o caminho começou em S. Bento, com a boa notícia de ainda ter direito aos 50% de desconto no transporte ferroviário de passageiros. Pelo menos esse "direito adquirido" pela velhice continua a vigorar.

Mas também, no mesmo local, há más notícias. Os W.C. custam 50 cêntimos do Euro para serem utilizados. Quer dizer que quem for aflito para apanhar o comboio e não tiver a moedinha, está feito. Fica a alternativa de sair da Estação e verter as águas ou no Café Brasil ou nos mictórios - não sei se ainda funcionam - por baixo das escadas de quem desce de 31 de Janeiro. Ou no Hotel Intercontinental, ou no Quim, enfim, aí fica ao critério de cada um e a sorte de encontrar os estabelecimentos abertos. Se não, é mesmo debaixo das escadas que se faz o alívio.
Claro que a coisa também é grave aquando das chegadas. Como não há W.C. nos comboios que terminam ( e iniciam) a sua marcha em S. Bento, o problema tem de se resolver no exterior da estação.
O pagamento para utilizar WC já é utilizado há muito em Campanhã para as Senhoras. Como estava aflito, esqueci de ir ver se para as Senhoras, em S. Bento, é utilizada a mesma receita.
Quem fica a perder é o Egas que vai ter menos visitas.

O primeiro destino foi a Régua. O comboio formado por carruagens que devem ter sido usadas numa zona de guerra ou na pior das hipóteses na zona da grande capital Lisboa, vinha lotado, com pessoal em pé, entrando e saindo passageiros nas várias estações e apeadeiros. A carruagem que me transportou (as outras não sei) soltava tanto barulho que em determinadas alturas era difícil de conversar com o parceiro do lado. De marcha tão lenta, a viagem dos previstos 1h,35m mais ou menos, demorou mais cerca de 15 m.  Valeram as belas paisagens do Douro para distrair o pessoal. Mas por 4,90 euros que mais podemos exigir ?
Na outra coxia viajavam quatro jovens louras muito brancas, parecendo-me que conversavam em francês, mas não estavam com meias medidas para colocar os seus pés calçados  em cima dos bancos, no meio ou ao lado das coxas da vizinha em frente. Não adiantaram os meus gestos chamando a atenção para o facto. Provavelmente acharam-me um idiota pois no seu país deve ser vulgaríssima essa posição de descanso pezudo. (Dicionário da Língua Portuguesa: P(è)zudo: Que tem pés grandes)
Chegado à Régua, a primeira coisa a fazer foi utilizar o W.C. da Estação -não se paga a utilização-. À saída, olhando em volta a apreciar a paisagem, descortinei lá do outro lado no meio da "selva", umas relíquias ferroviárias que devem passar desapercebidas a muita boa gente.

Há muito que a importante Linha do Douro até Barca D'Alva deixou de funcionar. Agora da Régua há apenas uma ligação ao Pocinho, mudando de comboio. As ligações a Vila Real e Chaves também acabaram. Mas as belezas do Douro e Trás-os-Montes, grátis, não poderiam ser aproveitadas turisticamente pelos inteligentes da CP ? Turísticamente falando, existe uma vez por semana, no verão, um passeio no pomposamente chamado Comboio Histórico da Régua ao Tua, numa viagem de ida e volta de cerca de 3h.30m, pela módica quantia de 50 euros, com direito a animação de ranchos folclóricos e a 1 (um) cálice de Vinho do Porto acompanhando um bocadito de bola (Li no boletim da CP, não inventei nem fiz a viagem). Por curiosidade, registe-se que esta mesma viagem, de ida e volta, num comboio normal, custa 7,80 euros num percurso de 40 minutos para cada lado. Se for utilizada por um "velhinho", custa metade. E admira as paisagens, sem a perturbação das moçoilas dos Ranchos.
Nos enormes barracões existe um restaurante de Haute Cuisine, o Castas e Pratos, onde se come pouco e paga muito. Esta semana descobriu-se que utilizavam electricidade paga pela Refer, roubada desde há 4 anos através de uma ligação a um posto de transformação da Estação da CP. Li a notícia no JN, não sei se outros órgãos da comunicação social o referiram. Aos interessados, mais pormenores em http://www.jn.pt/PaginaInicial/Seguranca/Interior.aspx?content_id=2699778

Numa das entradas de Vila Real, saltam à vista estes harmoniosos edifícios bem enquadrados na beleza rústica a seus pés. 
Vila Real viu a sua estação fechar e os comboios acabarem. O edifício está muito limpo e fechado embora um dístico de serviços da CP lá se encontre destacado. Destoa uma bandeira da Refer desbotada, de cor roxa e a desfazer-se.
Longe vão os tempos da chegada do primeiro comboio vindo da Régua em 1 de Abril de 1906 e que em Agosto de 1921 ligava a Chaves.

Mas nesses velhos tempos, inteligentes lembravam-se das populações, da importância das regiões, fossem vinhateiras ou termais por excelência e mandaram cobrir o País de centenas de quilómetros de linhas férreas que passariam a ser mais de 2.000, mesmo com duas guerras mundiais pelo meio. E não esquecendo as de África, principalmente Angola e Moçambique, que muitos de nós (eu não), os vivos da Guerra Colonial, ainda utilizaram.
Mas a primeira ligação entre Régua e Vila Real por caminho de ferro foi feita de 26 de Novembro de 1875 a Setembro de 1876  pelos Carros Americanos a tracção animal.
O edifício está muito limpo, mas fechado, destacando-se um dístico de serviços da CP. Destoa uma bandeira da Refer desbotada e a desfazer-se.

Entretanto as traseiras não apresentam a mesma limpeza das frentes e segundo rezam as crónicas de há poucos anos, aconteceram vários actos de vandalismo e a limpeza por sucateiros amigos de uns bons metros de carris e outro material.


Um saltinho à Casa de Mateus só com a intenção de uma visita rápida, mas o custo da entrada (9 euros) desencorajou uma bolsa pobre bem como a de alguns turistas que por ali andavam.

Como se sabe estão paradas há quási dois anos as obras da futura Auto-Estrada Transmontana. Disse alguém do Governo, já não lembro quem, em 12 de Junho, que iriam ser recomeçadas. Creio que não disse quando. Portanto não mentiu.
De variadíssimos locais vêm-se pontes e viadutos partidos, há espera que algum dia a obra se concretize.

O túnel do Marão, se algum dia for aberto, terá mais de 5.600 m. O maior do País, se...

E andavam os transmontanos brigantinos cheios de esperanças "porque a auto estrada iria ser uma janela de oportunidades" (Dixit Presidente da Câmara de Bragança no dia da assinatura da empreitada em Dezembro de 2008...)

Um abrigo, que julgo pertencer ao Lugar de Olo, é paragem de autocarro e recolha de correspondência. O lugar terá no máximo 60 fogos habitacionais segundo as caixas de correio. Limpeza esmerada do local, o que não é de admirar.

A política e a igreja em irmandade. Edifício da Junta de Freguesia e da Residência Paroquial.

Cortes de gado e onde tudo se aproveita para a fertilização da terra.

Pastagens em liberdade. Não vi pastor nem cães de guarda. Mas deveriam andar próximos, presumo.

Um belíssimo exemplar da raça Maraonesa passeando em liberdade pela sua mão.

Por estes lados, parece incrível como os animais nada receiam. Talvez apenas o lobo.

No Pico mais elevado da Serra do Marão, a mais de 1.400 m de altitude, decorrem as festas da Senhora da Serra. As deste ano tinham sido no fim de semana anterior ao meu passeio.
O local é a bem dizer como uma divisória: entre os Concelhos de Santa Marta de Penaguião ( a que pertence) e cujo centro é no Douro Vinhateiro. O seu distrito é o de Vila Real;  e o de Baião, que distritalmente pertence ao Porto. Igualmente divide as freguesias de Fontes, a maior de Santa Marta de Penaguião, e de Teixeira, de Baião. Esta deu o nome ao famoso Doce da Teixeira que desde menino me habituei a ver - e a comer pois claro - nas festas e romarias do Porto e do Norte de Portugal.

É um dos mais belos miradouros que conheço.
Infelizmente havia muito lixo espalhado. Uma pena que os romeiros não tivessem o cuidado de conservar o espaço limpo.

Na forja ainda muito fria, estará em preparo um pratinho de fotos e informações de belos locais da Região que me obrigo a divulgar. Mas já agora, antecipo uma dica. Percorram os caminhos e não as estradas principais e auto-estradas. Normalmente são bons e a preparação de um cuidado roteiro leva-os a lugares de sonhos. A net ajuda e eu também se for solicitado.

Antes que o meu amigo Zé Manel me morda as orelhas, mai'la sua Senhora D. Luísa, prometo uma visita para breve. Afinal estive a uns míseros 10 km se tanto do seu território, a  Casa de Turismo Rural da Quinta da Senhora da Graça, mas não foi possível a visita desta vez.

Ao meu amigo e ex-camarada Fernando Súcio, devo-lhe para além do agradecimento a um montão de gentilezas, o prazer de um passeio por uma região que recomendo (ando sempre a recomendar, mas é meu feitio, que fazer ...) aos Portugueses e a todos que nos visitam. Viagem cá dentro (foi o nosso Presidente da República que copiou o meu slogan e não o contrário, mas não lhe levo a mal). O Norte espera-vos. E mai´nada. Prontos 

domingo, 8 de julho de 2012

135 - Rua da Restauração

Provàvelmente quem passa por esta Rua, não se apercebe o que ela possuiu - e ainda possui alguma coisa -  em tempos não muito longos.
Dividida entre as Freguesias de Miragaia e Massarelos, começou a ser construída por iniciativa da Misericórdia do Porto em 1816. Em 1825 ainda não tinha nome. Em 1839 não rompera ainda a pedreira da Torre da Marca (parte dos Jardins do Palácio de Cristal assentam nesta pedreira, mas não sei se deve o seu nome à Torre da Marca que assinalava desde 1542 o tráfego do Rio Douro precisamente no que viriam a ser os Jardins do Palácio, ou à Torre da Marca mais conhecida como de Pedro Sem que se encontra na Boa Hora, junto ao Palacete de Terenas antigo Paço Episcopal durante um período após as Lutas Liberais.
Numa planta de 1844 vê-se que já está ligada ao Rio na Alameda de Massarelos.

Começa junto ao Hospital de Santo António - fica para outra vez a sua história - ligada à Cordoaria e o seu primeiro nome foi de Rua do Hospital, depois de D. Miguel (o Absolutista) até 1832 e ainda Rua da Bandeirinha. Esta agora é apenas a que parte do Largo do Viriato, já ali em baixo a uma centena de metros até às traseiras do Palácio das Sereias e à Torre da Bandeirinha da Saúde. Presume Andrea de Cunha e Freitas, na sua Toponímia Portuense, que o nome actual se referirá à Restauração do Governo Constituicional e não à Restauração da Independência em 1640. (Lembram-se dos governos espanhóis Filipinos de 1580-1640 ?). Não sei desde quando ficou com o nome actual.

Esta parte da Rua - da Cordoaria até ao cruzamento do Largo do Viriato à esquerda e da Rua de Alberto Aires de Gouveia à direita -, assenta em estacaria derivado às águas que por aqui passavam e acabando no Monumento Nacional que é a Fonte do Rio Frio, lá no fundão das Virtudes. O Hospital de Santo António - ala Oeste do edifício e as traseiras da sua ampliação recente - ocupa o lado direito. Do lado esquerdo um gradeamento em ferro, encimado por lanças, foi colocado para prevenir eventuais quedas de uma altura superior a 30 metros. Vista de baixo, é uma muralha com um aspecto impressionante.

A paisagem que daqui se avista é deslumbrante. Ao fundo, o Rio Douro e Vila Nova de Gaia. Em baixo, parte do antigo Horto Real das Virtudes, hoje Jardim das Virtudes, que presumo já estar aberto de novo ao público.

Fazendo esquina com o Largo do Viriato a casa do Dr. Fernando Valente, provàvelmente o maior coleccionador Filuminista de Portugal. Segundo li no site da Junta de Freguesia de Miragaia, possui um Museu que a pedido poderá ser visitado.

Do outro lado da Rua, existiu o Palacete de John Francis Allen (1785-1848) um negociante de Vinho do Porto, que foi coleccionando obras de arte, história natural e epigrafia ao longo da vida tendo oferecido à Cidade do Porto a considerada maior colecção particular de Portugal. O seu Museu, aberto ao público aos domingos, cresceu de tal forma que teve necessidade de aumentar o edifício.

João Allen foi um dos fundadores do Banco Comercial do Porto e da Associação Comercial. A sua história e a da sua descendência ainda estão bem vincadas na Cidade. Um abraço especial ao meu amigo Xico Allen. Do outro lado da história da vida, recomendo uma visita à Quinta de Vilar de Allen e ao seu património incluindo as célebres Camélias. Fica quási em frente ao Palácio do Freixo, na Estrada Marginal para Gondomar.
Voltando à Restauração, o Palacete foi destruído e um novo edifício alberga numa parte, os Jogos da Santa Casa da Misericórdia. Curioso um triângulo que aparece mesmo na esquina do edifício e para o qual o meu amigo Bernardino Sardinha me chamou a atenção. Esquisitices de Arquitecturas.

Começamos a descer a Rua para o Rio. Do lado direito as instalações do Bloco Gráfico da Porto Editora, para além de umas garagens. Do lado esquerdo é tudo diferente.

Devido à minha amizade com o Senhor Eduardo Alberto Aguiar de Sousa, actualmente a viver no Rio de Janeiro, descobri o edifício onde esteve instalada a primeira clínica privada da Cidade pertença do avô, o Professor Alberto Pereira Pinto de Aguiar tendo também aí a sua residência.

O edifício foi sendo aumentado e ainda mostra, gravada na pedra, a legenda Laboratório Médico. Hoje, numa parte alberga escritórios de advogados, mas presumo que ainda mantém o recheio pertença da família.
Alberto de Aguiar nasceu no Porto a 22 de Setembro de 1868 e faleceu a 27 de Abril de 1948. Em 1893 licenciou-se pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto e três anos depois editaria a sua tese de doutoramento referente à urologia. Leccionou várias cadeiras na Escola Médica e mais tarde na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto entre 1896 e 1935, ano da sua jubilação. Durante 5 anos dirigiu o Laboratório Nobre resultante de um acordo entre a Escola Médico-Cirúrgica e o Hospital de Santo António. Problemas foram surgindo e acabou afastado dessa instituição bem como do concurso para a direcção do Laboratório de Análises da Misericórdia. Não sei as razões destas discórdias, mas olhando para os dias de hoje "Quem não está comigo, está contra mim. Portanto despeça-se"

Fundou o seu laboratório que ràpidamente alcançou grande fama nacional e tornou-se um prestigiado centro científico de investigação. Produziu teses inaugurais de concursos e 6 Volumes da Revista de Semiótica Laboratorial, criada e dirigida por Alberto de Aguiar.

Interviu civicamente, tendo presidido à Junta Patriótica do Norte, organismo constituído na cidade do Porto em 1916 com os fins de propaganda patriótica e de assistência às vítimas da Guerra, com fundos provenientes de cotizações de voluntários e de verbas dos seus membros.
Em 1917 a 25 de Maio é inaugurada a Casa dos Filhos dos Soldados num edifício na Rua de Cedofeita que um mês depois já albergava 42 órfãos.
Esta instituição deu lugar anos mais tarde, em 1921, à actual  Liga dos Combatentes da Grande Guerra, sediada no Porto na Quinta Amarela, ao Carvalhido, onde ainda se encontra. Aos interessados, mesmo aos de hoje ex-combatentes do Ultramar, aqui fica o link que pode ajudar a saber o que é a Liga e a sua antecessora  Casa dos Filhos dos Soldados: http://www.primeirarepublica.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&catid=17%3Ainstituicoes&id=187%3Alcgg-liga-dos-combatentes-da-grande-guerra-&Itemid=13
Gostava de saber (à atenção do Carlos Vinhal, por favor não esqueças o meu pedido) se o espólio desta Casa está guardado ou integrado na Liga.
Alberto Pinto de Aguiar foi agraciado com a Comenda da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e por ser considerado o precursor do estudo e investigação em Bioquímica foi apelidado o Patriarca da Bioquímica Portuguesa. Está sepultado no Cemitério de Agramonte.
Textos compilados em

Ao meu amigo Eduardo agradeço as fotos que me ofertou, parte delas aqui reproduzidas com a devida autorização.

Continuemos pela Restauração e vamos encontrar alguns belos edifícios. Este não conheço a sua origem nem a propriedade.

Mas este onde está instalado um organismo dos Vinhos Verdes, foi considerado em meados do séc. XIX "a casa mais luxuosa do Porto". Pertenceu a António da Silva Monteiro - o Conde da Silva Monteiro - nascido em Lordelo do Ouro em 16 de Agosto de 1822 e falecido em 15 de Janeiro de 1885. Filho de pais comerciantes, embarcou jovem para o Brasil e no Rio de Janeiro tornou-se comerciante e próspero capitalista. Os seus negócios continuaram no Brasil para além da sua morte. Regressado a Portugal, contribuiu para a criação das Escolas Primárias de Lordelo e Miragaia e na ajuda aos Soldados que entraram no conflito da Guerra Franco-Prussiana. Igualmente foi importante na ajuda às vítimas da enchente de 1877.  Presidente dos Bombeiros Voluntários, da Sociedade Palácio de Cristal e da Associação Comercial, Vice-Presidente da Câmara do Porto, esteve ligado aos incentivos dos projectos do Porto de Leixões e ao Caminho de Ferro para Salamanca. Criou várias empresas e empreendimentos destacando-se o dos Caminhos de Ferro da Póvoa. Foi um apaixonado pela horticultura e jardinagem que desenvolveu na sua Quinta da Lavandeira em Oliveira do Douro, Gaia.
Vista do ar, a propriedade deve ter uns jardins magníficos.

Uma linda casa com fachada em azulejo fecha esta parte da rua, seguindo-se um autentico miradouro sobre o Douro.

Infelizmente destacam-se as ruínas do antigo Convento de Monchique, presumimdo-se ter sido edificado sobre a Sinagoga Judaica de Miragaia pelos Portocarreros, os mesmos do Palácio das Sereias, também em Miragaia.

Do lado direito fica a muralha da pedreira da Torre da Marca e lá no alto o Palácio de Cristal, nome que sempre daremos aos seus Jardins, pois o Palácio foi destruído impunemente em princípios dos anos 50 do séc. XX. Quem vem do Palácio - Jardins - pode seguir por um dos itinerários dos Caminhos do Romântico - Entre Quintas, Macieirinha, por exemplo - e vem dar à Restauração. É um dos muitos e belos itinerários do Porto antigo de Massarelos. À chegada podemos apreciar alguns edifícios reconstruídos no local onde existiu a antiga Fábrica de Cerâmica de Massarelos.

Pormenores da Rua da Restauração.

Local onde mais ou menos esteve a Fábrica de Cerâmica de Massarelos. Foto antiga da Fábrica e actual local, vistos de Gaia.  As novas casas, escritórios e armazéns vistos da ponte-desvio que entra no Rio, e do lado da Restauração. Fundada em 1766 por Manuel Duarte Silva, viveu vários períodos de fabrico. Entre 1819 e 1845 esteve arrendada à Fábrica de Miragaia, de Rocha Soares, cujas famílias se uniram por laços familiares. Em 1912 a gestão passa para a empresa Chambers & Wall. Em 1920 é destruída derivado a um incêndio de enormes proporções. A produção continuou na Quinta de Roriz, junto à Ponte D. Maria do lado de Gaia. Hoje temos a recordação desta Fábrica devido a dois grande fornos recuperados e instalados na Avenida Gustavo Eifell, na marginal do Douro e relativamente próximo do Freixo.

O início ou fim da Rua, como queiram, junto ao Rio na Alameda de Massarelos.
 Hoje chama-se Alameda de Basílio Teles.

Alguns elementos para ajudar ao texto foram descobertos na net: Junta de Freguesia de Miragaia, Porto XXI, Toponímea da Câmara Municipl do Porto, Wikipédia (John Allen, António da Silva Monteiro).
Recomendo uma visita à Rua, descendo-a e subindo-a de Eléctrico.