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domingo, 11 de março de 2012

118 - O Monte de Germalde ou da Lapa

Um acaso, mais um, levou-me a conhecer um espaço e mais história da minha Cidade que ignorava.
Tudo começa quando acaba a viagem que deu origem ao meu escrito da postagem 114 sobre Paranhos.
No final dessa viagem, com o camarada e amigo Peixoto, viajante como eu do nosso Porto, tomamos um autocarro na Rua Antero de Quental para nos levar à Baixa. Ainda estavamos em Paranhos. Por aqui e redondezas foi o nosso "território" da juventude.
Antes de chegarmos à Lapa, já pertencente a Cedofeita, vi uma Capela da qual não me lembrava. Como estou a organizar uma história (pobrezinho de mim...) sobre as Capelas do Porto, logo combinei com o Peixoto uma visita ao local. Disse-me ele, isto vai dar ao Monte onde trabalhei quando era miúdo de 12 anos. São lindas as vistas lá de cima. E foi assim que tudo começou, com um encontro na esquina da Constituição com Antero de Quental.
A Rua Antero de Quental foi na sua antiguidade a Estrada de Braga, seguindo para o Amial por Vale Formoso ali a 100 metros. Já referi a história dessa Estrada que começava no lado direito da Praça de Carlos Alberto - antiga dos Ferradores -, mas hei-de falar, quer dizer, escrever, mais vezes sobre ela.
Chamou-se Rua da Rainha, mas muito antes era o Lugar do Sério e a sua primeira toponímia foi Travessa do Campo Lindo. Não sei se toda ela era o Lugar do Sério, pois o Campo Lindo fica no fim e a Lapa, a umas centenas de metros é o seu início. Lapa que foi Germalde. Lá iremos.
No cruzamento com a Rua da Constituição olhamos para o final da Rua e a tal saudade dos tempos idos de umas dezenas de anos. À esquerda era o antigo Café Oriental com sala de jogos no primeiro andar. A seguir, o Clube Portuense de Desporto, velha colectividade dos anos 30, onde um grupo de carolas regressados da Guerra do Ultramar, todos desta zona chamada do Marquês/Constituição criou uma secção de andebol em 1970 para pôr a malta a mexer. Os jogos desse primitivo período eram realizados bem próximo, no Parque de Jogos da Fábrica de Salgueiros, uma têxtil oitocentista de grande importância económica e social não só para a zona como para a Cidade, mas julgo que já estava desactivada nessa altura.

Embora o principal motivo fosse a descoberta da Capela ao meio da Rua Antero de Quental, não podêmos passar sem olhar o local onde estiveram as primitivas instalações desportivas do Futebol Clube do Porto. Sempre chamei a esse local o Horto de Antero de Quental, provàvelmente por ouvir dizer. No entanto tem a sua verdade e a história é a seguinte que casualmente encontrei no
José Marques Loureiro, nascido em 13 de Dezembro de 1830 na freguesia de Besteiros, concelho de Amares, instalou-se na cidade do Porto em  1844 onde arrendou a Quinta das Virtudes, criando o Horto das Virtudes, pelo qual se tornou famoso, dada a grande criatividade, conhecimento e beleza das suas produções. Criou em 1849 a Companhia Hortícola-Agrícola Portuense, tendo também arrendado um campo de cultivo na Rua da Rainha, actual  Rua de Antero de Quental, em terrenos onde foi construído o Campo da Rua da Rainha, primeiro palco desportivo do F:C.P. Criador de várias espécias de camélias, entre as quais a «Bela portuense» e «Picturata Plena Portuensis». Faleceu no Porto em 14 de Junho de 1898.
Um pormenor do Velho Campo da Rainha. Os amigos interessados podem consultar o meu escrito nº 61 sobre parte da vida do F. C. do Porto.

A toponímia actual da Rua homenageia Antero de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) o escritor, poeta, filósofo, político, operário tipógrafo (por pouquíssimo tempo em Lisboa e Paris) que teve grande influência na Geração de 70. Recomendo a quem interessar http://ge70.com.sapo.pt/index.htm para além de outros sites que nos falam desta fase histórica da Literatura e dos Homens de meados e fins de Oitocentos.
Mudou-se para o Porto em 1879. Entre 1881 e 1891 por motivos de saúde viveu em Vila do Conde embora tenha passado períodos entre Lisboa e os Açores.
Fundador do Partido Socialista Português, também fundou o Jornal A República em 1869 com Oliveira Martins. Não tem nada a ver com o Jornal que tomou o mesmo título fundado em 15 de Janeiro de 1911, por António José de Almeida e foi até aos tempos de Raul Rego, saneado pela esquerdisse em moda nos tempos pós 25 de Abril e que acabou por encerrar o Jornal.
Uma biografia a ler em http://www.vidaslusofonas.pt/antero_de_quental.htm

Existem alguns edifícios solarengos do séc.XIX ao longo da rua, mas a grande maioria são da nossa época e alguns muito degradados. No começo da Rua, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa.

À direita encontramos então a Capela que vim a descobrir dedicada ao Senhor do Socorro, por um escrito de Germano Silva. Segundo ele, no seu interior possui um cruzeiro de 1622 provàvelmente um dos muitos marcos que se assinalavam os Caminhos de Santiago.
Ainda pela sua escrita lê-se "A capela é também conhecida pela denominação do «Olho Vivo». A origem deste nome, dizem, deve-se ao facto de o lugar, em tempos idos, ser procurado pelos ladrões que assaltavam os viandantes desprevenidos. Daí que a estes fosse feito o aviso de que ao passar junto da capela deviam ir de «olho vivo». Ao mesmo sítio também se chamou o lugar do Sério. Mas o que aquilo foi, de facto, foi o Monte de Germalde".Tal como eu, coloca dúvidas que aqui também fosse o Lugar do Sério.

Na parede lateral da Capela, um painel em azulejo fabricado na e já extinta Fábrica do Carvalhinho, que começou na Calçada da Corticeira em 1840 e depois se transferiu para Gaia em 1923. Foi nesta unidade  que se fabricou o painel pois está lá escrito.

O primitivo nome de Monte de Germalde foi mais tarde chamado da Lapa, presumo que relacionado com a construção da primitiva Capela dedicada à Senhora da Lapa que deu posteriormente lugar à Igreja. Os amigos e visitantes interessados poderão ler pormenores e ver imagens no meu local nº 76.
A subida ao Monte é feito por duas Ruas. Entramos pela primeira, a Rua do Monte da Lapa.

Deparamo-nos com pequenos becos onde estão construídas habitações formando um típico bairro operário do séc. XIX. Segundo o ex-vereador da Câmara do Porto, Rui Sá, a maioria da população, idosa, já aqui nasceu. Fiquei a saber por uma acta da sessão da Câmara de 20 de Janeiro de 2009, não ter sido aprovada pela actual maioria do presidente Rui Rio, um levantamento do local para se conhecerem as condições de habitabilidade dos moradores. Será que é "perigoso" conhecer a Cidade, as suas gentes, os seus locais ?

No alto do Monte deparasse-nos uma edificação curiosa. Em conversa com os moradores, estes chamam-lhe o Mirante. Por baixo ainda vivem pessoas que infelizmente na altura não estavam em casa, pois queria autorização para entrar e subir as escadas até ao alto.


No tal escrito de Germano Silva antes referido, li ter sido um antigo Moinho de Vento, conservando ainda a Mó. Foi utilizado também como estação telegráfica ainda em 1859.
Uma das residentes com quem falamos, mas já do outro lado do Monte, uma senhora com certa idade, referiu que era qualquer coisa muito antiga da tropa. E a senhora tem mesmo certa razão, pois ainda segundo Germano Silva, D. Pedro IV veio muitas vezes a este local olhar as suas linhas de defesa no Cerco do Porto, durante as Lutas Liberais.

Num pequeno terreno próximo do caminho que vai até ao velho Moínho (ou Mirante), olhamos a Cidade a nossos pés e em frente vêm-se meio difusos os Montes de Gondomar e Valongo.


Novas construções onde seriam os espaços antigos do Clube de Caçadores e da Fábrica de Salgueiros.

Ao fundo por entres os fios, Destaca-se no Marquês a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
Bem destacados o Castelo de Santa Catarina, agora unidade hoteleira, o Depósito das Águas e o edifício da Cooperativa dos Pedreiros, na Rua da Alegria.

Descemos a Rua do Monte e voltamos a subir, agora pela Rua da Senhora do Monte, não tão alta e menos íngreme. No final encontra-se a Rua da Glória que essa sim vai acabar num dos novos arruamentos que atravessam Antero de Quetal.
Li na página da Camara Municipal que tem a sua história ligada ao Cerco do Porto e copiei estes textos:
Na acção de 9 de Setembro de 1832, foi o fogo cruzado das baterias do Monte Pedral e da Glória que impediu uma esmagadora derrota das tropas constitucionais naquele reduto da «Montanha». ( Refere-se à bateria das Medalhas situada na «montanha» a poente da Estrada de Braga, entre o Monte Pedral e a actual Rua de Monsanto - nota também lida no mesmo local) . O mesmo aconteceu no dia 16, data em que há a lamentar o incêndio ateado pelos Liberais, que destruiu a bela casa e capela da Quinta do Covelo. No dia 5 de Julho de 1833 foram ainda as baterias da Glória, do Covelo e de D. Pedro IV que protegeram uma pequena força de 20 homens de infantaria 9, sob o comando do alferes Neto, e depois permitiram a reconquista do Monte Pedral, que estes tinham sido obrigados a abandonar. Escusado será dizer que a urbanização do local onde estava o forte da Glória, só muito mais tarde se processou, nascendo então a serventia de que traçamos brevemente a história. ( Toponímia Portuense de Andrea da Cunha e Freitas )
Um olhar para sul e em baixo o que devem ter sido os terrenos da antiga
Quinta das Águas Férreas

Voltamos para trás, lá teve de ser, pela Rua Senhora do Monte e encontramos o final da Rua Antero de Quental.

No Largo, as traseiras do Quartel General, no Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República. Chamamos-lhe ainda Q.G mas já não o é há anos. Foi de tudo um pouco. A História diz que o Quartel de Santo Ovídio foi construído por Aviso Régio de 20 de Fevereiro de 1790 da Rainha D. Maria I para albergar o 2º Regimento de Infantaria do Porto, que fora criado em 1762 e instalado nos celeiros da Cordoaria. O autor do projecto do Quartel foi o Tenente-Coronel Engenheiro do Reino, Reinaldo Oudinot. As obras arrastaram-se até 1805-1806.
Apesar de ter sido construído de raiz como quartel para um regimento de infantaria, foi ocupado ao longo dos anos para outro tipo de tropas. Assim coexistiram, em diferentes épocas, tropas de infantaria com artilharia, cavalaria e engenharia, ou inclusive milícias durante o cerco do Porto – Batalhão de Milícias de Santo Ovídio-. Serviu em 1809 de aquartelamento temporário e posteriormente de prisão às tropas francesas, do General Soult, durante a 2ª invasão francesa.
Depois de muitas organizações e desorganizações, desde Setembro de 2006 é o Comando de Pessoal do Exército. Elementos colhidos na página do Exército.


Encostado à Rua Senhora do Monte está o Hospital da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Não encontrei, mas não quer dizer que não os hajam, elementos sobre a história do edifício.
No Largo da Lapa, onde começa a Rua de Antero de Quental, voltamos à direita para olharmos o Monte de Germalde de baixo para cima. Aí existe a nova Rua de Cervantes que sem qualquer referência específica no site da Camara e mesmo na net., presumo ser uma homenagem ao autor de D. Quixote. Ainda aqui está a velha Fonte da Lapa.

O Monte visto desde os antigos terrenos que presumo terem pertencido à Quinta das Águas Férreas. 

terça-feira, 6 de março de 2012

117 - À procura do Lugar da Ervilha

O meu passeio anterior e referente à Rua da Vilarinha, terminou no Lugar da Fonte da Moura. Escreveu-me um amigo conterrâneo a fazer pela vida no estrangeiro, interrogando o porquê de Fonte da Moura. Pois bem, segundo a lenda, andavam por ali cavaleiros comandados por D. Afonso Henriques (para quem não conhece a História de Portugal, foi o nosso primeiro Rei) quando encontraram uma Moura. Perguntaram-lhe onde poderiam matar a sede numa Fonte. A Moura respondeu-lhes que era muito longe, mas se o Deus dos cristãos era tão poderoso, que fizesse nascer ali uma e ela se reconverteria ao cristianismo. Dito e feito, a fonte nasceu e e a lenda também. E eu encontrei a história da lenda na Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora.
Estava acompanhado pelo meu amigo Peixoto, velho companheiro nas minhas andanças e foi aqui que achamos um simpático restaurante para almoçar.
Por sorte, fazia parte da ementa um prato de Sável, muito apreciado pelo amigo Peixoto que não hesitou na escolha. Para mim um lombo de boi assado, bem fatiado mesmo ao meu gosto. O tinto não estava mal mas o bagaço a acompanhar o café era de 10 estrelas. Via-se mesmo que é o do que o patrão bebe. O preço também esteve em conta, olhando à carestia da vida e ao petisco de rico que o Peixoto escolheu. Esqueci o nome do restaurante, mas fica a uma trintena de metros do início da Avenida Antunes Guimarães do lado esquerdo e de quem vem da Avenida da Boavista. É o El qualquer coisa. Nome espanholito.

Tinha-me proposto ir procurar o Lugar ou Monte da Ervilha, que sem querer descobrira por ter lido algo sobre um Espaldão Militar. Não fazia ideia nenhuma onde ficava. Mas de busca em busca lá encontrei algumas referências.

De mapa e apontamentos na mão - um dos meus poucos passeios mais ou menos orientados - atravessamos a Avenida da Boavista, (uma das grandes obras da Cidade do Porto e a maior Avenida de Portugal em extensão, que liga o Mar desde o Castelo do Queijo ao Centro) e toca de percorrer ruas nunca antes conhecidas.
A poucos metros encontramos a Estátua de Garcia de Orta, que dispensava bem o acessório que lhe colocaram aos pés. Não custa nada referir, até porque me dá muito prazer, que Garcia de Orta foi um cientista nascido em 1500 em Castelo de Vide, no Alto-Alentejo, de pais judeus refugiados em Portugal expulsos pelos Reis Católicos Espanhóis. Foi médico do rei D. João III e pioneiro no Estudo da Botânica, Farmacologia, Medicina Tropical e Antropologia. Encontrou Camões em Goa de quem foi amigo segundo reza a sua bibiografia. Morreu em 1568, em Goa, na Índia para onde tinha partido em Março de 1534 e por lá ficou. Embora a Inquisição também actuasse na Índia, durante a sua vida não foi molestado, bem como a família. No entanto, após a sua morte, todos os membros foram perseguidos e a irmã queimada na Fogueira da Santa Inquisição. Anos mais tarde o seu corpo seria exumado e igualmente queimado.
Embora exercendo a medicina foi também comerciante.
A obra que perpetuou o nome de Garcia de Orta foi o livro Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, editado em Goa em 1563 e só anos mais tarde publicado na Europa.
Levava como referência uma Paróquia, Igreja e Convento de que nunca ouvira falar.
Toda esta região era rural, de agricultura e floresta, que se veio transformando desde há umas dezenas de anos em zona habitacional. Terrenos não faltavam.
A Igreja de Cristo Rei e o Convento dos Padres Dominicanos tiveram a sua inauguração em 23 de Maio de 1954, em cerimónia presidida por D. António Ferreira Gomes, o saudoso e querido Bispo do Porto.
Toda a edificação está em 7.000 metros quadrados de terrenos cedidos pela Câmara do Porto em 1950, na altura presidida pelo Prof. Dr. Luíz de Pina, como compensação dos terrenos do antigo Convento de S. Domingos confiscados pela Fazenda após a extinção das Ordens Religiosas.
Mesmo ao lado encontramos o Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, que se dedica ao ensino e divulgação de várias actividades artísticas. Foi inaugurado em 1997.
D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto de 1952 a 1982, esteve exilado entre 1959 e 1969 por ordem da ditadura do Estado Novo e do seu cérebro António de Oliveira Salazar.
Grande intelectual, foi sem dúvida o Bispo mais querido e ainda hoje lembrado pelos Portuenses. Faleceu em 13 de Abril de 1989.

Entre as novas edificações encontram-se ainda vestígios dos tempos rurais. E eis-nos chegados ao Lugar da Ervilha. Meio perdido entre ruas sem saída e caminhos de pé posto, dando voltas sem destino, lá nos aproximamos do fim proposto.
A Rua do Crasto. Comprida, muito arborizada, liga este lugar ao Mar. Desconheço a razão da sua toponímia, mas presumo ser um derivado de Castro, povoação castreja pré-romana que se supõe ter existido não havendo no entanto elementos científicos que o comprovem. Mas descobriram-se utensílios líticos da época Pré-Histórica não deixando dúvidas que foi habitada na Idade do Ferro. 

Por entre os novos e altos edifícios, há que escolher um caminho de pé-posto
para tentar chegar ao centro do Monte.

Entre os altos arbustos que nos tapam a vista abrem-se novos caminhos e sem o supor deparamo-nos com cultivo agrícola em pequenas hortas espalhadas por um relativamente vasto território. Uma pequena conversa com um hortelão para orientação e saber coisas do lugar foi indispensável.
Indicou-nos o senhor hortelão as instalações do Futebol Clube da Foz, clube fundado em 1 de Maio de 1934. Cujo campo de jogos tem o nome de baptismo de Campo da Ervilha. Claro que conhecia o clube. Jogou algumas vezes com (ou contra) o meu Salgueiros. E de repente fez-se luz na minha cabeça. Afinal já andara por aqui.
Uma história simples: Teria os meus 7 ou 8 anos, não sei ao certo, e o meu irmão que já era árbitro de futebol levou-me com ele ao Foz onde foi arbitrar. Não sei como fomos lá ter, mas recordo vagamente que passamos por um caminho. Era dia de chuva e regressamos a casa de eléctrico. Imagino que devemos ter tomado o 4 na Fonte da Moura vindo de Pereiró, saído na Rotunda da Boavista e aí apanhado o 20 ou 21 para o Marquês.
Entre uma rua terminada e um novo caminho lá prosseguimos à conquista do Monte.

Caminhamos entre novas hortas espalhadas pelo Monte, ladeadas por altos edifícios.
Encontrei um arbusto com um fruto que não conheci. Um hortelão disse-me que era de um pé que veio do Brasil. Não sabia o nome e chama-lhe Tangeronas. Mas quem tem amigos pelo mundo há que saber de entre eles quem conheça o fruto. A resposta veio breve. O seu nome é tamarillo ou em português tamarilho. Oriundo dos Andes da América do Sul, é também cultivado no Brasil, onde toma o nome de Tomates (Japoneses, Ingleses, Arbóreo, ou ainda, conforme a região Brasileira, de Tomatão, Tomate Francês e Tomate de Árvore). Descobri que também se cultiva em Portugal, principalmente na Madeira com o nome de Tomate Brasileiro. Que bom é saber coisas novas.
Um bonito Faval já em flor.

Um dos hortelãos - esqueci de perguntar o nome - com quem conversei disse-me que toda aquela zona habitacional pertenceu a um Dr. Fontes. O que resta dos terrenos do Monte os herdeiros cederam aos hortelãos. A única paga e já não deve ser pouca é que os terrenos foram e estão limpos.
Mas também vinha à procura do Espaldão Militar de que tomara conhecimento existir aqui. No meio de alguns terrenos não cultivados vêm-se pequenos montes com uma altura talvez de 3 a 4 metros, totalmente cobertos de vegetação alta.
Vamos à História segundo o IGESPAR. Na sua página recolhi a informação de que no Monte ou Lugar da Ervilha foram feitos estudos arqueológicos numa área de 156 metros quadrados devido a um processo de loteamento do local. Acho que esta medição está errada pois é uma superfície bem pequena em relação ao  edificado e aos terrenos que se vêm, mas para o caso não interessa nada. Pelo seu fraco interesse arqueológico os estudos foram abandonados em 1995.
Aqui existiu um espaldão militar, conhecido como do Porto, da Ervilha ou Forte da Ervilha, utilizado na Guerra Civil de 1828-1834 (mais conhecida como Lutas Liberais) para albergar a artilharia das Tropas de D. Miguel. Este espaldão construído com muros de pedra e valas era considerado inexpugnável. Durante os estudos arqueológicos foram descobertos espólios diversos bem como uma plataforma em pedra onde terá assentado uma peça de artilharia. Embora degradado é um dos poucos vestígios arquitectónicos do Cerco do Porto. O Espaldão foi tomado pela Tropas Liberais em 24 de Janeiro de 1833.

Deixamos para trás a Ervilha e encontramos uma rua que nos guia até ao Mar.

É a Rua do Ribeirinho, julgo ser assim chamada porque bem próximo,
embora mal se distinguindo, passa um fio de água.
Quem sabe, talvez tenha sido já um ribeirinho à séria
Embora de há 1 ano e meio atrás, esta é a imagem mais ou menos actual do
Lugar da Ervilha.
E fomos à mais apetecida lourinha que há muito nos esperava na esplanada
 em frente ao Mar. A tarde foi longa e a sede apertava.

sexta-feira, 2 de março de 2012

116 - A Vilarinha

Comecei a ouvir falar da Vilarinha muito novo, por causa das corridas de automóvel que se realizavam nos anos 50 do século passado no Circuito da Boavista. Fixei nomes como Vasco Sameiro, Casimiro de Oliveira (irmão do Manoel a quem me referirei mais à frente), Nogueira Pinto.
Vilarinha é um nome originário do românico Villae e era - é - um lugar na localidade de Aldoar, este de origem árabe. A história da Freguesia fica para outra altura. Era uma povoação entre o Porto e Bouças, actual Matosinhos.
Fui descobrir a Rua da Vilarinha que nunca percorrera, começando o passeio desde a Estrada da Circunvalação. Na esquina, o antigo e recentemente remodelado Teatro da Vilarinha, Casa da Cultura de Aldoar, pintado com uma cor horrível - na minha opinião, claro - , cujo edifício já serviu de Posto Alfandegário na altura em que as mercadorias entradas na Cidade do Porto pagavam imposto. Posteriormente foi a sede da Junta de Freguesia.
O Teatro alberga a Companhia Pé de Vento, formada em 1978, cuja actividade cultural divide com outras áreas.
A rua encobre uma parte do caminho antigo que os Romeiros e Peregrinos percorriam até ao Bom Jesus de Bouças, que como atrás referi, agora se chama de Matosinhos. Ao longo da Rua vêem-se alguns edifícios do séc. XIX.
Uma antiga escola primária, bem recuperada pelo menos exteriormente, está abandonada e coberta de silvas. Presumo que seria a Escola nº 26 e o seu abandono deve ser relativamente recente, pois vi uma foto dos anos 80/90 em que a encosta do pequeno monte estava lindamente ajardinado. Incluindo um emblema florido que presumo ser da heráldica de Aldoar. Lema Português: Em vez de se utilizarem os edifícios para qualquer coisa, é melhor deixá-los ao abandono. Assim não tem custos.
Um pouco mais abaixo encontra-se a Igreja da Vilarinha, inaugurada em 1738, embora no Portão esteja gravado o ano 1892. Talvez esta seja a data da cêrca. Mas antes vamos até ao Núcleo Rural de Aldoar, integrado no Parque Ocidental da Cidade, que dista da Rua da Vilarinha uma vintena de metros.
Aldoar era um lugar essencialmente rural. Este núcleo é formado por 4 quintas que foram sendo abandonadas.
As Casas, umas, residências, outras, cortes de animais e guarda de utensílios de trabalho, foram recuperadas e mantiveram o seu aspecto antigo. Agora albergam serviços camarários e de apoio ao Parque, bem como uma cafetaria e um picadeiro. Espigueiros também foram recuperados. Aos sábados julgo que ainda se realiza uma feira de produtos artesanais.
Regressados ao nosso itinerário principal, encontramos o novo edifício da Junta inaugurado em 1989 e a Velha Fonte de Aldoar de 1902.
Em frente fica a antiga Igreja da Vilarinha, dedicada a S. Martinho, padroeiro da Freguesia. Este S. Martinho foi o soldado romano, pagão, que dividiu a capa com um mendigo. Homenageado em Marte, o Deus da Guerra. Nascido na actual Hungria em 315, enfrentou o exército Bárbaro sem armas. Tudo pela visão que teve de Deus, após o repartir da capa com o Mendigo. Reconvertido ao Cristianismo, daí a Santo foi um pulinho.
Em redor da Igreja há um grande parque lindíssimo e bem conservado. Pelo menos à vista de longe, pois está fechado ao público. No exterior, vê-se um cruzeiro sem qualquer referência.
Em frente, as tradicionais alminhas que encontramos por muitos locais na Cidade. 

A Casa de Manoel de Oliveira. Que se pronuncia  mɐnuˈɛɫ doliˈvɐjɾɐ segundo a Wikipédia na página da sua biografia. Com a devida vénia transcrevi tal qual lá está pelo processo copiar/colar. Só ampliei um pouco para melhor leitura dos meus visitantes. Para mim parece escrita aeroglifica, mas para o caso não interessa nada.
Manoel de Oliveira, (respeito o nome inscrito no que presumo ser a sua certidão de nascimento, - num dos cartazes, pois há vários, publicitando o filme Aniki-Bóbó está escrito Manuel o que deve ter sido considerado um desaforo -), é como todo o mundo sabe, o realizador de cinema mais antigo no mundo vivo. Nasceu em 11 de Dezembro de 1908. E ainda quer fazer muitos filmes. Além de realizador, foi corredor de automóveis e actor, praticou salto à vara no Sport, esteve ligado ao Teatro Experimental do Porto (creio que foi um dos fundadores). Da sua casa propriamente dito,para além do muro junto à rua, apenas se consegue ver a parte superior de uma chaminé. Autentica fortaleza.

Do outro lado da rua, um pouco à frente no sentido do meu percurso, duas tradições do Porto Cidade. Uma residência operária, (era assim que se chamavam oficialmente por viverem nestes aglomerados as pessoas de menores recursos económicos mas a que o portuense lhes chama ilhas) e um velho fontenário, provàvelmente como muitos outros, construído na Fundição de Massarelos.
Dei um desvio para a Rua do Jornal de Notícias - parabéns JN pelos 123 anos - para ir conhecer a nova Igreja matriz de Aldoar, inaugurada em 1988.

A Rua Jornal de Notícias

Uma das novas escolas de Aldoar. Esta me parece ser um infantário.

Edifícios simples mas de bonita construção civil vêm-se ao longo da Rua da Vilarinha.
Deva-se dizer que foi uma das ruas do Porto, no limite da Cidade, habitada pelos ricos.
E chegamos ao fim, na junção das Avenidas da Boavista e Dr. Antunes Guimarães.
Aldoar continua para além, mas isso ficará para novas histórias de outras caminhadas .