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segunda-feira, 6 de junho de 2011

77 - Parque das Camélias e o Vasco da Gama

Quem se lembra do Parque das Camélias ? Por muito que pesquise, não encontro referências sobre este espaço, com o seu ringue onde se praticava o andebol e o basquetebol, digamos que era a casa do Vasco da Gama. E de vez enquanto armava-se outro ringue para a Luta-Livre Americana, onde o espanhol Saludes era o mau da fita. O campeão era sempre o mesmo, o nosso José Luís. Mas havia também o Mascarilha, não me lembro já se era este o seu nome "artístico".

Lembro-me especialmente de uma quarta-feira à noite em que não me deixaram entrar. Ainda não tinha idade para poder assistir a espectáculos nocturnos. Recordo a cara de desilusão do meu pai, pois queria mostrar-me como era a nóvel modalidade de andebol de sete. Onde o nosso Salgueiros foi campeão nacional no primeiro ano.
Mas claro que o Parque das Camélias era bem mais antigo do que as minhas lembranças. E depois veio também o Cinema. Das coboiadas e de espadachim. Hoje é terminal de Camionagem.

A entrada fazia-se pela Rua Alexandre Herculano, que hoje ainda se mantém, através de um túnel com uma vintena de metros.

Encontramos o emblema do Vasco pintado a meio do caminho, que vai dar ao parque de estacionamento e à actual "Oficina de Basquetebol"

À direita de quem sai do túnel ficam os balneários e a secretaria.


Ao fundo, um mural muito bem desenhado e pintado.


Nasceu por estes lados o Sporting Clube Vasco da Gama em 1929, impulsionado por Alves Teixeira, que foi um dos grandes jornalistas portugueses.

Hoje em dia, especialmente dedicado às camadas jovens, o Vasco soma bastantes títulos nacionais


A sua sede fica mesmo em frente, não sei se desde a fundação do Clube. De vez enquando vou até lá tomar a minha cervejinha da ordem, recordando os tempos das passeatas com o amigo Álvaro e o primo Rogério, Vascaíno de todos os costados, e que com frequência parávamos lá para um petisco.

Uma placa a meio caminho das escadas, recorda a quem sobe o grande Alves Teixeira.


Na sede está exposta uma galeria de retratos recordando muitas gerações de atletas. Um deles ainda o vejo durante as minhas andanças. E é um prazer cumprimentar e ouvir um pouco o mítico Arlindo, com os seus quási 80 anos. Ainda rijo, bebendo o seu copinho. A foto recorda os campeões nacionais da época 40/41. Ao centro Alves Teixeira.

No velho Parque das Camélias.




Anos 60/70 defrontando o CDUP


E aqui o Futebol Clube do Porto

Faço um apelo os amigos e leitores que se lembrem deste Parque e do Vasco, que contribuam com as suas histórias. Especialmente aos camaradas Pimentel e Quintino.

domingo, 5 de junho de 2011

76 - Igreja de Nossa Senhora da Lapa

A Lapa, como nós Portuenses conhecemos o sítio, só o é desde a construção da Igreja. Antigamente chamava-se Monte de Germalde e também de Santo Ovídio. Este último nome perdurou muito tempo, pois a minha avó referia-se ainda a ele. Mas é da história que no Campo de Santo Ovídio, no séc. XVIII, João de Almada (grande homem com enorme visão a quem a Cidade muito ficou a dever - e ainda deve - pelo engrandecimento e desenvolvimento do nosso Porto) mandou abrir uma larga Praça a onde mais tarde se veio a construir um Quartel Militar, o actual Quartel General, e que teve repercussões históricas assinaláveis. Hoje faz paredes meias com a Igreja da Lapa. O Culto de Nossa Senhora da Lapa é muito antigo. Teve e acho que ainda tem, invocações espalhadas pelo Mundo, levadas pelos nossos marinheiros, tendo especialmente proliferado no Brasil. Conta a lenda, que no sopé deste Monte de Germalde, existia uma Fonte da invocação de Nossa Senhora da Lapa e uma imagem a que os moradores locais prestavam culto. Bom, agora entram os meus devaneios. Há aqui duas Fontes. Uma delas na Igreja. Chamada Poço. Lá chegarei. Outra, no caminho que vai dar às Águas Férreas. Provàvelmente será uma canalização de Salgueiros ou de Arca D'Água. E nada terá a ver com a Fonte original da lenda. Mas especular não custa. Hoje ainda está aqui uma granítica Fonte, cuja idade desconheço. Apenas sei que está encostada aos terrenos baixos do Hospital (da Venerável Irmandade da Ordem da Lapa). Por conseguinte, será no sopé do tal Monte de Germalde ? Caros amigos e leitores. Se souberam mais do que isto, é só comentar. O que agradeço desde já.

Uma foto "sacada" já não sei de que blogue, (não liguem à assinatura pois é um roubo e não sei a quem) mas é de certeza de um amigo Portuense, mostra-nos a Igreja talvez há coisa de 80 anos. Comparem-na com a foto inicial. À esquerda é a agora Rua de Antero de Quental, antiga estrada para Braga. Que tinha a sua origem em Carlos Alberto (antigo Largo dos Ferradores). À direita, o que seria a futura Escola de hoje, não estava totalmente construída. As árvores ainda estavam em fase de crescimento. Mas vamos à história, que eu respiguei aqui e ali, a maior parte do site do meu amigo António Amen (http://amen.no.sapo.pt/) por sua vez apanhado de um documento do Prof. Dr. Francisco Ribeiro da Silva.
Como sempre, a história pode ser verdadeira ou não. Depende do que há escrito ou da interpretação que fazemos dela. Sendo assim, diz-se que a Igreja deveria ser implantada num local onde fosse visível de longe para os peregrinos se orientarem. Isto porque o verdadeiro culto de Nossa Senhora da Lapa foi instituído em Portugal por um cónego de S. Paulo, do Brasil, Padre Ângelo de Sequeira, nos meados do séc. XVIII e cujos sermões em louvor de Nª Srª da Lapa levou o povo de Germalde a aumentar a sua devoção. E assim ficou o local como Santuário. No qual se deveria construir uma Igreja.O Padre Ângelo de Sequeira tomou a iniciativa de construir uma Igreja e um Seminário no local da Fonte. Por desarranjos de comunicação, outra especulação minha, alguém pensou que deveria ser no Monte de Santa Catarina - algures nas actuais Rua do Paraíso e elevada até à Rua de Santa Catarina, um morro com muita pedra e também água - . Ainda lá está a Fonte de Vila Parda. (Ver neste blogue a Rua do Bonjardim). A ideia foi abandonada mas já havia muita pedra cortada que foi trazida aqui para o Monte que só por casualidade acabou de ser o local da construção da Igreja. História complexa de donos de terrenos e de padres, mas que neste ponto preciso eram terrenos camarários. Logo, penso eu, ninguém estava disposto a dar ao Brasileiro Padre Ângelo terrenos para a construção da Igreja. Que se amanhasse com a Câmara. E isso aconteceu. Começou por se construir uma pequena Capela, iniciada em 7 de Janeiro de 1755, conhecida pela Capela de Nossa Senhora da Lapa das Confissões, porque o tal padre era bom nestas coisas e conseguia que os bandoleiros que neste sítio existiam "aos montes" devolvessem aos proprietários os seus roubos depois da confissão.
A Imagem da Senhora da Lapa trazida pelo Padre, do Brasil e que entretanto esteve guardada na Igreja de Santa Clara, veio em procissão até à nova Capela em 10 de Março. A sua construção correu em ritmo acelerado, pois então. Mas já era pequena a Capela para tantos devotos que ali acorriam, especialmente para ouvir o Padre Ângelo.


Então há que erguer uma nova Igreja. Desde a data duvidosa do lançamento da primeira pedra em 17 de Julho de 1756 e 5 de Outubro de 1757, data da encomenda do risco ao Arquitecto Gonçalo Pereira, muita tinta correu. Porque este arquitecto abandonou a obra por discordar da empreitada. Seguiu-a João Clamer Strovel, mas foi reprovado. Finalmente José Figueiredo Seixas toma conta dela sendo lançado o Arco da Capela-Mor em 22 de Setembro de 1758. A escadaria completada em 1826. A Torre Poente em 1855 e a Nascente em 1863. Acho que o homem nunca chegou a ver a sua obra completa. Mas ficou para a história da Arquitectura do Porto.

Na fachada 4 estátuas em granito reproduzindo figuras bíblicas: Judite, Ester, Raquel, Sara. Na Torre Nascente esteve um relógio do séc. XIX, guardado na Sala dos Quadros. Dizem.
A fachada está construída com cerca de 2.720 pedras de granito. Imagine-se a pedra que foi precisa para construir todo o conjunto, que podem ver na foto de 4x1, lá em acima.
Duas portas monumentais nos separam do interior da Igreja em estilo Neo-clássico.
A Irmandade de Nossa Senhora da Lapa foi instituída em 1755 pelo Papa Bento XIV. Dizem as as línguas do Povo, que o dinheiro e outros valores conseguidos e arrecadados pela Irmandade, foram reclamados por Santo Ildefonso. Esta Irmandade deveria julgar-se a "dona dos reinos". Não lhe chegou bater-se contra os Clérigos de Nazoni, (o grande arquitecto do Porto, da sua Torre, Igreja e Hospital,) cujas obras conseguiu fazer demorar anos a fio até se concretizarem, como se voltou depois para esta Irmandade da Senhora da Lapa. Claro que daqui houve umas fugas de dinheiro e outros mal geridos. Mas a história das irmandades está cheia de coisas do género. E que chegaram até aos nosso dias. Ponto.






Aspecto do interior da Igreja e do Altar-Mor. De cada lado. obras de valor
No altar-mor a imagem de Nossa Senhora da Lapa. Li que é do século XVIII. Será a mesma que o Padre Ângelo trouxe nos seus braços para Portugal ? À direita, o Cadeiral - imagem péssima, pois a igreja estava às escuras e o fotógrafo (eu mesmo) não soube usar o que tinha à mão, - que parece ter vindo do antigo Convento dos Loios. Que depois foi chamado de Palácio das Cardosas. Agora futuro Hotel. Entre o desleixo a que a Cidade está votada e a utilização do que temos, que se use o que poder ser, mesmo com capitais estrangeiros.
À esquerda, na Capela-Mor, está o "Monumento" que guarda em cofre o Coração do nosso D. Pedro IV. O Imperador do Brasil, o Primeiro. Nosso, da Cidade, pois claro. Haverá alguma Cidade no Mundo, Republicana de quatro costados e de muitas revoluções, que adore um Rei que foi Constituicionalista ? Sua esposa cumpriu os desejos do Imperador/Rei. E a sempre Leal, depois de Mui Nobre e Invicta, a Cidade do Porto partilha com seus irmãos do lado de lá do Atlântico este Coração. Mas agora tem de haver um reparo. Que me foi dado a notar por um trabalhador da Igreja. Não, o líquido formol onde está o coração do Rei não é mudado de 4 em 4 anos, conforme diz a lenda. Não é preciso. Mas se quiser vê-lo, escreve à Câmara Municipal. Pode ser que permitam autorizar a abrir o Monumento e a visualizar o Cofre onde está depositado o Coração...
Desfaço-me das emoções e volto-me para os vitrais. Os que estão ao nível das janelas do chão são de 1927, de Maumejean, Paris. A mim não me diz nada esta autoria.
Os do coro alto são de 1931, de R. Leone, Lisboa. Podem ser grandes artistas. Não fui investigar. Mas que os Vitrais são bonitos, não há dúvidas.
Nas penumbras, pode-se ver o Órgão de Tubos, o mais importante da Península Ibérica. Montado em 1995 por Georg Jann, o mais conceituado mestre orgânico da Europa. Dizem.





Aspecto da Igreja e de alguns altares.







Acho que este grupo se chamará Senhor dos Passos. Mas sou leigo. Me desculpem se estou errado.

Lá em cima, escrevi sobre um Poço. Pois ele aqui está e a sua Fonte. Na sala chamada do Poço. Não sei se tem a ver com a lenda antiga. Não há ninguém que nos explique sobre a sua origem. Sendo assim, regista-se a imagem e siga em frente.






Na Sala do Poço, na parede, uns painéis sobre Nossa Senhora.

No seguimento do caminho para a Sacristia, um Cristo. Diz-se um que Irmão da Confraria pôs dinheiro do seu bolso para vestir um Cristo na Cruz, que andava -não sei por onde - despido. Séc. XVIII. Será este ? Só faço conjecturas.


Na Sacristia, este altar com outro Cristo. Pobre de mim, que só andei por ali, olhando. É a minha maneira de ver o que me rodeia. Sem cicerones.

Ainda na Sacristia, três vitrais alusivos a Nossa Senhora desenhados por De Francesco e realizados em Itália em 1993. Para mim, leigo nestas coisas, o vitral da esquerda nada tem a ver com os outros. Refiro-me às cores. Mas quem sou eu para entender vitrais, desenhos, cores ?


Um aspecto parcial da Sacristia. Li que está lá um Arcaz do séc. XVIII em pau santo e pau rosa. Talvez proveniente do Convento de São Bento d'Avé Maria. Eu pecador me confesso. Vi sim, um espécie de armário, aberto, com vestes que os padres usam. Achei sacrílego fotografar. Se estas vestes estavam guardadas no tal Arcaz, fico com pena de não as ter registado. Desculpem este leigo. Que só sabe das coisas depois de fotografar.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

75 - A Igreja Paroquial de Santo Ildefonso

Esta Igreja foi construída entre 1709 e 1739 em estilo renascença da fase final. A fachada é revestida por 11.000 azulejos assinados por Jorge Colaço em Novembro de 1932. Representam cenas da vida de Santo Ildefonso e do Evangelho. Este local era muito frequentado pela população, pois existia um souto de carvalhos que o tornava aprazível. Aqui estava erigida um Ermida sem data definida mas que fazia parte do testamento do Bispo do Porto, D. Vicente Mendes, datado de 1296. Chamava-se Ermida de Santo Alifon. Foi demolida em 1709, já quando apresentava muitos sinais de ruína.



O sacrário e imagens foram transferidas para a Capela de Nossa Senhora da Batalha, junto à Porta de Cimo de Vila e por lá estiveram enquanto a nova igreja estava a ser construída. Esta Capela foi demolida aquando da construção do novo Teatro de S. João, que, como sabem as nossas gentes, substituiu o antigo Teatro Real que ardeu no princípio do séc. XX.

A escadaria sofreu várias alterações ao longo dos séculos desde que foi construída nos finais do séc. XVIII. Do lado esquerdo, foi desmontada em 1924 para dar lugar a espaços comerciais. Ainda recentemente, já no séc. XXI, sofreu novas alterações, bem como a grade e portão de acesso à entrada.


Várias ossadas foram encontradas durante as recentes obras da igreja. Presume-se serem restos de um cemitério, tanto no interior como no exterior da antiga Ermida.
Na Capela-mor descobriram-se também pedras de alicerces julgando-se pertencer à referida Ermida de Santo Alifon.


O retábulo da Capela Mor é desenho de Nasoni e executado por Miguel Fernandes Silva em 1745.


Pormenores da Igreja





A talha do arco cruzeiro é de 1950. 6 grandes figuras em estuque representam Apóstolos e Evangelistas.


Os vitrais são de 1967 e da autoria de Isolino Vaz.




O tecto, creio que todo ele e não só o da capela-mor ou o do corpo da Igreja, é em estuque decorativo de tradição barroca. Foi no passado um rico trabalho cromático a ouro puro, mais tarde coberto por cal.
Ao centro e nas paredes laterais estão duas grandes telas com 5,80x4,30 metros, autoria de Domingos Teixeira Barreto, pintadas entre 1785 e 1792. Quási não se vê nem define a pintura. Tudo negro. As molduras são recamadas a ouro fino, mas pintadas a castanho nos princípios do séc. XX. Espera-se o restauro e a devolução das molduras ao ouro primitivo. E os tectos ?




Até onde chegava a escadaria do lado de Santa Catarina, pegado à Livraria Latina, está agora um comércio com nome estrangeirado que substituiu a velha Janota e a montra das 100 camisas.
Por detrás do muro encontra-se o obelisco que se afirma ser o contraponto à Torre dos Clérigos, acaba de construir. A rivalidade entre as duas confrarias foi muito grande.

Do lado de cá, acabaram-se os velhos sanitários públicos, que tanta falta fazem às vezes. Mais uma obra acabada do sr Presidente Rui Rio.

Nesta velha foto lá está ainda o obelisco, os sanitários e as várias escadarias, entretanto remodeladas. Do lado da Rua de Santo Ildefonso também sofreram alterações.

O Obelisco está do lado esquerdo da Igreja, de quem fica de frente para ela. É uma pedra única assente sobre 4 esferas pousadas num pedestal. Tudo em granito, acho eu.



Mais ou menos de onde ele estaria localizado, a vista para a outra colina com a Torre e Igreja dos Clérigos no alto.

Ainda do lado esquerdo e traseiras da Igreja, encontram-se 14 cruzes que foram retiradas no final do séc. XIX, por ordem da Câmara, da colina do Bonjardim. Presumo que seria a zona da Fontinha actual. Serviam a Via Sacra da população. Eram forradas a madeira com caixa de vidro e pintura a óleo com letreiro e a invocação do santo. Cada duas com uma lanterna.

Em acta da Confraria de 21 de Julho de 1833, refere-se que durante o Cerco do Porto, nas Lutas Liberais, foram arrazados o adro e a frente da Igreja. Que também foi saqueada em 1809 pelas tropas napoleónicas sobre o comando de Soult.


Com a devida vénia, retirei os textos históricos de um documento do Padre Dr. Alfredo Soares, ex-pároco de Santo Ildefonso.