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segunda-feira, 25 de julho de 2016

248 - A Serra da Estrela

Em finais de Setembro passado, fiz com amigos uma pequena viagem pela Serra. Chegamos tarde a Seia e foi só largar as malas no Hotel e sair para comer alguma coisa. Restaurantes fechados mas temos de agradecer a alguns habitantes as informações e até a disponibilidade para nos acompanhar. Acabamos por encontrar aberto um pequeno bar onde amavelmente nos serviram. As moelas estavam um pouco duras mas apetitosas. O queijo era razoável, o pão muito saboroso e já não me lembro que mais comemos.

Novo dia e um excelente pequeno almoço preparou-nos para a viagem. Que não podia ser longa nem a possível para visitar todos os pontos belíssimos da Serra.
Saímos de Seia no sentido da Torre. À medida que subimos, os infinitos que o olhar abrange obrigam-nos a parar para tentar guardar recordações com um clique.
 
No cimo de um pequeno outeiro encontramos esta singela capela, uma árvore e mesa com bancos. Logo abaixo, meia dúzia de casas com muito bom aspecto.

 Encontramos neste deserto terrenos vedados o que achamos curioso.

Em cada curva deparam-se-nos recortes curiosos e vales com água. Infelizmente não podemos apreciar os pormenores.

 Em Loriga paragem para tomar um café e apreciar belos Serra da Estrela num canil junto à estrada.

Um olhar para trás


Creio que é a Lagoa Comprida, vista de um dos lados já a caminho da Torre. E uma imagem com exactamente 44 anos.

100 metros atrás em relação ao momento em que a foto foi feita, a paisagem com os pormenores deste desfiladeiro e a montanha em fundo são uma coisa assombrosa de linda. Mas a estrada tem muitas curvas e é perigoso estacionar.

O Cume no Planalto Central a cerca de 2 mil metros de altitude.

Descendo no sentido de Manteigas encontram-se relevos extraordinários. O Cântaro Magro a 1928 metros de altitude situa-se na cabeceira do Vale Glaciar do Rio Zêzere e do sopé (no Covão d'Ametade que se recomenda percorrer) até ao cume tem um desnível vertical de cerca de 500 metros.
Afloramentos graníticos com idade entre 340 a 280 milhões de anos encontram-se por toda a serra. Neste local, a quantidade, as dimensões e figuras gravadas na pedra pela natureza ao longo dos milénios não nos deixam indiferentes.

No Planalto Superior, até onde a vista alcança.

Não podemos deixar de observar o que nos rodeia. No Covão do Boi o monumento a Nossa Senhora da Boa Estrela, padroeira dos Pastores.

Do outro lado da estrada, um fio de água escorre por entre as rochas.

Itinerários para caminhantes.

 Nave de Santo António no sentido Torre-Manteigas
Antigo Parque de Campismo. Imagem obtida no sentido Covilhã-Torre.

No sentido de Manteigas, o Vale Glaciar do Rio Zêzere.
Pastorícia em fins de Setembro
Não sei localizar este lugar a poucos quilómetros de Manteigas. As belezas dos pormenores, das paisagens e das cores são tantas que nos perdemos.
Desconheço qual o curso de água que passa sob a ponte que temos de atravessar para chegar a Manteigas...
... que se vê ao fundo.

Igreja Matriz de Manteigas
De construção inicial no séc. XIV, sofreu vários restauros o último em 1935.

Itinerários

Será um abrigo de pastores mesmo junto à estrada ?

Duas imagens de Manteigas obtidas no mesmo local sensivelmente e separadas rigorosamente por 
44 anos.

Estamos no concelho de Gouveia e o Mondeguinho, nascente do Rio Mondego a 1425 metros de altitude gaba-se de ver surgir num fio de água o maior rio Português que até à sua foz na Figueira da Foz percorrerá 234 quilómetros. Na imagem antiga, o garrafão na bacia já lá estava quando cheguei para tomar um copo de água. Desse tempo acho que o que resta é a rocha onde antigamente assentava a placa e lixo. Para trás era monte.

Afloramentos rochosos graníticos em outros pontos da Serra.

A Cabeça do Velho já teve neste período do ano (Julho) neves eternas ? Na base da rocha e até à estrada é neve.
O fogo que um mês antes (Agosto) percorreu a Serra deixou ainda algumas marcas escuras mas o verde para o pasto (?) já estava a brotar.

Mais abaixo e do outro lado da encosta, pequenos rebanhos de lanígeros deixam-se fotografar.
Bem como o pastor e o seu companheiro

Última imagem do dia na Serra da Estrela.

Algumas casas estão espalhadas pela Serra oferecendo deliciosos produtos gastronómicos locais, a par de artesanato fabricado nos mais variados materiais.

Nestes materiais não acredito minimamente que sejam regionais. São made.in.China e no Porto estão à venda exactamente ao mesmo preço.

A Serra da Estrela não são só paisagens. Vá descobrir o que o Parque Natural, os Concelhos, a História, a Gastronomia pode oferecer.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

247 - Museu do Pão em Seia, Serra da Estrela

Durante uma pequena viagem na Serra da Estrela, aproveitei para visitar o Museu do Pão, em Seia.

Não gostei daquele paredão que me deixou uma ideia negativa

Nada disso teve influência na visita que francamente me agradou. Preparámo-nos como simples gnomos da tribo dos Hérmios, protectores dos primeiros habitantes dos Montes Hermínios.
Dedicado aos visitantes jovenzitos, a primeira sala a visitar, chamada de Espaço Temático, mostram-nos os Hérmios a trabalhar desde a preparação das terras até ao fabrico do Pão.
Bonecos articulados movidos com saber.
Já não me lembro quantos são os quadros, mas vale a pena voltarmos a ser crianças e percorrermos esta aldeia.

O Pão na Cultura, nas Artes, na Política, na Religião.

Pretende-se mostrar o Ciclo do Pão em painéis informativos, as alfaias e utensílios utilizados.

Este tipo de canastra era utilizada pelas "padeiras" (assim chamadas no Porto) que faziam  a distribuição do Pão porta-a-porta. Esta canastra veio de uma antiga padaria que existiu no Porto no meu tempo de menino.
Mais painéis informativos sobre o Ciclo do Pão e alfaias, reproduções de espigueiros e outros elementos.

Uma padaria com elementos em tamanho natural.

O Pão na Religião sendo as mais significativas a Judaica e a Cristã


A palavra Pão nas diversas línguas.

O Pão no Social, na Cultura e nas Artes.


O Pão em Portugal
Os vários tipos e farinhas em cada região.

Um prazer visitar este Museu.
Vamos dar um saltinho à Mercearia, que nos recorda a infância.
Para além de produtos regionais, têm para venda Pão que é feito ao longo do dia.

Visitem a Serra da Estrela e podem começar por Seia.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

246 - Matosinhos: Festas e Romarias, Lendas e História

Uma breve passagem por Matosinhos durante a realização das suas Festas em homenagem ao Senhor de Matosinhos. Mas não só.

Monumento Tragédia do Mar, esculturas recordando o maior naufrágio da costa portuguesa 
ocorrido em 2 de Dezembro de 1947 em Matosinhos. 

Diz-se-se que foi aqui a origem da Vieira, símbolo de Santiago de Compostela. Isso leva-nos ao ano 44 e ao dia em que Cayo Carpo, grande senhor romano e pagão, do lugar de Bouças (nome anterior ao de Matosinhos) casou. A festa é no imenso areal da Praia do Espinheiro até que o noivo desafia os restantes cavaleiros: Quem conseguisse chegar mais longe dentro de água com os cavalos, ganharia. Cayo vê uma nau e segue mar a dentro. A nau transporta o corpo do apóstolo São Tiago. Ao sair da água, o corpo de Cayo Carpo está matizadinho de vieiras. A praia passou a chamar-se de Matizadinho e as Vieiras ficam associadas à devoção e aos Caminhos de Santiago.

Nestas praias durante três dias e nos últimos anos, tem a Câmara Municipal feito a recriação histórica daquela época romana. Feira de artesanato, mercado de escravos, reconstituição do casamento de Cayo e Claudia, banquetes, coisas para os romanos mais pequenos, etc. É hoje domingo, data em que escrevo, o último dia de festa.

Bem perto, na Praia do Espinheiro no lugar de Matosinhos, outro monumento - nacional - a Ermida do Senhor do Padrão que nos recorda o lugar onde apareceu a imagem do Nosso Senhor Bom Jesus de Bouças.
Deverá ser anterior a 1733, mas não há nada que indique a sua construção.
Mas junto ao monumento, encontra-se uma construção em pedra que encerra uma fonte, resposta divina à súplica de uma crente ao Senhor do Padrão para o seu mal de pele. Banhando-se na água obteve a cura. Esta fonte terá surgido em 1726, levando a crer que o Monumento é anterior.

A Romaria e Festa do Senhor de Matosinhos tinham terminado há poucos dias, mas as tendas que vendem as tradicionais loiças ainda funcionavam.

Na antiga Rua da Igreja encontrei esta fonte que ninguém me soube dizer nada sobre ela. Mas é tudo muito simples: Dois amigos mandaram-na construir o que marcou o fim de séculos em que o abastecimento de água era feito através de poços.
Onde pesquisei lê-se que foi em 1853. Na Fonte - que já não deita água - está gravado o ano 1863.

Vamos visitar a Igreja Matriz de Matosinhos.

 Um frondoso parque envolve todo o adro a Igreja.

 De cada lado do Parque, três capelas invocando alguns Passos da Paixão

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Imagens nas Capelas

 O parque possui várias espécies de árvores, fontes, coreto, lago, chafarizes.

O edifício sede da Santa Casa da Misericórdia, a Casa dos Milagres e o Museu, encontram-se à volta do Parque.
Árvores revestidas com belas toaletes.

Igreja Matriz de Matosinhos
Erigida no século XVI, a mando da Universidade de Coimbra que desde 1542 possuía o padroado de “Sam Salvador de Bouças”, a actual igreja de Matosinhos veio substituir um velho e arruinado templo até aí existente, a algumas centenas de metros de distância, no lugar de Bouças – local onde, na Idade Média, existira um mosteiro.

Segundo a lenda, foi um burro que encontrou o local onde foi erigida a nova Igreja

A obra de construção do novo templo renascentista foi entregue, em 1559, a um célebre imaginário/arquitecto de então: João de Ruão. O prazo inicialmente previsto foi de quatro anos. Demorou vinte! E na fase final da edificação, entre 1576 e 1579, um outro famoso artista da época, Tomé Velho, juntou-se a João de Ruão.
Embora as dimensões da igreja não se tenham alterado significativamente, resta muito pouco desse templo inicial.  À excepção das colunas que dividem interiormente as três naves, não nos é possível observar muitos vestígios dessa primeira época. 
Foto encontrada na net de autor desconhecido
Todo o resto do corpo do edifício seria significativamente alterado, a partir de 1743, pelo arquitecto italiano Nicolau Nasoni que levantou as paredes laterais e produziu uma fachada barroca totalmente nova.
Durante o século XVIII o interior da igreja foi coberto, de um modo significativo, por talha dourada, ao gosto do barroco, abrigando algumas das melhores obras-primas dessa arte no nosso país.  
 No transepto e do lado da Epístola a Capela do Senhor dos Passos.
A talha dos seus retábulos e frontispício terá sido executada pelo mestre entalhador portuense Domingos Martins Moreira, na sequência de contrato estabelecido em finais de 1746. O douramento e a pintura desta obra terão sido executados, poucos anos depois, por um outro mestre da cidade do Porto: José da Mota Manso.
Pintura de um painel lateral representando o Senhor da Caninha Verde.

Curioso o facto de um senhor que trabalha na Igreja me dizer que desconhece e não acredita que o seja. Mas eu acredito no Prof. Joel Cleto. Confirmado também pelas vestes da figura.
Chamado de Ecce Homo ou Nosso Senhor Bom Jesus da Pedra Fria, ou apenas Senhor Bom Jesus da Pedra como em Vila Franca do Campo, nos Açores.

No Brasil existe uma piedosa tradição portuguesa que narra ter a Cana-de-açúcar perdido os espinhos ao ser colocada nas mãos de Jesus.
Não sei se é o Santo Padroeiro da agricultura, mas no Brasil merece muita devoção nesta área. 

 Pormenor da Capela Mor

 O Arco do Cruzeiro é encimado pela imagem do Senhor São Salvador, orago de Matosinhos.
Não obstante a imagem do Bom Jesus de Matosinhos ser o centro das atenções desde a construção da igreja no século XVI, a verdade é que, embora algo despercebida, a imagem daquele que é, efectivamente, o padroeiro de Matosinhos desde as mais antigas referências medievais ao lugar, continua a ser a que se encontra colocada no nicho mais elevado do templo. 
Capela-Mor
Considerada como uma das mais marcantes intervenções da talha portuguesa, esta obra-prima, incluindo o arco-cruzeiro, foi arrematada em 1726 por um dos melhores mestres do seu tempo, Luís Pereira da Costa, do Porto, e dourada entre 1731 e 1733 pelos mestres douradores Bento de Sousa e seu filho Caetano de Sousa Coutinho, de S. Cristóvão de Refojos, e João Lopes da Maia e seu filho José Lopes, de Braga.
Nas ilhargas da capela, a Paixão de Cristo é narrada em fabulosos painéis esculpidos pelo mestre Ambrósio Coelho, de Braga, transmitindo uma emoção verdadeiramente inserida no espírito barroco.

 Imagem do Bom Jesus de Matosinhos 

É a mais antiga representação existente em Portugal, esculpida em madeira, de um Cristo crucificado em tamanho natural, cerca de 2 metros de altura.
Foi restaurada há pouco tempo.

Embora tipologicamente seja possível enquadrar esta escultura na transição do românico para o gótico, e datá-la entre os últimos anos do século XII e os primeiros do XIV, a origem lendária deste crucifixo está profundamente enraizada na comunidade e na tradição popular. 


Segundo esta, o autor da imagem é Nicodemos, personagem bíblica que, com a ajuda de José de Arimateia, retirou Cristo da cruz e o depositou no sepulcro. Impressionado com os acontecimentos que testemunhara e porque era bastante dotado para o trabalho em madeira, Nicodemos resolve esculpir diversas imagens de Cristo crucificado, sendo auxiliado nesse seu trabalho pela circunstância de possuir o santo sudário – o tecido que, por ter envolvido o ensanguentado corpo de Cristo, reproduzia fielmente a imagem e as feições de Jesus.



Estas imagens não permanecerão muito tempo na sua posse. Sendo comprometedores indícios face às perseguições de que os cristãos são vítimas por parte dos judeus e romanos, Nicodemos lança as suas imagens às águas do Mediterrâneo.
A mais bela e perfeita de todas, a que melhor reproduzia a face de Cristo – por sinal a primeira que havia sido esculpida – depois de cruzado o estreito de Gibraltar e sulcado o Atlântico junto às costas portuguesas, acabou por ser depositada pelas águas na praia do Espinheiro, junto ao lugar de Matosinhos. Estávamos, ainda segundo a lenda, no dia 3 de Maio do ano 124.

Recolhida a imagem na praia pela população, constatou-se, contudo, que lhe faltava um dos braços. No local não se encontrou o membro em falta e, por muitos braços que se tenham mandado fazer aos melhores artífices, nenhum encaixava de forma perfeita no ombro amputado. E assim, resignados, deixam ficar a imagem resguardada no Mosteiro de Bouças, localizado não muito longe do local do seu aparecimento. Até que...

Cinquenta anos depois, na praia, uma pobre mulher recolhe lenha. De regresso a casa observa, estupefacta, que um grande pedaço de madeira teima em, milagrosamente, saltar do fogo sempre que para ele era lançado. Milagre reforçado por ter sido uma jovem filha a indicar à mãe que a lenha em questão era o membro ausente na imagem do Senhor guardado no Mosteiro de Bouças. Facto que em si não encerraria nada de especial não fosse a circunstância de, até aquele momento, a miúda ter sido surda-muda de nascença...

Aplicado no crucifixo, de imediato se constatou estar em presença do braço até aí extraviado. Começava assim a veneração desta imagem que, desde muito cedo, fez rumar a Bouças e, depois da sua transferência no século XVI para a nova igreja, a Matosinhos, inúmeros peregrinos e romeiros fascinados com a fama crescente dos seus milagres que, desde então, não deixaram de se multiplicar.

Independentemente da lenda, a referência histórica e documental mais antiga, até agora conhecida, à imagem e à devoção que lhe está associada data de 1342.

Retábulo da Árvore de Jessé
Considerada uma das mais belas “Árvores de Jessé” existente em Portugal, é das mais emblemáticas obras artísticas deste monumento, sendo seu provável autor o entalhador portuense Domingos Martins Pereira, por volta de 1752. Este retábulo barroco, em talha dourada de estilo joanino, terá sido igualmente dourado e pintado pelo mestre José da Mota Manso, dadas as semelhanças com os outros retábulos da igreja que sabemos terem sido por si trabalhados.
Deitado e servindo de raiz, a figura de Jessé (ou Isai), pai de David. Dele nasce uma árvore que representa, iconograficamente, a genealogia de Jesus. Do tronco da árvore saem ramos com os reis de Judá ou, por vezes, os Profetas. Culminando no seu topo com uma representação da Virgem com o Menino, tal como se pode observar na igreja de Matosinhos.

Retábulo de S. Pedro
Obra provável do entalhador Domingos Martins Moreira, concluído em 1751 com a aplicação do dourado por José da Mota.
A Imagem de S. Pedro é datável do séc. XVIII e aparece representado com o Papa, envergando uma indumentária profusamente decorada e policromática. Ressaltam não só as luvas vermelhas e a cruz processional de três travessas que empunha, mas também a tiara que com as suas três coroas - triregnum - é um atributo exclusivo dos Papas.

Outros três retábulos merecem referencia, mas nada como uma visita a esta bela Igreja, que inspirou artistas como o Aleijadinho. Bem como o Santuário de Bom Jesus de Braga. Mas isso são muitas outras histórias.

Alguns textos foram copiados de obras publicadas pelo Prof. Joel Cleto, especialmente das suas páginas na internet como por exemplo: http://joelcleto.no.sapo.pt/textos/IgrejadeMatosinhosAgenda2005.htm