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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Guimarães - Parte III

Para terminar o pequeno percurso pelo Centro Histórico de Guimarães acompanhem-me da Oliveira até ao local da peregrinação na zona do Castelo.
O Zé Ferreira, com aquele ar de sonso e de quem não faz mal a uma formiga, pôs-me a caminhar indicando de longe e dedo apontado "olha" ou "é por ali".

A última imagem da postagem anterior (Guimarães - Parte II) mostrava umas arcadas que agora vamos ultrapassar e que são de ligação entre a Praça de S. Tiago e o Largo da Oliveira.

Os baixos da Casa da Câmara, edifício do séc. XVI-XVII ocupando o mesmo local de uns primitivos Paços construídos no séc.XIV no reinado de D. João I. Presumo que actualmente está instalado o Posto de Turismo.

Realçam-se as cinco janelas da sacada, o alpendre sustentado por cinco arcos góticos e uma estátua na fachada que representa Guimarães.
Olhemos em volta.
Estamos no Largo da Oliveira, destacando-se a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, o Padrão do Salado e a árvore Oliveira. Para além do casario envolvente.
A Igreja teve as suas origens num mosteiro fundado por Mumadona Dias cerca de 950 e dedicado à Virgem de Santa Maria e aos Santos Apóstolos. A construção primitiva terá sido iniciada em 1387 impulsionada por D. João I, fervoroso devoto da Senhora da Oliveira. O altar que levou para Aljubarrota é a ela dedicado e pode ser visto no Museu Alberto Sampaio.
Vários Reis e épocas ditaram os seus estilos ao longo dos séculos.
O Largo, antigamente chamado de Praça de Santa Maria, está ligado às géneses de Guimarães e foi um terreiro implantado defronte do mosteiro.

Diz a Tradição ou a Lenda, que existia uma velha Oliveira seca ao lado onde foi construído o Padrão do Salado. Três dias após a construção deste, a oliveira refloresceu considerando o povo que foi milagre.
A árvore subsistiu até a Câmara a mandar cortar em 1870. Terá sido a mesma ? acho que é muita idade para esta árvore. Aquando da recuperação do Largo há 25 anos, foi plantada a Oliveira que podemos ver hoje.

O Padrão do Salado (ou de Nossa Senhora da Vitória) de 1340 relembra a vitória de D. Afonso IV sobre os mouros em 30 de Outubro desse ano na Batalha do Salado, província de Cádis no sul da actual Espanha. Uma ajuda preciosa ao seu genro Afonso XI de Castela que não sabia o que fazer à vida perante a situação.
A Cruz gótica representa de um lado Cristo crucificado e do outro a Virgem Mãe. No plano inferior quatro esculturas representando S. Vicente Apóstolo, S. Filipe Mártir, S. Torcato e o Anjo da Guarda. Foi oferecida em 1342 pelo vimaranense Pedro Esteves. É Monumento Nacional desde 1949.

Em comemoração da Batalha de Aljubarrota, todos os anos a 14 de Agosto saíam em procissão Câmara e Cabido, rezando-se missa no Padrão, expondo-se a Pelote de D. João I. Era chamada a Missa da Pelote. Não sei se ainda há esta tradição.

Igreja de Nossa Senhora da Oliveira de arquitectura religiosa românica, gótica, manuelina, maneirista, neoclássica e revivalista, assim a considera o SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, que não sei se ainda existe com este nome. No entanto, nos restauros do séc.XX no interior o neoclássico foi praticamente retirado devolvendo o estilo gótico original.
O portal é encimado por um janelão que originalmente possuiria um caixilho pétreo com a forma da Árvore de Jessé. Agora tapado, ou cego como escreve o SIPA. É enquadrado por cinco arquivoltas decoradas e ritmadas por anjos coroados.

Quem entra na igreja pela direita, encontra esta máquina da qual não descobri a sua serventia. Talvez o Zé Ferreira ajude pois passou muito tempo à volta dela e tenha descoberto qualquer referência.

O interior da Igreja e altar-mor. Na altura realizava-se um serviço religioso.

 Altar do Santíssimo Sacramento

Orgão superiormente decorado, "feito em 1838 por Luis António de Carvalho Guimarães, desta Vila"

À esquerda, escuríssima, a Capela dos Pinheiros e as arcas tumulares de Pedro Esteves e esposa Isabel Pinheiro. À direita a arca tumular de Inês de Guimarães uma descente em 3º ou 4º grau de D. Pedro I e de D. Inês de Castro. Mais uma conjuntura minha.
Só uma nota para confundir. Ou este Pedro Esteves com Capela e Túmulos teve uma vida longuíssima ou não é o mesmo que ofereceu a cruz que se encontra no Padrão do Salado. Pormenores de datas e de "serviços" levam-me a essa conclusão, embora pelas leituras das páginas consultadas incluindo a Geneall.net/pt se depreenda que é o mesmo.

Museu de Alberto Sampaio, instalado nos edifícios anexos da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, formando o conjunto da antiga Colegiada de Guimarães posterior ao Mosteiro, do qual restam duas alas do Claustro e a Sala do Capítulo. Mas do Mosteiro do séc. X parece que nem vestígios existem.
Pela antiga Casa do Cabido faz-se o acesso ao Museu. Não o visitei, pelo que as fotos são meio-clandestinas. Isto é, pelo que consegui ver da entrada foquei e apontei para posterior visita.
Guarda no seu interior obras de mestres ourives, acervos históricos como o loudel usado por D. João I na Batalha de Aljubarrota, peças, tesouros de valor incalculável. É Monumento Nacional desde 1910.

 À saída do Museu uma das Capelas dos Passos, creio que são 5, que existem em Guimarães.

Uns passos caminhados e surge-nos uma imagem interessante a meia encosta da subida para o Monte de Penha. É a Igreja do Mosteiro de Santa Marinha da Costa. Segundo a tradição, o mosteiro (hoje é um Hotel) foi fundado em 1154 pela Rainha D. Mafalda, esposa do nosso primeiro, o D. Afonso Henriques e doado aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, cuja ordem foi substituída pela de S. Jerónimo em 1528.
Admite-se que tenha sido erguido sobre um pequeno templo de características únicas do séc. IX que por sua vez foi construído sobre um estabelecimento romano. Também se supõe que tenha sido este o local do Paços Condais Portucalenses e que a Igreja tenha sido a Capela Palatina.
Todo o conjunto foi alterado e ampliado ao longo dos séculos.

Depois de toda a caminhada anterior - não foi tão pequena como o conjunto das fotos parece demonstrar- o Zé Ferreira foi buscar o carro mandando-me subir uma rua íngreme e que nos encontraríamos no Castelo.
Lá fui subindo a desalmada, se não estou em erro é a Avenida Alberto Sampaio e reparei que ainda há um troço de Muralhas em Guimarães, coisa que não imaginava. Lá atrás, o Paço dos Duques de Bragança.

Pois agora também sei que o início da construção da muralha que circundou o primitivo povoado foi no reinado de D. Sancho I, o segundo de Portugal, nos séc. XII-XIII e só terminou no reinado de D. Dinis, antes de 1322. Era a parte alta.

Tem histórias de cercos: Em 1322 o Infante D. Afonso luta contra o pai D. Dinis;

Em 1369, Henrique II de Castela (que fundou a dinastia de Trânstamara e andou metido na Guerra dos Cem Anos - apoiado pelos franceses à sucessão do trono de Castela enquanto o irmão Pedro, sucessor legal era apoiado pelos ingleses e portugueses e que veio a morrer assassinado - cercou a vila depois de já ter tomado Braga. Talvez pelo apoio dado por Portugal ao meio-irmão, talvez por causa de uma história antiga de assassínio da mãe, amante do Rei Afonso XI de Castela, por ordem da Rainha Maria de Portugal sua esposa legítima. Isto são deduções minhas.

Por causa desses amores, a Rainha Maria regressou a Portugal separando-se do marido Castelhano e acolheu-se a Évora. Mas acabou por exercer muita influência junto do pai D. Afonso IV para ajudar o ex-marido  Afonso XI de Castela, perdido na luta contra os mouros.
Lembrem-se, queridos e queridas visitantes que têm a paciência de me ler, o que escrevi sobre o Padrão do Salado, atrás referido.

Novo cerco desta vez por D. João I em 1385 durante a crise iniciada em 1383 e que durou dois anos. O alcaide Aires Gomes da Silva mantinha o apoio a Castela e a Henrique II. Em 1389 D. João I unifica o lugar - a parte alta (Castelo) e a parte baixa (villa de Santa Maria) - ordenando que fossem ambos um só povo doravante Guimarães.

Na chamada agora Zona do Castelo iniciava-se a parte alta, quando no século X a Condessa Mumadona Dias, viúva do Conde Hermenegildo Gonçalves que governou os domínios de Portucale e cheio de posses, fundou um Mosteiro no sopé do Monte Largo.
Castelo de Guimarães
Local de peregrinação, sujeito às investidas pelo sul dos muçulmanos e dos normandos oriundos do mar do Norte através dos rios de boa navegabilidade, para defesa do núcleo monacal e para recolhimento das gentes necessitadas, a Condessa mandou construir um Castelo que é doado em 958 aos religiosos.
Acredita-se que a estrutura então erguida, sob a invocação a S. Mamede, fosse bastante simples, composta por uma torre envolvida por uma cerca.
Destaque para a monumental Torre de Menagem
Um século após, a povoação Vimaranes era dos domínios de Afonso VI de Leão e Castela que a doa em favor de Henrique de Borgonha, formando o Condado Portucalense, mas seu vassalo.
Casou este com Teresa, filha ilegítima do rei Afonso VI tomando o castelo por residência o qual foi sendo ampliado.
Do casamento nasceu talvez em 1109, talvez em 1111 como refere a cronologia dos Reis de Portugal, talvez no verão (não se sabe se em Viseu, Coimbra ou Guimarães) o que viria a ser o nosso primeiro rei, Afonso Henriques, D. Afonso I de Portugal, o Fundador, iniciando a Dinastia Afonsina ou de Bolonha.

Uma história simples de poder: Morreu o pai ao Afonso e a mãe amantizou-se com um galego, o Conde de Trava. O jovem talvez influenciado pelo arcebispo de Braga D. Paio Mendes, tão novinho que ele era, presumo que tinha três anos quando recebeu as primeiras influências, contrário à ligação e ao desejo do Trava de tomar a soberania do espaço galaico-portucalense, arranjou uns amigos fidalgos que armaram uns guerreiros que lutaram contra o exército da mãe derrotando-o na célebre Batalha - há quem lhe chame Torneio - de S. Mamede, um campo próximo do Castelo.
Claro que se andou nisto alguns anos, fugido com o arcebispo e com D. Egas Moniz - há quem escreva na história que talvez seja ele o pai do futuro rei - até receberem o perdão da mãe Teresa. Com umas traições pelo meio, mas são já outras histórias. Certo é que devido a esse primeiro passo acabou por nascer Portugal.

O Castelo também serviu de Cadeia no séc. XVI e palheiros do Rei no século seguinte. Esteve quase a ser destruído em 1836 pela Câmara para apagar a imagem de prisão dos fieis de D. Pedro IV durante as Lutas Liberais. Foi salvo por 1 voto.
É Monumento Nacional.

Próximo do Castelo a Igreja ou Capela de S. Miguel do Castelo. A lenda diz que D.Afonso Henriques, o nosso primeiro, foi nela baptizado o que é impossível visto o templo ter sido sagrado pelo Arcebispo de Braga em 1239 e a sua construção de indefinida data será das primeiras três décadas do séc. XIII.
O estudioso de arte românica Manuel Monteiro concluiu que se trata de uma construção um tanto ilegal devido à simplicidade da capela e outros pormenores que o levaram a essa conclusão.
Talvez por isso, houve oposição do Arcebispo de Braga (terá sido Silvestre Godinho ?) à Colegiada de Guimarães, os autores da construção, chegando a haver troca de armas.

Na parte inferior da colina no sentido do centro da Cidade, encontramos o Paço dos Duques de Bragança, imponente casa senhorial mandada construir no séc.XV por D. Afonso, futuro Duque de Bragança, filho ilegítimo do rei D. João I, que aqui viveu com a segunda mulher D. Constança de Noronha.
Foi progressivamente abandonado entrando numa quase ruína até ao séc. XX. Entre 1937 e 1959 realizou-se um ampla e complexa intervenção de reconstrução segundo um projecto do Arquitecto Rogério de Azevedo. Paralelamente foram adquiridas peças que compõem o recheio actual, datadas principalmente dos séc. XVII e XVIII.
Monumento Nacional desde 1910, integra um museu, uma ala destinada à Presidência da República e uma área destinada a eventos culturais.

Do outro lado da colina fica o antigo Convento de Santo António dos Capuchos edificado no séc. XVII. Foi comprado pela Misericórdia em 1842 para instalar o seu Hospital. Hoje é Museu e segundo me informaram também uma clínica privada.

Tudo o que escrevi nestas três postagens foi colhido em variadíssimas páginas. Também tentei cruzar dados e daí algumas dúvidas. Acabei por não perceber quantos Mosteiros a Senhora Mumadona Dias mandou construir.

Claro que a "corda dada aos meus pedantes" foi accionada pelo Zé Ferreira. Ele sabe muito mas raramente se abre.

Ainda houve luz para subirmos ao Monte da Pena. Mas isso é outra história e é já a seguir.

Fica um apelo, visitem Guimarães. Vale a pena.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Guimarães - Parte II

O passeio feito na companhia do Zé Ferreira foi apenas uma pequena visita a parte do Centro Histórico de Guimarães, classificado pela Unesco como Património da Humanidade.
 Encontramos Largos ou pequenas Praças passando por estreitas Ruas, típicas na sua origem medieval.
A recuperação do Centro Histórico efectuado pela Câmara Municipal merece louvores.
Num das Praças, esta fonte e o seu registo.

Impossível retratar todos os recantos e ruas por onde passamos e os edifícios com a sua traça original.
O tempo foi curto para olhar com atenção os caminhos percorridos.
A História de Guimarães está associada intimamente à nacionalidade Portuguesa e à sua língua no século XII. No entanto só foi elevada a Cidade em 1853 por decreto da Rainha D. Maria II
Chamada de Vimaranes em meados do séc. IX, talvez tendo origem em Vímara Peres, o fidalgo galego que teve intervenção na Reconquista (aos Árabes) e fez deste lugar o centro do Condado Portucalense que conquistou para o Reino da Galiza e onde morreu. A fundação medieval tem origem no séc.X por interferência de Mumadona Dias. Outras histórias que a seu tempo virão.

Descobrimos a Casa e Largo dos Laranjais assim chamado por causa da existência das árvores do fruto. A casa-torre de arquitectura residencial medieval, com adaptações dos períodos seiscentistas e setecentista.

Igreja da Misericórdia
Construção iniciada em 1588 e inaugurada em 1606 teve a seguir a reconstrução da fachada que terminou em 1640.
A imagem de Nossa Senhora da Misericórdia num nicho envidraçado por cima da entrada.
A Associação Comercial e Industrial de Guimarães, na antiga nobre Rua Sapateira está instalada na Casa dos Lobo Machado, de construção em estilo rocaille da segunda metade do séc. XVIII
Escultura de D. Afonso Henriques da autoria de João Cutileiro inaugurada em Junho de 2001. Está localizada à entrada de uma das "Portas da Vila", creio que de S. Domingos.

Para finalizar esta parte, vamos terminar na Praça de Santiago.
O Centro Histórico constitui um tipo particular de concepção de Cidade na sua origem medieval. Já o havia referido.
Olhamos em volta da Praça de Santiago e temos o exemplo de construções diversificadas mas de grande unidade formal no seu conjunto.
Reparemos como o meu amigo Zé Ferreira faz um apontamento para o chão e já lá iremos.
Erguidos os edifícios com as técnicas construtivas tradicionais designados como taipa de rodízio e taipa de fasquia.
Caracterizadas pelas suas varandas e balaustradas em madeira, desenvolveram-se técnicas especializadas de construção durante a Idade Média que foram exportadas para as colónias portuguesas.

A minha amiga Neusa Rosa escreveu-me admirada porque conhece muitas casas deste tipo no Brasil.
Pois é minha amiga, a História está aí. Ou aqui, em Guimarães, neste caso.

Presumo ter sido nesta Praça que existiu um pequeno supermercado de um ex-cliente, o Senhor Silva que depois abriu um super nos arredores de Guimarães. O meu sobrinho diz que era nas Oliveiras, tanto o mercadito como um simples restaurante vizinho e que nos teve como clientes várias vezes. Falei nele ao Zé Ferreira pois é daquelas coisas que não esquecemos.
Ó Gente da Minha Terra.
Mas a Praça de Santiago tem a sua História, Lenda ou Tradição.
Segundo ela ou elas, o apóstolo S. Tiago trouxe para Guimarães uma imagem da Virgem Maria que foi colocada num templo pagão num Largo que passou a chamar-se de Praça de Santiago.

Existiu uma capela do séc. XVII demolida em 1887. O autor do projecto da nova Praça, que conserva todo o perfil medieval, foi o arquitecto Fernando Távora e localizou a capela com um lajeado em granito no pavimento. É para onde aponta o Zé Ferreira na primeira foto da Praça.

Foi nas suas imediações que os francos acompanhantes do Conde D. Henrique (marido de D. Teresa e pais do nosso futuro primeiro, o Afonso Henriques) se instalaram.
Reparem no lajeado sinalizando a capela.

Sendo leigo, presumo que este apóstolo S.Tiago -ou Santiago, é o Velho, mandado após a morte de Jesus (a "história" não refere por quem e sendo ele mais o irmão João Evangelista e Pedro os maiores seguidores de Cristo, estranho que tenha sido mandado. Para o caso não interessa nada) para o que é hoje a Península Ibérica pregar. Regressou a Jerusalém onde foi morto às ordens do Rei Judeu Herodes Agripa e o corpo retalhado e disperso. No entanto foram recuperados os restos mortais e colocadas num túmulo na Galiza. Bom, depois há toda a história da descoberta do túmulo e o milagre que motivam hoje as peregrinações a Santiago de Compostela na Galiza, Espanha.
Se estou errado, paciência. Só terei de rectificar.
Vamos deixar a Praça de Santiago - ou de S. Tiago a caminho da das Oliveiras. Passamos a arcada do primitivo edifício da Câmara Municipal.
E estamos na Praça das Oliveiras, que fará parte do capítulo seguinte.

Tento escrever sempre com a ortografia que considero a normal e que aprendi. No entanto aparecem-me sinalizadas algumas palavras que uma vezes saem com a ortografia do desacordo, outra vezes como penso que ainda sei escrever.
Só peço desculpa se aparecem erros, mas se fico baralhado imagino as crianças. Claro que os livreiros esfregam as mãos de contente. Mas isso são outras histórias.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Guimarães - Parte I

Casualmente fiz uma pequena visita a Guimarães na companhia do Zé Ferreira que me convidou a dar um salto ao Cemitério de Nespereira para recordar o Faria, ex-nosso camarada e que conheci em Catió.

Já não ia a Guimarães há uns anos. Lembro-me que a primeira vez, era ainda uma criança, foi para assistir a um jogo de futebol entre o Vitória e o meu Salgueiros, no velho campo da Amorosa, marcado negativamente pela lesão grave do Reguense António Saraiva que jogava no Salgueiros, mais tarde transferido para o Caldas e depois para o Benfica, num lance com o Benje do Vitória que viria a envergar as cores vermelhas do Salgueiros pouco tempo depois. Se não estou em erro o resultado foi de 3 a 1 a favor do Vitória.

Muitas outra vezes fui a Guimarães, quer em passeio ou confraternizações mas principalmente por motivos profissionais. Era e ainda é quase obrigatório ir dar ao centro onde a primeira imagem belíssima que nos surge mostra em fundo o Monte da Penha e uma igreja a que sempre chamei de São Gualter em primeiro plano. Soube agora a quem é dedicada.

Um dia, depois de um almoço que não recordo onde aconteceu, o senhor Pimenta Machado (tio do que foi o Presidente do Vitória com os mesmos apelidos, gente rica da terra) levou-me e ao saudoso José Neves da Poligráfica a olhar a igreja do alto e dizer mais ou menos isto: S. Gualter pergunta porque é que os cartazes da Prevenção Rodoviária mostram vinho tinto e não wiskie ou as outras merdas que embebedam. Tudo feito para destruir a vinicultura portuguesa. (estava no poder governativo de Portugal o sr. Cavaco Silva e todos os portugueses sabem o que estava a acontecer). Adiante.

Mais de 50 anos separam as duas imagens.
Localizada no que julgo chamar-se Jardim do Largo da República do Brasil, a Igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos foi concluída em 1785 mas só um século depois se construíram as duas torres, a escada e a balaustrada.
No entanto as suas origens remontam a uma pequena ermida dedicada à mesma Senhora, construída em 1576.
Tem na realidade ligação a São Gualter, padroeiro da Cidade. Mas isso são outras histórias e esperemos que as relíquias encontradas em São Francisco correspondam ao Santo.

Caminhando ao longo do actual Jardim Público vamos encontrar o Largo do Toural.

Entre os dois espaços, no que presumo ser uma parte da antiga muralha, a referência ao nascimento de Portugal.
O Largo do Toural é espectacular. Um olhar em redor vemos os edifícios muitíssimo bem conservados e muita História.
No século XVII era um largo extramuros onde se realizava a feira do gado bovino (daí o nome Toural), Em 1791 a Câmara aforou o terreno junto à muralha para a edificação de edifícios.
O Chafariz renascentista de 1583 primitivamente colocado no Largo, foi deslocalizado mas regressou em 2011.
Na segunda metade do século XIX é construído o Jardim Público...
que é transferido de local após a implantação da República em 1910.
Igreja de S. Pedro, mandada construir em 1737 e benzida em 1750 acolhendo a imagem do Padroeiro. Em 1881 reiniciaram-se obras com a demolição das casas em frente e só no início do século XX terminaram com a construção de uma torre e não as duas previstas.
Hotel Toural, sem história referenciada na página do Hotel nem em qualquer outra (pelo menos que eu encontrasse) ocupa todo o lado direito do Largo para quem está voltado para Norte, digamos assim.

Parece-nos estranho ver um gradeamento em ferro dourado com umas dezenas de metros. Lendo a história do Largo sabemos que aquando da construção do Jardim Público este era rodeado por um gradeamento em ferro. Talvez este pedaço seja um simbolismo recreando o primitivo.

Vou guardar para outra ocasião mais História de Guimarães. Uma cidade a descobrir. E tenho mais algumas estórias nela passada. Até lá.
       

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

235 - A época natalícia

Nada como um valente tempo de invernia aliado a muita preguiça para vasculhar alfarrábios caseiros, navegar pela Internet o que desde há uns meses se me tornou muito difícil e não adianta perguntar ao Google porque não me respondem; ler, ver e ouvir o que encontramos nos caminhos da TV e nos blogues dos amigos.

Porque acabamos de atravessar um período onde o simbolismo é dirigido para o consumismo, deu-me em recordar épocas da meninice e o barulho que o Pai Natal fazia ao descer da chaminé para me deixar um carrinho ou uma mota ou um carrossel de aviões, todos em folheta (chapa de alumínio ?) e de corda, onde a família dava a corda e eu só via os brinquedos girar. Não tenho recordações de outras prendas natalícias, mas estas duraram anos pois raramente me era permitido tocar-lhes e não fui eu que lhes dei sumiço.

Mas também não me davam gozo. O meu prazer era a bola feita de trapos e papel envolvidos numa meia velha da avó ou da mãe, o pião, as sameiras (cápsulas de garrafas) que serviam para inúmeros jogos e corridas, o arco em ferro e pôr a navegar na água do tanque de lavar a roupa as latas de conserva. Diga-se de passagem não me serem muito permitidas estas brincadeiras pelos meus velhos por causa das corridas e o perigo de uma queda, dos gastos dos sapatos, dos ressaltos no empedrado do pião, brinquedo mais que perigoso para a cabeça, olhos e vidros, ou de um afogamento na água do tanque.

A Árvore de Natal, sempre um ramo de pinheiro natural, demorava dias a fazer pelo meu pai. Começava em princípios de Dezembro pela base que tinha se ser bem segura para fixar o pinheiro, o seu arranjo em papel de seda, a verificação das luzes (que serviam também para a cascata de S. João e tanto quanto me lembro já vinham do tempo do meu irmão, passaram por mim a caminho da infância do meu sobrinho e seguiram até não me lembrar como acabaram), até à penduresa dos enfeites que eram colocados após a chegada do "Pinheiro" o que acontecia pelos meados do mês. A árvore era dada por acabada na semana do Natal e as luzes acesas só quando ele chegava a casa depois do trabalho.

Também havia que fazer o Presépio, um estábulo e acessos feitos pelo meu pai - uma obra de arte artesã - onde as inúmeros imagens, os santinhos, eram colocados em devida ordem e a distâncias milimétricas não fosse algum cair e dar cabo daquilo tudo. Os mais perfeitos vendiam-se na Rua da Assunção, junto aos Clérigos a 10 tostões. Uma arte tradicional dos santeiros do Porto e Gaia.

Claro que tinham algodão em rama para imitar as nuvens, palhas todos os anos renovadas para a cobertura do estábulo e a cama do menino e demais utilidades, fios coloridos, enfim, uma obra de arte à qual só me era permitido olhar e nunca tocar, nem mesmo para chegar os bonecos ao meu velho pois as minhas mãos frágeis poderiam deixar cair alguma coisa.

Toda esta conversa porque por casualidade li uma crónica do Prof. Germano Silva, vi e ouvi o Prof. Joel Cleto nos seus Caminhos da História sobre o Pai Natal, os Reis Magos e os Presépios e o que representam ou representaram na história do Porto, a minha Cidade.

Comecemos por S. Nicolau, (de Mira, na Ásia Menor,Turquia ou de Bari, em Itália) comemorado a 6 de Dezembro, dia da sua morte em 342 nessa cidade.
Este Santo foi reconhecido pela sua generosidade para com gentes humildes e sem posses e a amizade pelas crianças.
Dele nasceu o Santa Claus, o Pai Natal dos nossos dias, o patrono das crianças e cujas histórias vem desde os primórdios do séc. XIX., da Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e mais recentemente da Lapónia e dessa horrível bebida que é a Coca-Cola.

A Festa de S. Nicolau no Porto foi grandiosa onde as crianças tinham participação activa. Com restos de madeiros que recolhiam pela cidade junto ao rio Douro gritando ao som de campaínhas: Quem dá lenha ou algum pau para a fogueira de S. Nicolau. Depois era a enorme fogueira, para onde eram lançadas castanhas, um alqueire delas ofertada pelo abade.
Esta tradição manteve-se desde tempo imemorial até pelo menos 1855. (Segundo Pinho Leal, escrito em Lisboa em 1885 e respigado no blogue amigo portoarc de Rui Cunha.
No dia 6 celebrava-se com grande pompa as festividades do padroeiro.

Em 2014 sei que se comemorou no dia 5 como é tradição e lógicamente com crianças da zona que ouviram a sua história na Igreja, foram recebê-lo ao Cais da Estiva vindo pelo Douro e depois marcharam para a Alfândega onde houve festa em sua honra.

Esta Igreja construída a partir de 1671 - a primeira pedra foi colocada no dia de S. Nicolau - foi erguida no local de uma pequena ermida do séc. XIII devido ao crescimento populacional e à criação da junta de freguesia. Sofreu um incêndio em 1758, e as obras da reconstrução terminaram em 1762.
Uma imagem de S. Nicolau copiada do portarc
Uma das lendas sobre S. Nicolau e a amizade pelas crianças é representada na imagem que se encontra do lado esquerdo da Capela-mor, vendo-se três crianças numa celha. Conta-se que as crianças desapareceram numa floresta e foram encontradas por um talhante que as matou e salgou. S. Nicolau foi tempos depois a casa do talhante, descobriu os corpos das crianças e ressuscitou-as.
Outra lenda refere-se à sua generosidade. Um pobre homem viúvo tinha três filhas em idade de casar. Não tendo dote para lhes dar vivia triste. Então S. Nicolau deitou pela chaminé um saco com moedas que caíram junto das meias que estavam a secar. Na imagem também podemos ver o saco na mão.
Cá temos então o porquê das imagens da nossa infância das meias na chaminé para receber os presentes do Pai Natal.
No meu caso, tanto quanto me lembro era colocado um sapato em cima do fogão.
Este texto foi composto após ouvir o Prof. Joel Cleto e a imagem copiei do blogue portoarc.

Agora é o momento reservado aos Presépios e aos Reis Magos.

Até ao rompimento da agora chamada Praça da Liberdade e à abertura da Avenida dos Aliados cujas obras começaram em 1916, existiu um capela ao lado do edifício da Câmara que fechava a actual Praça, chamada dos Três Reis Magos, construída no séc. XVI.
Ficava a frente voltada para a Rua do Laranjal  à entrada do lado esquerdo (um pouco encoberta pela canastra da senhora) cuja rua era paralela à de D. Pedro. Tudo isto foi arrasado para a abertura das atrás referidas Praça e Avenida - e é assim mesmo que os Portuenses lhe chamam.
Segundo Germano Silva a festa dos Reis Magos era de arromba chegando a rivalizar com os festejos de S. João. A expensas da Câmara.
A Capela foi demolida e vendida a um endinheirado do lugar da Pocariça de Cantanhede que a mandou reconstruir mas agora dedicada a S. Tomé ou a S. Tiago. Estou na dúvida e espero uma informação de um caríssimo correspondente local para me esclarecer e que fez o favor de me enviar esta foto.
As festas e tradições dos Três Reis Magos, ditos do Oriente, são muito antigas na Cidade. O Convento de Avé-Maria de S. Bento foi inaugurado no dia de Reis de 1535. As noviças quando chegavam dirigia,-se ao coro e cantavam loas a lembrar a adoração dos Magos em Belém de Judá.
Há documentação que no séc. XV os moradores da Cruz do Souto pediram autorização para montar um palco para encenar uma pantomina em honra dos Reis Magos.
E havia procissão e a Câmara chegou a reunir no dia de Reis.
Não sei se ainda existe a tradição que se manteve durante anos de grupos recreativos e culturais cantarem as Janeiras neste dia.

O professor Joel Cleto deixou-me suspenso e espero não o ter ouvido e/ou interpretado mal.
Na Igreja das Almas de S. José das Taipas, existe um Presépio dos finais do séc. XVIII, o mais antigo da Cidade segundo li, da escola do escultor e estatuário Machado de Castro (Coimbra, 17 de Junho de 1731 - Lisboa, 17 de Novembro de 1822).  O único assinado por ele encontra-se em Lisboa.
O Presépio quase na totalidade. Impossível melhor foto por causa dos reflexos. 
Chamou o Prof. Joel Cleto a atenção por haver na representação quatro e não apenas três Reis Magos.
Ampliação para melhor se compreenderem as imagens
A última figura da fila dos Reis no caminho para a adoração, é um indígena americano. Mas o resto da explicação não consegui ouvir, nem porque ficaram a ser três os Magos.
Um dia revendo o vídeo devo chegar lá.

A representação dos Presépios é muito antiga. Os de arte barroca serão do séc. XVII. Precisamente desse século - que não o estilo, julgo - é o que se encontra na Igreja de S. Lourenço, ou dos Grilos como é por nós portuenses conhecida. Pelo menos é o que podemos ler num página em pdf da PortoVivo e referente ao Morro da Sé, Porta a Porta. Construído em Tecido, Papel, Madeira, Vidro e Metal. Desconheço a sua origem, mas pelo que se presumo será este o mais antigo Presépio do Porto.

As representações dos Presépios continuam a fazer-se ainda na Cidade, havendo até concursos. A exposição que vi há dois anos na Igreja dos Carmelitas era soberba. Aqui ficam algumas imagens.

Neste, não sei onde foi parar a Virgem.

Aqui vos deixo, caros visitantes e leitores uma "obra" que demorou algum tempo a desenvolver e cheia de recordações da minha meninice.