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quarta-feira, 6 de março de 2013

152 - Da Adega do Olho à Cadeia

Este passeio, contra o meu hábito, foi feito de baixo para cima o que quer dizer, sempre a subir. Pela Rua dos Caldeireiros. Mas faz-se bem, desde que seja com muitas calmas e paragens. E motivos não faltaram mas só para lembrar coisas antigas, pois esta Rua antiquíssima está fora dos roteiros turísticos. 
O Mapa do itinerário e a localização, sempre conveniente para os amigos que nos visitam. Na ponta centro-direita, refere-se onde começou a "aventura".
 
Pois foi na Adega do Olho, após um almoço simples mas abundante e económico. De Adega ou Tasca já não tem nada, é um restaurante pequeno e acolhedor, com uma ementa de dois pratos. Diz quem sabe, que as Tripas à Quinta-feira são um espectáculo.
Fica numa reentrância da antiga Travessa da Rua das Flores, hoje chamada de Afonso Martins Alho, esse mesmo, o do comerciante e embaixador que deu nome ao provérbio "Fino como um Alho".
Recordação: entrei na Adega a primeira vez com os Viscondes - rapaziada da minha Rua do Visconde de Setúbal, lá no Marquês e seríamos uns 10 - na noite de S. João de 1960. E para tomar uma coca-cola da CUF. Juro que nunca mais provei essa porcaria.
Então, vamos à vida.   

Estava a precisar de mercadoria e logo ali a dois passos, na esquina com a Rua das Flores abasteci-me na antiga mercearia (esqueço sempre o seu nome) com uma boa garrafeira e a preços muito bons.Um dos artigos que costumo comprar são os velhos rebuçados S. Brás, de eucalipto e mentol.
  
A Rua dos Caldeireiros começa agora na Rua das Flores e só tem 325 metros até à Cadeia. Foi itinerário romano (de quem vinha do Norte e passava por S. Mamede), atravessava a ponte de pedra que cruzava o Rio da Vila, agora encanado, na actual Mouzinho da Silveira e seguia para as Ruas do Souto e Bainharia. (Itinerário das Vias Romanas de Portugal - http://viasromanas.planetaclix.pt/ ).
Quem sobe, à esquerda, (na foto à direita) ainda encontra os vestígios do Hospital Roque Amador ou Rocamador/D. Lopo de Almeida, fundado pela Misericórdia no séc. XVI e que deixou de funcionar após a abertura do Hospital de Santo António. 
Chamou-se Rua do Souto - a continuação da Rua que vem da Sé -, da Laje ou Lajens ou ainda Lágea segundo escritos de séc. XVI e que seria o troço superior da rua; e Ferraria de Cima. Tomou o nome actual em ou até antes de 1780, embora se encontrem escritos de 1616 com a designação de Rua da Caldeiraria. (in Toponímia da Cidade do Porto, Câmara Municipal).

Nesta Rua, principalmente na sua parte inicial e por umas dezenas de metros existiram várias oficinas de caldeireiros que trabalhavam e fabricavam  variadíssimas peças como alambiques, caldeiras, panelas para doces (na altura das Festas da Páscoa e Natal eram as mais fabricadas principalmente para as grandes confeitarias), fogões, cilindros, louças, etc. Não só em cobre como em folha flandres e outro material ferroso.

O barulho era ensurdecedor, mas dava-me um prazer muito grande passar por estas oficinas onde as peças eram batidas às portas e ficar a olhar.

Hoje não existe nenhuma. A última fechou há pouco tempo, onde um dono "carola" já de uma certa idade, mantinha-a aberta só para não morrer de saudade.
Fala-se e escreve-se muito sobre as belas e tradicionais Varandas em Ferro da Rua das Flores. Pois eu afirmo que esta Rua tem varandas lindíssimas que nada ficam a dever-lhes. E muitas frontarias mostram azulejos de bom gosto. 

A antiga Adega Vila Meã do velho (salvo seja) Armando, depois de várias transformações está um bonito restaurante. Com a sua gentileza habitual, deixou-me entrar para olhar a casa e fotografar. Fica para depois o resto da história. Passavam das três horas da tarde e ainda tinha comensais. Bom sinal.  

Cá estamos de volta à Capela de Nossa Senhora da Silva. Curiosamente nunca tinha reparado na imagem que se encontra na esquina do prédio, que eu suponho ter albergado o antigo Hospital de S. João Baptista. Não sei nem li nada sobre o que representa. 
Como curiosidade - estamos sempre a aprender e ainda bem - a confraria de Nossa Senhora da Silva foi inicialmente instituída em 1593 pelos artífices ferreiros, ferradores e anzoleiros (fabricantes de anzóis ?) que tinham as suas oficinas na Ferraria de Baixo, hoje Rua Comércio do Porto. Só seis anos mais tarde, os da Ferraria de Cima se reuniram para a elaboração do compromisso que tomaram também sob a protecção da Senhora da Silva. Os estatutos da Confraria foram reformados em 1682.
Também o Hospital de S. João Baptista, que funcionou primitivamente em Cimo de Vila, foi fundido em 1685 com o de Santa Catarina, que funcionava junto da Igreja de S. Nicolau e administrado pelos da Ferraria de Baixo, passou para este local, mais propriamente na Rua de Trás numa casa que tinha comunicação com a sede da Confraria, aqui nos Caldeireiros. (Respigado do livro Porto, Histórias e Memórias, de Germano Silva).

Na rua funcionaram para além de algumas Tascas ou Adegas, casas comerciais de certa importância. Uma delas era a Casa das Lâmpadas, desactivada talvez há uns 5 anos. Também a Casa das Borrachas e o Xavier cangalheiro, ao qual aliou o ramo da ortopedia. Por isso a brincadeira dos nossos tempos de jovem, quando nos sentíamos mal de alguma coisa, vai ao Xavier que ele resolve. (recuperar dos mortos para vender aos vivos...) 
Uma panorâmica a  meio da Rua.

Outra recordação. A Casa Francisco de Carvalho & Irmão, que ainda existe. Fornecedor de paramentos e artigos religiosos, tinha - não sei se ainda têm - uma sirgaria onde muitas vezes ía encomendar e comprar, para a gráfica onde trabalhava, fio em seda aplicado como pendurantes de calendários, convites de luxo, etc. Mantém o mesmo aspecto de há 50 anos. 

Parte dos Caldeireiros a Rua da Vitória. (Olá camaradas Teixeiras, estou na vossa zona da juventude).  Há cerca de 2 ou 3 anos passei por aqui e chamou-me a atenção um edifício que estava a ser restaurado. Disse-me na altura um senhor que presumi ser o arquitecto responsável pela obra que  seria uma unidade hoteleira. Voltei agora a entrar e conversa daqui, conversa dali com uma senhora que julgo ser a recepcionista, acabei por descobrir que é as traseiras do Palacete dos Maias cuja fachada está voltada para a Rua das Flores.
Do varandim uma vista meio encoberta do Morro da Sé.
Este palacete, que segundo informação está quási recuperado interiormente, incluindo os Jardins, mas falta a fachada da Rua das Flores, é um edifício do séc. XVI mandado construir pelo fidalgo Martim Ferraz, ( daí também ser conhecido por Ferrazes, ou Ferrazes Bravo) descente de uma família nobre de Entre Douro e Minho. Remodelado ao longo dos séculos, teve uma capela riscada por Nicolau Nasoni, revestida a talha dourada, mais tarde recolocada na capela da Quinta do Vale Abraão em Lamego, pertença dos mesmos proprietários.
No séc. XIX foi vendido a Domingos de Oliveira Maia, director do Banco Comercial do Porto. Uma curiosidade, este senhor fez parte da comissão para o levantamento do Monumento a D. Pedro V e mandou construir as casas da Rua do Passeio Alegre. (Quais não sei). 

Outro armador antigo ainda funciona. No meu tempo da juventude e não sei até quando, no edifício funcionava um "aluguer de quartos". A sala de espera era nas escadas que levava ao primeiro andar e para os mais íntimos podia-se tomar uma cerveja na cozinha. Aqui levei um susto da polícia, que ficou com história famosa. Mas isso para o caso não interessa nada.

Mais uma perspectiva da Rua.

Entramos na parte final da Rua e à esquerda a íngreme Rua do Ferraz que vai dar à Rua das Flores.

Pormenor de um altar, no correr das últimas casas do lado esquerdo.

E estamos no fim da Rua, no Largo Mártires da Pátria, com o imponente edifício da antiga Cadeia à vista. Não percam, caros amigos, uma visita a este edifício. Além de exposições temporárias tem em permanência o Museu da Fotografia. E claro, o próprio edifício em si. 
Até Breve.  




quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

151 - A Ribeira Negra

Na Alfândega do Porto, está exposto um painel de 40x3 metros (?) que esteve na origem de um outro painel cerâmico colocado na Ribeira, junto ao Túnel, denominado de Ribeira Negra.
O seu autor Júlio Resende.
Júlio Martins Resende da Silva Dias, nasceu no Porto no Porto em 23 de Outubro de 1917 e faleceu em Valbom, Gondomar, em 21 de Setembro de 2011.

Em 1937 matriculou-se na Escola de Belas Artes do Porto. Por dificuldades financeiras, custeou as despesas do curso com a venda de trabalhos gráficos, como desenhos publicitários, ilustrações e banda desenhada. Esta faceta da sua carreira decorreu até aos anos 70. 
Provavelmente a rapaziada do meu tempo de menino ainda se lembrará do Calendário do Matulinho que se publicava no último domingo do ano no Jornal O Primeiro de Janeiro.

Iniciou a carreira docente em 1944 na Escola Industrial de Guimarães.

Em 1945 terminou a licenciatura em Pintura com o Quadro Os Fantoches, classificado em 18 valores.

Entre 1947 e 48 estudou em França, copiou os mestres da pintura no Louvre e outros Museus da Europa. Regressou a Portugal em 49 e ao ensino. Dedicou-se à cerâmica e o seu primeiro painel em 1952 foi para a Escola Gomes Teixeira, no Porto, onde leccionava. Em 1956 formou equipe com o arquitecto João Andresen e o escultor Barata Feyo que ganhou o concurso para o Monumento do Infante D. Henrique, em Sagres, mas cuja obra nunca se realizou por Salazar não gostar dela. 
Nesse ano terminou o curso de Ciências Pedagógicas na Universidade de Coimbra. Em 1958 foi convidado a dar aulas na Escola Superior de Belas Artes do Porto, que só abandonou em 1987.

Institui em 1993 a Fundação Júlio Resende, Lugar do Desenho, em Valbom, Gondomar.

São só uns apontamentos sobre a vida e obra de Júlio Resende, que pintou quási até ao fim da vida, no  Porto, Cidade que o inspirou e à qual sempre voltou. 

Painel Ribeira Negra:

 Realizado em 1984
Episódios de Bairro que definem a Ribeira Portuense 
 Cenas de mercado, conversas entre vizinhas, brincadeiras de miúdos, roupa a secar, 
as mulheres do carvão, animais.
No ar, as vozes de praguejos, de risos, o inconformismo dos velhos, a alegria das crianças, a correria dos cachorros. As fachadas sempre em festa no espelhar dos azulejos. Assim define o Artista a Ribeira.
A história da Ribeira Negra começa em 1984, quando Resende é motivado para realizar uma obra que pudesse funcionar paralelamente à criação musical de Álvaro Salazar (Porto, 1938).
A obra é executada em dez dias, utilizando negro de fumo e óxido de zinco. A tela em lona é dividida em módulos de quatro metros e decorreu no edifício, na altura arruinado, da Cooperativa Árvore.
Foi oferecido à Câmara do Porto, que o manteve encaixotado até 2010, com pouquíssimas visualizações. Também não era fácil expor uma obra desta envergadura.
Desde 6 de Novembro de 2010 encontra-se exposto no espaço museológico da Alfândega, com algumas obras de Júlio Resende na sala exclusiva.
O grande painel mural foi realizado em grés no ano de 1986, encomendado pela Câmara Municipal e realizado na Cerâmica do Fojo, em Gaia, pintado e gravado pelas mãos do Mestre. Mede 41x5 metros.
Não é uma versão do painel sobre lona, mas uma criação originada por esse painel. 
 Foi inaugurado em 21 de Junho de 1987
 Um magnificente historial da miséria e da grandeza da população Ribeirinha da Cidade...
...creio que o que se faz aqui é mais do que perpetuar o rosto de uma Cidade, de um País - é dar apesar de tudo, algum sentido à vida. (Eugénio de Andrade)

Acabou de ser restaurado o Ribeira Negra há pouco tempo. Disse Bernardo Pinto de Almeida (Doutorado em História da Arte e da Cultura pela Universidade do Minho) "...tem um significado político, sobretudo nos tempos de hoje em que o povo é tão maltratado quotidianamente e restaurá-lo tem pelo menos essa vantagem de chamar a atenção de que o Porto existe como história, como tradição..."

http://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1000853
http://www.lugardodesenho.org/
http://museutransportescomunicacoes.blogspot.pt/p/espaco-ribeira-negra.html
http://projectopatrimonio.com/portugalpedia/porto/documentos/portugalpedia-porto_n01.pdf

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

150 - Caminhos, Caminhadas e Curiosidades do Porto, a minha Cidade

Nos Caminhos da Cidade encontramos coisas a que normalmente não ligamos mas se olharmos bem descobrimos Curiosidades interessantes.

É o caso da escultura de José Rodrigues "O Sonho da Humanidade", evocação do escritor Ferreira de Castro. A obra está localizada na Foz do Douro desde Outubro de 1988, pesa três toneladas e mede 6 metros.
Em Março de 2009 alguém reparou que a escultura tinha desaparecido e a edilidade Camarária desconhecia o seu paradeiro. Averiguando, veio a descobrir-se que foi retirada pelo Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos por causa da localização dos estaleiros das obras dos Molhes da Barra do Douro. A recolocação foi adiada pela falta de uma base de betão, responsabilidade do empreiteiro, mas veio a acontecer em Abril do ano seguinte.
Um desprezo pela Cidade e o seu Património.

Na Barra do Douro existe o Marégrafo. Bem pintado, no seu interior viam-se espalhados no chão alguns aparelhos, muitos papeis e sujidade. Não sei a data da construção deste edifício nem quando foi desactivado e a quem pertence mas presumo ser da responsabilidade dos Portos do Douro e Leixões. A Junta de Freguesia também não nos dá nenhuma referência embora esteja registado no seu património.
Resta-nos a memória de algo que deve ter sido muito útil e a pequena torre com uma escala (?) de marés.

O cinema Batalha tem andado em bolandas. Fechado em 2.000, reabriu em Maio de 2006 depois de um investimento de 1,2 milhões de euros, parte dos 5 milhões que o Grupo Amorim entregou como compensação no âmbito do Plano de Pormenor das Antas. Para gerir foi criado o Gabinete de Comércio Vivo, uma parceria entre a Câmara Municipal e a Associação dos Comerciantes como apoio ao Comércio. O dinheiro foi-se e diz o actual Presidente da Associação que quási todo foi gasto no Batalha. O certo é que há processos judiciais a correr, investigações, etc. E o apoio ao Comércio como foi ?
Conclusão, o Batalha fechou as portas em 31 de Dezembro e os seus proprietários - Neves e Pascaud - nada podem fazer.
E onde estarão as obras - painéis, estatuária, etc - que estavam no seu interior ? Li algures que haviam desaparecido. Será que regressaram ?
Mas veio esta história sobre o Batalha por uma razão. Há tempos, vendo um programa do Prof. Joel Cleto, entre outros foi destacado o baixo relevo na frente do edifício da autoria de Américo Braga (Matosinhos, 21 Janeiro 1909 - Oaxaca, México, 26 Julho 1991). Este painel exibia um martelo na mão do Homem que se encontra na parte superior. E uma foice na mão da Mulher, em baixo.A censura mandou retirar o martelo mas deixou a foice. De notar também as correntes na figura inferior central, também esquecidas ou não conotadas politicamente. Burros os Pides da altura.
Acabei de ler que um outro painel da autoria de Júlio Pomar foi destruído. Políticas idem.
O cinema foi inaugurado em 1947 e é uma obra do Arquitecto Artur Andrade (Porto, 14 de Maio 1913 - Matosinhos, 9 de Novembro 2005). O edifício foi considerado como Monumento de Interesse Público. Vamos ver o que lhe irá acontecer.
    
Publiquei esta foto no espaço do Bando do Café Progresso, feita durante umas caminhadas da rapaziada, porque achei curioso tentar-se uma foto de grupo com um sol/sombra. Por outro lado reparei na farda dos "maiorzinhos" que nunca tive visto.
Recebi de um amigo o esclarecimento que essas fardas são usadas por uma seita que se diz religiosa, descendente de um famigerado grupo muito ligado à época da ditadura Brasileira. O grupo intitula-se Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima que começou em S. Paulo e já se estende pelo Brasil.
Pesquisando encontrei dois sites, um deles da Paróquia da Piedade da Diocese de Jales, que acusa esta Associação de enganar o povo em nome da religião e cobrar os seus dízimos em nome da imagem da Senhora de Fátima. E outras coisas mais. São vários parágrafos. Para os interessados aqui fica o link:
O outro link dá esclarecimentos sobre as origens desta seita:
Faz o amigo votos para que esta rapaziada não se esteja a preparar para sujar a nossa Cidade e o nosso País.
Pelo que li naqueles espaços, também assim o espero.

Estamos nos Clérigos e finalmente abriu o "Jardim das Oliveiras". Não sei se é assim que se chama, mas sei que está fechado. O local é o antigo Mercado do Anjo, há meio século chamado de Praça de Lisboa. A obra de reconversão do espaço demorou mais de 5 anos e a sua abertura anunciada por trimestres e anos, desde 2009, aí está.
A estátua de D. António Ferreira Gomes voltou a mudar de sítio, embora isso seja um pormenor insignificante.  
O espaço tem dois níveis: O superior, como referi é um "Jardim" fechado, que parece ser um campo de cultura da azeitona. Olival lhe chamamos. Trasmontano ou Alentejano, eis a questão. O inferior é uma rua-galeria, com dois ou três cafés e um tasco com preços exorbitantes. Aos possíveis clientes, leiam bem as listas para não saírem chamuscados. Pelo menos 6 milhões bem derrapados foram aqui gastos. Quem se deve estar a rir é a Câmara Municipal que não teve nada a ver com isto. Embora o Rui Rio tenha pensado tirar lucros para a autarquia, na crise em que estamos nem daqui a 40 anos, quando acaba o contrato de exploração. E será que as restantes lojas vão um dia abrir ?

Nossa Senhora da Silva é a padroeira dos Ferreiros e Caldeireiros que criaram uma confraria no séc. XV. Construíram uma Albergaria e Capela na muito antiga Rua dos Caldeireiros. No primeiro piso voltado para a rua encontra-se um oratório do séc. XVIII. Um conjunto lindíssimo. No interior do edifício ainda existe a Capela.
Diz a lenda que a Senhora ficou com o nome de Silva, após ter sido achada uma imagem no meio das silvas pelos pedreiros que trabalhavam na construção das fundações da futura Sé do Porto, na qual está entronizada uma imagem de Nossa Senhora da Silva do séc.XV-XVI, do lado direito do transepto.

No cais da meia laranja na Foz do Douro, local que já foi de boas pescarias à linha, está recordada a memória do Comandante John W. Cowie, veterano da Barra, que serviu desde oficial praticante a capitão em grande parte da frota de um armador de Glasgow e que escalava os portos portugueses com regularidade.
Legou as suas cinzas à Barra do Douro, onde foram lançadas em 19 de Julho de 1958 de bordo do navio-motor inglês Seamew, o seu último navio comandado.
Tudo isto aprendi com o meu amigo Rui Amaro e através do seu extraordinário blogue: http://opilotopraticododouroeleixoes.blogspot.pt/.

Vale a pena um passeio até este local, repousar olhando o rio e o que nos rodeia. Logo atrás temos o Jardim do Passeio Alegre com os seus monumentos, lagos e os bonitos urinóis, também o Chalet Suísso; à direita a nova Barra do Douro, à esquerda os Pilotos, o cais do Marégrafo e o Capela-Farol de S. Miguel o Anjo, provàvelmente o mais antigo da Europa, e na continuação a Cantareira.

Quem passa na Avenida Gustave Eiffel, na marginal do Rio Douro, quási por baixo da Ponte de S. João (a nova do comboio), não pode deixar de notar duas belas peças de arqueologia industrial. São os Fornos, o que resta da antiga Fábrica de Louças de Massarelos. Fundada em Massarelos, na Restauração, em 1766, sofreu um grande incêndio em 1920 passando a Fábrica para as Faldas do Monte do Seminário, mais ou menos no local onde se encontram os Fornos. 
Bons tempos que não são tão longos assim, quando a Cidade guardava as suas memórias. 

O Grande Hotel do Porto, edificado na Rua de Santa Catarina num local que foi propriedade de D. Antónia Ferreira (a Ferreirinha dos Vinhos do Porto), foi inaugurado em 27 de Março de 1880. Obra do arquitecto Silva Sardinha (Pedroso, V. N. de Gaia, 13.Fev.1845 - 28.Nov.1906 ) e mandado construir por Daniel Martins de Moura Guimarães, um Gondomarense natural de Santa Eulália, Fânzeres, homem retornado do Brasil, culto, viajante, que para lá voltou e lá morreu.
De entre as muitas figuras ilustres hóspedes do Hotel, destacam-se os ex-Imperadores do Brasil D. Pedro II  e D. Thereza Christina que aqui faleceu em 28 de Dezembro de 1889.
Nada disto é novo, mas por casualidade tive de passar na rua lateral do hotel que se chamava na altura Viela das Pombas, rebaptizada posteriormente para Travessa do Grande Hotel e agora é a Rua de António Pedro, (Cidade da Praia - Cabo Verde, 9 Dez.1909 - Moledo, Minho, 17 Agosto 1966), uma homenagem ao grande vulto da cultura, e alma grande do Teatro Experimental do Porto que aqui bem próximo teve a sua sala. Para os curioso do Teatro e não só, aqui vai a página do TEP: http://www.cct-tep.com/
Reparei nos vidros de uma janela e no Brasão da Cidade do Porto. A imagem está invertida.
O desenho deste Brasão foi da autoria de Almeida Garrett cujas armas são alteradas por decreto da Rainha D. Maria II promulgado por Passos Manuel em 14 de Janeiro de 1837, após o Cerco do Porto e a Morte de D. Pedro IV. Mas o brasão mudou em 1940, ano da glorificação do regime ditatorial de Salazar e companhia que mandou redesenhar as armas e brasões de todos os concelhos e freguesias do País.
Mas para sempre ficou a inscrição de Antiga Mui Nobre Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. O Brasão mudou mas não este no Grande Hotel do Porto. Bem como o que se encontra na estátua de D. Pedro IV na Praça da Liberdade, mas ao qual falta a cabeça do Dragão há anos.  

Olhando para a Alfândega Nova em Miragaia desde Gaia, vê-se uma escultura sobre a qual não encontrei  qualquer referência. Já pedi a informação no Facebook do agora Museu e aguardo. 
A Alfândega, para além de mostrar o seu arquivo, peças, aparelhos, enfim, tudo que dizia respeito à sua missão, é um local de exposições permanentes de grande qualidade e interesse, bem como de  temporárias. 
E não esquecendo que aqui também está exposto o painel-estudo que deu origem ao Painel Cerâmico Ribeira Negra, colocado próximo do Túnel da Ribeira, da autoria de Júlio Resende, infelizmente desaparecido para a vida há pouco tempo.
Fica para a próxima uma "visita"  a este extraordinário trabalho.

Com o mural Ribeira Negra em fundo, uma singela homenagem ao grande Duque da Ribeira, Deocleciano Monteiro de seu nome. (Porto, 24 Março 1902 - 9 Novembro 1996). Uma pequena lápide da autoria de José Rodrigues, na Praça que tem o seu nome junto à Ponte D. Luíz, recordará para sempre o Homem.
Barqueiro e figura carismática da Cidade, nascido e criado na Ribeira, aos onze anos salvava o primeiro humano de morrer afogado nas águas do Douro. Não sei se têm conta os inúmeros salvamentos e corpos resgatados ao Rio.
Há relativamente pouco tempo, entrevistado um outro barqueiro que já tem muitos salvamentos à sua conta (infelizmente não me recordo do seu nome) dizia, quando lhe pediram uma comparação com o Duque: Não há nem nunca haverá qualquer tipo de comparação. O Duque conhecia o Rio como ninguém.
No seu livro de autógrafos, para além dos dois primeiros Presidentes da República eleitos pós 25 de Abril, Eanes e Soares, constam os da Rainha Isabel II de Inglaterra, de Samora Machel ex-Presidente de Moçambique e de muita gente importante que visitava a Cidade.
Presumo que recebeu a mais alta condecoração do País. Mas não tenho a certeza.

Já várias vezes me referi ao Altar de Sant'Ana, na Rua do mesmo nome, próximo da Sé e da Igreja dos Grilos, portanto uma das Ruas do Porto Medieval. Mas há sempre mais uma história que nos aparece quando pesquisamos. 
Tudo começa quando esta Rua se chamava das Aldas, (só mudou de nome em meados do séc. XVI) bem mais extensa do que a actual e ligava o velho burgo à zona Ribeirinha, através da Rua da Bainharia e depois da dos Mercadores. Como ainda hoje acontece.
Havia um "Portal", uma das quatro portas que existiam na Primitiva Muralha Românica e que passou a designar-se de Porta do Arco de Sant'Ana a partir de 1542 por provàvelmente já existir uma imagem da evocação da Santa desde 1524. 
Almeida Garrett imortalizou-o na sua obra O Arco de Santana, descrevendo-o como de arquitectura moderna e levantado quási ao meio da rua que se sobe para chegar ao Largo do Colégio de S. Lourenço (os portuenses conhecem-no melhor como dos Grilos)... e sobre ele havia um oratório que tinha uma janela com vidraça voltada para o lado superior ou do referido Mosteiro dos Grilos...e continha uma imagem da Santa da sua invocação e sobre ele o escudete de pedra com a seguinte legenda: S. Anna Succure Miseris.
O Arco foi demolido em Junho de 1821, requerido por um particular para ali construir umas casas. A Câmara autorizou a troco dinheiro, chamou-lhe indemnizações e lá se foi mais uma obra de grande valor da Cidade.
Voltando ao Altar actual, presumo que foi construído logo após a demolição, na parede granítica do lado esquerdo de quem sobe, portanto do outro lado da muralha. 
A primitiva imagem do séc. XV-XVI foi recolhida na Capela de S. Crispim que se localizava próximo do Convento de S. Domingos demolida para a abertura da Rua Mouzinho da Silveira em  1876. Está actualmente no Museu Sacro do Convento de S. Lourenço (ou dos Grilos). Mais uma visita que aconselho ao renovado espaço do Museu incluindo a Igreja e a parte museológica de Arqueologia. 
Como lamento que os visitantes da Sé não sejam aconselhados a descer 100 metros não só para visitar este conjunto como apreciar no novo miradouro o que nos rodeia.

Caminhadas também são motivo para fazer e guardar imagens e é bom para depois comparar com velhas relíquias. Pelo menos 100 anos separam esta duas e foi pura coincidência a escolha do local.

A história e a vida também se contam em fotos antigas, como estas de Cheias do Rio Douro na Ribeira, expostas na Casa da Dona. Ermelinda, onde comer uma Isca da Ribeira de confecção única aquece primeiro o céu da boca e depois corpo em dias frios.


Para finalizar, uma amostra dos muitos trabalhos em ferro que existem pela Cidade.

Muito a propósito aqui deixo uma bela mensagem da minha amiga Gaúcha-Portuguesa de todos os costados, Dona Alda Paulina:


CAMINHOS

Andei terras
descobri valores
de cada hora.
Sepultei a ausência
revelando amores
tragédia diária.
Idas e retornos
nesta rodoviária.
E o riso louco
de insana carência
mergulhou em flores.
E os dias poucos
do mais que eu fui
já são vivências.
Minha sombra ficou
no exíguo espaço
onde a vida (ainda) flui,
na restante máscara
das aparências.

Alda Paulina Borges



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

149 - S. Pedro da Cova e o Couto Mineiro

S. Pedro da Cova é uma localidade (prefiro chamar-lhe assim até ver, em vez de Freguesia e ou Vila para não confundir os amigos leitores) integrada no concelho de Gondomar, com várias lugares. Está a cerca de uma dúzia de quilómetros distanciada da Cidade do Porto.

A primeira vez que fui a S. Pedro da Cova foi há mais de 45 anos, teria os meus 20 sensivelmente, com a rapaziada de S. Roque da Lameira, mais concretamente do Ilhéu, em Campanhã. Nenhum de nós tinha ido à tropa, creio mesmo que nem à inspecção. Num sábado à tarde, apanhamos o eléctrico 10 com traço na paragem à porta do Café Juvenil, nosso paradeiro, e resolvemos ir até Boloi, um dos belos lugares dessa terra.
Fica para depois a história, aliás coisa simples e passemos aos factos.
S. Pedro da Cova foi doada por D. Afonso Henriques (o nosso primeiro Rei), em 1138 ao Bispo Pedro Rebaldis, sucessor do famoso Bispo do Porto D. Hugo.
Em 1379 a doação foi confirmada por D. Afonso III do Couto de S. Pedro da Cova no julgado de Gondomar.
Com a extinção dos Coutos em 1820, passou a concelho até 1836, sendo extinto nessa altura para integrar Gondomar.
Lê-se na história da localidade, que cada um dos seus lugares possui uma identidade própria, fruto de enraizadas tradições.
Fica localizada num fundão, entre serras cujos nomes desconheço com excepção da de Santa Justa, esta já pertença do concelho de Valongo.
Bairro Mineiro
Tendo sido uma região de cariz essencialmente agrícola, actividade que ainda se mantém embora numa escala de subsistência familiar - penso eu - as Minas descobertas em finais do séc. XVIII vieram desenvolver e muito significativamente a localidade.
Percorri alguns caminhos dos seus lugares, onde se nota a sua ruralidade, mas com acessos muito bons.
Embora o declínio e extinção das Minas nos anos 70 do século passado tenha tido aspectos sócio-económicos gravíssimos, o certo é que S. Pedro da Cova passou a ser um território mais populacional, até considerado um dormitório do Porto.
Mantendo a agricultura tradicional, paralelamente várias industrias vieram aqui instalar-se, algumas seguindo a tradição gondomarense como a ourivesaria e a marcenaria.
Depois do 25 de Abril de 1974 e com a autonomia - enfim, chamemos-lhe assim - dadas às populações representadas nas Freguesias e Concelhos, S. Pedro da Cova beneficiou de acessos rodoviários muito razoáveis, desenvolveu-se e criou mesmo pólos industriais.
Já há uns anos que não visito a região e com a crise não sei mesmo como está a sua indústria.
Toda esta minha lenga-lenga começou porque fui a Boloi nos anos 60 do século passado. E passados estes anos todos resolvi revisitar o lugar. Realmente lembro-me do açude e da pequena bacia de água, onde tomavam banho muitas pessoas naquele dia.
Aqui passa o Rio Ferreira e digo-vos, caros amigos leitores, o lugar é muito bucólico. Para um viajante pedreste como eu, apanha-se o autocarro 10 da Gondomarense - agora não sei bem como é, devido às alterações dos transportes - no Largo da Covilhã e o motorista deixa-nos próximo do lugar.
Podemos caminhar ao longo do rio, não sei se por muita distância, porque apenas quis focar um pouco da minha memória.
Recordar é viver como disse Vitor Espadinha.
Um apontamento só pela curiosidade, naquela dia dos anos 60, ao fim da tarde entramos numa tasca, o Ferreira, que tinha uns petiscos razoáveis. Debaixo da ramada tomamos umas malgas e comemos, uns, iscas de bacalhau, outros, rojões. Isso nunca esquece.
Perguntei a várias pessoas nesta agora minha pequena viagem se conheciam e onde ficava a tasca do Ferreira. Acreditem, ninguém me soube responder. Não sei sequer se ainda existe.
E a viagem continuou.
As andanças recriadas fotogràficamente, foram feitas em dois dias. E já no longínquo verão de 2009.
Por isto ou por aquilo, conforme diz o povo, fui dar a esta Igreja, que presumo ser a de Nossa Senhora de Fátima, com a certeza absoluta de ser recente. Como não poderia deixar de ser, visitei o seu interior e francamente achei lindo, especialmente por causa dos seus vitrais.
Não entendo nada de arte seja qual for a espécie ou categoria catalogada. Mas esta igreja ficou-me na memória.
Com uma sorte danada, não sei se os amigos que me visitam terão a mesma opinião, mas esta foto da Sala do Baptismo saiu-me na "rifa" da fotografia.
Garanto-vos que não tem nem uma pontinha de photoshop.

Tudo o que venho descrevendo não é uma história de caminhos e caminhadas em S. Pedro da Cova. O princípio foi apenas relembrar Boloi, mas acabou por ser uma curiosidade que me levou a interessar pelas Minas extintas.

Recomendo uma visita não só ao Couto Mineiro como depois ao Museu Mineiro. Mas cada coisa a seu tempo.
Tudo começa no Lugar ou Largo da Covilhã. Presumo que é o ponto mais fundo de S. Pedro da Cova.
Quem vem do Porto vai a Fânzeres até ao Soldado - nome dado ao Largo onde se encontra a estátua homenageando o Soldado do Ultramar -  sóbe (se é erro de acentuação, é de propósito. Não quero que leiam sôbe e fiquem cheios de dúvidas...) depois imenso até ao Alto da Serra. É o cruzamento com a Estrada de D. Miguel (toponímica que tem a ver com a Guerra Civil e o Cerco do Porto)
e agora é preciso descer e de que maneira, até à Covilhã.
Encontramos duas homenagens-recordações. No centro do Largo a estátua ao Mineiro. Encostado ao quartel dos Bombeiros, num pequeno espaço ajardinado com água o simbolismo dos anos de funcionamento das Minas. Isto é dedução minha, pois não vi qualquer informação sobre o que representa. E as minas deixaram de funcionar em 1970, segundo li.
Então comecemos pelo antigo Couto Mineiro, não esquecendo que as fotos são de Agosto de 2009.

O Cavalete do Poço de S. Vicente.
É o ex-libris de S. Pedro da Cova, uma ruína que o povo quer ver restaurado.
Na minha opinião, não seria só este Monumento que o deveria ser mas pelo menos uma parte do Couto Mineiro.
Em 1921 abriu-se o Poço de S. Vicente que atingiu 157 metros de profundidade; em 1935, aprofundado e com um altura de 13 pisos foi construída a actual e arruinada Torre-Cavalete que se ergue acima do poço com a altura de 6 andares. Os homens desciam para a mina por um elevador (a jaula) nela encastrado. Levavam o farnel ao ombro, o gasómetro numa mão e o machado na outra. (pormenor de uma entrevista a uma ex-mineira, já bem idosa).
O local foi descoberto em fins do séc. XVIII por Manuel Alves de Brito no sítio do Enfeitador. Presumo ter sido nuns terrenos que pertenciam a um Padre por doação de uma viúva. Só consegui ler este pequeno parágrafo na apresentação de uma página na pesquisa da Internet mas que não abriu. Aliás, isso acontece em muitas outras. Mas adiante.
Foi-lhe concedida a extracção de Antracite - o mineral Carvão - que mais tarde viria a revelar-se como a maior zona carbonífera do País.
O Estado pouco depois retirou-lhe a concessão, que veio a vender a uma empresa bancária que falida passou-a a outra e enfim lá seguiram as explorações mineiras de companhia em companhia.
Até 1804 ...a extracção foi irregular com a produção pouco abundante e nociva pelo muito combustível que a má direcção de trabalhos inutilizou...
Iam os trabalhos até aos 100 metros de profundidade.
Um relatório de 1890 lamentava e descrevia que o "...concessionário tem relutância em introduzir os melhoramentos aconselhados pela moderna arte das minas... e que uma mina auferindo tãos bons resultados continue a seguir uma rotina vergonhosa". Texto rigorosamente copiado do relatório.
As ruínas do Campo Mineiro
A produção em 1900 era calculada em 6 mil toneladas. Em 1914 atingiu 25 mil toneladas. Em 1932 cerca de 183 mil. Em 1941, em plena guerra atingiram-se 360 mil toneladas de carvão.
Pormenores do Cavalete de S. Vicente
Chegaram a ser empregadas 1.600 pessoas de ambos os sexos, incluindo rapazes e raparigas.
As duras condições de trabalho provocaram muitos acidentes, doenças e mortes. Talvez por isso e com o movimento e a organização sindical a apoiar, os mineiros e as gentes desta terra, ficaram com a fama de promover fortes lutas laborais contra o regime Salazarista por melhores condições de trabalho. Entre outras, ficaram famosas as greves de 1923 contra o período de 16 horas de trabalho consecutivas (acho que é uma forma de dizer pois deveria haver um intervalo, pouco que fosse, para o lanche, embora comido no interior da mina) e a de 1946 contra o "patronato nazi-fascista" .
Uma senhora procurando e recolhendo pequenos pedaços de carvão
existentes no meio dos caminhos. Assim me disse.

Descobri uma página, não sei qual pois não anotei, que no tempo da II Grande Guerra (época de racionamentos) a empresa exploradora criou uma cooperativa onde vendia produtos abaixo do custo, uma cantina e promovia o ensino obrigatório para adultos. Creio que é um excerto de uma entrevista a um ex-mineiro.
Construíram também um bairro residencial, hoje restaurado e todo habitado, o Bairro Mineiro (cuja foto publiquei acima), e as Casas da Malta onde habitavam os trabalhadores que vinham de vários pontos do País para as Minas. Uma delas foi adquirida pela Junta de Freguesia que a restaurou e nela instalou o Bonito, Instrutivo e Simbólico Museu Mineiro, além de serviços sociais para a terceira idade, essencialmente composta por ex-mineiros.

Na ficha pessoal de uma trabalhadora, pode ler-se um castigo aplicado por faltar às aulas. E também o pagamento de um subsídio de 100 escudos por maternidade. Não me lembro se nos tempos salazarentos este subsídio era obrigatório ser dado pelas empresas. Sei que era dado um subsídio mas pela nossa "Caixa", que eram várias, cada qual referente a indústrias e comércios específica(o)s. Hoje é a Segurança Social, totalmente controlada pelo Estado Português, mas isso são outros contos que não vêm para o caso.

Há sensívelmente 4 anos levantou-se a questão do depósito em 2001 e 2002 de resíduos perigosos a céu aberto nos terrenos da Mina, vindos da Siderurgia Nacional, localizada na Maia. Chegou-se em 2010/2011 à conclusão que sim, são perigosos e esperava-se a abertura de uma linha de financiamento comunitário para os retirar. Analisaram serem 88 mil toneladas de resíduos, mas parece que ninguém acredita, incluindo um CDS (Altino Bessa) que diz ter o Estado pago o transporte de 327 mil toneladas. E a exigir uma investigação.
Enquanto isso...
Por casualidade vi uma camioneta a descarregar... terra ?

Imagem de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros, que se encontrava no fundo do poço. Foi recuperada e construída uma capela para a acolher.
Imagem do Google de 2012 dos terrenos, ou parte deles do antigo Couto Mineiro.

No término da linha do eléctrico 10 com traço a qual chegou a S. Pedro da Cova (no lugar do Passal ?) em 1918, foi feito um desvio para o Couto Mineiro, onde as Zorras (carros eléctricos preparados para transportar mercadorias e que aqui se chamavam "Viúvas" pela sua cor negra e sujidade) recolhiam o carvão e transportavam-no para o Porto com destino à Central Hidro-Eléctrica de Massarelos, inaugurada em 1915 e que veio substituir a da Arrábida.
Em 1914 (ou terá sido 1916 ?), foi instalado um cabo aéreo com a extensão de 9 quilómetros que transportava o carvão até ao Monte Aventino, no Porto, no Lugar das Antas e também para a Estação dos Comboios de Rio Tinto.
Vi uma foto da freguesia de Medas ( ou será Melres ?) onde também passava este cabo aéreo. Porque foi verdade que ao longo da margem direita do Rio Douro, haviam cais onde se embarcava carvão.
O Monte Aventino era um depósito da companhia mineira com cerca de 42.000 metros quadrados, de onde seguia o carvão que abastecia a cidade do Porto. Os compradores utilizavam as Zorras, camionetas ou carros puxados a animais.
A rapaziada do meu tempo ainda se deve lembrar bem das cestinhas do carvão, principalmente os da zona de Campanhã e os que acompanhavam o futebol no Estádio das Antas, inaugurado em 28 de Maio de 1952, pois por baixo da pala da bancada lá estava o cabo aéreo e as redes de resguardo.
O actual Parque de S. Roque está encostado ao Monte Aventino que daquela época já pouco terá, talvez as Ruas mais ou menos modernizadas. No espaço primitivo, ou parte dele, estão o complexo desportivo e uma central eléctrica. 
Central Termo-Eléctrica de Massarelos. Hoje, parte das instalações são o Museu do Carro Eléctrico, "A Recolha" e presumo que ainda estão guardadas e em perfeito estado muita da maquinaria e fornos utilizados à época.
As "Andorinhas", enormes roldanas que estavam colocadas na Torre-Cavalete.
Encontram-se no terreno anexo ao Museu Mineiro.
O Museu Mineiro e uma Zorra
Lembro que todas as minhas fotos são de Agosto de 2009. As que se seguem, captadas no Museu Mineiro, já não corresponderão totalmente à verdade, pois segundo li, foi restaurado e remodelado em 2012, com nova estrutura museológica.
Presumo, no entanto, que se deve manter o material que na altura vi exposto.

 Maqueta do Couto Mineiro.

O simbolismo do que era uma galeria.
O cabo aéreo com a cestinha, uma vagoneta, uma pedra de antracite e o transporte para as zonas de trabalho.


Vários equipamentos pessoais, instrumentos, documentação, enfim, muito do que existia e era usado.
O logótipo do Museu "foi roubado" da página do dito.

Fósseis animais e vegetais e na foto de baixo, à direita, antracite e várias espécies de carvão. Creio que eram 5 as espécies.

             
Duas fotos apanhadas na página do Museu. Na superior, a frontaria do Museu, não sei se após a remodelação.

A maioria das fotos a preto/branco, fotografei-as directamente dos quadros expostos no Museu.
Outras fui-as apanhando na net ou em blogues de amigos, bem como os textos, cujos Links vão a seguir referidos. Algumas datas, bem como o tamanho do poço e a altura do cavalete diferem ligeiramente em alguns blogues e/ou páginas.
Mas o importante é a história da Mina e do Povo de S. Pedro, e não só, que se deve preservar.

Por casualidade, fui encontrar um filme sobre estas Minas, que é um testemunho impressionante de realismo. Produzido, pois claro, pela Invicta Filmes, não sei se com fins publicitários. Está à nossa disposição e recomendo vivamente o seu visionamento. Eis o Link:

Outras referências:

Junta de Freguesia de S. Pedro da Cova.
Museu Mineiro
JN- Publicado em 9.11.2009 por Inês Schereck

http://olhares.sapo.pt/s-pedro-da-cova-foto2684134.html


Para o final deixo esta foto fabulosa da autoria de Suzano Magalhães a quem pedi autorização tipo "vou-lhe roubar esta foto para publicar". Não recebi a resposta, mas seja o que Deus quiser.