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sábado, 15 de março de 2014

182 - Massarelos e o Bom Sucesso

Aproveitando o primeiro dia de sol a sério e o calor dos 16 graus que a Cidade do Porto me (nos) ofereceu, carreguei as baterias da máquina, levantei cedo sem sacrifício, apanhei o 803 e saí no Bom Sucesso com um programa na cabeça mais ou menos definido.
O programa será em várias etapas dado a conhecer aos meus queridos leitores e leitoras, mas vamos à primeira, que é essencialmente sobre o Mercado do Bom Sucesso.
Os terrenos que circundavam o Mercado ainda foram durante bastante tempo terrenos agrícolas.
Lembro-me perfeitamente deste monte em meados da década de 50 pois estudei na 
Gomes Teixeira e no Infante, a dois passos
Foi aprovado e projectado em  1950, as obras iniciaram-se em 51. Juntamente com o do Bolhão, passariam a ser os principais mercados da Cidade. 
Construído sobre o Campo das Caveiras, parte da antiga Quinta do Bom Sucesso, local onde o Sporting Clube de Vilar treinava e chegou a realizar alguns jogos. Francamente, é a primeira vez que tomei conhecimento deste clube, mas está impresso num folheto da Câmara. Sobre ele, não encontrei qualquer referência. 
O Mercado na versão antiga, há talvez meia dúzia de anos.
Foto da Internet
Curiosamente, o Mercado está ligado a duas cousas. No mesmo dia em que foi aprovado o projecto é também aprovada a demolição do antigo Palácio de Cristal. Um cataclismo que a Cidade não esquecerá. E a inauguração seria ao mesmo tempo da do Estádio das Antas. Este foi inaugurado pelo Presidente da República, General Craveiro Lopes em 28 de Maio de 1952. O mercado foi-o a 27. 
Empreendimento de 10 mil metros quadrados com 132 lojas e 760 Bancas. Parecem-me bancas a mais, mas...
Há pouco mais de três anos, a autarquia resolveu remodelar o mercado e entregou-o a uma empresa para o requalificar. Diziam que estava muito degradado e sem condições. Não sei, pois a última vez que lá entrei já foi há cerca de 6 anos. 
Também não sei as condições do contrato, mas para o caso não interessa nada.   
Abriu em meados do ano passado, com três pisos, o último é um  Hotel dito Low Cost, mas segundo investigação uma dormida custa 70 euros. 
Muito linda, sem dúvida, toda a área. E como agora é fino dizer-se, um novo conceito, zona de restauração gourmet e etc.
No piso inferior, num desnível pequeno, as tradicionais lojas de alimentação.




Panorâmicas do piso intermédio, visto do primeiro piso
Um aviso aos visitantes: se se sentarem nos bancos espalhados por este piso, não se cheguem muito à frente. São de tal maneira mal concebidos que podem cair. Eu sei do que fálo.

Como foi negociada a sorte dos comerciantes antigos, não faço ideia.
Como já referi, esta zona era a antiga Quinta do Bom Sucesso, mandada construir em finais do séc. XVIII por António de Almeida Saraiva, um comerciante burguês da Cidade, para veraneio e recreio.  
Edificou uma casa de linhas simples com toques de ruralidade e uma capela barroca dedicada a Nossa Senhora do Bom Sucesso. 
O avançar da Cidade não poupou os terrenos, que foram utilizados para a construção de edifícios de habitação, comerciais e de serviços.
Resta a Casa transformada em Restaurante-Bar, mantendo exteriormente a traça original; e a Capela foi reaberta ao culto cuidado pelos Missionários da Fraternidade Verbum Dei.
Entre o sol tímido e o nevoeiro matinal, aqui fica parte de uma viagem com algumas memórias. Que há-de continuar, pois Massarelos tem muita história. E eu pouco a dei a conhecer neste espaço.
Massarelos, que é a minha freguesia de nascimento. Mas que o deixou de ser por causa das alterações impostas pelo governo. Coisas feitas sem pés nem cabeça. À Portuguesa.
Gostava de saber, se eu fosse agora para a tropa, onde iria buscar os papeis ?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

180 - Quinta da Macieirinha e Museu Romântico

Um dos Caminhos Românticos da Cidade do Porto é a Rua de Entre Quintas, topónimo de que se desconhece a origem e desde quando data. Presumiu Andrea da Cunha Freitas que foi o início de uma antiga estrada romana ou medieval, a Via Vetera, cujo itinerário vem mencionado nas Inquirições de D. Afonso III de Portugal em 1258. Destinadas essencialmente para controlar a burguesia e as suas fugas de capitais e o pagamento de impostos ao Rei. 
Iniciamos a descida da Rua desde Vilar, antiga aldeia arrabalde da Cidade. A poucas dezenas de metros, encontramos a Casa Tait e/ou Quinta do Meio à direita, e à esquerda a Quinta da Macieirinha, que é o tema desta croniqueta.
Presumo que a origem da Quinta é do séc. XVII. Foi conhecida por vários nomes: Quinta do Sacramento em meados do séc. XVIII, porque o proprietário, Manuel de Sousa Carvalho era irmão da Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Paroquial de Santo Ildefonso quando a adquiriu; Quinta do Passadiço, na altura em que Pedro Pacheco Pereira a comprou a Nicolau do Couto em 1724. Quinta da Macieirinha ou da Macieira, não sei desde quando assim se chama, mas provavelmente por se cultivarem árvores do fruto Maçã. E já assim era conhecida em 1724.
Encontra-se junto à frondosa mata do Palácio de Cristal, pela qual também tem acesso. Recordo que já não existe o Palácio de Cristal, mas o seu nome é perpetuado pela população, cuja demolição foi determinada por um militar Presidente da Câmara, uma aberração que nos apareceu na Cidade vindo de Viana do Castelo, o corporativista Lucínio Gonçalves Presa, em meados do séc. XX.  
A Casa é uma construção do séc. XVIII para habitação de recreio. Foi remodelada quando António Ferreira Pinto Basto entra na sua posse em 1834, desconhecendo-se como era inicialmente e os acrescentos seguintes.
Este senhor era filho do fundador da Fábrica de Cerâmica da Vista Alegre, ainda hoje em funcionamento.
Voltada para o Rio Douro, beneficia de uma extraordinária vista panorâmica. Enquadrada por mata, jardins e antigos terrenos agrícolas, emprestavam-lhe um ambiente bucólico e romântico. Antigamente...
Alguns pormenores do jardim elevado, hoje sem nada de relevante, a não ser as duas esculturas cujo autor desconheço. E o pátio construído com pedrinhas que presumo serem areões do mar.
Mas vamos entrar no Museu, cujos espaços interiores foram adaptados de forma a termos ideia de uma residência da alta burguesia romântica à época de oitocentos.
Tudo começa quando em 1967 a Câmara Municipal presidida por Nuno Pinheiro Torres delibera organizar um Museu de Recordações do séc. XIX para nele serem lembrados os grandes nomes do Romantismo Portuense.
O Museu Romântico da Quinta da Macieirinha é inaugurado a 27 de Julho de 1972, destacando-se pela sua colaboração e organização, o Professor de Letras da Faculdade do Porto, Dr. Flórido de Vasconcelos e a Dra. Maria Emília Amaral Teixeira, na altura directora do Museu Nacional de Soares dos Reis. Idealizaram uma casa habitada, com salas, quartos e várias dependências.
As peças de  mobiliário são em estilo Império, embora o gosto denuncie a influência francesa e alemã, mas sobretudo a inglesa, que à época dominava a região.
A pintura mural a têmpera e a fresco serve de decoração às Salas das Telas e de Bilhar.  
Do Estado Português foram depositadas peças do núcleo do Museu Nacional Soares dos Reis.
Outras peças foram oferecidas ou depositadas por particulares.
Sala de Jantar
Quadros de flores que completam a colecção de pintura. E faianças inglesas. Curioso, que não há uma referência a Faianças da Vista Alegre. A minha admiração reside no facto do último proprietário, chamemos-lhe assim, ser um dos donos desta importante unidade fabril cerâmica.
Paisagem do Porto, do inglês Charles Napier (1841-1917). 
Numa das visitas, informaram-me que era a obra mais importante do Museu. Posteriormente, alguém se riu de mim por ter dito isso. Para um leigo, tanto faz. Gosto ou não. 
Não consegui encontrar qualquer referência, em mais de 80 artigos na net sobre este pintor.
No entanto, em Junho não sei de que ano, teve este quadro direito a uma exploração de pintura de Paisagem Urbana, em multimédia e de uma visita orientada. Li numa agenda metropolitana do Porto, seja lá isso o que for. 
Da Pintura sobressaem Peças de Cavalete de Auguste Roquemont excelente retratista (Genebra, 2JUN1804 - Porto, 24JAN1852) - filho do Príncipe e General Alemão Frederico Augusto de Hesse-Darmstad, que veio para o Porto apoiar D. Miguel, o Absolutista -  e de seu discípulo Francisco José Resende (Porto, 9DEZ1825-30NOV1893).
Não sei de quem são os retratos mostrados na foto, nem os autores. Algumas obras sobre os costumes e cenas populares de Portugal em que ambos se notabilizaram devem estar expostas, mas são coisas que só fiquei a saber depois das visitas e após ter lido a página do Museu. Na altura das visitas é só andar. 
De uma das salas, uma vista sobre Massarelos e o Rio Douro, com Vila Nova de Gaia em fundo.
Os Têxteis estão presentes em tapeçarias, cortinados e numa quantidade apreciável de peças de roupa do séc. XIX.
Salão de Música e de Baile
Sala de Brincar das crianças
Quarto de Dormir de Senhora
Vista de parte da antiga Horta, muito desleixada. Ao fundo, a Ponte da Arrábida.
Capela.
Numa das visitas, o cicerone disse-me que Carlos Alberto (ler abaixo o personagem) vinha aqui rezar.
Em 27 de Abril de 1847, ficou instalado na Casa o exilado Carlos Alberto de Sabóia, ex-Príncipe de Piemonte e ex-Rei da Sardenha. Anteriormente residiu na Hospedaria do Peixe, no Palacete dos Viscondes de Balsemão, ex-escritórios dos Serviços de Electricidade e hoje um organismo camarário ligado à Cultura, localizado na Praça a que posteriormente lhe foi dado o seu nome: Carlos Alberto.
Pai de Vitor Emanuel, primeiro Rei de Itália.
O retrato é da autoria de A. Capisani. Não consegui descobrir nada que nos pudesse esclarecer sobre este artista. Mas "cheira-me" que deve ter uma ligação a Veneza.
Bastante doente, veio a falecer pouco depois a 28 de Julho. Foi sua neta D. Maria Pia, (Turim, 16OUT1847-Piemonte,5JUL1911) esposa do nosso Rei D. Luís I (31OUT1838-19OUT1889) o tal que esteve muito ligado à expansão das linhas férreas. Os seus nomes foram dados às nossas pontes em ferro que atravessam o Rio Douro.
Para refazer os aposentos de Carlos Alberto, havia (palavra que me obrigou a ir ao dicionário por me parecer incorrecta. Mas se utilizar existiam, já não soa tão mal.) aguarelas e desenhos que os documentavam. O mobiliário é uma réplica do da época, oferecido pelo filho Vitor Emanuel.
Nos aposentos uma placa evocativa.
O Museu apresenta uma variedade significativa de Artes Decorativas em Vidro, Cerâmica, Madeira, Prata e Metais, de uso cotidiano ou quotidiano (a primeira palavra é mais usada no Brasil, a segunda em Portugal) e adereços de moda do séc. XIX.

 Algumas escultoras vêm-se nos muros e na mata, situada nas traseiras da Casa e voltada para o 
Rio Douro
Fontes, pequeno lago, uma espécie de castelo-miradouro; e pedras que caíram ou abandonadas de outros pequenos-grandes pormenores arquitectónicos estão espalhados-espalhadas pela mata.


Um pormenor do que resta da Horta. Pouco menos que abandonada

Até há dois ou três anos existiu na Cave da Casa O Solar do Vinho do Porto. Num terraço bem tratado e com um lindo roseiral deslumbrava-mo-nos com as vistas sobre a Foz e o Rio Douro enquanto se degustava um Vinho do Porto. Um pequeno paraíso.
Os preços que praticavam devem ter afugentado os visitantes. Lembro que há uns 7 anos, uma cerveja custava 4 euros.

Algumas notas: 
Quando pesquisamos -pessoalmente estou farto de cometer erros por acreditar em tudo que leio-, devemos ter em conta que quem passa as informações para a net são pessoas. Muitas acreditam como eu acreditava em tudo que lia e então publicam erros sobre erros. As páginas, tanto em português como em inglês sobre o pintor Roquemont, estão cheias de erros. Tenham cuidado nas pesquisas. 
Lê-se como sendo português, também francês, também italiano; que nasceu em Génova, (nasceu em Genebra-Suíça); e outras disparidades. O pior é que há organismos oficiais que cometem alguns desses erros.
Fora isso, vale a pena ler a sua biografia, a sua actividade artística e a influência que exerceu em Portugal na sua época. E já agora não esqueçam o seu discípulo Francisco José Resende. 

Não deixo links sobre as minhas fontes. Tudo muito confuso e distorcido. Deu imenso trabalho pesquisar para tentar não fazer muitos erros. Mas sobre o Museu e o que o rodeia, recomendo uma visita. Vale a pena. Transporta-nos a uma época diferente. Pessoalmente, encanta-me. Deve ser o espaço museológico que mais vezes visitei. A primeira vez, ainda não tinha 65 anos, tentei mentir sobre a idade à recepcionista, uma senhora brasileira que não foi em contos. Exigiu o Bilhete de Identidade para fazer o desconto. Mas como diria o outro, já lá fui muito feliz. 
O catálogo da exposição custa uns dinheirinhos. Bom para recordação. Deixam-nos fazer fotos, há na generalidade uma boa exposição de luz.     

Não sou adepto da nova ortografia. Francamente nem sei qual é (ou como é...) e também francamente não me interessa nada saber. Talvez por causa da idade, coisas que esqueci, há palavras ou expressões que me obrigam a pesquisar. E estamos sempre a descobrir novidades interessantes. Por isso não me levem a mal quando me sinto na obrigação de expressar umas notas sobre ortografia. Partindo do princípio que as minhas fontes estejam correctas.

Mas os amigos estão sempre a tempo de me corrigir. E quantas vezes o fazem, o que muito agradeço.

Visitem os Museus do Porto.