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domingo, 28 de junho de 2015

220 - Uma visita a Braga que foi uma lição

Após o passeio no verão passado que fiz com os meus queridos ex-camaradas e amigos do Bando do Café Progresso a Braga, concretamente ao Bom Jesus e ao Sameiro, foi-me oferecida uma viagem por Braga. A altura proporcionou-se e lá fui eu de abalada até à Cidade dos Arcebispos no Urbano que apanhei em São Bento. Viagem barata, ida e volta 3 euros e pouco.
Não faço ideia das vezes que fui a Braga. Tanto profissionalmente (saudades do Arminho e do "maluco" do Ermelando Sequeira e das suas subidas à Falperra pela esquerda no Golfe prego a fundo e em derrapagem, para me oferecer o almoço. Nunca fiquei "cagado" como ele me perguntava, mas não andaria longe...) como em passeios nas excursões de domingo de verão com grupos dos 20 amigos.
Mas agora foi diferente, embora o passeio fosse em tempo reduzido. Vamos indo e vamos escrevendo as minhas sensações.

Digamos que o passeio começou no Bom Jesus com um pic-nic excelente. Lembrei-me do Neca Rafael e do seu Fado Bom Jesus dedicado à sogra: E no Bom Jesus, maluco me pus ao vê-la comer. etc e tal.
Descendo para Braga uma placa chamou-me a atenção. Anotei o Castelo apenas por curiosidade
e fui fotografando o que vi.

Existe mesmo um edifício com nome de Castelo do Bom Jesus. É uma construção do séc. XVIII (?) atribuída a Ernesto Korrodi, arquitecto Suíço nascido em 1870 que veio para Portugal e se naturalizou. Chegou a ser professor em Braga onde deixou algumas obras. Mas esta não pode ter sido dele, pois não está referida na sua biografia. E se é do séc. XVIII  muito menos ainda.
Ainda bem que vou tendo alguma memória para ter dúvidas e confirmar factos.
Confusões, mas adiante.
O edifício e o parque anexo (que é lindíssimo visto no Google Eart) é actualmente um estabelecimento hoteleiro. A foto mostra o portão da entrada, agora fechado.
Vamos para a Cidade e ao Centro Histórico.
O Jardim de Santa Bárbara, um dos ex-libris deixa-me recordações. Junto ao Chafariz que se encontra ao centro (não posso publicar todas as fotos) fotografei os meus compadres Russel e Fernanda há cerca de 50 anos. Muito depois disso já por aqui andei e tinha uma ideia belíssima do Jardim.
Francamente fiquei desiludido ao vê-lo actualmente. Sem cor, sem flores com excepção de algumas roseiras. É certo que andavam a plantar flores, que florescerão daqui a 15-20 dias. Mas a arte de jardinagem não me pareceu nada com a que tinha na memória e vi em muitas fotos. Mas posso estar errado.
Ao fundo a Ala Medieval do Paço no Palácio dos Arcebispos construída nos séc. XIV e XV, com a aparência de uma fortificação.
Antes de prosseguir e para não me repetir, o aspecto da patine temporal de muitas das edificações religiosas, deixa-nos o aspecto de sujidade que só vi igual em edifícios em Milão à volta do Scala. Se nesta cidade se pode concluir (?) que será o efeito da poluição automóvel - a sujidade vai em degradê de baixo para cima - , não me parece que seja a mesma razão do Centro Histórico de Braga.
Sei que o granito se suja muito, mas será que a Cidade Rica do Clero anda a perder valores ?
Adiante.
 Chamo-lhe anexo ao Jardim de Santa Bárbara ao largo com edifícios de arquitectura impróprios (na minha opinião, claro) para um Centro Histórico. Num lago com repuxos admiro a coragem de terem colocado um Dragão de Azul  mais ou menos em tom Carolina numa Cidade vermelha por todos os lados.

Formando o Largo do Paço, duas Alas do Paço Bracarense que foram construídas ao longo dos séculos. Aqui fiquei irritado. A luz estava péssima para fotografar e os fios que atravessam o espaço não deixam escolher o melhor ângulo.
Inadvertidamente e por causa dos fios, soltei uma bacorada no momento em que passavam dois eclesiásticos. Olhei para a cara deles e pedi desculpa baixinho...
Na realidade e para quem gosta destas coisas, o conjunto é lindíssimo e cheio de pormenores, cada um com a sua história como vim a descobrir.

Mas porque será que não enterram os fios ? Custava muito ? Sei que é uma coisa muito comum os fios aéreos, mas que diabo, pensem nas imagens que ficam gravadas nas câmaras dos turistas. Em Braga como em todos os lugares de Portugal.
Nestes edifícios está a Reitoria da Universidade do Minho.

Uma confusão, para mim, de edifícios estão anexos à Sé de Braga. Claro que fui bem ciceroneado porque senão não entendia nada. Depois a pesquisa levou-me à conclusão que cada Arcebispo e o Cabido quiseram deixar a sua marca ao longo dos séculos resultando que da original Sé pouco existirá.
São Capelas e Igrejas edificadas, claustros extintos e claustros novos, arqueologia e muitas pedras à solta.
Se nos lembrarmos que aqui estiveram os Romanos que expulsaram os  Brácaros no ano 16 antes de Cristo, e depois capital política e intelectual do Reino dos Suevos, nem imagino as relíquias - não só de santos, que parece serem muitas e espalhadas pelas Igrejas e Capelas -, arqueológicas que devem existir e muito mais credíveis dando-nos a conhecer as civilizações que fizeram a história de Braga.
Mas não houve tempo para ver tudo que já foi descoberto.

 Presume-se (ai o IPPAR) que é uma absidíola do projecto inicial da Sé. A abóbada é coberta por uma pintura do séc. XV. Só a descobri por casualidade e não sei se é uma preciosidade mas sei que está em muito mau estado de conservação.
 Este conjunto mostra um personagem parecido com um macaco a colocar a Mitra a um dignitário da Igreja. Como em tudo o que se vê espalhado pelos pátios da Sé, não existe qualquer referência. Sejam de Capelas, das Pedras, do Pelourinho de Braga, da Absidíola etc. E são imensas peças de arqueologia. Pode não interessar para nada, mas eu gostava de ler e pronto. Umas coisas encontrei em pesquisas que por sorte me apareceram. Sobre este conjunto não encontrei nada.
Se algum visitante deste espaço souber o que representa, agradeço a informação.
Pelourinho de Braga. Segundo li no Igespar deverá ser do séc. XV. Foi colocado em vários locais da cidade até que chegou aqui o que resta dele.

 Casa dos Paivas . Edifício construído no séc. XVI com materiais de edificações anteriores. No final do séc. XIX a Câmara aluga-o para instalar o Hospício dos Expostos ou Casa da Roda.
Já foi sede de Junta de Freguesia, que pelos vistos está a vagar aos poucos.

 Um bonito edifício em S. João do Souto

Um pormenor da Casa dos Coimbras. 
Antes de mais uma divagação. Há coisas que não se entende porque ficam guardadas dentro de nós. Como já referi algumas vezes, trabalhei desde os 13 anos numa grande empresa gráfica não só do Porto como de Portugal. Uma das suas especialidades era a reprodução de postais ilustrados para muitos e vários fotógrafos editores de Portugal (Continental e Ilhas). Recordo-me de tantos, alguns conheci pessoalmente e talvez venha deles o meu bichinho pela fotografia.
Nos anos 60 do século passado, um dos editores era a Livraria Cruz, de Braga. Uma das séries de postais incluía a Capela e Casa dos Coimbras, imagem que nunca esqueci. Ao passar agora por elas bastou um relance para reconhecer as edificações.
Mas a história conheci-a agora também.
Presume o Ippar (ai o Ippar ou Igespar como lhe queiram chamar...) que a Casa é uma edificação do séc. XV tendo sido adquirida em 1505 por D. João de Coimbra, Provisor da Mitra de Braga. Tem uma Capela anexa evocando Nossa Senhora da Conceição que foi construída em 1525.
Por causa da urbanização do local, demoliram em 1906 o palacete, guardaram os elementos arquitectónicos Manuelinos e reconstruíram-no junto à Capela do outro lado da Rua, chamemos-lhe assim, cujas obras terminaram em 1931.
O conjunto é Monumento Nacional.

A Casa anterior à demolição.

O Conjunto edificado. À esquerda é a Igreja de S. João do Souto, construída no séc. XVIII

Igreja do Hospital ou Igreja de S. Marcos. Construída no séc. XVIII sob risco do arquitecto Carlos Amarante (Braga, 30.10.1748 - Porto, 22.Janeiro.1815).
Reparem no edifício do lado esquerdo.

Vizinha, a Igreja de Santa Cruz
Templo construído no século XVII, mas a demora nas obras  arruinaram-no prematuramente. Foi demolido com excepção da Fachada. As obras foram concluídas em 1739.

Gostando Braga de se classificar como a Capital do Barroco como podem ter permitido nesta Praça do lado esquerdo, edifícios de aspecto horrível de fachadas em cimento branco e vidro. Fotografei-os mas a luz forte incidindo nos brancos e espelhos deu uma borrada.
Mas quem sou eu...com a minha mania de gostar de calhaus.


Uma recordação para os amigos da minha idade.
Desde 1948, o Cardoso da Saudade era um especialista em confecção de samarras, se bem me lembro.
Na fábrica antiga, não sei se existe uma nova, foram encontrados importantes elementos arqueológicos.

Em época de S. João, Braga ornamenta-se como terrinha de província no largo do Município. Desculpem amigos Bracarenses, mas é a minha opinião para as Bandeirinhas nesta bela Praça.

Lá vamos nós a caminho do antigo Campo da Vinha. Aquele enorme espaço onde paravam as camionetas das excursões domingueiras e que foi lugar de feira semanal.
Chama-nos a atenção uma escultura redonda que parece ser em alumínio. Voltada para a Praça Conde Agrolongo - Campo da Vinha - a imagem de Salgado Zenha.
Em pesquisa posterior li que se chama Silo da Memória do escultor bracarense Alberto Vieira e é uma homenagem evocativa dos 40 anos do 25 de Abril e simultâneamente a Salgado Zenha.
Se gosto ou não do "zigurate sumério" é coisa que não interessa aos bracarenses.
A foto inferior direita mostra-nos mais uma arquitectura esquisita no centro de uma zona ajardinada e pedonal que é o antigo Campo da Vinha; à esquerda o Convento do Salvador do séc. XVII e o novo edifício de inícios do século passado que abrigou o Asilo de Mendicidade e hoje é um Lar que tem o nome do seu fundador, o Conde de Agrolongo.

Campo da Vinha em Dia de Feira
O ângulo desta foto é quase coincidente com a minha.

Igreja e Convento do Pópulo, construído desde os finais do séc. XVI até ao XIX.  A partir de 1841 as instalações do Convento acolhem o Regimento de Infantaria 8; e Estátua do Marechal Gomes da Costa.
 Deste local partiram as forças comandadas por Gomes da Costa em 28 Maio de 1926  a caminho de Lisboa tomando o Governo. Acontece que o Carmona achou que ele era um fraco, exilou-o nos Açores e chamou-lhe Marechal. A partir daqui, o Salazar em 1928 regressa ao Ministério das Finanças até 1932, ele que tinha sido deposto pelo Gomes da Costa em 1926. Até ao Estado Novo foi sempre a andar. O resto da história é bem conhecida.
Foi o local onde se principiaram a dar os primeiros pontapés na bola em Braga e também usado para outros desportos. 

Neste pobre escrito quis apenas deixar a minha opinião sobre o que fui vendo e associando a algumas recordações antigas. Na realidade não conhecia Braga, nem conheço, mas já foi uma grande ajuda de S. Meneses a quem reconhecidamente estou muito grato.

Mais detalhado é um trabalho em pps, onde mostro alguns monumentos e um pouco de história, naturalmente pesquisada em vários sites.

domingo, 7 de junho de 2015

219 - Restauros e não só

Como me escreveu em tempos a minha amiga Lucineide Brito, oxalá um dia mostres os restauros da tua Cidade.
Aproveitei o comentário para dar o título a esta crónica e mostrar dois restauros que por causa deles andava desde há muito a dar cabo da cabeça aos Presidentes da Câmara para conseguirem uma solução.
Vamos às imagens:
A Fonte da Avenida Montevideu
Esteve abandonada e meio arruinada durante anos. A primeira vez que escrevi sobre a ruína foi em Julho 2007. Não acredito que quem destruiu a Avenida dos Aliados, vendeu Palácios, trouxe Aviões e Automóveis antigos à Cidade, não tenha tido nos cofres uns miseráveis Euros para restaurar a fonte e pô-la a jorrar uns esguichos de água. Um Boata-abaixo ao ex- Presidente Rui Rio. 
Fiquei feliz ao ver por casualidade há dias uma foto da Fonte a "trabalhar". Não descansei enquanto a não fui ver e lembrar-me dos meus tempos de menino que levado pelas mãos do meu pai passeava pelos Jardins da Foz. Parabéns ao Presidente Rui Moreita e um Boata-acima para ele.
 A fonte foi construída em 1931 desenhada pelo arquitecto Manuel Marques (Avintes,1890-1956) e parece que se destinava à Avenida dos Aliados. 
 A volumetria seria grande e foi aconselhada à cidade um local para ela. Em boa hora.
Velhos tempos...

Outra consolação foi ver o edifício fantasma que foi dos STCP , construído em 1912 a acabar de recuperar

Esta placa não é a primitiva. Fui ao longo dos últimos anos "botando" abaixo dos executivos camarários que desleixaram nesta "coisa". O Parque Ocidental da Cidade vem aqui dar e era uma vergonha depararmo-nos com a ruína e seus arredores.
O edifício em 1988 foi cedido pelos STCP ao Colégio Luso Internacional do Porto que após obras de recuperação funcionou entre 1989 e 1998. Em 1990 foi vendido à Câmara do Porto e demorou 25 anos a resolver um destino.
Não gosto da cor. Visto o edifício do Castelo do Queijo inserido no local é francamente aberrante ao olhar. Mas gostos são gostos e a Urbanização e a Cultura e o Ambiente Municipais estão lá, não é verdade ?
Na altura desta foto, em 1988 ou 89, estava o edifício a ser restaurado para o Colégio. Toda a frente está agora ligada ao mar e as traseiras ao Parque Ocidental da Cidade.

 Praça de Gonçalves Zarco e Estátua de D. João VI.
Tem cabimento nesta página a recordação desta Praça e da Estátua ? Tem sim, senhores e senhoras. Passo a explicar: O primeiro ponto tem a ver com o meu querido amigo Eduardo Campos que levantou a questão desta estátua ser uma réplica da que foi oferecida à Cidade do Rio de Janeiro aquando dos 400 anos da sua Fundação e ficando situada no antigo local onde desembarcou a família real em 7 de Março de 1808, fugidos às Invasões Francesas. O local chamava-se Largo do Paço ou Rossio do Carmo. Foi inaugurada em 10 de Junho de 1965, precisamente no Dia de Camões, chamado outrora da Raça.
No Rio de Janeiro, a Estátua na chamada actualmente Praça de 15 de Novembro, se não erro.
Pois bem, eu cheio de dúvidas fui pesquisar e tenho de dar toda a razão ao meu amigo. A do Rio de Janeiro é em bronze aproveitado de canhões antigos. A do Porto é em latão e foi inaugurada em 1966. 
Por curiosidade diga-se que o Cavalo do Rei é um Lusitano de Altér-do-Chão de onde os invasores franceses roubaram 581. Só desta Cudelaria. Para o Brasil foram levados vários Cavalos Lusitanos de Altér, e um deles ofertado pelo Rei a um fazendeiro de Minas. Cruzados com as raças ibéricas já existentes desde o século XVI também levadas para o Brasil, creio que eram já os famosos Marchadores originou os Sublimes. Posteriormente alguns foram trazidos para próximo da corte no Rio e passaram a ser chamados de Mangalarga devido ao nome da Fazenda, no Paty do Alferes, hoje uma Pousada, onde foram desenvolvidos. Vários sites com histórias cruzadas, de fazendas particulares e reais, nome das raças, etc. Adiante.
Agora a nossa Estátua. 
A Praça Gonçalves Zarco, como todas ou quase as Praças e Avenidas eram floridas. Um dia, um Presidente inteligente (não sei qual foi mas sei que foi em finais do séc. XX ou já em princípios do XXI) resolveu acabar com a Praça e fazer um parque subterrâneo para automóveis. Que deu imensos problemas. Como resultado o pedestal - não o primitivo mas um novo - foi rebaixado juntamente com a Estátua e dá-nos a impressão visto de alguns ângulos que o cavaleiro está em cima dos autocarros. Um vergonha de projecto. E sem jardim.

 O Terminal de Paquetes de Cruzeiros do Porto de Leixões
Querem acabar com o único Porto do País que se renova, amplia, mais  produtivo e mais dinheiro faz ganhar ao nosso Estado Lisboeta. Muitas lutas para tentarem levar para o centralismo mais um bem do Norte para encobrir a bancarrota sulista. 
Dentro de breves dias será inaugurado (se o não foi já)  o novo terminal, do lado esquerdo das fotos, da autoria do arquitecto Luís Pedro Silva.
Custou 5 vezes menos do que a Casa da Música; Matosinhos e a Região vão agradecer. E os centralistas também, pois claro.


Esta imagem é só para recordar os velhos e velhas camaradas do Clube da Praia do Castelo do Queijo. Um abraço para eles e elas.

Como se depreende, algumas fotos foram roubadas assim como a pesquisa de textos. A Estátua no Rio é da Wikipédia; Os textos sobre os Cavalos Lusitanos versus Mangalarga apanhei-os em vários sites: Cavalonet. pt., Marchador br.; Mangalarga e claro, socorri-me do meu amigo Gabriel doportoenaosó.blogspot.pt para aprender, roubar textos e fotos.

domingo, 10 de agosto de 2014

192 - CRESTUMA DE NOVO

Poderia dizer que a Meteorologia me ia arruinando um dia que acabou por ser mais um aprendizado de história. Explicando tudo tim-tim por tim-tim.
Depois das minhas visitas a Crestuma nos últimos dois meses com os meus amigos e camaradas Bandalhos do Bando do Café Progresso - ver reportagens em   http://bando-do-cafe-progresso.blogspot.pt/ - ficou combinado que o camarada Zé Ferreira, mais conhecido como Zé Catió, me iria ciceronar por Crestuma, sua terra de adopção.
Tudo combinado para ontem (enfim, já foi há 3 dias) dia 7 mas eis que a página da Meteorologia nos informa que vai haver chuva da grossa, principalmente de tarde. De manhã seria tempo de nuvens pesadas.
Telefonema para o Zé a pedir para adiar, mas o rapaz andava na pesca dos achigãs com o compadre Romualdo para os lados de Foz Coa. Já era madrugada quando conseguimos contacto. Expus-lhe a situação meteorológica. Tás maluco, não podemos adiar. E que vou fazer às Tripas que encomendei ? diz de lá do outro lado do fio telefónico, o Zé. Falou em Tripas, arrumou-me. Tá bom Zé, eu vou. Espera-me na paragem do Metro do Corte Inglês. Pensei para mim, se não poder fotografar, nem tudo se perde, sempre vão as Tripinhas.
Agora vamos para o Dia da História de Crestuma.
No centro da Cidade do Porto caíam umas pinguinhas mixurucas. Fui até à Trindade apanhar o Metro para Gaia, servi de cicerone durante a viagem as uns companheiros camones ocasionais que queriam ir tomar um aperitivo às Caves de Vinho do Porto. Estavam no transporte errado mas se caminhassem desde o Jardim do Morro até à Ribeira de Gaia não lhes faria mal algum.
Quando saímos do Túnel de S. Bento e entramos na Ponte Luís I já o sol estava a dar um ar da sua graça.
Clube Náutico e o Parque Botânico do Castelo
à direita o Rio Douro
Foto feita em 10.60.2014
À minha espera também o amigo Romualdo. Então resolvemos começar a viagem pelo Parque Botânico do Castelo

Não sou muito bom a subir e sei que me espera uma caminhada de respeito. Encho o peito de ar e lá vamos nós.
Devido ao acidentado do percurso, foram criados uns apoios em ferro. Era um caminho de carro-de-bois que saíam da antiga Quinta para trabalho na Fundição. Lá iremos

A elevação é um esporão rochoso em xisto com a altitude de 57 metros. Vamos vendo o que o homem deixou por ali.
Entre degraus, umas escavações que parecem assentos.

 A flora está devidamente referenciada. 
A elevação cai abrupta sobre a margem do Rio Douro. Nos vários patamares foram criados lugares de descanso e de lazer.

 Pégadas ou o ensino de como se dever subir o Monte.

Nos muros de suporte dos socalcos vêm-se numerosas pedras aparelhadas, de granito, matéria prima estranha ao local.

Escavações arqueológicas ocorrem no mês de Agosto desde 2010. Este mês ainda não chegaram os arqueólogos. Talvez por falta de dinheiro.


Uma Oliveira que a natureza foi comendo


Provavelmente uma conduta de água

 Da meia encosta, uma panorâmica sobre o Douro e a Barragem de Crestuma-Lever.

Pressupõem-se que este lugar foi intensamente ocupado entre os séculos IV e VII da nossa era. Isto é, entre finais do Império Romano e os começos da Idade Média. No entanto já anteriormente deveria ter sido ocupado por outros povos.

Por toda a elevação  são numerosos os entalhes, aplainamentos  e buracos onde se supõe que seriam colocados postes para formar as casas e suportar os telhados.

Pelos vestígios encontrados será de supor que as casas teriam telhados formados por telhas romanas, cada peça de razoáveis dimensões. Caixas com 1m3 contêm os achados arqueológicos já encontrados.

A Casa da Eira. Recuperação de uma edificação já existente. Este espaço pertencia a uma quinta em ruínas e recuperada pela Câmara de Gaia. O seu dono era o mesmo da Fundição lá em baixo, cuja parte do edifício foi aproveitado para instalar o Clube Náutico de Crestuma.

Uma recordação com o amigo Romualdo

Um buraco escavado provavelmente para a fixação de um poste de uma casa. A enorme árvore tem parte das suas raízes à mostra.

Embora com dificuldade de acesso um pouco alto, os caminhos estão devidamente sinalizados. Os serviços recomendam cuidado com as crianças e não aconselhado a deficientes motores e idosos.
É um prazer caminhar pela mata e observar os detalhes que os homens foram deixando ao longo de séculos.
Um pormenor sobre o Rio Douro a caminho da Foz, no Porto.

Na praia de Favaios, prevê-se que existiu uma estrutura portuária ou de atracagem. Há poucos anos, na maré baixa, conseguiram fazer recuar as águas e verificar debaixo da areia placas que poderão indicar ter havido um porto. 
Podem ler-se os relatos dos trabalhos em http://www.portugalromano.com/2012/09/cais-romano-de-crestuma-vila-nova-de-gaia/cais-romano-2/, que publicando fotos cedidas pelos responsáveis edílicos, não nos permite copiar. Bem hajam Ó Portugal Romano.
Talvez estas enormes pedras formando um muro seja uma antiga fortificação para defesa da área portuária.

 Vamos caminhando para o ponto de apoio que é o Clube Náutico de Crestuma.

Este caminho seria uma primitiva passagem para o Castelo com ligação ao Rio Douro. Provavelmente utilizado depois pelo pessoal da Fundição.

 O descanso e retempero de forças do caminhante escalador.
Mas não choveu

Aproveita-se uma volta pelas instalações do Clube para ver o Galardão que é ofertado para o melhor clube Português durante 4 anos.

 Já retemperado, uma pequena caminhada pelo sopé do Monte do Castelo.

 Uma árvore está suspensa no monte fronteiro.

 Na Ribeira da Arroba, um velho moínho recuperado.
Um recanto para se usufruir da natureza mesmo com o tempo triste

 Olhando para o Parque Botânico do Castelo

Vamos a caminho do almoço situado no lugar do Maroco,  um dos muitos altos de Crestuma. Já o Alberto nos esperava ansioso há mais de uma hora. Mas o trabalho não podia esperar, amigo. Fomos desculpados.

 E as prometidas Tripas à moda Porto, estavam deliciosas. 
Não podia haver melhor recuperação e preparação para as novas etapas 
que nos esperavam.

Do alto do Maroco a paisagem é soberba. Foto antes do almoço com o tempo nublado. Mas sem chuva.
Enquanto seguíamos com os digestivos, a Dona Rosinha fixou-nos para recordação futura. O Alberto, eu, o Zé e o Romualdo. Grandes companheiros e grandes conhecedores de Crestuma.
 A Dona Rosinha, cozinheira de mão cheia.
Vamos arrancar para nova etapa, não sem antes registar mais uma panorâmica sobre a enorme vastidão que a foto não consegue alcançar. Já há sol aberto, embora com algumas nuvens dispersas, que dão um toque de elegância à foto.

Homenagem ao Poeta Crestumense Eugénio Paiva Freixo autor da letra do Hino do Clube Náutico

Pormenores crestumenses durante a "caminhada".
Antigas fábricas desactivadas. Em grande plano a Fiação A. C. da Cunha Morais

Foz do Rio Uima no Douro, que nasce nas Terras da Feira. Juntamente com a palavra Crastum, que terá existido no Castelo, deu inicialmente Crastuima que foi derivando etimologicamente até chegar a Crestuma.
Crestuma foi couto do Bispo do Porto D. Hugo, doado pela Rainha D. Teresa - princípios do séc. XII - e confirmado pelo filho D. Afonso Henriques, o nosso primeiro, ao sucessor Pedro Rabaldis.
O primeiro documento escrito sobre Crestuma é de 922 e refere uma ermida como seu cemitério, no mosteiro e na vila.
Mas caminhando passamos pela casa do comendador Pimenta da Fonseca. Hoje está tudo em ruínas e alguns terrenos abandonados. Embora hajam alguns edifícios em recuperação e outros espaços com oficinas instaladas nas antigas instalações. Quanto à fábrica de fiação que fundou lá iremos.

Mas por agora vamos visitar exteriormente a Companhia de Fiação de Crestuma e contar um pouco da sua história. Mas segundo li em http://gaiserv.com.sapo.pt/livro_cale/pagina3.htm estes terrenos pertenciam na altura a Lever. Crestumenses e Leverenses passavam a vida aos tiros e às bombas entre si pela delimitação das terras. Ainda não vão muitos anos e os portugueses devem-se lembrar da guerra entre Lever e Crestuma por causa da barragem. Que meteu pelo meio boicote de eleições aquando da candidatura de Mário Soares. 
Tudo sanado hoje em dia até porque fazem parte da mesma associação de freguesias que os nossos inteligentes governantes de Lisboa assim decidiram.
Adiante.
Na margem direita do Rio Uíma, no morro encontramos dois canhões miguelistas (recordo aos meus queridos amigos e leitores a Guerra Civil nos anos 20/30 do séc. XIX entre os manos D. Pedro I e D. Miguel, bastas vezes referenciada nos meus pobres escritos) que ninguém sabe de onde vieram. Presume-se que ultimamente serviam de decoração da alameda que levava à Fábrica por este lado.
Os meus amigos e cicerones gentilmente retiraram as silvas que os cobriam para poder registar mais em pormenor o brasão de D. Miguel e a data da construção. Presume-se.
Voltemos à história do edifício e como chegou à Companhia de Fiação de Crestuma. Inicialmente eram as instalações de um moinho para produção de energia hidráulica. A Real Companhia Velha também conhecida por Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, no séc. XVIII aproveitou as instalações para adaptar uma fundição para produzir os arcos em ferro para as pipas do Vinho do Porto que era orientada por um senhor de nacionalidade russa.
Edifício do Corpo de Bombeiros privativo criado pela Companhia de Crestuma

O Palacete do Pimenta da Fonseca visto do lado da Fábrica.

Continuando a história. Por estes lados haviam muitas fábricas de fundição de ferro e D. Miguel escolheu esta também para o fabrico de armamento. Visitou-a em Dezembro de 1832.
Em 1854, tudo que existia foi adquirido pela Companhia de Fiação de Crestuma.
O pedestal vandalisado onde assentava um busto do Comendador Pimenta da Fonseca que desapareceu.

Mais uma voltinha e fomos parar a Lever para tomar uma loirinha e aprender mais coisas. Uma árvore - ou será arbusto ? - mesmo junto a nós dá-nos o prazer de olhar as suas belas flores.

Homenagem à Tecedeira. Crestuma foi um grande e muito importante centro têxtil. Em fundo uma das unidades fabris extintas.

Vista de um outro lugar a Companhia de Fiação de Crestuma. O dono, Comendador Pimenta da Fonseca, construiu um edifício grandioso onde o azulejo é rei na Rua de Santa Catarina no Porto. Conhecido como Castelo de Santa Catarina é agora uma unidade hoteleira.
Alguns edifícios recuperados ou em fase de recuperação.
Quási a chegar ao Rio Douro, a enorme Fábrica de Fiação de A.C. da Cunha Morais. A história da família Cunha Morais é interessantíssima. E actividades dos seus membros muito rica,  incluindo fotografia, vidas em África e Brasil, maçonaria e republicanismo, bombismo e ligação a grandes intelectuais. A quem interessar pode ser lida em http://dited.bn.pt/29544/578/754.pdf
Uma última caminhada até à Fonte Velha cuja água vai dar a um riacho. E cá está mais um parque de lazer.
Tenho de agradecer aos meus cicerones Zé Ferreira, Alberto e Romualdo. Não é todos os dias que encontramos amigos destes.