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sexta-feira, 25 de março de 2016

241 - Quinta-feira Santa - Parte I

Há mais de dois meses que por várias razões não ia à Baixa. Pensei que seria óptimo aproveitar a Quinta-feira até porque o tempo prometia estar bom.
Levantei-me de madrugada, espreitei o céu para confirmar e dei os bons dias à lua.
Tudo se conjugava para tornar agradável o passeio que projectei. Prontinho, saí de casa às 11,15 horas, apanhei quase logo o autocarro par o Bolhão e meia hora depois entrava na Farmácia Sá da Bandeira para arrumar um problema.
A partir daí era só testar as minhas novas capacidades após a recauchutagem.

Essencialmente, este passeio destinava-se a fotografar umas quantas Igrejas nesta época Pascal. Congregados, Clérigos, Carmo e Carmelitas, Vitória (não foi possível por estar fechada e só abria às 16 horas), S. João Novo, S. Nicolau e S. Francisco, a do Convento. Em futura deambulação por este espaço, referir-me-ei em pormenor.

Fui tirar umas medidas no passeio intermédio em frente à Estação de S. Bento voltado para os Congregados, quando toda a gente ficou embasbacada com o espectáculo que o condutor (?) do veículo mostrado na foto resolveu fazer.
Vindo da esquerda do lado da Praça da Liberdade e pela faixa que dá para Sá da Bandeira, atravessou-se em frente do eléctrico que estava a preparar a subida para 31 de Janeiro em frente aos Congregados. Não contente criou uma confusão entre os outros veículos, apanhou o lado esquerdo guinando a seguir para o passeio onde me encontrava com os outros pedestres à espera do verde para atravessar, saltou-o e enfiou para o outro lado atravessando-se na rua e acabando por parar à entrada da Rua da Madeira.
 
Mas a vida continua e na esplanada do Hotel Intercontinental nas Cardosas apanhei esta bela camélia. Uma foto com carinho.

Quem está no coração da Cidade tem de olhar o que o rodeia para a sentir. E motivos não faltam.
Há muitos anos que é tradição nesta época pascal sermos invadidos -  pacificamente claro - por milhares de turistas, naturalmente são mais os espanhóis e especialmente os galegos. Notam-se pelo seu vozear e comportamentos alegres que contagiam.
O lado sul da nossa Sala de Visitas, sem dúvida um ponto obrigatório de passagem e acolhimento, estava bem preenchida de gente conversando, máquina fotográfica pendurada ao pescoço e mapa na mão.
As esplanadas estavam já quase cheias mas a hora matinal convidada a apreciar umas loirinhas, um Vinho do Porto, um copo de verde branco fresquinho ou um tinto de qualquer boa região portuguesa. Para turista, meia-hora da tarde é o ideal também para apanhar sol e absorver o nosso calor para além do solar que deveria rondar os 16 a 18 graus.
16 marcava o termómetro da Sá da Bandeira quando meia hora antes passei lá. Muito bom.

Tinha visto nas nossas TV's - pelo menos em dois canais - uma reportagem que deve ter começado por um convite sobre o fabrico das Amêndoas de Páscoa da Arcádia. Fui lá espreitar mas desisti da ideia das fotos para a minha reportagem derivado à quantidade de pessoas que se aglomeravam em espaço tão pequeno..
Mas como tinha de comprar amêndoas para que se não diga que a tradicção já não é o que era, fiquei por ali a observar e a esperar. Deixei que abusassem de mim duas vezes, mas à terceira saiu recado geral com descompostura destinada às senhoras queques armadas em tias de cascais e para quem não há os outros.
O meu pedido foi atendido com desculpas da empregada, que não teve culpa nenhuma, e saí carregado com 100 gramas de licor e 100 de chocolate. De amêndoas, claro, que se juntaram na sacola ao remédio adquirido na Farmácia.

Acabei de descer a Rua do Almada e ao chegar aos Clérigos quase apanhava um susto. Tanta gente a circular fazia lembrar o S. João e um trânsito congestionado mas mais ou menos sossegado.

Do Adro da Igreja dos Clérigos, chamemos-lhe assim, ficamos com uma imagem de como estava a confusão.
A fotógrafa fotografando os namoradinhos, para mais tarde recordar. Só juventude, que maravilha olhá-la.

Não era minha intenção entrar nas Igrejas do Carmo e dos Carmelitas, mas apenas fazer as fachadas. As que tenho são todas escuras e vou precisar de coisa mais decente.
Pois na realidade é uma dificuldade fotografar estas fachadas. As esplanadas do Universidade e do Piolho e os toldes da Gelataria, que por sinal estavam recolhidos, complicam o tentar-se conseguir uma boa imagem.
A quantidade de fios e cabos aéreos, postes, sinais de trânsito e outros estragam igualmente o meio envolvente e a Ordem do Carmo, a quem as duas Igrejas pertencem até terá razão ao reclamar.
Turistas de calções e mangas arregaçadas também não faltam nos Leões.

Afinal acabei por fazer mais umas fotos das Igrejas e preparei-me para comer alguma coisa. Era uma hora e picos da tarde. Já tinha feito também a dos Clérigos. 

Depois da refeição simples composta de umas fatias de lombo de porco assado que sempre faço no Café da Porta do Olival quando passo por aqui, acompanhadas por uma loirinha, regressei ao caminho.
Várias coisas interessantes encontrei, mas também ficarão para nova postagem.

A seguir mesmo é o caminho que foi pela Rua de S. Bento da Vitória, rezando para que a Igreja estivesse aberta. Não adiantou porque o horário é para cumprir mesmo na Quinta-feira Santa. 

Um olhar pelo Tribunal da Polícia Judiciária, fechado. Será que já não funciona ?
Aproveitando estar ali, vale a pena um saltinho até ao largo do Miradouro da Vitória.

Mas não sem antes olhar o edifício que está em ruínas mesmo junto ao palacete da Judiciária.

 Valer a pena é como quem diz. Francamente, senti-me mal.

O edifício onde funcionou a esmaltagem (soube-o há dias) e a Tipografia está a desfazer-se. Já não se ouve o barulho das máquinas.
 O chão é uma grande lixeira especialmente em alguns pontos.
O miradouro já não é o que era principalmente se nos chegarmos para o lado esquerdo.
Este local seria privilegiado se se conjugassem vários factores: Eliminação dos cabos aéreos e das torres que encimam alguns telhados que parecem caixas de som; dos grafitos sem qualquer gosto artístico; do restauro e limpeza de alguns edifícios na encosta. Da implosão dos edifícios que circundam o espaço. E claro, de um local limpo bem ajardinado e um negócio de restauração.
Mas também a zona circundante do Morro da Vitória parece ter sofrido atentados bombistas. Vários antigos palacetes e outros edifícios estão em ruínas há dezenas de anos: Em S. Bento da Vitória, em S. Miguel, nas Taipas, em Belmonte.
A antiga e última Judiaria oficial da Cidade do Porto está arruinada.
Enquanto andei por aqui e mesmo depois descendo S. Miguel a caminho das Taipas, vi gente com cara de turistas. Creio que estariam enganados e até perdidos. A péssima sinalização presta-se a confusões. Claro como água que o importante é sinalizar CLÉRIGOS, não interessa como. E é vergonhoso que se sinalize entre outros o Convento de S. Bento da Vitória quando nem sequer é visitável. Melhor, ser, parece que é, através do Teatro S. João para um mínimo de 30 pessoas por um valor per capita exorbitante e podendo mesmo ser anulado se o S. João assim resolver. Vergonhosa esta situação. Não sei sequer se há alguma coisa que valha a pena visitar. Mas também nunca o saberei.

O mesmo acontece com a Igreja do Convento. Nunca a encontrei aberta. Disse-me em tempos um habitante da rua que ao domingo havia uma missa.
Por acaso conheço-a de fotos, pois um amigo conseguiu autorização para a visitar e fotografar enviando-me o seu trabalho. Que divulguei também.
Presumo que o conseguimento foi através de uma boa cunha - desculpe-me a ousadia senhor Professor Elias Moreira - mas o senhor mereceu essa cunha e por causa dela muitos ficamos a conhecer o interior dessa bela igreja.
Esclareça-se para que não restem dúvidas, que a Igreja e o Convento são Monumentos Nacionais desde 29 de Setembro de 1977, conforme publicado no Dec. Lei nº 129 o que não quer dizer que os nacionais habitantes - e os estrangeiros que nos visitam - usufruam qualquer regalia.

O número 4 da Rua de S. Miguel, Imóvel de Interesse Público estará a restaurar ? Numa janela aberta no último andar existe um letreiro sobre obras, mas não se vê qualquer actividade.
Todas as vezes que por aqui passo e faço uma foto, é sempre pior que a anterior. Nunca se cumprirá o dito do meu querido e saudoso camarada Victor Condeço. E os azulejos que são o grande património não só do dono do edifício como da própria Cidade ainda se irão perder.

Já nas Taipas, continua sem solução o palacete do séc. XVII da família Leite. Abandonado talvez por altura das Lutas Liberais e do Cerco do Porto (1832/32), foi sede do Clube Inglês antes de se mudarem para os lados das Virtudes; e depois foi uma drogaria.

Vamos descer às Taipas olhando o seu casario antigo e pensando na toponímia que já vem desde o séc. XIV.
Acertamos em Belmonte entre contrastes de casarios para descer até S. João Novo onde a Igreja esperava. Já a tinha fotografado duas vezes, a última na companhia do amigo e camarada Jorge Peixoto há cerca de quatro anos.

Obrigatóriamente temos de encarar outra das vergonhas ruinosas desta zona - e continuarei sempre a referi-la até que as mãos me doiam -. São os restos do Palacete de Pedro da Costa Lima, mandado edificar em 1727 e que desde 1945 albergou o Museu de Etnografia e História abrangendo não só a Cidade do Porto, considerado o mais rico do País.
Fechado desde 1992 devido à degradação e condições de segurança, dizem-me não se saber do património que albergou. Se existe algum guardado - oficialmente - onde se encontra ? Que projectos existem,se há que existe alguma coisa para o edifício e para o Museu ? Há anos que pergunto e ninguém me responde.

Depois da visita à Igreja de S. João desci a Rua até à Comércio do Porto, inflecti à esquerda pela Rua da Bolsa entre os núcleos Hospitalares e Ordem de S. Francisco, contornei por cima o Palácio da Bolsa para apreciar o Infante.

Visitantes atropelando-se no Palácio da Bolsa. Levei com um carrinho de bebé, uma máquina fotográfica, atropelado por um casal - por acaso com características orientais que não souberam pedir desculpa - incluindo as mochilas. Por mim, só queria ficar ali um pouco a olhar para a Praça e imaginar se o Infante levava com a grua na cabeça ou não.

Além disso seguir com olhar o que se avista do Morro da Sé no alto e do casario cá em baixo.

Umas peripécias engraçadas junto a S. Francisco já tinham passado. Outra também em S. Nicolau. Contarei brevemente. Agora, naquele momento, precisava de matar o bicho e nada como uma loirinha.
No passeio da Rua do Infante do lado das casas há muitos e diversos comércios. Entre eles, vale a pena meter o nariz nas entradas e tentar descobrir algo interessante. E imaginar a Rua antiga que se chamava dos Ingleses e deixá-la fluir levada pela pena de Júlio Dinis.
Mas isso já os meus queridos e queridas visitantes leram no: http://portojofotos.blogspot.pt/2013/05/158-o-infante.html

Num dos muitos bares que por aquele passeio existem, gosto do D. Antónia desde que me amesentei com a família do Júlio de S. Paulo. Tomei a minha loirinha que aliás foram duas de 20 cl. cada acompanhando um pastel de carne, tipo de Chaves.
Mais passeio, nesta (que foi ontem) quinta feira santa para mais tarde recordar a sair em breve.


Tempo ainda para deixar lembranças para o Menino e para a Menina. Agora já não lembro se são do Bazar Paris se do Londres. E as pedrinhas do paseio da Calçada à Portuguesa a refletirem no vidro.
Mas para o caso não interessa nada.
Boa Páscoa

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

235 - A época natalícia

Nada como um valente tempo de invernia aliado a muita preguiça para vasculhar alfarrábios caseiros, navegar pela Internet o que desde há uns meses se me tornou muito difícil e não adianta perguntar ao Google porque não me respondem; ler, ver e ouvir o que encontramos nos caminhos da TV e nos blogues dos amigos.

Porque acabamos de atravessar um período onde o simbolismo é dirigido para o consumismo, deu-me em recordar épocas da meninice e o barulho que o Pai Natal fazia ao descer da chaminé para me deixar um carrinho ou uma mota ou um carrossel de aviões, todos em folheta (chapa de alumínio ?) e de corda, onde a família dava a corda e eu só via os brinquedos girar. Não tenho recordações de outras prendas natalícias, mas estas duraram anos pois raramente me era permitido tocar-lhes e não fui eu que lhes dei sumiço.

Mas também não me davam gozo. O meu prazer era a bola feita de trapos e papel envolvidos numa meia velha da avó ou da mãe, o pião, as sameiras (cápsulas de garrafas) que serviam para inúmeros jogos e corridas, o arco em ferro e pôr a navegar na água do tanque de lavar a roupa as latas de conserva. Diga-se de passagem não me serem muito permitidas estas brincadeiras pelos meus velhos por causa das corridas e o perigo de uma queda, dos gastos dos sapatos, dos ressaltos no empedrado do pião, brinquedo mais que perigoso para a cabeça, olhos e vidros, ou de um afogamento na água do tanque.

A Árvore de Natal, sempre um ramo de pinheiro natural, demorava dias a fazer pelo meu pai. Começava em princípios de Dezembro pela base que tinha se ser bem segura para fixar o pinheiro, o seu arranjo em papel de seda, a verificação das luzes (que serviam também para a cascata de S. João e tanto quanto me lembro já vinham do tempo do meu irmão, passaram por mim a caminho da infância do meu sobrinho e seguiram até não me lembrar como acabaram), até à penduresa dos enfeites que eram colocados após a chegada do "Pinheiro" o que acontecia pelos meados do mês. A árvore era dada por acabada na semana do Natal e as luzes acesas só quando ele chegava a casa depois do trabalho.

Também havia que fazer o Presépio, um estábulo e acessos feitos pelo meu pai - uma obra de arte artesã - onde as inúmeros imagens, os santinhos, eram colocados em devida ordem e a distâncias milimétricas não fosse algum cair e dar cabo daquilo tudo. Os mais perfeitos vendiam-se na Rua da Assunção, junto aos Clérigos a 10 tostões. Uma arte tradicional dos santeiros do Porto e Gaia.

Claro que tinham algodão em rama para imitar as nuvens, palhas todos os anos renovadas para a cobertura do estábulo e a cama do menino e demais utilidades, fios coloridos, enfim, uma obra de arte à qual só me era permitido olhar e nunca tocar, nem mesmo para chegar os bonecos ao meu velho pois as minhas mãos frágeis poderiam deixar cair alguma coisa.

Toda esta conversa porque por casualidade li uma crónica do Prof. Germano Silva, vi e ouvi o Prof. Joel Cleto nos seus Caminhos da História sobre o Pai Natal, os Reis Magos e os Presépios e o que representam ou representaram na história do Porto, a minha Cidade.

Comecemos por S. Nicolau, (de Mira, na Ásia Menor,Turquia ou de Bari, em Itália) comemorado a 6 de Dezembro, dia da sua morte em 342 nessa cidade.
Este Santo foi reconhecido pela sua generosidade para com gentes humildes e sem posses e a amizade pelas crianças.
Dele nasceu o Santa Claus, o Pai Natal dos nossos dias, o patrono das crianças e cujas histórias vem desde os primórdios do séc. XIX., da Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e mais recentemente da Lapónia e dessa horrível bebida que é a Coca-Cola.

A Festa de S. Nicolau no Porto foi grandiosa onde as crianças tinham participação activa. Com restos de madeiros que recolhiam pela cidade junto ao rio Douro gritando ao som de campaínhas: Quem dá lenha ou algum pau para a fogueira de S. Nicolau. Depois era a enorme fogueira, para onde eram lançadas castanhas, um alqueire delas ofertada pelo abade.
Esta tradição manteve-se desde tempo imemorial até pelo menos 1855. (Segundo Pinho Leal, escrito em Lisboa em 1885 e respigado no blogue amigo portoarc de Rui Cunha.
No dia 6 celebrava-se com grande pompa as festividades do padroeiro.

Em 2014 sei que se comemorou no dia 5 como é tradição e lógicamente com crianças da zona que ouviram a sua história na Igreja, foram recebê-lo ao Cais da Estiva vindo pelo Douro e depois marcharam para a Alfândega onde houve festa em sua honra.

Esta Igreja construída a partir de 1671 - a primeira pedra foi colocada no dia de S. Nicolau - foi erguida no local de uma pequena ermida do séc. XIII devido ao crescimento populacional e à criação da junta de freguesia. Sofreu um incêndio em 1758, e as obras da reconstrução terminaram em 1762.
Uma imagem de S. Nicolau copiada do portarc
Uma das lendas sobre S. Nicolau e a amizade pelas crianças é representada na imagem que se encontra do lado esquerdo da Capela-mor, vendo-se três crianças numa celha. Conta-se que as crianças desapareceram numa floresta e foram encontradas por um talhante que as matou e salgou. S. Nicolau foi tempos depois a casa do talhante, descobriu os corpos das crianças e ressuscitou-as.
Outra lenda refere-se à sua generosidade. Um pobre homem viúvo tinha três filhas em idade de casar. Não tendo dote para lhes dar vivia triste. Então S. Nicolau deitou pela chaminé um saco com moedas que caíram junto das meias que estavam a secar. Na imagem também podemos ver o saco na mão.
Cá temos então o porquê das imagens da nossa infância das meias na chaminé para receber os presentes do Pai Natal.
No meu caso, tanto quanto me lembro era colocado um sapato em cima do fogão.
Este texto foi composto após ouvir o Prof. Joel Cleto e a imagem copiei do blogue portoarc.

Agora é o momento reservado aos Presépios e aos Reis Magos.

Até ao rompimento da agora chamada Praça da Liberdade e à abertura da Avenida dos Aliados cujas obras começaram em 1916, existiu um capela ao lado do edifício da Câmara que fechava a actual Praça, chamada dos Três Reis Magos, construída no séc. XVI.
Ficava a frente voltada para a Rua do Laranjal  à entrada do lado esquerdo (um pouco encoberta pela canastra da senhora) cuja rua era paralela à de D. Pedro. Tudo isto foi arrasado para a abertura das atrás referidas Praça e Avenida - e é assim mesmo que os Portuenses lhe chamam.
Segundo Germano Silva a festa dos Reis Magos era de arromba chegando a rivalizar com os festejos de S. João. A expensas da Câmara.
A Capela foi demolida e vendida a um endinheirado do lugar da Pocariça de Cantanhede que a mandou reconstruir mas agora dedicada a S. Tomé ou a S. Tiago. Estou na dúvida e espero uma informação de um caríssimo correspondente local para me esclarecer e que fez o favor de me enviar esta foto.
As festas e tradições dos Três Reis Magos, ditos do Oriente, são muito antigas na Cidade. O Convento de Avé-Maria de S. Bento foi inaugurado no dia de Reis de 1535. As noviças quando chegavam dirigia,-se ao coro e cantavam loas a lembrar a adoração dos Magos em Belém de Judá.
Há documentação que no séc. XV os moradores da Cruz do Souto pediram autorização para montar um palco para encenar uma pantomina em honra dos Reis Magos.
E havia procissão e a Câmara chegou a reunir no dia de Reis.
Não sei se ainda existe a tradição que se manteve durante anos de grupos recreativos e culturais cantarem as Janeiras neste dia.

O professor Joel Cleto deixou-me suspenso e espero não o ter ouvido e/ou interpretado mal.
Na Igreja das Almas de S. José das Taipas, existe um Presépio dos finais do séc. XVIII, o mais antigo da Cidade segundo li, da escola do escultor e estatuário Machado de Castro (Coimbra, 17 de Junho de 1731 - Lisboa, 17 de Novembro de 1822).  O único assinado por ele encontra-se em Lisboa.
O Presépio quase na totalidade. Impossível melhor foto por causa dos reflexos. 
Chamou o Prof. Joel Cleto a atenção por haver na representação quatro e não apenas três Reis Magos.
Ampliação para melhor se compreenderem as imagens
A última figura da fila dos Reis no caminho para a adoração, é um indígena americano. Mas o resto da explicação não consegui ouvir, nem porque ficaram a ser três os Magos.
Um dia revendo o vídeo devo chegar lá.

A representação dos Presépios é muito antiga. Os de arte barroca serão do séc. XVII. Precisamente desse século - que não o estilo, julgo - é o que se encontra na Igreja de S. Lourenço, ou dos Grilos como é por nós portuenses conhecida. Pelo menos é o que podemos ler num página em pdf da PortoVivo e referente ao Morro da Sé, Porta a Porta. Construído em Tecido, Papel, Madeira, Vidro e Metal. Desconheço a sua origem, mas pelo que se presumo será este o mais antigo Presépio do Porto.

As representações dos Presépios continuam a fazer-se ainda na Cidade, havendo até concursos. A exposição que vi há dois anos na Igreja dos Carmelitas era soberba. Aqui ficam algumas imagens.

Neste, não sei onde foi parar a Virgem.

Aqui vos deixo, caros visitantes e leitores uma "obra" que demorou algum tempo a desenvolver e cheia de recordações da minha meninice.

domingo, 28 de junho de 2015

220 - Uma visita a Braga que foi uma lição

Após o passeio no verão passado que fiz com os meus queridos ex-camaradas e amigos do Bando do Café Progresso a Braga, concretamente ao Bom Jesus e ao Sameiro, foi-me oferecida uma viagem por Braga. A altura proporcionou-se e lá fui eu de abalada até à Cidade dos Arcebispos no Urbano que apanhei em São Bento. Viagem barata, ida e volta 3 euros e pouco.
Não faço ideia das vezes que fui a Braga. Tanto profissionalmente (saudades do Arminho e do "maluco" do Ermelando Sequeira e das suas subidas à Falperra pela esquerda no Golfe prego a fundo e em derrapagem, para me oferecer o almoço. Nunca fiquei "cagado" como ele me perguntava, mas não andaria longe...) como em passeios nas excursões de domingo de verão com grupos dos 20 amigos.
Mas agora foi diferente, embora o passeio fosse em tempo reduzido. Vamos indo e vamos escrevendo as minhas sensações.

Digamos que o passeio começou no Bom Jesus com um pic-nic excelente. Lembrei-me do Neca Rafael e do seu Fado Bom Jesus dedicado à sogra: E no Bom Jesus, maluco me pus ao vê-la comer. etc e tal.
Descendo para Braga uma placa chamou-me a atenção. Anotei o Castelo apenas por curiosidade
e fui fotografando o que vi.

Existe mesmo um edifício com nome de Castelo do Bom Jesus. É uma construção do séc. XVIII (?) atribuída a Ernesto Korrodi, arquitecto Suíço nascido em 1870 que veio para Portugal e se naturalizou. Chegou a ser professor em Braga onde deixou algumas obras. Mas esta não pode ter sido dele, pois não está referida na sua biografia. E se é do séc. XVIII  muito menos ainda.
Ainda bem que vou tendo alguma memória para ter dúvidas e confirmar factos.
Confusões, mas adiante.
O edifício e o parque anexo (que é lindíssimo visto no Google Eart) é actualmente um estabelecimento hoteleiro. A foto mostra o portão da entrada, agora fechado.
Vamos para a Cidade e ao Centro Histórico.
O Jardim de Santa Bárbara, um dos ex-libris deixa-me recordações. Junto ao Chafariz que se encontra ao centro (não posso publicar todas as fotos) fotografei os meus compadres Russel e Fernanda há cerca de 50 anos. Muito depois disso já por aqui andei e tinha uma ideia belíssima do Jardim.
Francamente fiquei desiludido ao vê-lo actualmente. Sem cor, sem flores com excepção de algumas roseiras. É certo que andavam a plantar flores, que florescerão daqui a 15-20 dias. Mas a arte de jardinagem não me pareceu nada com a que tinha na memória e vi em muitas fotos. Mas posso estar errado.
Ao fundo a Ala Medieval do Paço no Palácio dos Arcebispos construída nos séc. XIV e XV, com a aparência de uma fortificação.
Antes de prosseguir e para não me repetir, o aspecto da patine temporal de muitas das edificações religiosas, deixa-nos o aspecto de sujidade que só vi igual em edifícios em Milão à volta do Scala. Se nesta cidade se pode concluir (?) que será o efeito da poluição automóvel - a sujidade vai em degradê de baixo para cima - , não me parece que seja a mesma razão do Centro Histórico de Braga.
Sei que o granito se suja muito, mas será que a Cidade Rica do Clero anda a perder valores ?
Adiante.
 Chamo-lhe anexo ao Jardim de Santa Bárbara ao largo com edifícios de arquitectura impróprios (na minha opinião, claro) para um Centro Histórico. Num lago com repuxos admiro a coragem de terem colocado um Dragão de Azul  mais ou menos em tom Carolina numa Cidade vermelha por todos os lados.

Formando o Largo do Paço, duas Alas do Paço Bracarense que foram construídas ao longo dos séculos. Aqui fiquei irritado. A luz estava péssima para fotografar e os fios que atravessam o espaço não deixam escolher o melhor ângulo.
Inadvertidamente e por causa dos fios, soltei uma bacorada no momento em que passavam dois eclesiásticos. Olhei para a cara deles e pedi desculpa baixinho...
Na realidade e para quem gosta destas coisas, o conjunto é lindíssimo e cheio de pormenores, cada um com a sua história como vim a descobrir.

Mas porque será que não enterram os fios ? Custava muito ? Sei que é uma coisa muito comum os fios aéreos, mas que diabo, pensem nas imagens que ficam gravadas nas câmaras dos turistas. Em Braga como em todos os lugares de Portugal.
Nestes edifícios está a Reitoria da Universidade do Minho.

Uma confusão, para mim, de edifícios estão anexos à Sé de Braga. Claro que fui bem ciceroneado porque senão não entendia nada. Depois a pesquisa levou-me à conclusão que cada Arcebispo e o Cabido quiseram deixar a sua marca ao longo dos séculos resultando que da original Sé pouco existirá.
São Capelas e Igrejas edificadas, claustros extintos e claustros novos, arqueologia e muitas pedras à solta.
Se nos lembrarmos que aqui estiveram os Romanos que expulsaram os  Brácaros no ano 16 antes de Cristo, e depois capital política e intelectual do Reino dos Suevos, nem imagino as relíquias - não só de santos, que parece serem muitas e espalhadas pelas Igrejas e Capelas -, arqueológicas que devem existir e muito mais credíveis dando-nos a conhecer as civilizações que fizeram a história de Braga.
Mas não houve tempo para ver tudo que já foi descoberto.

 Presume-se (ai o IPPAR) que é uma absidíola do projecto inicial da Sé. A abóbada é coberta por uma pintura do séc. XV. Só a descobri por casualidade e não sei se é uma preciosidade mas sei que está em muito mau estado de conservação.
 Este conjunto mostra um personagem parecido com um macaco a colocar a Mitra a um dignitário da Igreja. Como em tudo o que se vê espalhado pelos pátios da Sé, não existe qualquer referência. Sejam de Capelas, das Pedras, do Pelourinho de Braga, da Absidíola etc. E são imensas peças de arqueologia. Pode não interessar para nada, mas eu gostava de ler e pronto. Umas coisas encontrei em pesquisas que por sorte me apareceram. Sobre este conjunto não encontrei nada.
Se algum visitante deste espaço souber o que representa, agradeço a informação.
Pelourinho de Braga. Segundo li no Igespar deverá ser do séc. XV. Foi colocado em vários locais da cidade até que chegou aqui o que resta dele.

 Casa dos Paivas . Edifício construído no séc. XVI com materiais de edificações anteriores. No final do séc. XIX a Câmara aluga-o para instalar o Hospício dos Expostos ou Casa da Roda.
Já foi sede de Junta de Freguesia, que pelos vistos está a vagar aos poucos.

 Um bonito edifício em S. João do Souto

Um pormenor da Casa dos Coimbras. 
Antes de mais uma divagação. Há coisas que não se entende porque ficam guardadas dentro de nós. Como já referi algumas vezes, trabalhei desde os 13 anos numa grande empresa gráfica não só do Porto como de Portugal. Uma das suas especialidades era a reprodução de postais ilustrados para muitos e vários fotógrafos editores de Portugal (Continental e Ilhas). Recordo-me de tantos, alguns conheci pessoalmente e talvez venha deles o meu bichinho pela fotografia.
Nos anos 60 do século passado, um dos editores era a Livraria Cruz, de Braga. Uma das séries de postais incluía a Capela e Casa dos Coimbras, imagem que nunca esqueci. Ao passar agora por elas bastou um relance para reconhecer as edificações.
Mas a história conheci-a agora também.
Presume o Ippar (ai o Ippar ou Igespar como lhe queiram chamar...) que a Casa é uma edificação do séc. XV tendo sido adquirida em 1505 por D. João de Coimbra, Provisor da Mitra de Braga. Tem uma Capela anexa evocando Nossa Senhora da Conceição que foi construída em 1525.
Por causa da urbanização do local, demoliram em 1906 o palacete, guardaram os elementos arquitectónicos Manuelinos e reconstruíram-no junto à Capela do outro lado da Rua, chamemos-lhe assim, cujas obras terminaram em 1931.
O conjunto é Monumento Nacional.

A Casa anterior à demolição.

O Conjunto edificado. À esquerda é a Igreja de S. João do Souto, construída no séc. XVIII

Igreja do Hospital ou Igreja de S. Marcos. Construída no séc. XVIII sob risco do arquitecto Carlos Amarante (Braga, 30.10.1748 - Porto, 22.Janeiro.1815).
Reparem no edifício do lado esquerdo.

Vizinha, a Igreja de Santa Cruz
Templo construído no século XVII, mas a demora nas obras  arruinaram-no prematuramente. Foi demolido com excepção da Fachada. As obras foram concluídas em 1739.

Gostando Braga de se classificar como a Capital do Barroco como podem ter permitido nesta Praça do lado esquerdo, edifícios de aspecto horrível de fachadas em cimento branco e vidro. Fotografei-os mas a luz forte incidindo nos brancos e espelhos deu uma borrada.
Mas quem sou eu...com a minha mania de gostar de calhaus.


Uma recordação para os amigos da minha idade.
Desde 1948, o Cardoso da Saudade era um especialista em confecção de samarras, se bem me lembro.
Na fábrica antiga, não sei se existe uma nova, foram encontrados importantes elementos arqueológicos.

Em época de S. João, Braga ornamenta-se como terrinha de província no largo do Município. Desculpem amigos Bracarenses, mas é a minha opinião para as Bandeirinhas nesta bela Praça.

Lá vamos nós a caminho do antigo Campo da Vinha. Aquele enorme espaço onde paravam as camionetas das excursões domingueiras e que foi lugar de feira semanal.
Chama-nos a atenção uma escultura redonda que parece ser em alumínio. Voltada para a Praça Conde Agrolongo - Campo da Vinha - a imagem de Salgado Zenha.
Em pesquisa posterior li que se chama Silo da Memória do escultor bracarense Alberto Vieira e é uma homenagem evocativa dos 40 anos do 25 de Abril e simultâneamente a Salgado Zenha.
Se gosto ou não do "zigurate sumério" é coisa que não interessa aos bracarenses.
A foto inferior direita mostra-nos mais uma arquitectura esquisita no centro de uma zona ajardinada e pedonal que é o antigo Campo da Vinha; à esquerda o Convento do Salvador do séc. XVII e o novo edifício de inícios do século passado que abrigou o Asilo de Mendicidade e hoje é um Lar que tem o nome do seu fundador, o Conde de Agrolongo.

Campo da Vinha em Dia de Feira
O ângulo desta foto é quase coincidente com a minha.

Igreja e Convento do Pópulo, construído desde os finais do séc. XVI até ao XIX.  A partir de 1841 as instalações do Convento acolhem o Regimento de Infantaria 8; e Estátua do Marechal Gomes da Costa.
 Deste local partiram as forças comandadas por Gomes da Costa em 28 Maio de 1926  a caminho de Lisboa tomando o Governo. Acontece que o Carmona achou que ele era um fraco, exilou-o nos Açores e chamou-lhe Marechal. A partir daqui, o Salazar em 1928 regressa ao Ministério das Finanças até 1932, ele que tinha sido deposto pelo Gomes da Costa em 1926. Até ao Estado Novo foi sempre a andar. O resto da história é bem conhecida.
Foi o local onde se principiaram a dar os primeiros pontapés na bola em Braga e também usado para outros desportos. 

Neste pobre escrito quis apenas deixar a minha opinião sobre o que fui vendo e associando a algumas recordações antigas. Na realidade não conhecia Braga, nem conheço, mas já foi uma grande ajuda de S. Meneses a quem reconhecidamente estou muito grato.

Mais detalhado é um trabalho em pps, onde mostro alguns monumentos e um pouco de história, naturalmente pesquisada em vários sites.